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“Class Enemy”: o purgatório numa sala de aula

Este artigo tem mais de 6 meses

As ligações entre o sistema educativo e a exclusão social, que chega a parecer pena perpétua, são abordadas nesta peça dos anos 1970 plena de atualidade. A estreia é já nesta quinta-feira, no Porto.

"Class Enemy", do dramaturgo britânico Nigel Williams, tem encenação de Manuel Tur e estreia marcada para esta quinta-feira, dia 22, no Teatro Carlos Alberto, no Porto
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▲"Class Enemy", do dramaturgo britânico Nigel Williams, tem encenação de Manuel Tur e estreia marcada para esta quinta-feira, dia 22, no Teatro Carlos Alberto, no Porto

JOSÉ CALDEIRA

▲"Class Enemy", do dramaturgo britânico Nigel Williams, tem encenação de Manuel Tur e estreia marcada para esta quinta-feira, dia 22, no Teatro Carlos Alberto, no Porto

JOSÉ CALDEIRA

O cenário é uma sala de aulas numa cave deteriorada, com humidade e escritos nas paredes: “Cagaram em nós”, “Isto é nosso”. Estão cinco alunos nesse espaço de ensino, que lembra mais um centro de detenção. Há quem fume, quem durma sobre a secretária e até quem corte cabelos à máquina. A entrada está barrada pelo interior, mas abre-se a porta a um sexto elemento: a única rapariga, Rapina. Todos têm alcunhas: Ferro, Clearasil, Caga-tacos, Pirilampo e Anjo. Cedo ficamos a saber que aguardam a chegada de um novo docente, depois de outros terem desistido da turma. “Rebentámos com os professores todos que nos mandaram”, comenta Ferro, com aparente satisfação. “Ainda nos mandam uma stora, uma gaja”, diz outro rapaz. Resposta pronta de Rapina: “Isto não é sítio para onde mandar uma mulher”.

A peça em causa é Class Enemy, do dramaturgo britânico Nigel Williams, com encenação de Manuel Tur e estreia marcada para esta quinta-feira, dia 22, no Teatro Carlos Alberto, no Porto. O texto, escrito nos anos 1970, convida a refletir sobre a educação, o sistema de ensino e a exclusão social. Como refere nota do Teatro Nacional São João, “ao longo do espetáculo, uma pergunta impõe-se: terão estes adolescentes escolhido rejeitar a escola ou estará o sistema educativo construído para que eles a abandonem?”.

▲ A violência transparece, não pelos palavrões que soltam, mas sim “pelas forma como se tratam uns aos outros”

JOSÉ CALDEIRA

Estamos perante alunos que se encontram “no fim da cadeia”, esquecidos, negligenciados, ao ponto de parecer que “envelheceram prematuramente”, comenta Manuel Tur. Levam vidas tão pesadas, que é como se tivessem crescido “muito mais rapidamente”. E se, no texto original, as personagens são adolescentes, a frequentar o 10.º ou o 11.º anos, aqui, a opção foi dar-lhes uma imagem que correspondesse à maturidade de pensamento que mostram. Manuel Tur estabelece uma analogia com o bairro social: “Quanto mais na periferia ele estiver, mais fácil é lidar com ele”. Aqueles estudantes também são deixados “o mais longe possível da vista”.

O que fazer na “Merdolândia”?

A pouco e pouco, as características de cada personagem vão sendo evidenciadas. Se Ferro chama a si o papel de líder e resolve tudo através da violência, Pirilampo é mais maduro e responsável, o seu antagonista (chega a ser espancado pelo primeiro). Enquanto Rapina revela uma certa inclinação para partir vidros, Anjo simboliza a esperança. Por outro lado, vamos tendo vislumbres da dureza das suas vidas lá fora. Não que a existência naquela escola seja muito melhor. “O que há para fazer aqui, na Merdolândia?”, questiona um dos alunos.

À medida que o tempo passa e nenhum docente aparece, desenrolam-se conversas sobre assistentes sociais (“esquerdalhas de merda”) e, sempre que algum sentimento ou vulnerabilidade parecem aflorar, são abafados, porque a lógica dominante, entre eles, é a da violência, da tensão, do insulto. Os palavrões são uma constante, bem como o confronto. E qualquer tentativa de aligeirar o ambiente é cortada, como na ocasião em que um rapaz tira o gorro a outro, em tom de brincadeira, e é logo encostado à parede de forma agressiva.

▲ À medida que o tempo passa e nenhum docente aparece, desenrolam-se conversas sobre assistentes sociais (“esquerdalhas de merda”) e, sempre que algum sentimento ou vulnerabilidade parecem aflorar, são abafados

JOSÉ CALDEIRA

A certa altura, diz Ferro: “Eu estou-m’a cagar para os vossos livros! O que nós queremos é um passe para bazar daqui, para um sítio onde nos deixem em paz”. Entretanto, toma a palavra o Anjo. “Anjinho, o que é que nos arranjaram?” “Fui até ao fundo do corredor e não estava lá ninguém”, responde o interpelado. Acrescenta ainda que viu uma turma composta por 23 alunos aprumados, a ouvir um professor que segurava, provavelmente, o último pau de giz da escola — uma turma exemplar, para servir de fachada. Até que, para passar o tempo, resolvem pôr-se no lugar de professores, conduzindo cada um deles uma aula sobre um tema da sua preferência (há quem escolha sexo, há quem escolha jardinagem). E assim ficamos a saber mais sobre os seus contextos familiares, marcados pela pobreza, pela marginalização, pelo preconceito.

A sala de aulas como “uma espécie de purgatório”

“Esta sala é uma espécie de purgatório onde as personagens estão encerradas”, defende Manuel Tur, acrescentando que as aulas que cada uma escolhe dar “são um reflexo da sua exclusão”. Elas vêm de lugares muito escuros, chegam a verbalizar que preferem ficar ali do que ir para casa. Nesse “purgatório”, “não há silêncio, nunca há confronto consigo mesmo”. A violência transparece, não pelos palavrões que soltam, mas sim “pelas forma como se tratam uns aos outros”, defende o encenador, convicto de que entre eles não existe amizade, antes uma espécie de solidariedade, porque “se reconhecem como iguais”.

“Isto pode ser em qualquer escola, de qualquer cidade, de qualquer país”, sublinha Tur. O uso de alcunhas, por vez dos nomes, funciona como “proteção”. A dado momento, surge mesmo um professor que os chama, nem sequer pelas alcunhas, mas por números, o que contribui para os desumanizar ainda mais. O encenador conta que este foi “um projeto muito adiado”, que começou a pensar há pelo menos oito anos, e parece fazer ainda mais sentido agora. Acredita que “o teatro e a escola continuam a ser lugares de reflexão e em que se pode trazer alguma coisa para cima da mesa, para debater”. Com esta peça, visa isso mesmo: suscitar interrogações, alertar consciências.

▲ “O teatro e a escola continuam a ser lugares de reflexão e em que se pode trazer alguma coisa para cima da mesa, para debater”, diz o encenador

JOSÉ CALDEIRA

O espetáculo, que se estende por quase duas horas, está em cena no Teatro Carlos Alberto até ao próximo dia 31: quartas, quintas e sábados às 19 horas, sextas às 21 horas e domingos às 16 horas. O bilhete custa 12 euros. Segue depois para o Centro de Artes de Famalicão, onde é apresentado nos dias 6 e 7 de fevereiro; e, no dia 13, é a vez do Teatro Aveirense.

Trata-se de uma produção da 11Zero2, com o apoio do Teatro Nacional São João, da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão e do Teatro Aveirense. A interpretação está a cargo de Bernardo Gavina, Daniel Silva, Gonçalo Botelho, Gonçalo Fonseca, Lisa Reis, Tiago Araújo e Sérgio Sá Cunha.

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