Ao longo de uma hora, numa caixa escura, com o público sentado no chão à volta dos intérpretes, há música, dança e claras referências a tradições carnavalescas que vão da Galiza ao Brasil, passando pelo Haiti. É ЯΛ́ЯΛ, o novo espetáculo de Catarina Miranda para a Companhia Instável, com estreia marcada para esta sexta-feira, às 19h30 horas, no Teatro Campo Alegre. Trata-se de uma coprodução com o Teatro Municipal do Porto, e tem repetição anunciada para o dia seguinte.

ЯΛ́ЯΛ vai beber inspiração a tradições culturais em que o som se revela fulcral, como o Entrudo da Galiza e do Norte de Portugal, as festividades Rara e Vodou do Haiti ou o Carnaval de Pernambuco, no Brasil. Neste último, destaca-se a figura do Urso Macaco Louco, que inspirou a criação dos figurinos e quase deu nome à peça. Mas acabou por prevalecer a alusão à música rara haitiana.

“Estive no Brasil em 2006, no Carnaval, e há uma entidade de Pernambuco que é o Urso Macaco Louco, uma figura que veio dos países romani para Itália, com esta ideia de circo: o dono do circo, que tinha um chapéu; o domador do urso, que tinha chicote e uns bigodes, e o urso”, recorda Catarina Miranda. “Essas três personagens foram levadas pelos portugueses para o Brasil, e em Pernambuco temos o Urso Macaco Louco, um urso lindíssimo, gigante, a dançar samba com as baterias de caixas todas atrás, em procissão.”

As viagens de Catarina, convidada pela Instável para conceber a presente peça, tiveram um papel determinante no processo de criação. Entre os interesses da artista contam-se “ritmo, celebração e movimento”. Tudo o que agora se vê em palco. Acresce que a mãe foi antropóloga, logo, sempre viveu “nesse contexto de etnologia, etnografia, etnomusicologia”. Gosta de “perceber várias culturas que trazem dança, ritmo e sopros – quais os propósitos, quais os pontos de partida”. Por isso, tem viajado para países tão diferentes como o Japão ou o Haiti.

Do urso que “suja toda a gente” à farinha com formigas

“Quando me convidaram para fazer este projeto, propus estudar três semanas na Galiza. Já tinha estado em alguns carnavais do norte de Portugal, mas na Galiza tive essa oportunidade de estar três semanas, e cada aldeia tem uma celebração diferente. Por exemplo, há o urso de Salcedo, um urso que sai simbolicamente da hibernação e suja toda a gente”, conta a coreógrafa, entusiasmada. “Uns ajudantes com fatos de serapilheira agarram-te com um pau, levam-te ao urso, ele tem um balde com água e cinza e é bem nojento. Haja óculos, perucas… É um bocado terror, toda a gente aos berros… Achei muito bonito porque, quando isso acabou, começou toda a gente a tocar, a beber, a cantar, toda nojenta. Foi mesmo rito de passagem: OK, a partir de agora, é para celebrar o ano novo.”

Catarina lembra também uma tradição da aldeia galega de Laza, em que, no mesmo dia daquele rito do urso, se lança sobre as pessoas “sacos de farinha com formigas vivas e vinagre, para elas estarem bem irritadas”. Noutras aldeias, assistiu ainda às “farrapadas”, lutas de roupa com lama. E não deixa o território nacional de fora: das queimadas de Vila Boa de Ousilhão às “piras mais altas de Portugal”, em Vila Nova de Famalicão, que tenciona ir ver neste ano.

Voltando a ЯΛ́ЯΛ: os bailarinos, apresentados também como cocriadores, exibem fatos brancos, com franjas ondulantes e escassos apontamentos de cor. Idealizados pela coreógrafa, que é também artista plástica, foram costurados por Diana Regal e funcionam em conjugação com as máscaras exoesqueletais de Júlio Alves, que jogam com ossos e dentes. Foi “quase como se quiséssemos inverter o corpo: que o osso fosse para fora e a carne fosse para dentro”, observa ela.

Um órgão para várias bocas e liberdade para deitar

Presença incontornável num espetáculo que vive tanto do som são, por outro lado, os instrumentos criados de raiz pelo engenheiro (também sonoro) Sérgio Coutinho, do coletivo de arte contemporânea Berro. Para chegar àqueles instrumentos impressos em 3D e luminosos, Coutinho estudou tubas, vuvuzelas e mais. O resultado foram peças tão curiosas como uma espécie de órgão de boca para várias bocas, cujo ponto de partida foi uma peça japonesa. A composição sonora, essa ficou a cargo de Clélia Colonna, com apoio de Jonathan Uliel Saldanha e desenho de som de Süse Ribeiro.

Em palco, cruzam-se cinco elementos, apresentados como intérpretes e co-criadores: Duarte Valadares, Inês Luzio, Joana Sousa, Junis Becherer e Leo Calvino. O público recebe tampões para os ouvidos ao entrar na sala escurecida, onde a presença daqueles vultos brancos animados ganha ainda maior proeminência. E quem assiste ao espetáculo, bem perto dos bailarinos, tem liberdade para se movimentar pelo espaço. Diz Catarina que os espetadores devem ficar “à vontade: em pé, deitados, de olhos fechados, de olhos abertos, o que quiserem; podem ouvir só ou ver a peça toda; e podem mudar de lugar”.