Com os ânimos mais serenos após a visita de Angelina Jolie, que provocou forte agitação mediática, San Sebastián ganhou uma piada quando se noticiou o modo como a gerência do Hotel Maria Cristina conduziu a actriz norte-americana à sua suite, fazendo-a entrar pela porta da… lavandaria. Foi coisa de filme. Centenas de fãs ficaram em vão à espera no átrio principal.
O cinema mais estimulante também é assim, vem muitas vezes da porta para que ninguém olha. Digno de nota, Ungrateful Beings, quinta longa-metragem do esloveno Olmo Omerzu, é um desses casos. À primeira vista, o filme é (mais um) descendente directo do fenómeno indie de 2022 que foi Aftersun, da escocesa Charlotte Wells, já que Omerzu filma um homem divorciado, pai irlandês de família bilingue (papel de Barry Ward), em tempo de férias com os seus dois filhos eslovenos, adolescentes quase sempre de trombas, algures na costa do Adriático. Ungrateful Beings é inteligente a definir um tom de ameaça quando Klára, a filha mais velha, se apaixona por um rapaz local que pouco depois é acusado de um assassinato e se põe em fuga. Ela tem 17 anos, é anorética e, perante o quadro cinzento, o pai divorciado decide terminar as férias à pressa, devolvendo os filhos à ex-mulher. Só que Klára vai-se abaixo psicologicamente. E acaba internada.
Omerzu desvia-se com estilo do dramalhão quando o pai, num gesto de desonestidade e descarada falta de respeito em que os meios, acredita ele, justificam os fins, compra um número de telefone estrangeiro e começa a enviar mensagens de amor à própria filha, fazendo-se passar pelo novo namorado dela. Entusiasmada, a filha recupera. Nisto, a relação dos pais de Klára também se altera pela pimenta das mensagens eróticas e os adultos divorciados acabam por ir para a cama. O filme é muito perspicaz a desmanchar o cliché de filhos sem juízo face a progenitores preocupados. Há muitos pais que criticam severamente os filhos adolescentes pelo uso abusivo do telemóvel, sem se darem conta de que eles próprios estão tão ou mais viciados do que eles. No final, o espectador fica a perguntar-se quem são afinal os “seres ingratos” do filme, se os miúdos, se os graúdos.
▲ Joachim Lafosse, realizador de “Six jours ce printemps-là”, em San Sebastián
No caso de Joachim Lafosse, a família é, como em toda a obra do belga, o primeiro (e o mais importante) espaço político. Six jours ce printemps-là tem influência autobiográfica: quando o cineasta (e o seu irmão gémeo) tinha dez anos, os pais separaram-se e a dinâmica familiar alterou-se profundamente. A família do pai tinha dinheiro, a da mãe nem por isso. Joachim assistiu então ao modo como a mãe, que nunca tivera necessidade de ganhar dinheiro, se desdobrava agora em múltiplos trabalhos só para manter uma vida digna, num estado de ansiedade crescente.
Six jours ce printemps-là é a transposição ficcional deste episódio, a história de uma mulher divorciada de um homem endinheirado, mãe de dois gémeos, e que, sem dinheiro para férias, se instala clandestinamente com as crianças (e um novo namorado) na villa à beira-mar dos ex-sogros, sem dar cavaco a ninguém, entre o orgulho e a vergonha. Ela conhece os códigos que abrem as portas, sabe que a casa está vazia naquela altura do ano. Os vizinhos, que a reconhecem, não estranham. Porém, é uma questão de tempo até a mentira vir ao de cima. Apesar da história só convencer pela metade, Lafosse tem o mérito de a arrancar ao seu contexto socio-económico, transformando-a numa intriga policial interessante.
No caso de Deux Pianos, regresso de Arnaud Desplechin à boa forma, a inspiração é o romanesco, com todos os ingredientes do melodrama, assim como a ideia de que é impossível fugir-se ao passado e que este acaba sempre por voltar, fatalmente, de uma forma ou de outra. A dualidade do título fala-nos de um jovem pianista de música clássica (François Civil) que, ao voltar à sua cidade natal em França, depara-se com um miúdo a brincar num parque e que tem a sua cara chapada.
▲ François Civil e Nadia Tereszkiewicz em “Deux Pianos”, novo trabalho de Arnaud Desplechin
A semelhança não é casual: o miúdo é o filho que ele nunca conheceu. A mulher com quem o pianista viveu anos antes uma relação conturbada (Nadia Tereszkiewicz) engravidou dele mas nunca lho disse, em seguida rompeu a relação e uniu-se a outro homem que perfilhou a criança. “Disparate de rapariga orgulhosa…”, contou-nos Desplechin sobre este filme de personagens solitárias que amam o presente e tentam em vão fugir ao passado, como se este fosse uma maldição. A figura mais solitária é porventura a professora do pianista (Charlotte Rampling) que sacrificou tudo pela arte e que, de certa forma, deixou que a vida lhe passasse ao lado. Fulcral em Reis e Rainha (2004), a ideia da paternidade volta a assumir um papel decisivo na obra de Desplechin. Este é o seu melhor filme desde Roubaix, Misericórdia (2019).
Pais e filhos também em Lisboa, na “Residencial Terminus” de Sergio Oksman
Co-produção luso-espanhola e filme a concurso numa secção paralela do festival, Zabaltegi-Tabakalera, Una Película de Miedo é o novo trabalho de Sergio Oksman, cineasta brasileiro que há muito reside em Espanha, na capital do país vizinho. Atraído por uma ideia de autobiografia ficcionada em filme que tanto é uma coisa como outra, Oksman filmou-se, e ao filho menor de 12 anos, numa curta viagem de férias em Lisboa em que ambos se hospedam num hotel prestes a fechar, quase abandonado, com piscadelas de olho ao cinema de terror.
▲ “Una Película de Miedo”, de Sergio Oksman
O terror como género é também ele imaginado, pelas memórias de The Shining, de Kubrick, ou baseado na realidade, já que Oksman recorre a imagens de Os Crimes de Diogo Alves, filme de 1911, de João Tavares, um dos primeiros da história do cinema português, baseado nos crimes do serial killer galego Diogo Alves (1810-1841), que se fartou de atirar gente do Aqueduto das Águas Livres, acabando com a cabeça num frasco de formol para estudo científico de uma universidade lisboeta. O fotógrafo Daniel Blaufuks interpreta o empregado do hotel em que pai e filho se instalam, Ana Moreira interpreta a técnica do Arquivo Nacional de Imagens em Movimento (ANIM) que, a certa altura, as personagens visitam.
No artesanato do seu gesto cinematográfico, Una Película de Miedo tem uma graça natural de movimentos e um aspecto de documento com valor emocional. Contudo, inquieta que esta longa repita tonalidades, procedimentos, ritmos e truques narrativos que já foram mais eficazes e convincentes em A Story for the Modlins (2012), a óptima curta-metragem que valeu ao realizador, há 13 anos, o prémio principal do Curtas em Vila do Conde.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia