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De Nuremberga a Kafka: San Sebastián entre o filme de época e o “biopic”

Este artigo tem mais de 6 meses

Sobre “Nuremberga”, de James Vanderbilt — em Portugal a 4 de Dezembro — e “Franz”, de Agnieszka Holland, em que a pluma de Kafka torna a resistir ao cinema. Concorrem ambos pela Concha de Ouro.

Russell Crowe (ao centro, na pele de Hermann Göring, sentado no banco dos réus) em “Nuremberga”,  de James Vanderbilt
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▲Russell Crowe (ao centro, na pele de Hermann Göring, sentado no banco dos réus) em “Nuremberga”, de James Vanderbilt

▲Russell Crowe (ao centro, na pele de Hermann Göring, sentado no banco dos réus) em “Nuremberga”, de James Vanderbilt

Projecto há 13 anos desejado por James Vanderbilt, produtor e guionista despachado que seguimos desde o saudoso Basic, de John McTiernan, Nuremberga , sobre os julgamentos dos nazis no pós-II Guerra Mundial, é drama de época de encher o olho, embora feito à margem dos grandes estúdios, aspecto que não deixa de ser interessante, pois custou menos do que aquilo que parece no ecrã. É apenas a segunda longa-metragem de Vanderbilt após Truth/Verdade, realizada há dez anos, apesar da experiência e da versatilidade do guionista de Zodíaco (Fincher) que também escreveu tomos da franchise Scream ou da comédia Mistério em Paris (foi, de resto, um gosto ouvi-lo esta quarta-feira em entrevista, sobre a alternância entre drama e comédia; afinal, perguntava ele, “quem é que gosta de almoçar sempre o mesmo prato?”).

O que está no filme não faz qualquer sombra aos registos abundantes que existem sobre o assunto nem à grande obra (ficcionada) de Stanley Kramer, O Julgamento de Nuremberga (1961), com Spencer Tracy e Burt Lancaster, sobre os julgamentos, ao longo de 1946, de várias figuras do III Reich, incluíndo o comandante da Luftwaffe, Hermann Göring, visto como o n.º 2 do partido Nazi. Mas Vanderbilt, que adapta neste filme o livro The Nazi and the Psychiatrist, de Jack El-Hai, tem palavra a dizer pela escolha do seu ponto de vista. O filme (e o livro) tem um ponto de vista singular: centra-se na figura do tenente-coronel Douglas Kelley, o psicólogo do exército americano especialmente enviado para acompanhar o prisioneiro Göring (que falava perfeitamente inglês) nas semanas que antecederam o julgamento e a sua condenação à morte (que não se materializaria: Göring suicidar-se-ía com uma cápsula de cianeto que lhe chegou à cela, nunca ao certo se soube como, pouco antes da hora do enforcamento).

Na realidade histórica, Kelley nunca se recompôs da “batalha” que travou com Göring durante as audiências na cela em que o estudou ao pormenor, tão-pouco se livrou do magnetismo fulminante da malévola criatura que se bateria de argumentos no tribunal, com inabalável sangue-frio, apesar da sua condição cardíaca aflitiva. O tão ansiado livro sobre Göring que Kelley prometeu a si próprio escrever foi um falhanço e a depressão e o alcoolismo levaram-no ao suicídio em 1958, curiosamente, também com recurso a uma cápsula de cianeto, tal como Göring. Mas Nuremberga não é um filme biográfico sobre Kelley, que nunca mais se recompôs de ter lidado com o “demónio”. Nem um documentário sobre os julgamentos, trabalho que já foi feito. É antes a história de um combate psicológico em que o psicólogo é forçado a reagir para não acabar dominado pelo seu interlocutor. De qualquer modo, o trabalho de Kelley foi ajuda importante para cimentar a condenação.

[as primeiras imagens de “Nuremberga”:]

Em Nuremberga, é Russell Crowe, quase irreconhecível, quem se entrega ao character study e interpreta Göring, num daqueles papéis de profissionalismo irrepreensível, mas Rami Malek (outro oscarizado, como Crowe) não lhe fica atrás na pele de Kelley. E há que contar ainda com um terceiro papel neste filme potencialmente sugestivo para os gostos da Academia de Hollywood, o de Michael Shannon, que faz o advogado de acusação Robert H. Jackson.

Delira-se ao sugerir-se que Nuremberga, filme com fragilidades, pode chegar aos Óscares? Faz agora um ano, Conclave, de Edward Berger, cumpria a sua estreia europeia neste mesmo palco do País Basco, proveniente de Telluride e de Toronto, com igual estatuto de underdog. Acabou por ter 6 nomeações (venceu para Melhor Argumento), incluindo a de Ralph Fiennes, na categoria de Melhor Actor. A mensagem anti-belicista de Nuremberga e a sua associação subterrânea — um tanto forçada e previsível, convenhamos — à actualidade política americana, pode muito bem colher louros na Califórnia no dia 15 de Março do próximo ano — tome nota, se lhe interessa, é a data do domingo dos próximos Óscares.

Mas para já estamos na Concha basca e já que se falou de Edward Berger… O cineasta alemão, nascido em Wolfsburgo, Alemanha, contudo de dupla nacionalidade suíço-austríaca, pois cresceu numa varanda de Zurique com vista para o Zürichsee (toda uma embrulhada germânica), além disso, uma simpatia de pessoa — garante-se — assinou um verdadeiro desastre que a Netflix vai acamar na sua grelha de programação a 29 de Outubro. É que não há nada, absolutamente nada, que salve Ballad of a Small Player do mais patético naufrágio (ainda assim San Sebastián levou-o a concurso).

Berger levou Colin Farrell para Macau e colou-lhe uma capa de jogador de casino fané e dandy; a criatura (a personagem, entenda-se) dá ares de aristocrata, mas o que vem ao de cima é o dubliner bronco que Farrell tem no sangue; como se não bastasse, anda por ali uma Tilda Swinton às aranhas, enviada para caçar o nosso herói que, antes de zarpar do Reino Unido, deu calote de milhão de libras a idosa iludida, torrando a maquia, pois claro, nas mesas de jogo dos casinos chineses e em quartos de hotel de luxo regados a Dom Pérignon. O filme é completamente esmagado pelas torres de néon dos casinos de Macau e pelos seus ambientes de luxo efémero que prometem dinheiro fácil, sem que Farrell saiba o que fazer de composição tão grotesca.

▲ Colin Farrell em Macau, perdido em “Ballad of a Small Player”, de Edward Berger

Já Franz, de Agnieszka Holland, é um filme biográfico sobre Kafka a tentar fugir aos cânones do género, tanto que foi escrito de raiz (pelo guionista checo Marek Epstein), sem relação com outra obra literária e biográfica. A relação da veterana cineasta com os livros de Kafka vem da adolescência de Holland, numa altura em que, na Polónia comunista em que ela cresceu, o autor checo era considerado um burguês obscuro e degenerado — mas a cineasta tomou-o por revolucionário.

O filme segue o jovem Kafka (papel de Idan Weiss) e a sua curta existência desde a entrada na vida adulta até à morte em 1924 (tinha 40 anos); a relação difícil, subserviente, com a figura paterna e o judaísmo; o homem amargurado que aprende a refrear, em silêncio, qualquer vontade de revolta; a relação com a noiva Felice Bauer, de quem ele se afastará; por aí fora — focando com ironia um homem que antecipou, nos seus livros, horrores e cataclismos que o próprio não chegou a presenciar em vida. “Teve a sorte de morrer antes da ascensão de Hitler, sem testemunhar um processo de desumanização que moldou o século XX e ao qual, receio, estarmos a regressar”, disse a cineasta polaca.

Ideia principal do filme? Trazer Kafka para o presente, “actualizá-lo a vários níveis”, palavras de Holland, que ora fragmenta a narrativa, ora interrompe a acção com saltos bruscos do filme de época para a cidade de Praga dos nossos dias, em que Kafka (e quem já visitou Praga sabe disso) é objecto de violento merchandising, vendido como atracção turística de toda a espécie, de nome de hambúrguer a íman para o frigorífico. Kafka, nome de marca? “É aflitivo, tornou-se atracção turística, acho que ele ficaria aterrorizado se soubesse” disse a cineasta. “Kafka era o oposto da pessoa que procura a fama, o menos narcisista dos escritores, aliás: o que ele queria era ser reconhecido pelo que ocultou, pelos seus segredos.”

Em Franz, os intérpretes quebram frequentemente a quarta parede numa interpelação directa do espectador. A cineasta experimenta uma abordagem estética pouco usual na sua obra. Só que esta diferença não conduz a nada de especialmente consistente a nível cinematográfico, é sobretudo sainete a fintar academismos. Falta ao filme contundência, mistério, abismo.

O “problema” de Franz nem é tanto o filme em si, mas aquilo em que toca: Kafka é um autor que o cinema sempre teve dificuldade em fixar. O assunto não é novo nem se trata de considerar que há autores inadaptáveis. Se até James Joyce foi “adaptado”, todos o podem ser. Mas Kafka, regra geral, resiste ao cinema, rechaça os filmes. É como se fosse dotado de uma imaginária capacidade de desaparecer, deixando-os órfãos e vazios.

[Idan Weiss é Kafka, em “Franz”, de Agnieszka Holland:]

São excepções O Processo (1962), de Orson Welles, evidentemente: é um filme único no seu humor negro e na figuração do pesadelo. Klassenverhältnisse/Relações de Classes (1984), uma obra-prima de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, politicamente orientada pelos cineastas franceses a partir do romance América. Digno de nota pela memória que deixou (mas não o revejo há mais de 30 anos), Kafka (1991), de Soderbergh, com Jeremy Irons. Quanto a Franz, não se nega a seriedade e o cuidado do trabalho apresentado. Mas falta-lhe arroubo, um golpe de asa para poder entrar naquele grupo.

O filme de Agnieszka Holland, maioritariamente falado em alemão, com partes em checo, representará a Polónia na candidatura ao Óscar de Melhor Filme Internacional. Levou a melhor o país da realizadora. Também envolvida na co-produção da obra, a República Checa optou pelo documentário I’m Not Everything I Want To Be, de Klára Tasovská.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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