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"Half Man": homem pela metade, série por inteiro

Terminados os seis episódios, o veredicto: este é um festival de masculinidade tóxica, tortura psicológica permanente, uma grande história e um grande elenco. Richard Gadd conseguiu, outra vez.

Jamie Bell e Richard Gadd têm uma contracena perfeita, o casting é brilhante na escolha das versões mais jovens e mais adultas dos personagens, coisa que muitas vezes é desvalorizada e prejudica a suspensão da descrença
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▲Jamie Bell e Richard Gadd têm uma contracena perfeita, o casting é brilhante na escolha das versões mais jovens e mais adultas dos personagens, coisa que muitas vezes é desvalorizada e prejudica a suspensão da descrença

▲Jamie Bell e Richard Gadd têm uma contracena perfeita, o casting é brilhante na escolha das versões mais jovens e mais adultas dos personagens, coisa que muitas vezes é desvalorizada e prejudica a suspensão da descrença

Tensa e ansiogénica, ainda mal tinha começado e eu já não não tinha dúvidas que ia acabar mal. Foi assim que passei as últimas semanas a acompanhar Half Man, uma panela de pressão em forma de mini-série. Curiosamente, a primeira frase também descreve com rigor o que me me vai na alma quando me aparece um reels do techno-cool Moedas a fazer a trend do momento. Mas ao contrário do feed do edil de Lisboa, os 6 episódios de Half Man são altamente recomendáveis, apesar do desconforto que proporcionam.

Depois de ver o episódio inaugural, deixei aqui os meus dois cêntimos mais IVA. Estou de volta em jeito de after match, após a season finale e trago nódoas negras emocionais e uma certa náusea pós-traumática que fui acumulando ao longo dos episódios. Não saí incólume de nenhum. Na sinopse de Half Man lê-se “Ruben aparece no casamento do irmão Niall, de quem está afastado, o que funciona como um catalisador para reviver os últimos 40 anos da relação”. E que anos foram estes, meus senhores. Chamar a isto uma relação tóxica é como dizer que Sócrates usava contabilidade criativa, um eufemismo do tamanho de um outlet na margem sul, que não revela o tamanho e a profundidade do buraco que está em causa.

Ao longo dos episódios, vamos acompanhando a cronologia destes “brothers from another lover” mantra da autoria de Ruben, e vemos como estes laços vão sendo forjados a ferro e fogo. E não só eles se vão queimando à vez, como o que não faltam são vítimas colaterais, como é o caso do Alby, companheiro de dormitório de Niall, na universidade em Glasgow, dono de uma beleza angelical e muito cândido relativamente à sua orientação sexual, o que encanta e aterroriza o tremelicante e mal resolvido Niall. Não querendo fazer grandes spoilers, o lindo de morrer Alby quase morre por amor e o seu rosto esculpido a cinzel torna tudo mais dramático, sejamos honestos. E é assim que Niall se vê com o destino de Ruben nas mãos, enleado num dilema moral que vai redefinir drasticamente a relação dos dois.

Lori (Neve McIntosh), a mãe de Niall vai ter um papel muito importante e uma atitude, no mínimo, problemática e, no máximo, reveladora de quem é que está no topo da pirâmide de prioridades desta mãe e tudo indica que o filho não é. Adoro quase tanto esta personagem, como julgo as suas escolhas. Lori criou o filho a sarcasmo, quita-manias e um bullying forrado a humor, que muitas vezes se abeira da crueldade e outras tantas mergulha a pé juntos. Quando Niall justifica o facto de ser apanhado a fazer sexo numa biblioteca, com um processo de descoberta que está quase finalizado, a mãe responde-lhe “Apanharam-te com um homem na biblioteca a dez metros de onde têm a Peppa Pig. É ótimo saber que estás quase lá.”

Noutro momento, em que lhe pede para desistir “desses sonhos parvos de escrever”, atira-lhe à jugular a seguinte frase: “Um dos atos mais letais de automatização que podes cometer é convenceres-te de que és digno de um propósito maior”. A Lori não faz o Niall pôr os pés na terra. Ela cava um buraco e faz-lhe uma rasteira para ele cair de cu lá dentro. E ainda assim, parece que ela ama o filho, mas ou disfarça bem ou imita mal.

À medida que os eventos se vão desenrolando, o papel de vítima do Niall começa a ficar-lhe largo. Por muito merecedor de pena que seja, órfão do pai que se suicidou e órfão emocional da mãe viva, que tem mais empatia pelo seu agressor do que por ele, obrigado a dividir o espaço com um cão raivoso em forma de gente, ele atira para as costas dos outros a sua incompetência, a sua promiscuidade e a homofobia que é fundamentalmente auto-infligida.

▲ Ruben (Richard Gadd), com aqueles olhos raiados de sangue de quem está permanentemente à beira de deixar alguém a precisar de uma transfusão, recebe muitas vezes um passar de pano, porque “ele é assim, não consegue evitar”

Já o Ruben, que sorri com a boca e não com os olhos, como Lori bem descreve, com aqueles olhos raiados de sangue de quem está permanentemente à beira de deixar alguém a precisar de uma transfusão, recebe muitas vezes um passar de pano, porque “ele é assim, não consegue evitar”. Boys will be boys, right? Depois de um período na prisão, olhando de longe Ruben dá a sensação de estar reabilitado. Mas ao perto, especialmente se estiver ao pé do maninho, está longe disso. E o Niall encarrega-se de dar um belo de um empurrão. Costuma-se dizer que há pessoas que retiram o melhor de nós e outras que trazem à tona o nosso lado lunar, como escrevia o Tê. Não sei se Niall vive na sombra de Ruben, se o Ruben lhe dá o alibi que ele precisava para se manter do lado negro da força e deixar a descoberto as suas falhas de carácter, sejam elas resultado de trauma ou não.

Há aquele expressão tasqueira, muito usada no futebol “os dois juntos, não fazem um”. A relação destes dois esboços de homens, aprisionados por aquilo que é esperado deles e por aquilo que a sociedade lhes permite ou não, é um bocadinho por aí. Eles não são metades que se completam, mas que se canibalizam e alimentam dos defeitos um do outro para se permitirem ser uma merda de pessoas, que não há outra forma de dizer. Tudo isto regado a uma violência desbragada que, na verdade, acaba por ser o motor para se abrirem e se vulnerabelizarem entre socos e pontapés.

Ruben é um homem diminuido pelo abuso e alimentado pela raiva. Porque prover é de homem, mas “os homens não declaram falência”. Niall é um homossexual que odeia homossexuais, que desassocia o corpo masculino da condição humana, com o impecável argumento de “não sou gay, porque não me apaixono”. Porque promiscuidade é coisa de macho, amar não.

▲ Niall (Jamie Bell) é um homossexual que odeia homossexuais, que desassocia o corpo masculino da condição humana, com o impecável argumento de “não sou gay, porque não me apaixono”. Porque promiscuidade é coisa de macho, amar não

Half Man é uma grande série, brilhantemente escrita, com interpretações geniais e uma realização que alimenta na perfeição o clima de tensão e a ameaça constante de que é feita. Richard Gadd e Jamie Bell têm uma contracena perfeita, o casting é brilhante na escolha das versões mais jovens e mais adultas dos personagens, coisa que muitas vezes é desvalorizada e prejudica a suspensão da descrença. No artigo anterior, perguntava se Gadd conseguiria ultrapassar a sua realidade retratada em Baby Reindeer, com esta ficção. Diria que só vendo no photo finish, porque não fica nada atrás. Não é uma experiência agradável, deu-me até um bocado cabo dos nervos.

Sou possuidora de valores negativos de coragem física, não sei lidar com a invasão do espaço pessoal e tremo de cima abaixo se vir alguém a ser violento com outrem. Ora, há tortura psicológica permanente, o Ruben passa 80% dos 6 episódios a centímetros da cara de Niall e o gatilho para desatar à mocada é o chamado por tudo e por nada. Um festival de masculinidade tóxica que arrasou a saúde mental dos envolvidos. O machismo não lesa só as mulheres, prejudica os homens e não é o pouco. Half Man é o retrato acabado disso.

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