O Prémio Gulbenkian Património vai ser esta terça-feira atribuído à proposta do arquiteto Nuno Valentim para reabilitar a sede da Biopolis, em Vila do Conde, que transformou uma antiga quinta numa infraestrutura científica contemporânea que mantém e respeita a herança agrícola.

“Este tipo de centro de investigação está normalmente associado a estruturas de alta tecnologia (high-tech), de espaços de grande sensibilidade laboratorial, científica, técnica. Não é expectável entrar num conjunto agrícola e ver que o laboratório de DNA antigo — e os investigadores vestidos de escafandro da cabeça aos pés — estão dentro de um sequeiro [espaço secundário de um conjunto agrícola]”, descreveu à Lusa Nuno Valentim, que recebe às 15h00 o Prémio Gulbenkian Património — Maria Tereza e Vasco Vilalva de 2026, na reabilitada Quinta de Crasto — Sede da Associação Biopolis, em Vairão, Vila do Conde, distrito do Porto.

De acordo com o arquiteto, “há uma permanência de linguagens e edifícios, mas também uma enorme atualização e transformação em grande respeito por essa herança, por esses valores já presentes”. “O professor Fernando Távora chamar-lhe-ia continuar inovando”, observou.

Para Nuno Valentim, foi “determinante” para a atribuição do prémio o facto de a Quinta de Crasto apresentar “um novo caminho” para este tipo de conjuntos agrícolas, “enunciando uma nova possibilidade ligada ao conhecimento, a várias disciplinas”.

“Estes espaços não necessitam de estar todos destinados a ser pousadas ou hotéis”, vincou.

O arquiteto destacou que, embora seja um centro de investigação de biologia e biodiversidade, o “grande mentor” do projeto — Nuno Ferrand de Almeida, diretor da Biopolis — “fez sempre questão de envolver outras disciplinas, nomeadamente a arquitetura, a arquitetura paisagista, o design, a engenharia e a arqueologia, que vai poder utilizar o laboratório de DNA antigo”.

Este espaço “será, em Portugal, a mais importante infraestrutura deste tipo”, de acordo com Nuno Valentim.

O conjunto agrícola continua composto pelo Palacete Senhorial, “agora reconvertido em espaços ligados à administração, às zonas de convívio dos investigadores, espaços de reunião e salas”.

A zona de cobertos, onde era feita a seca e o arrumo das alfaias agrícolas “está reconvertida numa sala polivalente e em salas para os investigadores”, descreveu.

“A Casa da Eira e a Eira, que nós designámos por Eira Científica, porque é o ponto de encontro de todos os cientistas”, acrescentou.

A antiga Casa dos Caseiros e as oficinas são “espaços de laboratórios secos” e as antigas cortes dos animais “estão transformadas em laboratórios dedicados às plantas”.

“É muito interessante perceber que este conjunto vernacular se pode transformar numa nova infraestrutura de conhecimento, de ciência e transdisciplinar”, sublinhou, agradecendo o “reconhecimento extraordinário de enorme peso, relevância cultural e também financeira”.

De acordo com o júri do Prémio, a candidatura destacou-se pela “excecional qualidade patrimonial dos restauros do edificado”, assim como pela “profunda e dinâmica pluridisciplinaridade e o relacionamento ativante [da Associação Biopolis] com as expectativas do território envolvente”, descreve a Fundação Calouste Gulbenkian, numa informação escrita enviada à Lusa.

Para o júri, a transformação do espaço num centro de investigação mantém, “quase naturalmente, a memória viva das funcionalidades de uma quinta de grande dimensão”.

O júri, composto por António Lamas (presidente), Gonçalo Byrne, Raquel Henriques da Silva, Rui Vieira Nery e Santiago Macias, propôs ainda a atribuição de três menções honrosas: a reabilitação da Casa Cedo, na Rua da Cedofeita, no Porto, a reabilitação da Casa d’Abreu Neto, em Matosinhos, e a do antigo Telheiro do Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda — Sala Estúdio Valentim de Barros, em Lisboa.