Vivem cerca de 1,6 milhões de imigrantes em Portugal. Os dados da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) são de abril deste ano. Em 2023, cerca de 75 mil de portugueses decidiram fazer o caminho inverso à procura de melhores condições de vida noutros países. Com várias pessoas de diferentes nacionalidades e culturas a entrar no país — e com milhares de cidadãos a sair todos os anos —, muitas vezes a questão tem dominado o debate público: será a imigração positiva ou negativa?
Existe uma grande diáspora portuguesa espalhada um pouco por todo o mundo. Este tem sido um hábito frequente ao longo das últimas décadas e, hoje em dia, uma grande parte dos jovens equaciona organizar a vida no estrangeiro, seja por estar à procura de experiências novas ou por necessidade. Ao mesmo tempo, e numa altura em que se fala em crise demográfica e na dificuldade de países como Portugal em garantir a renovação das gerações, os mais novos admitem que casar e ter filhos faz parte dos seus planos num futuro próximo.
Estes e outros dados surgem no inquérito feito em parceria com a Netsonda, e que se debruça sobre vários temos sociais. Cruzando informação recolhida em seis regiões do território continental (Grande Lisboa, Grande Porto, Litoral Centro, Litoral Norte, Interior Norte e Sul), e analisando as respostas dadas pelas diferentes gerações, estes são os principais resultados.
Maioritariamente neutros sobre imigração, jovens que querem “escapar” do país e o “problema grave” do racismo
A temática da imigração tem estado sob os holofotes mediáticos e na lista de prioridades de várias intervenções políticas ao longo dos últimos tempos. De um lado, argumenta-se com a sobrecarga dos serviços nacionais, devido ao elevado fluxo migratório que tem vindo a surgir em Portugal; ao mesmo tempo exploram-se as diferenças culturais e religiosas que, para uns, são incompatíveis com as tradições nacionais. Do outro lado, defende-se que a presença de diferentes nacionalidades no nosso país enriquece a cultura, que a mão de obra é fundamental para a nossa economia e que são recebidos de braços abertos aqueles que procuram em Portugal uma vida melhor.
A maior parte da população portuguesa situa-se no meio destas duas perspetivas: 58% dos inquiridos não vêem a imigração de forma positiva ou negativa, mas sim neutra, considerando que o seu impacto na sociedade depende do contexto. Para Jorge Vala, sociólogo e investigador no Instituto de Ciências Sociais, o posicionamento social relativamente à entrada de população estrangeira no país depende de quatro vetores: “As dinâmicas político-partidárias”, “as políticas públicas relacionadas com o problema da imigração”, “os valores dos nacionais dos países de acolhimento” e, ainda, “as crenças das pessoas que imigram”.
Na população inquirida pela Netsonda, 24% acreditam que a imigração tem um impacto positivo na sociedade e enriquece o país, com apenas 16% a admitir ter uma visão negativa sobre a imigração, referindo que traz mais problemas que vantagens para os cidadãos do país em questão. “Quando se pergunta, a nível europeu, qual é o número de imigrantes no respetivo país, as pessoas exageram sempre. Dizem que há mais do que aqueles que efetivamente residem no país. Isto é um indicador indireto de uma reação menos positiva face aos imigrantes em geral”, sublinha Jorge Vala.
Neste sentido, o sociólogo afirma que aqueles que têm uma visão negativa sobre a imigração acabam por ter em conta três aspetos que estruturam o pensamento. “Uma que tem a ver com o que chamamos de ameaça económica; outra de ameaça à identidade; e ainda outra de ameaça à segurança individual”, destaca, referindo que a “perceção de ameaça à segurança individual tem crescido ligeiramente” ao longo das últimas décadas. Jorge Vala acrescenta, ainda, que na sua maioria os cidadãos têm resistido à pressão incutida pela agenda política e mediática, que “colocou a imigração como a grande questão que a Europa tem para digerir”.
“Não é uma das prioridades das pessoas”, explica Jorge Vala, descrevendo os resultados dos últimos dados do Eurobarómetro, com periodicidade bianual, que vê questões como o “bem estar económico, a guerra ou a saúde” como principais preocupações das populações europeias, sempre à frente do tema da imigração.
No outro lado desta moeda, 57% dos inquiridos pela Netsonda admitem que já pensaram em emigrar — com a maioria a admitir que já tem planos nesse sentido, ou que pretende fazê-lo no futuro, ainda que não tenha um plano concreto já delineado (38%). Maria Filomena Mendes, professora no departamento de Sociologia da Universidade de Évora, acredita que o número elevado de portugueses com planos para emigrar acaba por refletir a opinião relativamente pacífica relativamente à imigração. Sublinha, também, que a Geração Z é a mais representada entre aqueles que querem sair de Portugal à procura de melhores condições, com 75% dos jovens até aos 28 anos a admitirem já ter considerado fazê-lo.
Entre algumas correntes de pensamento político, começou a crescer a teoria da “Grande Substituição”. Esta teoria afirma que as populações de etnia caucasiana — neste caso, europeias, mas na sua génese os franceses — estão a ser substituídas por povos não europeus, tanto em questões culturais como demográficas. O número de subscritores desta teoria continua a ser uma percentagem residual da população, mas os comportamentos discriminatórios contra os grupos de diferentes etnias ou imigrantes acabam por se fazer notar.
Assim, existindo uma variada representação cultural e étnica em Portugal, seja de pessoas vindas das antigas colónias portuguesas em África, do Brasil, ou de países como a Índia e o Bangladesh — que mais recentemente começaram a procurar Portugal como local de trabalho e habitação —, os portugueses admite a existência de atitudes discriminatórias dirigidas a estes grupos sociais.
Metade dos inquiridos considera o racismo um problema “grave” na sociedade portuguesa, sendo esta perceção mais acentuada entre as mulheres (58%) que entre os homens (42%). Por outro lado, 31% admitem que o racismo ainda existe, mas que esse problema tem vindo a atenuar-se ao longo dos anos e que a população se tem vindo a tornar cada vez mais tolerante à diversidade populacional. Outros 18% consideram que se trata de episódios pontuais e pouco relevantes. As gerações mais velhas (30% dos Baby Boomers e 22% da Geração X) são as que apontam valores menos revelantes sobre a existência destes comportamentos na sociedade portuguesa; em contraste, os grupos mais jovens consideram que atitudes discriminatórias são frequentes em Portugal.
Na ótica dos inquiridos, os imigrantes (58%) e as pessoas de diferentes etnias (52%) são os principais alvos de discriminação. A comunidade LGBTQ+ (41%) também é nomeada com um dos grupos mais atingidos por comportamentos discriminatórios, seguidos das pessoas com deficiência (32%), idosos (27%) e mulheres (26%).
Jovens menos religiosos, mas interessados em meditação guiada e outras atividades espirituais
A sociedade portuguesa tem vindo a tornar-se cada vez mais diversa. Não só em termos étnicos e culturais, mas também com o fluxo de imigrantes que se tem vindo a manifestar em Portugal, as religiões também são um ponto fundamental das diferentes comunidades. Da população que respondeu ao estudo, 70% afirmaram ter alguma crença religiosa, sendo o catolicismo a corrente mais comum (55%). Os cristãos não católicos também estão representados (13%), e outras religiões como o Judaísmo ou o Islão surgem com percentagens residuais no inquérito da Netsonda. Contudo, 26% referem não se identificar com qualquer um destes grupos religiosos, optando por apresentar-se como ateus ou agnósticos.
Destes, os mais representados são os mais jovens. Entre os 18 e 28 anos, 34% da população enquadra-se no grupo não religioso, onde apenas 22% dos mais velhos se inserem. Dos que se identificam com uma corrente religiosa, a maioria é praticante ocasional (42%), apesar de os critérios para se considerarem praticantes variarem de pessoa para pessoa. 16% admitem ser não praticantes e outros 16% dizem praticar de forma frequente a respetiva religião, com os restantes a fazerem-no com pouca regularidade.
Apesar de os jovens serem os menos envolvidos no mundo religioso, são aqueles que mais praticam atividades espirituais alternativas, como a meditação guiada e mindfulness (24%) ou sons de cura (10%). De uma forma geral, uma grande parte da população (65%) não se envolve nestas práticas, mas daqueles que o fazem, nota-se que a meditação é a mais comum (17%), especialmente nos grandes centros urbanos de Lisboa (23%) e do Porto (21%).
Também se destacam a música ambiente e sons de cura, como taças tibetanas (12%), o Reiki e terapias energéticas (11%), o uso de cristais e aromaterapia (9%), a astrologia e numerologia (8%), bem como a prática de tarot e oráculos (5%). Por fim, 3% referem realizar canalização de entidades espirituais. A análise por género revela diferenças significativas: os homens demonstram muito menos interesse pela prática de atividades espirituais do que as mulheres – 75% dos homens não as praticam, face a 57% das mulheres.
Os encontros em discotecas e o crescente desinteresse pelo casamento
Metade dos inquiridos estão casados ou em união de facto. Destes, predominam naturalmente as gerações a partir dos 28 anos. O estudo indica que daqueles que já constituíram matrimónio, o mais comum (34%) é terem conhecido o(a) respetivo(a) parceiro(a) através de familiares ou amigos em comum. O contexto educativo também é relativamente habitual, com 21% dos participantes a contar ter conhecido o cônjuge seja na escola ou na universidade, com apenas 15% a apontar para o local de trabalho.
Quando começaram as diferentes gerações?
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Geração Z — 1997 a 2012
Millennial — 1981 a 1996
Geração X — 1965 a 1980
Baby Boomers — 1946 a 1964
Destes últimos, a percentagem é mais elevada entre a Geração X do que nas restantes, em particular os Millennials, havendo uma diferença significativa do peso que este contexto tem para abrir as portas para uma relação (19% vs 9%, respetivamente). Para Maria Filomena Mendes, professora no departamento de Sociologia da Universidade de Évora, este fenómeno explica-se pela circunstância de a geração que vai dos 29 aos 44 anos ter “entrado mais tarde no mercado de trabalho”.
Os Millennials são os que “saíram mais tarde de casa dos pais, que deixaram de estudar mais tarde” e, por isso, acabam por ter um menor “contacto em termos profissionais”, seja do ponto de vista do conhecimento e da experiência no meio laboral, como também nas relações interpessoais com os colegas de profissão. Com a tendência de se vir a casar cada vez mais tarde, é mais comum que os Millennials que já casaram estarem com uma pessoa que conheceram antes de entrar no mercado de trabalho ou num ambiente externo, enquanto aqueles que continuam solteiros, à partida, terão uma maior probabilidade de vir a casar com alguém que conheceram no contexto laboral.
Como conheceu o seu marido/mulher ou companheiro?
Geração Z
(18 - 28 anos)
Millennials
(29 - 44 anos)
Geração X
(45 - 60 anos)
Boomers
(61 - 64 anos)
Outros ambientes mencionados incluem os encontros em restaurantes, bares ou discotecas, que representam 11% de todos os casamentos nesta população. Enquanto este cenário é uma realidade para apenas 1% daqueles que vivem na Grande Lisboa, a prática é mais comum no Interior Norte (16%) e no Litoral Centro (14%). No território em geral, existem ainda os 8% que recorreram às redes sociais e 4% que utlizaram aplicações de encontros como o Tinder ou o Bumble, por exemplo. Apesar de não ser uma percentagem muito significativa, é de notar que as gerações mais jovens são as que mais usam estas ferramentas digitais para encontrar uma relação.
Se 52% estão casados ou a viver em união de facto, será que os restantes 48% têm a intenção de seguir o mesmo caminho? A resposta, de uma forma geral, não é linear. Uma das metades divide-se entre a indecisão (15%) e a certeza de que não quer casar no futuro (36%). Os outros 49% admitem que gostavam de vir a fazê-lo nos próximos dois anos (15%) ou então mais tarde (34%), mas sempre com a intenção de vir a fazê-lo algures no decorrer da sua vida.
60% dos homens inserem-se no grupo que tem o desejo de casar, enquanto apenas 40% das mulheres seguem a mesma linha de pensamento. A maioria da população mais jovem, no entanto, que vai dos 18 aos 28 anos, quer casar algures no seu futuro não imediato, com 58% a manifestar esta intenção em resposta ao inquérito da Netsonda. Quando comparadas as respostas entre os diferentes escalões de rendimentos, nota-se que 49% daqueles que recebem menos de mil euros por mês não têm intenção de casar. Em contraste, 22% das pessoas com rendimentos mensais superiores a três mil euros tem a mesma resposta.
Mais de metade dos jovens quer vir a ter pelo menos dois filhos no futuro
Estejam já casados, sejam solteiros com a intenção de casar ou simplesmente solteiros, no que diz respeito à constituição de família, 58% dos inquiridos afirmam ter filhos. O mais comum é ter um filho único (49%) ou dois (41%). As famílias numerosas estão em minoria na sociedade portuguesa, com apenas 9% da população a ter três ou mais filhos. O número de nascimentos tem vindo a diminuir de uma forma gradual nos vários países europeus, como revelam dados do Eurostat.
Por volta de 2010, nasciam perto de cinco milhões de bebés por ano. Em 2023 (o último ano contabilizado pelo organismo europeu), o número de nascimentos não chegou aos quatro milhões. De acordo com os dados do inquérito da Netsonda, apesar de ser uma minoria da população aqueles que não têm filhos, a maioria destes tem a intenção de vir a ter pelo menos um no futuro. 17% pretendem ter apenas um filho, mas 39% gostariam de ter dois.
Como explica Maria Filomena Mendes, é um sinal positivo as pessoas continuarem a manifestar o desejo de vir a ter filhos no futuro. Ainda assim, sublinha a professora de Sociologia, há uma grande diferença entre desejo, intenção e até mesmo a concretização. 58% da Geração Z admite querer ter dois filhos no futuro e, para Maria Filomena Mendes, estes são aqueles que — com maior probabilidade — podem vir efetivamente a concretizar as suas intenções.
Ainda entre aqueles que não têm filhos, 32% confirmam que não têm qualquer intenção de vir a ter no futuro. Deste grupo, destaca-se que mais mulheres admitem não querer filhos (37%) comparativamente aos inquiridos do género masculino (26%). As gerações mais representadas são os Millennials e a X, os que vão entre os 29 e os 60 que, segundo a especialista consultada, “são aqueles que ao dizer que não têm intenção de ter filhos, são os que mais probabilidade têm de efetivamente não vir a ter”.
“Tem se vindo a adiar a idade em que se constitui família”, sublinha Maria Filomena Mendes, referindo que, por este motivo, mesmo que a intenção seja de vir a ter dois ou mais filhos, que surgem diferentes questões à medida que uma pessoa vai envelhecendo, sejam “questões de infertilidade” ou até crises económicas que afetam a generalidade do país e, consequentemente, “a perceção relativamente ao futuro”. “Por exemplo, as pessoas ficam desempregadas ou têm maior receio do que poderá acontecer em termos da economia do país nos próximos anos e, por estas razões, podem acabar por não conseguir concretizar as intenções”, acrescenta.
Este inquérito foi realizado pela Netsonda em colaboração com o Observador, entre os dias 11 e 17 de setembro de 2025. O estudo foi realizado através da aplicação de um questionário online junto do painel Netsonda. O universo-alvo é composto por uma amostra representativa de indivíduos com 18 a 64 anos residentes em Portugal continental. Os inquiridos foram informados do objetivo do estudo e demonstraram vontade de participar. Foram recolhidas 800 entrevistas online (CAWI). Esta dimensão amostral está associada a uma margem de erro de 3,46%, com um nível de confiança de 95%.
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