Na Quinzena dos Cineastas, secção paralela de Cannes, foi chamado para o pontapé de saída um filme que quase toda a gente apostara para a Competição, Butterfly Jam, terceira longa-metragem de Kantemir Balagov, o autor de Tesnota (2017) e Violeta (2019). O jovem cineasta da cidade russa de Nalchik, lançado por Cannes desde o primeiro instante, filmou desta vez a comunidade circassiana mas longe da região da Cabárdia-Balcária e da Ciscaucásia (os problemas dos filmes anteriores com as autoridades do seu país já haviam sido, de resto, notórios), pois é em Newark, New Jersey, que este novo trabalho se passa, com estrelas em ascensão do cinema anglo-saxónico a assumirem os filhos de uma terceira geração de emigrantes russos na América: Barry Keoghan, Riley Keough, Harry Melling.
Butterfly Jam retrata uma comunidade filmada quase sempre em grande plano, maioritariamente em interiores. A temática é comum ao cinema de James Gray (que às máfias russas voltará em Paper Tiger), mas a proposta estética é radicalmente distinta. Newark, para Balagov, é quase pano de fundo, espaço agressivo, fora de foco, algo que não impede que se reconheça por inteiro aquela realidade de arrabalde, cruel, de uma família circassiana incapaz de relacionar-se com o ambiente à sua volta (um assunto que Balagov já explorara nas obras anteriores).
A personagem-pivot do filme é um rapaz de 16 anos, Pyteh (Talha Akdogan), que divide o seu tempo entre os treinos de luta livre e a família em dificuldades, liderada por um pai imaturo (Barry Keoghan), cozinheiro de um restaurante de família, mas incapaz de dar bom caminho ao negócio gerido por uma tia, Zalya (Riley Keough). Quando um acontecimento trágico bate à porta, fica tudo, de facto, em família: os ressentimentos, os crimes, os mortos e os delírios de uma existência frustrada, figurada em dois elementos, um pelicano que a personagem de Barry Keoghan às tantas traz para casa e uma aparação “santificada”, em jeito de cameo, de Monica Bellucci — miragem de beleza num filme que nunca lhe permite a entrada.
▲ Hannah Einbinder e Gillian Anderson em “Teenage Sex and Death at Camp Miasma”, de Jane Schoenbrun
Ryan Plummer
Butterfly Jam é coisa de teimosias e caprichos, com evidentes fragilidades. O título vem de uma “geleia de borboletas” que não deve ser levada a sério; receita que, supostamente, é segredo do patriarca da família. Apesar da entrega dos actores, da intensidade de certas cenas, fica sempre a milhas daquela que procurou ser a sua maior influência: o cinema de Cassavetes. Balagov, que despertou a atenção do cinema contemporâneo pelo trabalho anterior, só não filmou esta história em Nalchik, com actores russos, por causa da guerra na Ucrânia, que o levou ao exílio nos Estados Unidos. Em Newark, está desnorteado, num mundo esgotado e contraditório onde pretendeu figurar um “conto de fadas” (palavras dele). Deu passo em falso. Que volte depressa a filmar no seu país — se puder…
O que se viu noutras salas não foi propriamente estimulante, pese a nota de simpatia que merece T Sex And Death At Camp Miasma, uma sátira ao mundo das sequelas do cinema de terror que estiveram em voga nos anos 80 e 90 do século passado. Inaugurou o Un Certain Regard. Assina esta primeira obra a norte-americana Jane Schoenbrun, e o resultado é assinalável para um primeiro exercício que, ainda assim, podia ter sido mais slasher e descabelado.
▲ Léa Drucker no photo call de “La vie d'une femme”, em Cannes
Corbis via Getty Images
É a história de uma cineasta “revelada em Sundance” e contratada, nos nossos dias, para escrever uma sequela de uma velha franchise do cinema de horror que já quase toda a gente esqueceu, passada no Camp Miasma do título. Acontece que a heroína cinéfila sabe mais de filmes que da vida e, no que à sexualidade e ao desejo diz respeito, é mesmo planta por florescer. Teenage Sex And Death At Camp Miasma não tem arte e engenho para pregar sustos, talvez porque, nestes tempos, ao contrário do que se passava na era das cassetes VHS, já ninguém se assusta com coisa alguma. Neste campo, resulta tornar-se frustrante. Mas o filme funciona melhor quando se esquece das suas referências simbólicas acumuladas e troca a suposta cinefilia da protagonista pelo seu desejo sexual reprimido (como se estas tivessem equivalência — e há quem diga que têm).
Léa Drucker não sabe ser má actriz e, tal como no ano passado, está em dois filmes de Cannes: La vie d’une femme, apresentado a concurso, e na voz da animação Blaise, no ACID. O primeiro já foi exibido. É um retrato de mulher emancipada em episódios, médica especialista em cirurgia que optou por não ter filhos porque “nem toda a gente precisa de reproduzir-se para sentir-se vivo” (estamos de acordo), como a personagem diz às tantas nesta segunda longa de Charline Bourgeois-Tacquet.
▲ “Nagi Notes”, de Kôji Fukada
Chegada a meio da cada dos cinquentas, com uma relação cada vez mais distante do seu companheiro e a mãe diagnosticada com Alzheimer, deixa-se a médica seduzir por uma escritora (Mélanie Thierry) que a leva do bloco operatório para as montanhas alpinas, numa variação de ritmo assinalável. Mas não chega e há mesmo uma certa dificuldade em perceber a chamada deste filme ao concurso principal de Cannes, pese embora toda a humanidade e sensiblidade que Léa Drucker oferece à personagem. O filme foi escrito para a actriz e seria banal sem ela. Isto é: quem está sempre em primeiro plano é Léa, como se o filme, esse, se resignasse a não querer atrapalhar, ser só adereço, papel de parede.
E Nagi Notes, do japonês Kôji Fukada, o primeiro da Competição a ser mostrado? Este padece de outro mal: é demasiado redondo e arrumado, como um amuleto perfeito. E uma enésima reflexão sobre a ideia narcisista de que, para se amar uma pessoa, é preciso desejá-la primeiro. Uma escultora da cidade de Nagi, assombrada por uma velha paixão, recebe a vista da ex-cunhada de Tóquio, arquitecta. Mas a atracção latente entre as mulheres, espelhada no exemplo de dois rapazes adolescentes que não sabem o que fazer da sua homossexualidade, fica em rascunho. De tão púdica que é, perde a vida. Como em tempos cantava Morrissey: “shyness is nice and can stop you / from doing all the things in life you’d like to.” Melhor está seguramente para vir.
O autor escreve segundo a antiga ortografia.