1230,1kWh poupados 1230,1 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

"The Boroughs": o problema é a série ou somos nós?

Tem terror, tem coração, tem graça aqui e ali, tem um elenco de luxo, tem personagens empáticos, tem tudo o que nos fazia adorar os filmes dos anos 80. Sendo assim, o que é que falta aqui?

Alfred Molina é Sam Cooper, um viúvo que se muda a contragosto para uma comunidade de reformados e que procura desvendar o mistério que envolve uma estranha criatura e a uma possível chave para a vida eterna
i

Alfred Molina é Sam Cooper, um viúvo que se muda a contragosto para uma comunidade de reformados e que procura desvendar o mistério que envolve uma estranha criatura e a uma possível chave para a vida eterna

Alfred Molina é Sam Cooper, um viúvo que se muda a contragosto para uma comunidade de reformados e que procura desvendar o mistério que envolve uma estranha criatura e a uma possível chave para a vida eterna

Por motivos de trabalho, assisto todos os dias de camarote àquilo que os marketeers chamam de “mercado da nostalgia”. Em poucas palavras, é a mercantilização das saudades que temos da música, filmes, séries e lifestyle de quando éramos novos. As lentes rosadas dos óculos do tempo fazem tudo parecer melhor à distância e tornam quase impossível discernir se gostávamos assim tanto do Alf ou dos Erasure ou se gostávamos mesmo era de não ter dores na coluna ou chatices nas articulações.

The Boroughs, recentemente estreada na Netflix, é uma série sobre velhos, direcionada àqueles que têm saudades de ser novos. Não é um catálogo de referências aos anos 80, como Stranger Things, mas dificilmente chegará ao coração de quem não passou, literalmente, por aquela década. Mistura entre Cocoon, Steven Spielberg clássico e John Carpenter, The Boroughs passa-se numa comunidade de reformados aparentemente pitoresca, na qual um grupo de utentes descobre um monstro que lhes suga líquido cerebral durante a noite e que tem a chave para a vida eterna. Tem terror qb, tem coração, tem graça aqui e ali, tem um elenco de luxo, tem personagens empáticos com heróis e vilões claros e sem nuances. Na verdade, tem tudo o que nos fazia adorar os filmes dos anos 80. Então, porque é que não adoramos esta série? O problema é ela ou somos nós?

Dói muito, mas temos de admitir que muitas das películas de acção que se tornaram clássicos, daqueles que queremos obrigar os nossos filhos a verem (e obrigar é, geralmente, o verbo certo), têm tantos plot holes que podiam servir para escorrer esparguete. Os filmes de Indiana Jones são um exemplo clássico, mas é uma análise crítica que não queremos realmente fazer. O impacto que tiveram em nós na infância ou na adolescência deve ser cristalizado e mantido, porque o cinismo da idade adulta já não nos permite amar uma peça de entretenimento com igual desprendimento incondicional. The Boroughs tem erros de guião, alguns exageros e soluções convenientes, sobretudo na sua reta final. Tem isto em menos quantidade do que Indiana Jones, mas nós agora já não perdoamos.

A série de oito episódios tem um elenco impecável. Vejamos: Alfred Molina (vilão de Homem Aranha) como Sam Cooper, um engenheiro aeronáutico recentemente reformado e viúvo, que se muda a contragosto para a comunidade; Alfre Woodard (12 Anos Escravo) como Judy Daniels, jornalista reformada e residente da comunidade; Denis O’Hare (O Clube de Dallas) como Wally Baker, médico reformado; Clarke Peters (The Wire) como Art Daniels, marido de Judy; Geena Davis (Thelma e Louise) como Renee, outra moradora; Jane Kaczmarek (Malcom In The Middle) como Lilly, a falecida mulher de Sam e Jena Malone (a criança de Contacto) como Claire, filha de Sam. Até papeis fugazes são entregues a Bill Pullman (Dia da Independência)  ou a Ed Begley Jr. (Demónio de Saias).

A grande maioria dos atores tem, portanto, mais de 60 anos. Mas os criadores Jeffrey Addiss e Will Matthews tomaram a decisão consciente de que a idade avançada dos protagonistas nunca seria usada como punchline. Addiss afirmou mesmo que a idade das personagens “não é uma piada” e é “fundamentalmente importante” para o modo como funcionam como heróis, rejeitando diretamente o enquadramento humorístico típico do “estou demasiado velho para isto” comum em premissas semelhantes. E se o público-alvo são pessoas a envelhecer, parece-me precavido não as tornar no bombo da festa.

Um dos detalhes que mais transporta The Boroughs para os anos 80 é a banda sonora original, que remete imediatamente para o prolífico John Williams, responsável por Guerra das Estrelas, todos os Indiana Jones, Parque Jurássico, E.T., Tubarão ou Sozinho Em Casa, entre muitos outros. A série da Netflix conta com John Paesano, que já foi braço direito de Williams. O modo mais ou menos subtil como a música guia tensão, deslumbramento ou terror volta a meter-nos de calções no cinema Condes (ou semelhante, adaptem à vossa geografia). Em termos de catálogo pré-existente, The Boroughs tem Bruce Springsteen, e se o burburinho em torno da série tivesse descolado poderia ter feito por Thunder Road o que Stranger Things fez por Running Up That Hill.

Alfred Molina, Denis O’Hare, Clarke Peters, Bill Pullman, Alfre Woodard e Geena Davis: um elenco de luxo em "The Boroughs"

E porquê as comparações constantes entre esta nova série e Stranger Things? Bom, se procurarem por The Boroughs no Google, aquela opção pespineta que tenta adivinhar o que queremos efetivamente saber (com base nos temas mais pesquisados) vai questionar se estamos na dúvida de estar perante um spin of ou continuação da saga de Eleven e companhia. A resposta curta é que não, são séries diferentes de universos diferentes. A saga da comunidade de reformados foi criada por Jeffrey Addiss e Will Matthews, só que com produção executiva dos Irmãos Duffer, os criadores do maior sucesso de sempre da Netflix.

O facto de poucas pessoas estarem sequer a falar de The Boroughs quer dizer que a série falhou à partida? Bom, não necessariamente. A divulgação, sobretudo tendo em conta o elenco, tem sido deficiente, o que já deu azo a especulações online. É que já foi anunciada a saída dos irmãos Duffer da alçada da Netflix, dado que assinaram um chorudo contrato de quatro anos com a rival Paramount. Há quem fale em vingança por parte do gigante do streaming. Para já, a história da primeira temporada está fechada, com zero pontas soltas para a continuação (uma raridade). É provável que não volte. É inevitável que seja esquecível. Ao contrário daquele Indiana Jones cheio de falhas.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.