Depois de Natal Amargo, de Pedro Almodóvar, e Digger, de Alejandro González Iñárritu, Histórias Paralelas, do iraniano Asghar Farhadi (Uma Separação, O Passado, Um Herói), rodado em França, é o terceiro filme a estrear-se que assenta numa meta-narrativa e usa o cruzamento entre realidade e ficção como matéria-prima. Histórias Paralelas é uma versão livre de um dos episódios de O Decálogo, do polaco Krzysztof Kieslowski (Farhadi tinha recusado fazer uma nova série baseada nestes), e ia ser filmado nos EUA. Mas o realizador decidiu que não fazia sentido que a história se passasse num ambiente americano, e mudou-a para França, num bairro de Paris (a banda sonora é de Zbigniew Preisner, habitual colaborador de Kieslowski).

[Veja o “trailer” de “Histórias Paralelas”:]

Isabelle Huppert é Sylvie, uma escritora excêntrica e sem família, tirando uma sobrinha, Laurence (India Hair), que, como muita resistência da tia, lhe arranja uma pessoa para a ajudar no dia-a-dia, Adam (Adam Bessa), um jovem sem-abrigo. Da janela de sua casa, Sylvie espia, num prédio vizinho, um outro apartamento que serve de estúdio de efeitos sonoros para cinema e televisão, e onde trabalham Pierre (Vincent Cassel), o seu irmão mais novo, Christophe (Pierre Niney) e Nita (Virginie Effira). E começa a imaginar o enredo do seu novo livro baseando-se neles. Ao mesmo tempo, Adam, atraído por Nita, mete conversa com ela fingindo ser escritor e, sem autorização de Sylvie, mostra como sendo seus manuscritos da autora para tentar cativar a rapariga.

Tendo em conta a brilhante filmografia de Asghar Farhadi, sobretudo as fitas realizadas no seu Irão natal (e onde não voltará a trabalhar enquanto o uso do hijab seja obrigatório nos filmes e nas séries, segundo declarou no Festival de Cannes, em que Histórias Paralelas competiu), poderíamos pensar que ele seria o realizador ideal para injetar frescura e originalidade nas já bastante fatigadas premissas da realidade que irriga a ficção e vice-versa, e da legitimidade do artista para usar pessoas reais como modelos para accionar a criatividade. Infelizmente, Farhadi não consegue fazer nada de novo.

[Veja uma entrevista com Isabelle Huppert:]

Histórias Paralelas é penoso e maçudo, crivado de lugares-comuns sobre o funcionamento da imaginação, a dualidade real/fantasia ou a admissibilidade do voyeurismo e do vampirismo do escritor, inscritos num enredo com pretensões de densidade dramática e de meditação ética, mas que se fica por uma banalidade e uma superficialidade telenovelescas, ausentes que estão o sentido de observação humana e social, e de reflexão moral que são o condimento do cinema de Farhadi. O argumento até introduz a certa altura um elemento #MeToo forçado e ridículo, quando Christophe tenta, desastradamente, seduzir Nita por influência da história urdida por Sylvie.

O elenco reunido por Asghar Farhadi é impressionante, mas completamente subaproveitado, em especial Isabelle Huppert na caricatural Sylvie (nem falemos no desastroso Adam Bessa, que só sabe encolher-se e fazer carinhas). Catherine Deneuve tem uma breve participação no papel da agente literária da escritora, e introduz uma nota de leveza, de descontracção e de humor, qualidades de que este pesadão, rígido e macambúzio Histórias Paralelas bem precisava. É o terceiro filme que Farhadi faz na Europa (e o segundo em França), após O Passado e Todos Sabem, e sem dúvida o pior e mais incaracterístico. E não lhe fica nada bem invocar Krzysztof Kieslowski para depois apresentar uma pepineira destas.