1231,1kWh poupados 1231,1 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Em San Sebastián, uma “niña quase santa”

Este artigo tem mais de 6 meses

“Los Domingos” juntou-se ao argentino “Las Corrientes” e ao basco “Maspalomas” na lista dos filmes que contam. “Historias del Buen Valle”, documentário catalão de José Luis Guerin, fechou o concurso.

As actrizes Blanca Soroa e Patricia López Arnaiz numa foto de rodagem de “Los Domingos”, de Alauda Ruiz de Azúa
i

▲As actrizes Blanca Soroa e Patricia López Arnaiz numa foto de rodagem de “Los Domingos”, de Alauda Ruiz de Azúa

▲As actrizes Blanca Soroa e Patricia López Arnaiz numa foto de rodagem de “Los Domingos”, de Alauda Ruiz de Azúa

O novo filme da espanhola Alauda Ruiz de Azúa, nome firmado no país vizinho pela longa anterior, Cinco Lobitos (ficou por estrear em Portugal) e pela premiada série Querer, da Movistar Plus+ (disponível na Apple TV+), propõe ao espectador um debate sobre educação e catolicismo, assunto que entrou imediatamente para a lista dos que mais podem estar hoje fora de moda. Só por isso, logo se reagiu ao filme com nota de apreço.

É a história de Ainara (Blanca Soroa), uma adolescente espanhola ainda menor de idade e com futuro promissor, órfã de mãe e filha de família laica, de classe média, igual a tantas outras, e que, às tantas, comunica ao pai e à tia, após estadia de veraneio num mosteiro, que se sentiu bem ali, e tão bem se sentiu que quer voltar, ficar, seguir carreira religiosa e tornar-se freira de clausura monástica.

Em época de pouca fé em que o missal já foi trocado pelas redes sociais, a família fica perplexa com a decisão da jovem de 17 anos quase a entrar na vida universitária. O pai (Miguel Garcés) fica indignado, a tia, mais compreensiva e protectora (papel da magnífica Patricia López Arnaiz, a mãe de 20.000 Espécies de Abelhas) vai ao mosteiro falar com a madre superiora, tentando reverter o “cataclismo”; mas a miúda insiste, convicta, de que prefere o amor a Deus ao das coisas terrenas; Into My Arms, de Nick Cave, corre na banda-sonora.

Em pleno domínio do seu gesto naturalista e de um cinema que se quer transparente, à medida que penetra naquele microcosmos familiar de pantanas, mas sempre observado sem moralismo e sem julgamento, Los Domingos é um filme conseguido e honesto, capaz de sentar o espectador à mesa e fazer com que ele entre no seu jogo. O desenho complexo das personagens (nenhuma é deixada ao acaso, todas têm expectativas e desilusões) e a forma subtil, ponderada, como os actores as encarnam, colocam sempre o diálogo acima do conflito. Como convencer o próximo que é real aquilo que, dentro da cabeça dele, só pode ser ilusão e engano? Ateia se confessou, Alauda Ruiz de Azúa, sem deixar em San Sebastián o outro lado da moeda: “A fé que eu tenho é no espectador.”

▲ Isabel Aimé González-Sola em “Las Corrientes”, de Milagros Mumenthaler

O mesmo poderia dizer Milagros Mumenthaler a próposito do sublime Las Corrientes, embora este esteja nos antípodas do anterior em relação à questão da transparência: aqui, tudo é sibilino, as próprias imagens guardam o mistério e lançam a intuição, aquilo que é observado tem sempre atrás de si algo mais profundo. O desenho de som é sensorial e extraordinário. Estamos no estranho mundo de Catalina, a quem a maior parte das personagens trata por Lina, mas outras por Cata, porque ela, sem ser mulher de vida dupla, vive em dois tempos, num quotidiano presente e num passado que a assombra, que ainda não conseguiu deixar para trás.

A personagem é estilista, tem 34 anos, e a actriz que a interpreta um talento que aqui se revela, argentina há vários anos sediada em França, Isabel Aimé González-Sola. Em Genebra, Catalina atira-se ao lago depois de receber um prémio que distinguiu o seu trabalho. Impulso suicida? Atracção pela água (um elemento importante no filme) enquanto espaço uterino? O movimento brusco é depois corrigido. Mas algo silencioso e invisível transformou esta mulher de classe social confortável; uma vez regressada a Buenos Aires, já não é a mesma pessoa, nem para o marido Pedro (Esteban Bigliardi), nem para a filha Sofia (Emma Fayo Duarte).

O tempo é um trauma em Las Corrientes e está ligado à maternidade (a mãe que Lina já perdeu e cujo fantasma ela procurará, num momento de vertigem, sem que o filme distinga a realidade da visão). Todos os caminhos do filme vão dar a esse assunto: onde está à mãe? Como se sublima perda tão irremediável (e visível na mãe que Lina também é, no seu relacionamento difícil com Sofia)? Mas nada disto é explícito no filme, antes sussurrado pela sua própria matéria.

De Hitchcock (da sua fase colorida e de Vertigo em particular), a estranheza da escolha cromática, a apresentação do guarda-roupa, a importância atribuída ao manuseio de certos objectos e adereços. De Bresson, o ritmo dos passos, a tendência pelos planos aproximados. Uma e outra fonte são discretamente chamadas, sempre com elegância. A procura da beleza que rodeia Lina (não é estilista por acaso) cruza-se no ecrã com coisas terríveis que ela também imagina e que entram no filme sem pré-aviso, por vezes no mesmo plano. Ainda há espectadores por aí, preparados para este cinema?

Terceira longa-metragem da autora de Abrir Puertas y Ventanas e La Idea de un Lago, filme escrito e ponderado ao longo de anos que o amadureceram, Las Corrientes é um salto gigante no percurso de Milagros Mumenthaler e expoente do cinema argentino contemporâneo. Voltar-se-á ao debate em Novembro, já que a obra, em boa hora, foi seleccionada por António Costa para o concurso do próximo Leffest, em Lisboa.

▲ José Ramón Soroiz (segundo a contar da esq.) em “Maspalomas”

A competição da 73.ª edição de San Sebastián teve uma participação muito forte do cinema hispânico e latino-americano, com 7 filmes dessa origem nos 17 apresentados a concurso. Além de Las Corrientes, representaram a Argentina Belén, de Dolores Fonzi, e 27 Noches, de Daniel Hendler, ambos inspirados em casos verídicos.

Belén é uma reivindicação feminista baseada na história de uma mulher de 24 anos que, em 2014, entrou num hospital público de Tucumán com fortes dores abdominais. Enquanto era atendida, alguém encontrou na casa de banho do hospital um feto. A mulher foi cegamente acusada de ter praticado um aborto. Presa no local, seria condenada em tribunal a 8 anos de cadeia por homicídio agravado. O “caso Belén” tornar-se-ía decisivo para a eclosão do movimento Maré Verde que se bateu pela Lei de Interrupção Voluntária da Gravidez, aprovada no país em 2020. Drama de causas menos convincente quando quer ser thriller, interpretado com brio e ganas de pegar o espectador pelos colarinhos, levará a bandeira argentina na candidatura ao próximo Óscar de Melhor Filme Internacional.

Da parte espanhola, participaram ainda, em castelhano, Los Tigres, do sevilhano Alberto Rodriguez; em basco, Maspalomas, de Jose Mari Goenaga e Aitor Arregi; e em catalão, Historias del buen valle, do bem mais conhecido entre nós José Luis Guerín (o autor de Innisfree, En construcción e A Cidade de Sylvia). Deixe-se uma chamada de atenção para os dois últimos, pela comoção e frontalidade com que Maspalomas enfrenta o melodrama, pela generosidade do retrato humano de Histórias del buen valle, focado em Vallbona, bairro da periferia-norte da grande Barcelona transformado pela imigração e pelo desenvolvimento urbanístico.

▲ “Historias del buen valle”, de José Luis Guerín

A Maspalomas, quase todo falado em basco, deve San Sebastián a interpretação mais contundente deste concurso. É a história de Vicente, 76 anos, gay, bon vivant, hedonista, temerário, toda uma vida passada à procura do prazer que o levou à cidade do título, no sul de Las Palmas, Ilhas Canárias. Foi a vida que ele escolheu e que ele queimou de livre vontade, sol e praia de dia, cabines e quartos escuros de discotecas quando cai a noite. E o tempo do septuagenário extingue-se — ele tem exacta noção disso — eterno “Smalltown Boy” com a canção dos Bronski Beat em pano de fundo.

Mas Vicente não cai como queria: em êxtase. O corpo vai traí-lo, dá-lhe um baque que o obriga a regressar a San Sebastián, cidade-natal, a um lar de acolhimento e a uma relação fria com a filha que ele sempre deixou em segundo plano (e já é tarde de mais). É então empurrado a “voltar ao armário” na velhice, rodeado de outros velhos que nunca o poderão compreender, um tempo de resignação. Nisto, há uma passagem de ano, também nós, espectadores, acordamos para a realidade, estamos em 2020 e, da China, chegam notícias de uma distante pandemia… Com a estreia de Maspalomas, San Sebastián deixou de procurar o herói desta edição. Fixem-lhe o nome, é actor de craveira e gabarito no teatro, cinema e televisão bascos: chama-se José Ramón Soroiz. Maspalomas não é nenhuma revolução na história do cinema. Mas tem um coração tão grande que precisa de ser ouvido.

Historias del buen valle também não revoluciona a asa documentarista de José Luis Guerín e o seu método de trabalho frequente neste campo. Não é um dos seus filmes mais elaborados. Mas Guerín é justo com a realidade que tem à sua frente e filma com dignidade estas histórias do bairro de Vallbona, entretanto circundado por uma auto-estrada e que, também por outros aspectos, perdeu a linha do horizonte, fechou-se em si próprio, nas suas ruínas e na memória dos habitantes que ali permanecem e ainda recordam a sua infância, interpelados, todos os dias, por tanta gente diferente que continua a chegar.

Vallbona, que também tem portugueses e luta contra o estigma de uma terra abandonada “e parecida a um western”, resiste e tem uma história, desde as primeiras pessoas que o povoaram no pós-II Guerra Mundial (era ainda um descampado), às novas vagas migratórias que o ocupam e são cada vez mais globais, tornando aquele espaço numa fronteira, apresentada pelas talking heads que Guerin vai alinhando a gosto, como vinhetas. Pouco a pouco até à soma estar feita, todas elas formam um mundo clandestino, um urbanismo espontâneo e vibrante — como dizia Gilles Deleuze, as ervas daninhas nascem sempre pelo meio.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.