Trump como ativo tóxico e a ascensão do populismo de esquerda. As 50 corridas que podem decidir estas eleições intercalares
A impopularidade de Trump corrói os republicanos, a divisão entre centro e esquerda atormenta os democratas. Por todo o país, há corridas decisivas — e podem ser os abstencionistas a decidir.
“Quando eu estou no boletim de voto, as pessoas vão votar e ganhamos sempre. Por isso, peço-vos um favor: finjam que eu estou no boletim de voto.”
O apelo foi feito por Donald Trump num comício no Nebraska, quando faltava cerca de um mês para as eleições intercalares desta terça-feira, que vão eleger os membros da Câmara dos Representantes, do Senado e vários cargos de política local. O comentário ilustra bem o paradigma da política norte-americana desde que o atual Presidente surgiu em 2016: a favor ou contra ele, tudo gira à volta de Trump.
Os estudos de opinião apontam, porém, que pela primeira vez isso pode não ser positivo para o Partido Republicano. É certo que a História indica que, nas eleições intercalares, o partido do Presidente tem tendência a perder a eleição: foi assim com Bill Clinton em 1994, com George W. Bush em 2006, com Barack Obama em 2010. Mas, desta vez, a taxa de popularidade de Trump é particularmente baixa: de acordo com os dados mais recentes, 60% dos norte-americanos neste momento não aprovam a atuação do chefe de Estado.
▲ A guerra no Irão tem sido o principal fator para a baixa taxa de popularidade de Donald Trump
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Em concreto, a guerra no Irão revelou-se o fator que alterou tudo. Para além de representar o quebrar de uma promessa de não-envolvimento em guerras no estrangeiro, levou diretamente ao aumento dos preços dos combustíveis, o que tem um impacto direto na vida dos norte-americanos. A aplicação das tarifas comerciais também fez aumentar os preços de vários bens de consumo. E, por tudo isto, o custo de vida tornou-se o chavão que pode definir a eleição, cujas sondagens apontam para uma vitória em toda a linha para o Partido Democrata.
A batalha faz-se, sobretudo, em alguns estados que podem mudar a composição do Senado, como Michigan, Kansas, Texas, Maine, Ohio, Alasca e Iowa. Mas por todo o país há eleições decisivas para a Câmara dos Representantes e para alguns executivos locais, como para o cargo de governador. O Observador olhou para as várias corridas estado a estado e elegeu 50 — uma por estado — que ilustram as tendências que marcam esta eleição: o impacto da figura de Trump nas campanhas dos republicanos e as divisões internas entre centro e esquerda do Partido Democrata. No final, só uma certeza: como referendo ao Presidente, estas intercalares podem cristalizar o sentimento anti-Trump que se sente no país ou provar que, mais uma vez, Donald Trump é um fenómeno político que veio transformar a política norte-americana.
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Donald Trump, de dono de um toque de Midas a ativo tóxico para os republicanos
Estávamos ainda em agosto e nos vários estados votava-se para escolher os candidatos de cada partido à eleição nas primárias, quando Aaron Blake fez uma primeira contagem: à altura, 10 dos vários candidatos republicanos que receberam o apoio de Donald Trump perderam nas primárias. “Estas dez derrotas equivalem a todas as que Trump sofreu em 2018, 2020 e 2024 juntas. E fica a apenas uma de igualar o seu pior ano de sempre, 2022”, escreveu o jornalista da CNN no X.
A tendência começava a consolidar-se. Se, antes, o apoio de Donald Trump a um candidato servia como toque de Midas e lhe garantia a vitória, este ano o cenário é diferente. O que não invalida que alguns republicanos continuem a manter-se firmes ao lado do seu Presidente, apesar da impopularidade deste. É o caso de Michael Whatley, candidato ao cargo de senador na Carolina do Norte — estado onde Trump venceu todas as eleições presidenciais a que se propôs —, que enfrenta uma corrida muito competitiva. “Todos os dias, Donald Trump luta para fazer a América grande e eu continuo com este tipo”, decretou Whatley num comício em setembro.
▲ Michael Whatley e Ann Wagner são alguns dos candidatos que se têm mantido incondicionalmente ao lado de Trump
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O candidato da Carolina do Norte não é o único a manter-se ao lado do Presidente. Ann Wagner, candidata à Câmara dos Representantes num distrito do Missouri, continua por exemplo a defender a intervenção militar no Irão: “Vou conceder ao Presidente a prerrogativa de dar continuidade a isto, na medida em que seja necessário para garantir que [os iranianos] não obtêm armas nucleares, para garantir que não estão a atacar cidadãos americanos e para garantir que, quando gritam 'Morte à América', essas palavras não têm qualquer força real", disse recentemente a republicana numa entrevista a um podcast.
O Observador falou com vários especialistas em política norte-americana, incluindo estrategas políticos e antigos conselheiros de campanhas, que são unânimes num veredito: o ideal para qualquer candidato republicano neste momento seria distanciar-se de Trump. Por que razão alguns como Whatley e Wagner não o fazem? “Estão aterrorizados com a perspetiva de o provocar”, sentencia o analista democrata Adrian Hemond, CEO da consultora Grassroots Midwest. David Litt, speechwriter de vários políticos democratas (incluindo o Presidente Barack Obama), arrisca outra possibilidade: “Para alguns, é demasiado tarde. Passaram anos a apoiar tudo o que ele faz. Se viram a casaca agora, os eleitores não se deixam enganar.”
Douglas Heye, antigo diretor de comunicação de várias instituições republicanas, tem a experiência de trabalhar para um candidato que precisa de se distanciar de um Presidente impopular. Foi exatamente isso que aconteceu quando trabalhou com Michael Steele numa candidatura ao Senado pelo estado do Maryland em 2006. “Podíamos fazer as propostas políticas mais interessantes e o nosso adversário respondia apenas com uma fotografia do meu candidato ao lado do Presidente George W. Bush”, recorda ao Observador.
Heye está retirado da política ativa, mas, se estivesse envolvido numa campanha de um republicano neste momento, sabe o que aconselharia ao seu candidato: “Se foi um apoiante da guerra no Irão desde cedo, não pode fazer uma volta de 180 graus”, declara, o que justifica posições como a de Whatley e Wagner na Carolina do Norte e no Missouri.
O apoio de Trump a um candidato é, neste momento, tão tóxico que pode pôr em risco candidatos até há pouco vistos como vencedores seguros em estados fortemente favoráveis aos republicanos. No Texas, Trump apoiou nas primárias o polémico Ken Paxton em detrimento de John Cornyn, um senador crítico do Presidente, e as sondagens revelam agora um empate técnico do republicano com o jovem democrata James Talarico. “Mesmo com um candidato tão problemático como Ken Paxton, não havia razão para estarmos a falar desta eleição se não fossem os números de Trump”, aponta Doug Heye, referindo-se ao procurador-geral do Texas que foi alvo de impeachment na câmara baixa do estado por suspeitas de corrupção e abuso de poder.
▲ Ken Paxton, candidato republicano ao Senado pelo estado do Texas
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O mesmo acontece no Iowa, onde neste momento há autocolantes com o rosto de Trump a dizer “Eu fiz isto” colados nas bombas de gasolina. “Tanto os republicanos como os democratas sentem que recrutaram o melhor candidato possível. Portanto, isto é tudo sobre o ambiente político, num estado muito republicano onde Trump venceu com facilidade”, destaca o operativo. “Os agricultores foram atingidos com as tarifas, com a guerra comercial com o Canadá, com os preços do combustível e tudo isso explica porque é que a corrida está tão renhida.”
As sondagens não mentem: no agregador de sondagens State of Polls os números mais recentes dão 46,1% para Josh Turek (democrata) e 46% para Ashley Hinson (republicana). Num estado onde Trump venceu com mais de 40% dos votos em 2016 e 2024, os habitantes estão revoltados com o aumento de quase 80% nos preços do combustível e a subida dos preços associada à política de tarifas.
“O aumento dos preços é o tema mais importante desta eleição, como foi em 2024. Contudo, desta vez, os papéis inverteram-se: os republicanos controlam o Governo e estão a ser responsabilizados pelos eleitores”, resume o consultor Hemond. Daí que a candidata republicana, Ashley Hinson, tenha começado a falar menos de Trump e a destacar a sua capacidade de colaborar com os democratas.
Não foi a única. Andy Biggs (candidato a governador do Arizona), que em tempos questionou a vitória de Joe Biden em 2020, afirma agora ser importante “colaborar até com pessoas com quem se discorda profundamente”; Susan Collins, a senadora do Maine que sempre manteve uma distância de segurança face ao Presidente, reforça o afastamento, dizendo querer relembrar-lhe que “o Canadá é nosso amigo e o nosso aliado mais próximo” para contestar as tarifas.
▲ Andy Biggs, que em tempos questionou a legitimidade da eleição de Joe Biden, agora modera a sua aproximação a Trump
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Segundo um estudo da Reuters, dois terços dos candidatos republicanos em corridas competitivas distanciaram-se do Presidente ao longo das últimas semanas. A situação foi resumida por um consultor político do Texas à Atlantic, que falou num “ambiente político de pesadelo para qualquer republicano”: “É um desastre do car****.”
Trump tem-se mantido disciplinado e evitado criticar os candidatos que o tratam neste momento como um ativo tóxico. Um conselheiro do Presidente confirmou mesmo ao Wall Street Journal que essa tem sido uma estratégia deliberada dentro da Casa Branca, para evitar pôr em risco determinadas candidaturas.
Com uma exceção. Na Flórida, a candidata ao 27.º Distrito para a Câmara dos Representantes, Maria Elvira Salazar, atirou-se diretamente à política de imigração do Presidente num anúncio de campanha, dizendo que Trump foi “longe demais”. A explicação é simples: num distrito onde mais de 70% dos eleitores são latinos e numa altura em que este grupo demográfico se está a afastar do Presidente, a candidata não pode arriscar parecer demasiado próxima de um chefe de Estado que lançou raides do ICE (a agência norte-americana de controlo de imigração e fronteiras) em vários estados.
Apesar de não lhe ter retirado formalmente o apoio, o Presidente não conseguiu evitar atacar a candidata em público: no fim de semana após a divulgação do anúncio, Trump fez 13 publicações na TruthSocial a criticar Salazar. Uma delas foi a republicação de um post que lhe chamava “traidora”.
O teste aos "insurgentes populistas" do Partido Democrata
O contexto dos Estados Unidos da América neste momento é altamente favorável aos democratas. Como resumiu ao Observador o sociólogo David Purucker, especializado na ascensão da corrente socialista dentro do Partido Democrata, “qualquer candidato com um D [de democrata] ao lado do nome no boletim de voto está numa posição favorável”. “Tanto os candidatos centristas como os da ala mais à esquerda vão beneficiar com tudo isto na eleição”, resume.
O que não significa que o Partido Democrata não esteja enredado nos seus próprios problemas, patentes nesta divisão entre “centristas” e “esquerdistas”. O período das primárias revelou o crescimento do movimento DSA [Socialistas Democráticos da América] dentro do partido e a popularidade de alguns dos seus candidatos. Em junho, o Washington Examiner notava que, dos 150 candidatos apoiados pelo DSA, 35 venceram as respetivas primárias.
Os republicanos desde cedo que prepararam o contra-ataque, com o presidente da Câmara dos Representantes Mike Johnson a declarar que “já não há um Partido Democrata moderado” e o líder da maioria republicana, Steve Scalise, a classificar estes candidatos como “comunistas que querem retirar o financiamento à polícia”.
O próprio Presidente seguiu essa linha, aproveitando o seu discurso na véspera do 4 de julho, em frente ao Mount Rushmore, para declarar que o comunismo é “a maior ameaça” ao país, maior até do que “a I Guerra Mundial, a II Guerra Mundial, Pearl Harbor ou até o 11 de Setembro”.
Purucker considera que a estratégia é “uma tradição bem enraizada na política americana”, mas que não tem hoje em dia o mesmo impacto junto dos eleitores. “Os eleitores com menos de 45 anos são demasiado jovens para se lembrarem da Guerra Fria, quando o socialismo era enquadrado pelos dois partidos como uma ameaça geopolítica ao american way of life, à liberdade, à democracia”, nota. Algo sustentado pelos estudos de opinião, como um da Gallup que revelava que, entre os eleitores democratas, 66% diziam ver o termo socialismo com bons olhos — em 2010 o número era de apenas 50%.
▲ Abdul El-Sayed, candidato democrata ao Senado pelo estado do Michigan
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“Suspeito que Trump e o Partido Republicano usam ‘socialista’ como um insulto mais por desespero do que por uma convicção de que conseguem persuadir eleitores que ainda não estão no seu campo. Os republicanos estão focados em mobilizar a base, não em persuadir, portanto usam mensagens e enquadramentos que vão ativar os apoiantes mais ferrenhos”, acrescenta. O consultor Adrian Hemond diz mesmo que a estratégia terá um “sucesso limitado”: “Até os candidatos mais à esquerda não sofrerão a típica penalização eleitoral que se esperaria, por causa do estado lastimoso da economia, em particular o aumento dos preços”, diz.
David Purucker também aponta outro fator como fulcral para a desestigmatização do termo “socialismo” na América: Zohran Mamdani. “Mamdani não governa como um radical ideológico, mas antes como um político pragmático, capaz de aliar a sua capacidade de comunicação à experiência tecnocrática dos seus quadros superiores — muitos dos quais recrutados a anteriores governos e no meio das políticas progressistas”, diz o sociólogo. “Em poucas palavras: com Mamdani, os socialistas democráticos enfrentaram a sua primeira prova de fogo no poder. E, pelo menos até ver, passaram no teste.”
Depois de Mamdani, um novo fenómeno brotou na esquerda norte-americana que pode vir a fazer história nesta eleição: Abdul El-Sayed, candidato a senador do Michigan, que elege como principais bandeiras a rejeição do financiamento de campanhas eleitorais por parte de grandes empresas privadas e o alargamento do Medicare (o sistema de seguro de saúde público para os maiores de 65 anos) a todos os norte-americanos.
A campanha de El-Sayed ilustra a divisão interna dos democratas. Se, por um lado, reuniu apoios de peso do establishment como Barack Obama e Kamala Harris, por outro o candidato sofreu um duro golpe com a recente decisão da anterior adversária nas primárias, Haley Stevens, de apoiar o republicano Rogers. O operativo republicano Doug Heye assume que um candidato como El-Sayed tem mais probabilidades de se sair bem num estado como o Michigan, “profundamente democrata”, mas considera que tudo está em aberto nesta corrida.
Durante a campanha nas primárias, El-Sayed, que é muçulmano, assumiu-se como um crítico de Israel (recebendo inclusivamente o apoio do influencer Hasan Piker, acusado por alguns de antissemitismo). Agora, na reta final, tem sido alvo de ataques do adversário, o republicano Mike Rogers, que o cola à Irmandade Muçulmana, e do próprio Presidente — Trump refere-se habitualmente ao democrata como “Mohammed” e acusa-o de querer impor a lei da sharia nos EUA. El-Sayed respondeu a este último ataque com humor, dizendo que não acredita na lei da sharia, mas sim na “lei da Shakira”, que dita que “as ancas não mentem”.
É um exemplo da campanha jovem e bem adaptada às redes sociais que tem levado a cabo e que ilustra a nova forma de fazer política nos Estados Unidos. Depois de Obama e o seu “Yes, we can” ter revolucionado a comunicação política com o apoio dos millennials, agora El-Sayed lidera um novo rumo apoiado pela Gen Z. Como resumiu um antigo conselheiro de Obama, Van Jones, invocando a velha empresa de aluguer de filmes em VHS, “o Partido Democrata é a Blockbuster, estes miúdos são a Netflix”.
Mas a campanha das primárias também demonstrou que defender ideias mais à esquerda não chega para ganhar eleições. Francesca Hong, candidata ao cargo de governadora no estado do Wisconsin, foi derrotada pelo adversário mais moderado em parte por comentários do seu passado vistos pelos eleitores como demasiado radicais — em concreto, as ideias de abolir o ICE e o Senado, mas, sobretudo, a de “cancelar a Ação de Graças” por ser um feriado "colonialista".
“Nem Mamdani nem outros destacados socialistas democráticos como Bernie Sanders ou Alexandra Ocasio-Cortez apoiaram Hong, porventura por sentirem a sua fragilidade”, aponta Purucker. “Outros comentadores da ala esquerda interpretaram a derrota de Hong de outra perspetiva, vendo-a como um mal menor de que a esquerda escapou por pouco. Pela frente, Hong teria uma eleição geral exigente, e uma derrota direta de uma candidata socialista contra um republicano representaria um sério revés para o DSA.”
▲ Francesca Hong, candidata do DSA nas primárias democratas a governadora do Wisconsin que foi derrotada
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Se El-Sayed não tiver um bom resultado esta terça-feira, “isso dará munições à fação moderada”, diz o académico. Se for o contrário, “será um feito histórico para a fação progressista”. Por outras palavras: o resultado poderá influenciar o posicionamento do próprio Partido Democrata no futuro, como notou ao Observador o antigo conselheiro de Bill Clinton, Doug Sosnik: “Somos um partido em transição e na próxima quarta-feira começa uma nova era, quando começar a campanha presidencial de 2028. Por agora, a melhor estratégia passa por centrar as eleições intercalares exclusivamente em Trump.”
De olho em 2028, até figuras associadas ao DSA, como Ocasio-Cortez — que não esconde as suas ambições presidenciais —, começam a moderar as suas posições. Em agosto, quando foi questionada por algumas das posições mais radicais da esquerda no passado, como o movimento para retirar o financiamento à polícia, Ocasio-Cortez declarou que “A Fase Woke 1 foi uma loucura”.
Mas a luta dos democratas pelo controlo do Congresso não se joga apenas com candidatos mais próximos do socialismo democrático. Em vários estados, os nomes escolhidos são políticos moderados que destacam a sua capacidade de conseguir entendimentos ao centro. Josh Turek (Iowa), que em tempos chegou a votar em George W. Bush, defende publicamente que Trump “fez um trabalho melhor na fronteira do que Biden”; James Talarico (Texas) usa frequentemente a sua fé cristã para se aproximar de eleitores mais conservadores; e Sherrod Brown (Ohio) e Roy Cooper (Carolina do Norte), dois políticos discretos, mas experientes, seguem um molde mais tradicional que pode produzir excelentes resultados para os democratas.
▲ Josh Turek, James Talarico, Roy Cooper e Sherrod Brown são alguns dos democratas que podem roubar lugares no Senado pelos estados do Iowa, Texas, Carolina do Norte e Ohio
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O que todos estes candidatos têm em comum é o facto de o seu discurso se focar sobretudo na questão do custo de vida e da desigualdade económica. O estratega democrata Chuck Rocha definiu assim a tendência ao Washington Post: “Em cada ciclo eleitoral, há um tipo de perfil de candidato que está na moda e que todos tentam ser. Este ano, parece que é o de trabalhador de colarinho azul.”
Dois casos saltam à vista. Um é o do bombeiro sapador Sam Forstag, que procura ser eleito representante no Montana sublinhando a necessidade de o Partido Democrata reconquistar “a classe trabalhadora”, “os sindicalizados” e “os jovens que sonham em ter uma casa”. Outro é o do mecânico industrial Dan Osborn, um independente que goza do apoio (pelo menos implícito) dos democratas no Nebraska. Se Josh Turek no Iowa se descreve como “um populista da pradaria”, Osborn, que critica as “empresas monopolísticas”, não lhe fica atrás.
Em 2024, a revista de esquerda American Prospect traçava assim o seu retrato: “Ele tem cicatrizes de uma vida passada a trabalhar numa fábrica, gravadas nas palmas calejadas das mãos, ásperas ao cumprimento. A mão direita ficou desfigurada num violento acidente de trabalho que exigiu oito agrafos e cinco cirurgias — e que esteve perto de o deixar com uma incapacidade permanente. No final das contas, a Kellogg, sua entidade patronal, pagou apenas uma multa irrisória por violação das normas de segurança no trabalho.”
▲ Dan Osborn, candidato independente do Nebraska próximo dos democratas
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Osborn é um símbolo, o candidato da classe trabalhadora que ressuscitou um discurso de luta de classes que há muito não tinha adesão dentro do Partido Democrata. Se for eleito senador do Nebraska, contribuirá certamente para a discussão do futuro do partido em 2028. O sociólogo David Purucker destaca que a par do crescimento do “socialismo democrático” de El-Sayed, associado à Gen Z, os EUA assistem também à ascensão de “uma corrente de populismo centrado em militantes de sindicatos”, geralmente independentes, que concorrem nos locais onde “o rótulo do Partido Democrata é tóxico”. “Vitórias de figuras do populismo laboral focado na luta de classes — como Osborn, Brown, Forstag ou Bob Brooks [na Pensilvânia] — representam avanços claramente positivos para as alas progressista e socialista do partido”, avisa o académico.
A noite das eleições intercalares poderá ajudar os democratas a tirarem teimas sobre qual o rumo que devem tomar para as próximas presidenciais, embora seja certo que as dinâmicas locais de cada estado são decisivas para o sucesso ou falhanço de determinada estratégia.
A analista democrata Kate deGruyter e vice-presidente da consultora centrista Third Way defende firmemente que, nas corridas mais relevantes, os democratas só têm hipóteses de vencer porque optaram por candidatos moderados: "Simplesmente não é possível os democratas vencerem sem agradar aos eleitores que estão no meio", declara ao Observador. "Há mais conservadores do que liberais em cada estado decisivo, portanto aqueles que estão de olho em 2028 precisam de perceber que concorrer demasiado à esquerda vai tornar difícil atrair os eleitores de que precisam nos estados que determinam o resultado final."
Mas muitos dentro do partido não têm dúvidas de que, mesmo que os seus candidatos sejam derrotados nestas intercalares, a nova ala mais à esquerda não pode ser ignorada: “Os democratas deviam perguntar-se por que razão tantos eleitores estão a alinhar com candidatos insurgentes. Quando se perdeu todo o poder a nível nacional para um movimento populista de direita, seria obtuso fechar a porta aos insurgentes populistas do próprio partido”, avisou o antigo conselheiro de Obama Ben Rhodes, num artigo de opinião no New York Times.
A importância de um candidato "aborrecido e chato" e a abstenção que pode decidir tudo
Para além das tendências nacionais, há corridas específicas que podem fazer a diferença e cujo resultado é totalmente imprevisível.
O caso mais relevante talvez seja aquele em que a republicana Susan Collins luta pela reeleição como senadora pelo Maine contra Troy Jackson, candidato democrata da ala esquerda que substituiu Graham Platner depois da série de escândalos em que se viu envolvido.
A substituição, diz Doug Heye, pode ter beneficiado os democratas: “Platner era carismático, mas tinha tantos problemas que, se tivesse continuado na corrida, viríamos a conhecer outras histórias e a campanha dele teria de estar sempre à defesa.” O consultor republicano, que conhece pessoalmente o apanhador de ostras, diz não ter dúvidas de que Collins — uma republicana moderada que várias vezes se opôs a Donald Trump — “adoraria concorrer contra ele”. “Às vezes — às vezes ", sublinha, "aquilo que se quer é uma pessoa aborrecida e chata, mas que é competente. É esse tipo de campanha que Troy Jackson está a tentar fazer.” Mas, do outro lado, Collins tenta fazer o mesmo, aponta Doug Sosnik: “A senadora Collins é o exemplo de uma candidata que pode ganhar não por causa do seu carisma, mas devido à sua eficácia a fazer campanha.”
▲ A republicana Susan Collins e o democrata Troy Jackson protagonizam uma das corridas mais taco a taco destas intercalares
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Os republicanos podem estar atrás nas sondagens, mas ainda podem conseguir algumas surpresas. John Sununu, por exemplo, pode não ter o fator X em termos de carisma, mas pode bem vir a roubar um lugar no Senado pelo New Hampshire aos democratas. No Alasca, a democrata Mary Peltola pode ver a sua vantagem esfumar-se perante um escândalo que surgiu nos últimos dias, ao ver aquilo que parecia ser uma teoria da conspiração promovida pelo Presidente — a de que a sua campanha teria trazido um independente com o mesmo nome do adversário republicano (Dan Sullivan) para baralhar os eleitores e dispersar votos — confirmar-se verdade através de uma investigação do New York Times.
Por outro lado, os democratas podem alcançar vitórias que pareciam historicamente impossíveis, como a do pastor Adam Hilton no Kansas (um estado que não elege um senador democrata há 94 anos), ou a de Scott Collom no Mississippi (onde um democrata não é eleito senador desde 1982). A consultora democrata Kate deGruyter sublinha que o discurso moderado pode resultar, destacando como Talarico e Peltola "dizem aos eleitores que vão proteger os postos de trabalho do petróleo e do gás nos seus estados", como Hamilton "diz que vai trabalhar com os republicanos para lidar com os custos dos fertilizantes" e como Cooper "se tem gabado do seu currículo como procurador a acusar criminosos". "Eles estão a criar as condições para os democratas terem uma vantagem em quase todos os principais temas que mais importam para os eleitores, mesmo se o Partido Democrata continuar a ser impopular", resume.
As sondagens dizem que uma onda azul é possível, mas, como nota o speechwriter David Litt, os democratas estão escaldados. “A maioria dos democratas que conheço estão preocupados com a possibilidade de que as sondagens não estejam a captar os eleitores de Trump que normalmente respondem menos aos estudos de opinião”, admite. “Já a maioria dos republicanos tem esperança nisso mesmo.”
▲ Donald Trump
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Doug Sosnik também reconhece que nas últimas três eleições presidenciais “as sondagens subestimaram os eleitores que apoiaram Trump”, mas destaca que, habitualmente, esses mesmos eleitores “não votam quando não é Trump quem está no boletim”. É o caso de Brandon Tremaine, um jovem de 24 anos que já votou em Trump que agora garante ao New York Times que não irá às urnas: “O Presidente Trump tem dito ‘Votem como se eu estivesse no boletim de voto’, e é exatamente isso que vou fazer — não votar. Não se pode fazer campanha pela paz e depois começar uma guerra que está a magoar diretamente os americanos.”
Reconhecendo as falhas das sondagens e a imprevisibilidade da abstenção, o republicano Doug Heye mantém que tudo está em aberto. Mas, olhando para um país onde quase metade da população afirma hoje em dia que “o sonho americano” está morto, faz uma confissão: “Hoje, preferia estar no lugar dos democratas do que no dos republicanos.”