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"Millennial Mal": já vimos esta crise antes

A história de Judith, que aos 40 e pouco decide passar-se por muito menos do que isso, é luso-espanhola e está na RTP e na Filmin. Mas o tom que por vezes anda um pouco à deriva também está por lá.

A série foi criada, escrita e protagonizada pela espanhola Lorena Iglesias, que ainda assina a realização em conjunto com Andrea Jaurrieta
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▲A série foi criada, escrita e protagonizada pela espanhola Lorena Iglesias, que ainda assina a realização em conjunto com Andrea Jaurrieta

▲A série foi criada, escrita e protagonizada pela espanhola Lorena Iglesias, que ainda assina a realização em conjunto com Andrea Jaurrieta

A minha memória é quase um traço da minha personalidade. Não é que não me esqueça de nada. Aliás, os compromissos do quotidiano varrem-se-me com alguma frequência, daí viver rodeada de notas, agendas, lembretes e calendários digitais para ser uma pessoa minimamente funcional. Mas decoro coisas com relativa facilidade e guardo no disco rígido informação que muitos considerariam inútil — até porque o é. De que serve lembrar-me que o Luís Almeida, o “papa concursos”, uma vez ganhou 1000 martelinhos de São João no Um, Dois, Três? Ou ter os vencedores de todos os Big Brothers na ponta da língua? Inclusivamente, a Catarina Cabral foi a primeira mulher a ganhar e era dos Açores, ficam sabendo. Mas há coisas que eu não consigo meter na cabeça de forma nenhuma e uma delas é a minha geração.

Sou da Geração X, por uma nesga. Sempre que esta conversa vem à baila, aí vou eu ao Google para confirmar a letra que me cabe. Como acabei de fazer, note-se. Alguns dirão que é um recalcamento ou o meu inconsciente em negação quanto à minha idade. Diria que sou só eu que me dou mal com gavetas, talvez por ter uma ou outra mal fechada. E a que propósito vem isto, perguntam vocês? A propósito de Millennial Mal, a co-produção ibérica que se estreou agora na RTP e na Filmin e que foi criada, escrita e protagonizada pela espanhola Lorena Iglesias, que ainda assina a realização em conjunto com Andrea Jaurrieta. Lorena é uma rapariga da minha mocidade, mas temos dois anos de diferença. Por isso, está numa gaveta diferente da minha, mas acho que pertencemos à mesma cómoda.

A sinopse de Millennial Mal reza assim: “Judith, uma assistente de biblioteca na casa dos 40 anos, recebe inesperadamente uma bolsa a que se candidatou há vinte anos”. A série arranca em modo flashback, com aquele que poderá ser um dos piores encontrões casuais que já vi em ficção, mas a gente sabe que nem sempre há tempo para repetir takes, portanto, este há-de ter sido o melhorzinho. Segue-se uma sequência musical protagonizada por dois jovens desconhecidos (Lorena Iglesias e Afonso Laginha) em processo de enamoramento e a curtir um com o outro (era assim que se dizia na altura, lembram-se?). Estão a ver o Antes do Amanhecer do Linklater condensado num minuto? É isso, só que não é em Budapeste, é em Évora…

Na verdade não tem nada a ver, mas na minha cabeça a comparação teve graça. Ela tem collants ostensivamente rotos e usa gorro no verão. Ele vai de T-shirt tie dye e guitarra. Clássico rebeldes-sem causa-performativos à época. Judith foi parar ao Alentejo durante um interrail e deixa-se arrebatar por um português, apesar de ter uma bolsa de mérito académico à sua espera. Mas como não apaixonar, se o guapo usa táticas infalíveis de sedução, como propor-lhe ficar em Évora e pedir dinheiro ao pais para gastar “em pastéis de nata e artesanato de cortiça”? Ah, galã lusitano! E não é que resultou?

Corta para 22 anos depois e o mínimo que podemos dizer é que a realidade de Judith não é um morango. A pequena revolucionária de outrora é uma bibliotecária que partilha um apartamento e a vida sentimental com um gato. Não o português de olhos verdes doces que conheceu em Évora, um felino mesmo e vive com um azedo “E se?” pelas escolhas do passado. A vida da protagonista é um bocejo, mas em boca aberta tende a entrar mosca e a coisa piora. O gato resolve armar-se em Super-Homem, mas vai-se a ver e não voa. Ela abandona o posto de trabalho desesperada para socorrer o bicho e acaba desempregada com justa causa e com uma factura de veterinário astronómica para pagar.

A luz ao fundo do túnel é a carta que recebeu um dia antes do acidente, a comunicar a atribuição da bolsa a que tinha concorrido duas décadas antes. Desesperada resolve aceitar a proposta e quando o arco-íris parece estar a espreitar no canto do ecrã, eis que ela descobre que a bolsa é para menores de 30 anos, coño! E é assim que a milennial Judith se vê forçada a fazer um cosplay da Geração Z, que se revela quase tão desafiante em termos físicos como mentais, considerando essa tarefa hercúlea que é interagir com gerações abaixo. A bibliotecária enterrada num guichet da função pública está tão longe dos seus futuros colegas da Faculdade de Geografia e História como o nosso ministro da Educação está da vergonha na cara.

▲ Sofia e Claudia (Paula Gala e Victoria Oliver), duas universitárias on trend, vão fazer os possíveis para ajudar Judith a fazer esta viagem no tempo que é um vai e vem

Sofia e Claudia (Paula Gala e Victoria Oliver), duas universitárias on trend, vão fazer os possíveis para ajudar Judith a fazer esta viagem no tempo que é um vai e vem. Voltar atrás para recuperar o frescor dos 20 anos na cara e seguir em frente para fazer o download deste admirável mundo novo em que os hábitos mudaram, a linguagem mudou e é imperativo andar com um copo térmico gigante de preço inflacionado. Nos entretantos, Judith vai encontrar um dentista divorciado (Vito Sanz), pai de uma adolescente que o está a tentar tornar num homem desconstruído. Com a ajuda de uma app. Enquanto um se descontrói, a outra está a construir uma fachada, de maneiras que o timing pode ser um dos seus desafios.

Ao longo dos 5 episódios, vemos Judith a confrontar-se com o seu envelhecimento, e a dada altura deixa-se engolir pela personagem que inicialmente criou apenas para fugir à falência, acreditando que a juventude é uma coisa que se pega como a mononucleose, nos tempos em que se passavam horas num banco de jardim a dar linguadões. E por isso, afasta-se da sua amiga de sempre, que está a passar por uma gravidez tardia, não tem pejo de a chamar ao ridículo e lembra-a que ela é uma adulta. É para mim a melhor personagem da série e, curiosamente, é a estreia da comediante Isa Caldéron na representação — deixa um cheirinho a Almodovar sempre que entra em cena. O elenco conta com três belos atores portugueses, Helena Caldeira, Afonso Laginha e Afonso Pimentel, mas é daquelas coisas: a culpa não é deles, é dos bonecos que lhes deram, especialmente no caso dos Afonsos.

▲ Ao longo dos 5 episódios, vemos Judith a confrontar-se com o seu envelhecimento, e a dada altura deixa-se engolir pela personagem que inicialmente criou apenas para fugir à falência

Millennial Mal faz uso de clichés cómicos atuais, mas batidos: a ridicularização dos “jovens de hoje em dia”, o wokismo e o ativismo visto de forma caricatural, o “agora já não se pode dizer nada”. Ao mesmo tempo, tem uma estrutura formulaica um pouco datada. Daquele filme de matiné, que anda a ser replicado desde os anos 80, pelo menos. Na verdade, a construção da narrativa é muito mais de longa-metragem que outra coisa qualquer, mas o cinema sai mais caro, bem sei. É aquele arco da impopular que consegue chegar ao Olimpo dos fixes e a dada altura se distancia de quem realmente é para no fim se redimir e receber de prémio um final feliz. Faz lembrar bastante o Never Been Kissed da Drew Barrymore. Tem qualquer coisa de Freaky Friday e sucedâneos em que a pessoa mais velha se volta a ver jovem e com um mundo de oportunidades que eventualmente desperdiçou. E tantos outros títulos que eu papava no sofá ressacada, quando era mais nova — num domingo à tarde, logo depois da Buffy, a Caçadora de Vampiros.

O tom de Millennial Mal anda ali um bocadinho à deriva. Por vezes, tenta fazer umas aproximações ao nonsense, mas acho que fica só meio sem sentido. No entanto, é capaz de bem dispor e acredito que possa haver quem se identifique com a Judith, apesar de todo o exagero. Eu também vivo a sugar a energia juvenil que me rodeia, para me sentir menos caquética. Os meus filhos que o digam. Foi nos momentos que me parecem mais sinceros e menos histriónicos que mais sorri. Não sei se isso é bom sinal para uma comédia. Se calhar é o gap geracional. Se calhar, se fosse milennial tinha gostado mais.

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