O Observador está a publicar uma série de trabalhos sobre as declarações de rendimentos dos candidatos presidenciais


João Cotrim de Figueiredo é o candidato presidencial com ativos financeiros de maior valor. Eram quase 1,5 milhões de euros em 2013 quando assumiu a presidência do Turismo de Portugal. A partir daí, o valor dos investimentos reportado nas declarações do liberal ao Tribunal Constitucional foi sendo cada vez menor.

Cotrim é também, desde essa altura, dono de participações sociais em duas empresas. Tem 150 mil euros em ações na sociedade de capitais de risco Faber e é co-proprietário de uma sociedade familiar que começou por ser dedicada ao setor agrícola, mas agora explora um Alojamento Local no Alentejo — e da qual nunca obteve rendimentos líquidos. Por duas vezes, o eurodeputado não declarou o imóvel em causa, por considerar que não precisava de o fazer (uma vez que pertencia à empresa). Apenas o fez na sua mais recente declaração de rendimentos como candidato presidencial — o único entre os oito principais a tê-lo feito, até agora.

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Ano fiscal dos rendimentos: 2008

Sem rendimentos ao ser nomeado pelo Governo de Passos

Antes de entrar na política, o eurodeputado já tinha declarado os seus rendimentos como presidente do Instituto do Turismo de Portugal. Depois de uma passagem pela direção da TVI, entre 2010 e 2011, João Cotrim de Figueiredo seria, em 2013, nomeado por Adolfo Mesquita Nunes, secretário de Estado do Turismo do Governo de Pedro Passos Coelho, para o seu primeiro alto cargo na administração pública. Na altura, o ministro da Economia era António Pires de Lima, com quem Cotrim se tinha cruzado na administração da Compal (onde esteve entre 2000 e 2006). Pires de Lima também é, aliás, seu primo, como o Observador revelou na série de trabalhos sobre a árvore genealógica dos candidatos.

O candidato presidencial não declarou quaisquer rendimentos recebidos no ano de 2012, ainda que tenha trabalhado durante esse ano. Cotrim foi colunista e comentador no Diário Económico e na Económico TV além de ter desempenhado “atividades de docência” na Nova SBE. No entanto, essas atividades não eram remuneradas, segundo garante o antigo líder da IL ao Observador. Ainda assim, estas ocupações estão ausentes da sua declaração de interesses, ao contrário do que prevê a lei.

Outra informação que também devia constar dessa declaração foi o tempo em que assumiu a liderança da TVI, sendo que devem ser declaradas todas as atividades, cargos ou outras funções exercidos nos três anos anteriores. Nesse espaço, Cotrim declara apenas que, antes de assumir a direção do Turismo de Portugal, foi presidente da mesa da assembleia geral de cinco sociedades: a empresa de design de interiores Area Infinitas, a empresa de gestão imobiliária Sogimo, a empresa de construção Sogek e as sociedades gestoras de participações sociais Ethnica e Ramada Holdings.

Sócio de duas empresas há vários anos

Por esta altura, Cotrim também tem participações sociais em duas empresas, que mantém até hoje. Declara desde então uma quota avaliada em 150 mil euros na Faber Ventures, correspondendo, em 2012, a 7% do capital da empresa. A Faber descreve-se como “uma sociedade de capitais de risco que investe em empreendedores de excelência que inovam na intersecção entre ciência e tecnologia para impulsionar a transformação digital e a ação climática”. Ao longo dos anos seguintes, o valor da quota de Cotrim na empresa mantém-se igual, mas a sua importância no capital social da empresa diminuiu. Em 2019, depois de ter sido membro do conselho de administração da Faber, a sua quota passou a valer 2,5%. Voltou a valorizar em 2024, correspondendo a 3,66% do capital social da empresa.

A outra empresa que declara desde 2012 é a “Cotrim de Figueiredo – Sociedade agrícola e serviços”, na qual tem uma quota de 50% avaliada em 4.750 euros. A outra metade do capital da empresa fundada em 1996 pertence, até hoje, a um familiar do eurodeputado liberal. Originalmente, o objeto social da empresa dizia respeito à produção, comercialização e distribuição de produtos agrícolas, assim como à prestação de consultadoria para este setor. Em 2016, o objeto social da empresa passou a contemplar a prestação de serviços de turismo, nomeadamente alojamentos de curta duração.

Em 2022, a empresa completa a transição e muda de nome para Monte da Pedra Torta, tendo como principal atividade a exploração de Alojamento Local de uma herdade com seis quartos, no concelho alentejano do Redondo, onde uma noite pode custar mais de 1.000 euros. João Cotrim de Figueiredo nunca declarou quaisquer rendimentos vindos destas funções como sócio-gerente. Ao Observador, explica que “a sociedade em questão nunca distribuiu rendimentos” porque “os resultados após custos de funcionamento são reinvestidos na manutenção do imóvel”.

O imóvel também esteve em falta nas declarações de Cotrim, mas o eurodeputado explica que apenas assim foi porque a empresa é que é proprietária do mesmo. Quando a nova Entidade para a Transparência entrou em funções, a partir de 2021, as declarações de rendimentos passaram a ser preenchidas numa página digital e certos critérios foram apertados. “Não havia essa obrigação quando era no papel. Fui alertado, entretanto”, explica Cotrim, que passou a registar o imóvel na declaração como candidato a Presidente da República.

Carteira de títulos com 1,4 milhões

É também antes da sua entrada para a direção do Turismo de Portugal que os investimentos de João Cotrim de Figueiredo atingem o maior valor. Declara três aplicações financeiras cuja única informação disponibilizada é o valor: uma com 7.466 euros, outra com 19.444 euros e uma última com 1.462.302 euros. De resto, apenas tem duas contas bancárias à ordem com 70.409 euros e outra com 48.364 euros.

Este património financeiro terá facilitado a obtenção de um empréstimo à habitação, contraído junto do Millenium BCP. Em março de 2015, faz uma comunicação extraordinária ao Tribunal Constitucional para declarar o passivo de 800 mil euros para a aquisição de um apartamento T5 na freguesia das Avenidas Novas, em Lisboa, com valor patrimonial (nas Finanças) de 552.115 euros.

Este é o primeiro ativo imobiliário que declara, que acrescenta aos três automóveis e uma mota que já tinha declarado da primeira vez: um Mercedes E250, um Porsche Carrera, um Ford Ranger Plus e uma mota BMW F800 GS.

Conta corrente caucionada de 200 mil euros

Cotrim deixa a liderança do Turismo de Portugal, em 2016, tendo auferido 76.517 euros no seu último ano completo no cargo. Durante esse período, ocupou também lugares no conselho de administração de duas outras empresas públicas do setor do turismo: a Enatur e o Turismo Fundos.

Foi igualmente vogal do conselho de administração da Fundação Ulisses para o desenvolvimento da gestão, presidente da assembleia geral da sociedade de investimento SPGM e vogal do conselho geral e supervisão da Portugal Ventures, uma empresa de investimento em capital de risco.

A acrescentar ao crédito à habitação, do qual em menos de um ano abateu 38 mil euros, Cotrim declara uma conta caucionada de 199.502 euros — uma conta corrente utilizada como solução de crédito de curto prazo, à qual recorrem normalmente empresas e não particulares. O eurodeputado deixa igualmente de declarar contas bancárias e o valor total das suas aplicações financeiras diminui 316.833 euros em relação a 2012.

Deixa o Porsche antes de entrar no Parlamento

A eleição como deputado único da Iniciativa Liberal motivou uma nova declaração em 2019. Depois de ter voltado ao setor privado, Cotrim declarou 20.180 euros recebidos por trabalho dependente e outros 33.012 euros de trabalho independente.

Apesar da proveniência dos rendimentos não estar atribuída, os registos de interesses declarados dão uma ideia da sua ocupação durante o tempo que mediou entre o Turismo de Portugal e o Parlamento. Entre outubro de 2016 e dezembro de 2017, foi consultor sénior da consultora Jaeson, que atua na área dos recursos humanos. Nos dois anos seguintes, seria consultor na Marcer Jason Associate, assessor da comissão executiva da Sociedade Ponto Verde e vogal dos conselhos fiscais da Montepio Crédito e da Montepio Valor, que gere fundos de investimento.

Voltou a declarar duas contas à ordem, em 2019, desta vez com valores muito mais reduzidos: 4.423 e 3.166 euros. Entretanto, as aplicações financeiras voltaram a desvalorizar significativamente, passando de 1.446.852 euros, em 2015, para 1.231.906 euros, em 2018. O eurodeputado deixou então de declarar o seu Porsche Carrera e os créditos totalizavam 864.033 euros.

Carteira de títulos continua a desvalorizar

Durante os anos como deputado, até à eleição para o Parlamento Europeu, em 2024, manter-se-iam as tendências já descritas no património de João Cotrim de Figueiredo. Os rendimentos como deputado mantêm-se constantes, a sua carteira de títulos apresenta valores cada vez menores e o passivo é progressivamente abatido.

As três aplicações financeiras de Cotrim valiam, em 2021, um total de 1.108.019 euros. Na primeira declaração de rendimentos de 2024 passaram a ser de 950.187 euros, tendo-se reduzido em cerca de 800 euros na segunda declaração, entregue como eurodeputado, após sete meses da saída da Assembleia da República. Quanto ao salário, auferiu 57.850 euros como deputado, em 2021, e 59.174 euros. em 2023.

O crédito à habitação no Millennium passou de 592.04 euros, em 2021, para 539.676 em maio de 2024 e 525.983 no final desse ano. Por outro lado, a conta corrente caucionada de Cotrim mantém-se com os mesmos 199.502 euros desde 2016, tendo assim um passivo total de 725.485 euros quando assumiu funções como eurodeputado. O agora candidato liberal declarou duas contas à ordem em 2022, com um total de 59.377 euros. Em maio de 2024, tinha apenas uma com 37.923 euros e, em dezembro, o valor depositado na mesma era de 56.108 euros.

Com a ida para Bruxelas, a remuneração do ex-líder da IL aumentou em comparação com os anos na Assembleia da República. Ainda recebeu 14.352 euros pelos primeiros meses em Portugal, aos quais somou 59.416 euros como eurodeputado, num total de 73.768 euros auferidos em 2024. A carteira de títulos de Cotrim valorizam e atingem 1.004.095 euros, entre quatro aplicações financeiras: 967.522 euros, 20.458 euros, 9.449 euros e 6.666 euros.

Esta é a declaração, entregue em novembro de 2025, em que declara pela primeira vez o chalé com seis quartos que explora como Alojamento Local, na herdade com mais de 13 hectares, em Évora, que a sua sociedade familiar possui. Nesta última comunicação ao TC, o empréstimo à habitação já se tinha reduzido para os 501.258 euros, enquanto mantinha o mesmo valor da conta corrente. As suas duas contas bancárias atingiram valores de 95.414 euros e 61.598 euros.

A partir de 2022, deixou de declarar o Ford Ranger Plus, ficando apenas com o automóvel Mercedes E250 e com a mota BMW F800.