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Inês d'Orey em Chandigarh

Se observável no seu amplo conjunto, como se espera que um dia suceda, este inventário transnacional de Inês d'Orey não terá rival ou equivalente na arte portuguesa contemporânea.

Nas suas muito belas fotografias, Inês d'Orey não se interessa senão pelas geometrias de cor, luz e sombra que as construções monumentais em Chandigarh colocaram diante dos seus olhos
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▲Nas suas muito belas fotografias, Inês d'Orey não se interessa senão pelas geometrias de cor, luz e sombra que as construções monumentais em Chandigarh colocaram diante dos seus olhos

▲Nas suas muito belas fotografias, Inês d'Orey não se interessa senão pelas geometrias de cor, luz e sombra que as construções monumentais em Chandigarh colocaram diante dos seus olhos

Na Galeria Presença, no Porto (Rua Miguel Bombarda, 570), a fotógrafa de arquitectura Inês d’Orey apresenta a exposição Soul Complex, em cartaz até 9 de maio. Quem conheça os seus livros Porto Interior, 2006-2011 e Beograd Concrete, ou saiba dos trabalhos que realizou por via de residências artísticas em diferentes cidades da Europa, como Copenhaga, Bucareste e Aarhus, ou mesmo em viagens até Buenos Aires e Tóquio, não pode deixar de se interessar por aquilo que a fotógrafa trouxe da sua visita à indiana Chandigarh, junto aos contrafortes dos Himalaias, em junho de 2025. Nem o designativo em língua inglesa Soul Complex ajuda a situar esta nova campanha, nem foi esta a primeira vez que portugueses se interessaram pela urbe indiana concebida de raiz por Le Corbusier e Pierre Jeanneret com colaboração de arquitetos ingleses e locais (v. 1991 Chandigarh de Paula Santos, Porto: Circo de Ideias, 2011, 52 pp.), porém a surpreendente obra de Inês d’Orey impõe-nos essa atenção ou curiosidade, pelo que transporta de olhar fresco e interpelativo de ambientes que, em diferentes latitudes, épocas e estilos, o risco dos arquitetos trouxe a múltiplos espaços de habitar e de ócio. A ausência de figuras humanas amplifica paradoxalmente, exponencialmente, a temporalidade dos espaços fotografados, permitindo-nos fantasiar sobre a memória do vivido em espaços públicos tanto como nos espaços privados.

Reencontramos nesta exposição o uso de mecanismos retro-iluminados que a artista desencantou em lojas vintage, como sucedera noutras exibições e numa iniciativa em montras duma rua comercial no centro do Porto, mas também a habitual parcimónia informativa acerca dos registos escolhidos. Uma folha de sala dá-nos um mínimo módico de informações sobre o motivo fotográfico, pretendendo quiçá que todos saibamos ao que vamos, mas esta singular maneira de expor e apresentar, num país com muito baixo interesse por outras latitudes (alguém monitorizou a quantidade, qualidade e geografia da imprensa estrangeira lida em Portugal sob diferentes suportes e dispositivos?), afigura-se um tanto ou quanto imprudente. Fora do meio — agora diz-se bolha — da arquitetura e do design, serão poucos os que de imediato reconheçam Chandigarh como uma das maiores experiências de criação integrada de equipamentos públicos e residenciais em larga escala, do urbanismo ao mobiliário e luminária domésticos, protagonizada nos anos 1950 por Le Corbusier, Jeanneret e associados, e que foi, poderá dizer-se, inspiração direta para a criação de Brasília.

No fim do século saiu relevante bibliografia sobre a nova cidade, desde Kiran Joshi, Documenting Chandigarh (1999, 286 pp.), no mesmo ano em que dois comerciantes franceses de antiguidades, Éric Touchaleaume e Gérald Moreau, fizeram a primeira de muitas viagens à cidade indiana em busca de cadeiras e outro mobiliário, à época rejeitado ou abandonado pela população e pela administração (fizeram um livro de 640 pp. sobre isso em 2010, L’aventure indienne), mas posteriormente readmitido e protegido legalmente pelas autoridades da Índia, tanto quanto vendido em leilões ou reproduzido em réplicas ocidentais (inclusive, há poucos anos, pela Kinda portuguesa). Em 2014, a parisiense Galerie Patrick Seguin publicou Le Corbusier, Pierre Jeanneret: Chandigarh, India, 1951-66, todavia a bibliografia é extensa, com artigos em revistas e vários catálogos de exposições, como a organizada em Milão por Piergiorgio Sclarandis em 1993. Para se ter uma ideia, uma pequena mesa de apoio para estudantes desenhada em teca por Jeanneret, e em excelente estado de conservação, foi vendida pela Sotheby’s por 7000 dólares.

Nas suas muito belas fotografias, Inês d’Orey não se interessa senão pelas geometrias de cor, luz e sombra que as construções monumentais em Chandigarh colocaram diante dos seus olhos, no teatro Nirman, no Tribunal Superior, no Parlamento, no complexo hospitalar ou na indisputável Torre das Sombras, ou mesmo num estádio desportivo, e que agora nos são apresentados em grandes formatos ou em pequenas caixas de luz em bela madeira. A habitual parcimónia da artista, também patente no reduzido número de imagens de Beograd Concrete, catálogo da exposição homónima na Galeria das Salgadeiras em Lisboa, não quis aproveitar um pouco mais o amplo espaço da Galeria Presença, deixando-nos o travo agridoce de quem gostaria de ter podido ver mais. Pois uma coisa parece certa: se observável no seu amplo conjunto, como se espera que um dia suceda, este inventário transnacional de Inês d’Orey não terá rival ou equivalente na arte portuguesa contemporânea.

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