Sangue azul,
um bispo vigiado
pela PIDE
e dois adversários presidenciais.
O que se encontra
na árvore genealógica
de André Ventura
Quando Ventura Domingues nasceu, em finais do século XVII, algures numa das muitas aldeias da região que corresponde hoje a Castanheira de Pera e Lousã, estaria longe de imaginar que o seu octaneto seria, em 2025, líder do maior partido da oposição e candidato às eleições presidenciais mais disputadas em 40 anos. Como em tantos outros casos da história, “Ventura”, o apelido de batismo do líder do Chega, nem sequer nasceu para o ser: é derivado do nome próprio de um antepassado do candidato.
A poucas semanas das eleições presidenciais, as únicas em que os eleitores são chamados a escolher uma pessoa concreta e não um partido ou um movimento político, o Observador traçou a árvore genealógica dos principais candidatos presidenciais para conhecer a história familiar de cada um. Através de uma parceria com a Associação Portuguesa de Genealogia, que desenvolveu a investigação histórica e científica, foi possível recuar vários séculos para descortinar a sucessão de acasos históricos e familiares que conduziram ao nascimento de cada um dos candidatos.
No caso de André Ventura, nascido no início da década de 1980 e natural de Algueirão-Mem Martins, Sintra, é possível encontrar um padrão comum a muitas outras famílias: a distribuição geográfica da sua ascendência reflete o grande movimento migratório das zonas rurais para as cidades, e em particular para Lisboa, que se verificou ao longo do século XX.
Mas à medida que recuamos no tempo, encontramos ligações a dois dos seus maiores adversários nesta corrida presidencial. E também não é de descartar a possibilidade de uma relação familiar entre Ventura e o atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.
O candidato presidencial tem ainda ligações a um dos mais notáveis apoiantes de D. Miguel durante a Guerra Civil portuguesa e a um clérigo que, tendo sido sempre considerado um ultraconservador no pós-25 de Abril, chegou a ser perseguido pela PIDE durante o Estado Novo e a ser chamado de “bispo revolucionário”.
Para encontrar o apelido “Ventura” é preciso recuar até Ventura Domingues, nascido por volta de 1695. “Ventura” nasce de uma derivação de um nome próprio.
Ventura Domingues casaria com Clara Simões e teria como filho Manuel Ventura, o primeiro a usar este apelido, algures no início do século XVIII. Nasceu e casou na Lousã.
O apelido Ventura poderia ter sido interrompido quando Maria do Carmo teve um filho de pai incógnito. Ainda assim, Abílio Ventura, bisavô do candidato, acaba por ser registado com o apelido da mãe, garantindo-se, dessa forma, a continuidade da linhagem.
Abílio foi o terceiro da família a nascer já em Castanheira de Pêra, depois de várias gerações na Lousã. E é Abílio o primeiro a fixar-se em Lisboa. Casa com América da Soledade Alves e têm como filho Serafim Alves Ventura, já nascido em São Sebastião da Pedreira. Serafim será pai de João Manuel e avô paterno de André Ventura.
A antepassada mais antiga de André Ventura que foi possível documentar foi a sua 12.ª avó, Vitória Martins, que em finais do século XVI vivia com o seu marido, Aleixo Pires, no lugar da Várzea de Pedro Mouro, freguesia de Cernache de Bonjardim (Sertã).
Vitória Martins é o primeiro nome da linha feminina pura do candidato, que, do ponto de vista genético, está associada à transmissão do ADN mitocondrial de que o mesmo é portador.
Este ramo da família só deixaria a Sertã quando Maria Joaquina casou com Manuel Luís Ramos da Cruz, em 1923. Os dois seriam pais de Alcinda da Cruz, avó de André Ventura, já nascida em São Sebastião da Pedreira, Lisboa.
Com 19 e 20 anos, respetivamente, Armando Claro e Alcinda Cruz casam e são depois pais de Ana Maria da Cruz Claro, mãe de André Ventura. Já perto do final da década de 1970, Ana Maria casaria em Sintra com João Manuel dos Santos Ventura, pais de André Ventura. O casal acabaria por divorciar-se anos mais tarde.
Tal como “Ventura”, o “Claro” deriva do nome próprio da sexta avó do candidato Clara de Barros, nascida cerca de 1765 no lugar de Vale das Velhas, freguesia de Abiul (Pombal). Clara teve um filho de pai incógnito que veio a chamar-se Manuel António Claro. Os “Claro” viveram em Abiul até ao início do século XX.
Manuel António Claro, bisavô do candidato, ainda casou em Abiul, em 1923, mas o filho Armando, avô de André Ventura, nasceria já em Lisboa, em 1934.
Por esta altura, os quatro futuros avós de André Ventura já casaram ou são naturais de Lisboa, provando esse mesmo fluxo migratório que se verificou ao longo do século XX. Parte dos Ventura (Lousã), dos Amaral (Covilhã), dos Claro (Pombal) e dos Cruz (Sertã) rumaram à capital.
Mas se seguirmos a linha dos “Amaral” vamos encontrar a primeira ligação de André Ventura a um ‘notável’. Tudo começa com o pai do candidato, João Ventura.
À medida que seguimos as gerações anteriores, vamos encontrar Manuel Pais, o Panege, que casou com Eufémia Francisca, ambos do concelho de Viseu, mais concretamente de Silgueiros, e nascidos em finais do século XVII.
Ana Francisca, uma das filhas do casal, vai originar o ramo que conduz até André Ventura.
A família continuará a crescer até chegar a Maria Serra Soares de Figueiredo, que casa com António do Amaral Delgado. É a partir destes sextos avós de André Ventura que a linha deste parentesco coincide com a do apelido Amaral.
Mas o casal Manuel Pais, o Panege, e Eufémia Francisca não teve apenas uma filha. Teve também Maria Francisca Pereira, que vai dar origem a um ramo da família que se manteve por quase 200 anos em Silgueiros.
Em 1878 nasce, precisamente em Silgueiros, Álvaro de Melo Borges, avô de Henrique Gouveia e Melo.
Álvaro de Melo Borges tem como filho Manuel Henriques Gomes de Frias de Melo e Gouveia, que casa em Lisboa com Maria Helena Pereira Passaláqua. Em Moçambique, o casal vê nascer Henrique Gouveia e Melo.
Tudo somado, Manuel Pais, o Panege, e Eufémia Francisca são sétimos avós de Henrique Gouveia e Melo e nonos avós de André Ventura.
O mais curioso é que a ligação entre os dois candidatos não se esgota aqui. Seguindo a linha da mãe de Ventura é possível encontrar o avô materno, Armando António Claro.
A partir daí vamos recuar até Joaquina Dias, nascida em Arganil em 1860.
Seguindo os antepassados de Joaquina Dias chegaremos, sempre em Arganil, a um casal: Simão das Neves e Maria das Neves.
Simão e Maria terão duas filhas: uma com o nome da mãe, Maria, e a outra batizada com o nome de Bebiana. Ora, Henrique Gouveia e Melo descende da linha familiar da primeira filha do casal Maria; e André Ventura, cujos ascendentes deixaram mais cedo Arganil, descende de Bebiana.
Neste caso, Simão das Neves e Maria das Neves são oitavos avós de Henrique Gouveia e Melo e nonos avós de André Ventura.
Mas importa fixar mais uma vez o casal Simão e Maria das Neves.
É que José Acúrsio das Neves, o político e historiador dos séculos XVIII e XIX, destacado miguelista durante a guerra entre absolutistas e liberais, é sobrinho-neto de Simão. O que faz dele parente de André Ventura e Henrique Gouveia Melo.
Vamos agora encontrar um novo notável familiar André Ventura.
Para isso, é preciso voltar à mãe do líder do Chega, Ana Maria da Cruz Claro, e à árvore principal dos ascendentes de Ventura.
Desta vez, recuemos até António Antunes, tetravô materno de André Ventura, nascido na Sertã, em 1835.
Aqui vai ser possível recuar até ao século XVIII e encontrar um casal nascido em Dornes, Ferreira do Zêzere, de seu nome Miguel Antunes de Sousa e Luzia Maria da Conceição.
Este casal tem dois filhos: Maria Luísa (ou Luzia) e Manuel Antunes. A primeira casará, em 1797, com um tal de António Cotrim. O segundo casará com Antónia Maria.
Não é difícil adivinhar o resto: Miguel e Luzia são sextos avós de João Cotrim de Figueiredo e sétimos avós de André Ventura.
Mas, da mesma maneira que Ventura tem duas ligações a Gouveia e Melo por vias distintas, também as tem com Cotrim Figueiredo — o que lhe dá, aliás, sangue real. E, mais uma vez, através da mãe, Ana Maria da Cruz Claro.
Olhemos para o bisavô materno de André Ventura, Manuel Luís Ramos da Cruz.
Se seguirmos esse ramo da família, vamos perceber que também ele é parente afastado de António Rodrigues Cotrim, trineto do patriarca Jaime Cotrim Canas, nobre inglês que chegou ao país com a comitiva de D. Filipa de Lencastre no século XIV e que está na origem do apelido.
Quer isto dizer que Ventura é duplamente aparentado com o adversário: quer pela ligação aos Sousa, quer pela ligação mais antiga aos Cotrim.
Existe ainda um outro notável na ascendência de André Ventura.
O líder do Chega é parente do antigo Arcebispo de Braga D. Eurico Dias Nogueira.
D. Eurico Dias Nogueira
Seguindo a linha da trisavó de Ventura (pelo lado da mãe), encontramos Joaquina Dias, a última nascida em Sarzedo, Arganil.
Recuando mais de 200 anos é possível encontrar, na Pampilhosa da Serra, o casal Simão Manuel e Maria Fernandes. Terão três filhos: Domingos Simão, Isabel Simão e Catarina Simão Fernandes.
A linha de André Ventura provém de Domingos Simão.
O Arcebispo D. Eurico Dias Nogueira descende de duas filhas dos antepassados comuns, Isabel Simão e Catarina Simão Fernandes, cujos ramos se voltariam a cruzar 150 anos depois.
Dois descendentes do casal — Joaquim Nogueira e Antónia Maria de Almeida — são, na verdade, bisavós do bispo.
D. Eurico Dias Nogueira foi uma voz incómoda durante o Estado Novo. As intervenções públicas em Moçambique e mais tarde em Angola valeram-lhe a atenção da PIDE, que suspeitava das simpatias políticas do bispo. Ficou logo rotulado como comunista, epíteto que sempre recusou.
D. Eurico Dias Nogueira
Anos mais tarde, já em democracia, criticou publicamente José Saramago, “um ateu confesso e comunista impenitente”, autor de um livro — O Evangelho Segundo Jesus Cristo — “blasfemo, espezinhador da verdade histórica e difamador dos maiores personagens do Novo Testamento”.
"O Evangelho segundo Jesus Cristo" de José Saramago - primeira edição 1991
Simão Manuel e Maria Fernandes são, portanto, duplos sétimos avós de D. Eurico Dias Nogueira e décimos avós de André Ventura.
No final, uma surpresa: este ramo de ascendência aponta para uma possível ligação familiar ao Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.
A filiação de Simão Manuel não é conhecida, mas existe uma elevada probabilidade de os seus pais serem António Manuel e Águeda Antunes, que viveram em Ceiroco no início do século XVII. Marcelo Rebelo de Sousa é comprovadamente décimo neto de António Manuel e Águeda Antunes através de um dos ramos da sua ascendência materna.
André Ventura e Marcelo Rebelo de Sousa
A árvore genealógica de André Ventura, traçada pela Associação Portuguesa de Genealogia, mostra muito dos ascendentes do líder do Chega e do agora candidato presidencial.
Nessa lista, encontramos ligações a dois adversários, a uma figura importante da história recente da Igreja Católica portuguesa e um possível (mesmo provável) vínculo familiar a Marcelo Rebelo de Sousa.
Ao contrário do que aconteceu com os seus adversários, André Ventura não se mostrou disponível para responder a uma pequena entrevista sobre a sua árvore genealógica e participar na reportagem do Observador.