A 61.ª Bienal de Arte de Veneza abre este sábado ao público com 100 pavilhões nacionais, uma exposição geral com 111 participantes, e uma polémica que levou à demissão do júri internacional para o palmarés que será decidido pelos visitantes.
Sob o tema “In Minor Keys” e com conceito da curadora-geral Koyo Kouoh (1967-2025), a Bienal de Arte de Veneza terá ainda 31 eventos paralelos em vários locais de Veneza até 22 de novembro, data em que serão atribuídos os prémios do certame mundial dedicado à arte contemporânea, ao contrário do habitual anúncio da cerimónia de abertura.
Além de Portugal, que estará representado pelo projeto artístico “RedSkyFalls”, do artista Alexandre Estrela, comissariado pela Direção-Geral das Artes com curadoria de Ana Baliza e Ricardo Nicolau, no Palácio Fondaco Marcello, do universo lusófono participam também as representações nacionais do Brasil e de Timor-Leste.
A crise na Bienal de Arte de Veneza 2026 teve origem a 23 de abril, quando o júri internacional anunciou um boicote inédito: excluir da atribuição de prémios países cujos líderes fossem acusados de crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional. Esta decisão, que atingia diretamente as representações de Israel e da Rússia, introduziu uma dimensão política num evento tradicionalmente centrado na criação artística.
A decisão do júri presidido pela curadora e gestora cultural brasileira Solange Oliveira Farkas gerou polémica imediata no meio cultural e diplomático, e a Fundação da Bienal e o governo italiano reagiram contra este critério, defendendo a neutralidade institucional e recusando qualquer forma de censura.
A organização sublinhou que a Bienal “deve permanecer um espaço aberto à participação internacional” e distanciou-se da decisão do júri, considerada autónoma, gerando um impasse que se agravou com pressões políticas e divergências internas, incluindo posições críticas por parte do executivo italiano. Perante este conflito institucional e a falta de consenso, os cinco membros do júri demitiram-se em bloco a 30 de abril, apenas nove dias antes da inauguração. O painel era ainda composto por Zoe Butt, Elvira Dyangani Ose, Marta Kuzma e Giovanna Zapperi.
Como consequência, a entrega do Leão de Ouro foi adiada para o encerramento da exposição, e, na ausência de júri, a organização introduziu um novo modelo de participação, os “Leões dos Visitantes”, permitindo ao público votar nos melhores pavilhões e artistas.
Embora a organização nunca tenha proibido a participação da Rússia, o país esteve ausente da Bienal de Arte nas edições de 2022 e 2024, no primeiro ano por desistência dos artistas e curadores e, em 2024, a Rússia cedeu o seu pavilhão à Bolívia.
O artista Alexandre Estrela, autor do projeto que representa Portugal na 61.ª Bienal de Arte de Veneza, manifestou-se, desde o dia da apresentação pública da sua obra, contra a participação da Rússia e de Israel no certame, expressando solidariedade “com os povos oprimidos”.
Estrela é um dos 183 signatários de uma carta aberta, disponível ‘online’, promovida pela Aliança Arte Não Genocídio (ANGA), divulgada em março, na qual participantes, entre artistas, curadores e trabalhadores da 61.ª Bienal de Arte, pedem a exclusão de Israel do certame. Os signatários defendem que “a cumplicidade da Bienal de Veneza com a tentativa de destruição da vida palestiniana tem de acabar”.
A presença de artistas portugueses estende-se a eventos paralelos, nomeadamente a exposição “XIV Steps” (“XIV Passos”), do artista plástico Pedro Cabrita Reis, que foi inaugurada na segunda-feira, com um conjunto de 14 pinturas inéditas de grandes dimensões que revisitam a Via Sacra, numa “visão pessoal” da Paixão de Cristo, em diálogo com a história da pintura europeia.
Também a artista Marita Setas Ferro está presente na exposição “Personal Structures – Confluences 2026”, organizada pelo European Cultural Centre Italy, a decorrer de 9 de maio a 22 de novembro, em Veneza, com o projeto individual “The Echoes of Things from Nature” (“O eco de coisas da natureza”, em tradução livre), sobre as paisagens marinhas e as formações orgânicas.