1244,6kWh poupados 1244,6 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

“O Arquiteto”: sexo, projetos e vídeo

Este artigo tem mais de 1 ano

Houve alguma apreensão quando foi anunciada uma série de ficção inspirada num famoso escândalo sexual. No final dos seis episódios com o carimbo TVI/Prime Video, qual o resultado?

Rui Melo, o protagonista, faz um marialva com um ego quase tão grande como as torres de um certo shopping, mas revela a sua sordidez nos pormenores
i

▲Rui Melo, o protagonista, faz um marialva com um ego quase tão grande como as torres de um certo shopping, mas revela a sua sordidez nos pormenores

▲Rui Melo, o protagonista, faz um marialva com um ego quase tão grande como as torres de um certo shopping, mas revela a sua sordidez nos pormenores

“Aviso: Esta série é uma obra de ficção. Os eventos e personagens retratados são fictícios, ainda que possam ter sido parcialmente inspirados em factos reais. Qualquer semelhança com pessoas ou acontecimentos reais é meramente coincidência e não deve ser interpretada com uma representação da realidade.” Assim começam os 6 episódios de O Arquiteto (custa-me horrores não colocar o “c” a seguir ao e, chamem-me bota de elástico). E eu vou seguir o mesmo princípio e usar “alegadamentes” com fartura ao longo do texto, porque se os responsáveis se viram obrigados a usar este disclaimer, com a TVI e a Prime nas costas, que dirá esta humilde escriba.

Muito se escreveu… Aliás não foi assim tanto, porque no geral foram posts nas redes sociais. Mas houve uma relativa celeuma e indignação quando foi anunciada a produção de uma série inspirada num certo arquiteto, responsável por um certo centro comercial, que no final dos anos 80 esteve envolvido num muito mediático “escândalo sexual” (mais à frente esclarecerei o porquê das aspas) quando o VHS com alguns dos seus encontros sexuais extra-conjugais começou a correr de mão em mão. Porque, de facto, como seria de esperar numa sociedade patriarcal, carregadinha de culpa católica e com o bafio de uma ditadura de décadas ainda no ar, a dita figura tornou-se um herói para muito macho, enquanto as mulheres envolvidas sem consentimento não passavam de uma punchline. E muitos foram os que levantaram a voz para clamar que  a série serviria apenas para revitimizar as ditas mulheres, apelando a curiosidade mórbida, fazendo uso de uma nostalgia bacoca de um fenómeno da cultura popular assente em abuso. Eu não fui das que clamei, mas também temi que isso acontecesse. Concluo agora que fiz bem em calar-me à data. Dirão que é sempre um boa ideia e que o devia fazer mais vezes. Também devem achar que ganham alguma coisa com esse mau feitio.

Ao longo da série, assistimos ao desenrolar dos eventos que têm como pivot Tomé Serpa (Rui Melo), arquiteto em ascensão, professor universitário, prestes a inaugurar o maior e mais espampanante centro comercial do país, recém galardoado com o Prémio Valmor. Casado com Isabel (Paula Lobo Antunes) uma figura do jet set, pai de dois filhos: João (Tomás Andrade) estudante de quê adivinhem? Exato, arquitetura. E Leonor, uma adolescente insegura e introvertida, que é como quem diz uma adolescente. Tomé usa o seu atelier de forma polivalente: para criar as suas obras pós-modernas e coloridas, porque “antes excêntrico, que daltónico”; para atrair “patos bravos” que invistam nas suas obras megalómanas. E, last but not the least, como quarto de motel, com direito a captação vídeo, sem custo adicional e sem consentimento das protagonistas involuntárias.

[o trailer de “O Arquiteto”:]

Esta linha narrativa é intercalada com depoimentos recolhidos 5 anos depois, onde mulheres reclamam o poder de controlar a narrativa e contar a sua versão dos factos, com especial destaque para três delas. Carolina Barbosa (Teresa Tavares), atriz, é amante de Tomé, que lhe faz juras de amor e garante que se vai separar. Elsa, a secretária de longa data, trata da sua agenda, incluindo o vaivém de “clientes” femininas que povoam o atelier. Quando descobre a câmara escondida e tem direito a uma ante-estreia do filme que há-de ficar “viral”, confronta o chefe que a ouve com a maior das atenções e a despede com a maior das velocidades. Elsa é casada com um homem que faz um belo contraponto ao arquiteto: humilde, com uma infância marcada pela violência do pai contra a mãe, mas que respeita, apoia e trata de igual para igual a mulher. Poderão dizer que são os mínimos olímpicos, mas faziam falta exemplos destes na altura e, é com tristeza que o digo, continuam a fazer.

Daniela (Mikaela Lupu), recém-chegada de uma aldeia, vem trabalhar para a contabilidade no atelier de Tomé, deixa-se deslumbrar pelo paleio e carisma do chefe e acaba violada, na cena mais perturbadora da série. Quando Carolina descobre o hobbie abjeto do amante, alia-se a Elsa e, posteriormente, a Daniela para parar o senhor arquiteto que não pára de dizer que o centro comercial vai ser um estouro, mas estourou o orçamento do mesmo. Simultaneamente, debate-se com um processo de plágio, por “alegadamente” ter roubado um projeto a um colega do antigo escritório de arquitetura, onde trabalhou antes de se lançar a solo. It’s a shit show, tanto que a palavra mais repetida pelo dito cujo, a seguir a querida, é inferno. Sai uma comparação descabida, mas que na minha cabeça fez sentido? Não fazendo exatamente spoiler, mas lá perto, um pouco ao jeito de Inglourious Basterds, a história ganha um novo fim, trazendo alguma justiça à  História.

▲ Paula Lobo Antunes: bela, recatada e do lar. Cúmplice, mas só aparentemente submissa, a mulher que se anula ao lado de um marido “bigger than life”, mas só porque quer proteger a versão da sua vida que escolheu apresentar ao mundo

O Arquiteto é uma criação de Patrícia Müller (que divide o guião com Margarida Rebelo Pinto e Pedro Barbosa da Silva). Müller é uma argumentista com uma longa e diversa lista de créditos que vai do Inspetor Max (série de conforto que acompanha religiosamente o meu pequeno-almoço ao fim-de semana, há para cima de um ror de tempo), passando por uma mão cheia de novelas (Rosa Fogo, A Protegida), responsável pela escrita de  várias séries nos últimos anos (Madre Paula, Motel Valkyrias, A Rainha e A Bastarda). O realizador é João Maia, responsável pelo biopic que contrariou a escassez habitual de público em salas de cinema com obras nacionais, graças a Variações. Por um lado, não fiquei rendida à realização, em particular aos momentos de depoimento, mas são mais questões de gosto e quem sou eu na fila do pão. Por outro, acho que as cenas mais delicadas, que mimetizam de alguma forma o conteúdo das “alegadas” cassetes, estão dirigidas com a sensibilidade e o respeito tão necessários.

Quanto ao argumento, há um outro momento que me levanta algumas dúvidas. A forma como a cassete vai parar às mãos do jornalista parece-me pouco plausível, mas digam-me vocês. A transição da personagem de Daniela de aldeã ingénua para citadina desempoeirada parece-me um bocadinho colada a cuspo. Tão depressa está a falar da bexiga do Entrudo que trouxe para o almoço, como está a fazer um felácio depois de Tomé lhe dizer que lhe paga um bife no Snob. Já Carolina participa em novelas, é uma figura tão pública que lhe pedem autógrafos e aparece em posters no quarto de adolescentes, mas continua a fritar pastéis e servir copos de três no restaurante na mãe? Não me parece.

Dito isto, escrever uma história, mesmo que parcialmente inspirada numa história tão mediática, com tantas cascas de banana que a podem fazer escorregar no gratuito ou sensacionalista, é obra. E os diálogos têm momentos de ouro, suportados por interpretações muitíssimo competentes e nalguns casos extraordinárias. Rui Melo faz um marialva com um ego quase tão grande como as torres de um certo shopping, mas revela a sua sordidez nos pormenores. Tomé numa aula cita van der Rohe “Deus está nos detalhes” e é aí que está a diferença entre a caricatura e aquilo que Melo faz: o olhar de predador, as nuances na maneira como interage com cada um dos que o rodeiam, de acordo com o uso que lhe quer dar, o golpe de rins para sair de situações impossíveis e aqueles em que perde as estribeiras, sem que nada o adivinhe.

▲ Carolina Barbosa (Teresa Tavares), atriz, é amante de Tomé, que lhe faz juras de amor e garante que se vai separar. Elsa, a secretária de longa data, trata da sua agenda, incluindo o vaivém de “clientes” femininas que povoam o atelier

Numa história que quer devolver o poder às mulheres, todas elas brilham. Mas Paula Lobo Antunes, senhoras e senhores, tirou-me o chão. Bela, recatada e do lar. Cúmplice, mas só aparentemente submissa, a mulher que se anula ao lado de um marido “bigger than life”, mas só porque quer proteger a versão da sua vida que escolheu apresentar ao mundo. A cavaleira do patriarcado “estas tipas são um perigo, querido”, que apesar de estar no chão, nunca deixa de olhar de cima para baixo e sabe que ele não é nada sem ela.. Resolve o buraco emocional com comida que depois vomita e as trapalhadas do marido com os cheques do pai. Sublime.

Isabel, num momento de depoimento, afirma “Se elas foram violadas deviam ir à polícia apresentar queixa”. Um comentário que lamentavelmente não passou de moda, ao contrário dos penteados daquela época. É abrir qualquer caixa de comentários numa notícia de denúncia de abuso, nomeadamente abusos de professores do ensino superior. Acho, no mínimo curioso, que no caso da violência sexual (e muitas vezes da violência doméstica) o que torna o ato um crime é a queixa às autoridades e não o ato em si. Se me roubarem o carro e eu não fizer queixa, também consideram que o carro não foi roubado? Foram só coisas da minha cabeça.

O marido da Elsa, Armando, quando ela lhe pede que se abra sobre o seu passado traumático, responde “Se falo, lembro, se me lembro, sofro.” É impossível imaginar o que é que as alegadas vítimas pensam sobre isto e de que forma as fez sofrer, mas acho que posso dizer com alguma segurança, sem conhecer a criadora, que essa nunca foi a sua intenção, bem pelo contrário. Eu que estou na casa dos 40, lembrava-me desta história, de colegas meus verem a dita cassete. E à data, também eu não percebi o que é que estava em causa. A perceção que tinha, até há alguns anos, era a de uma piada que fazia parte da mitologia de uma época, em que um homem poderoso tinha sido apanhado no deboche, usando expressões risíveis, com umas quantas figuras do jetset e umas alunas apaixonadas. Não foi isso que aconteceu, não foi um “escândalo sexual”. Foi um crime – alegadamente. Acredito que embora O Arquiteto tenha sido apenas parcialmente inspirados em factos reais, trouxe alguma verdade ao que realmente aconteceu.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.