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Dois dias depois da tempestade que atingiu a região Centro, Teresa foi ao Facebook apelar à mobilização. “Boa tarde a todos. Existe algum grupo ou associação local ou distrital a recolher bens para as zonas afectadas pelo temporal?” No dia seguinte, comovida com os relatos que recebeu de Leiria, apesar de viver em Serpa, a 300 quilómetros, insistiu: “Bora lá, serpenses, não custa nada! Hoje eles, mas amanhã podemos ser nós! Pensem nisso.” Apenas quatro dias depois, foi mesmo com Teresa: o seu marido, o empresário Nuno Paixão, morreu num carro submerso em Serpa.

Uma semana antes, no dia em que a tempestade chegou, o padre da Batalha, Sérgio Fernandes, entrou em casa e encontrou um recado escrito num papel. Foi deixado por um homem que conheceu na sua paróquia anterior, Carvide: devido à falta de comunicações, percorreu mais de 30 quilómetros para informar o seu padre de que tinha havido uma tragédia e precisava dele para um velório — voltaria às nove da noite, para ver se o encontrava e lhe explicar tudo.

O padre esperou e à hora anunciada o seu ex-paroquiano voltou, para revelar que Ricardo Teodósio tinha morrido na tempestade e o pai estava internado no hospital, depois de ambos serem esmagados pelo telhado da garagem da casa em que viviam. O sacerdote conheceu melhor Ricardo e o pai quando eles lhe pintaram a igreja. Casou Ricardo, batizou o seu filho e agora era chamado a enterrar o pintor de 38 anos.

O sacerdote tem sentido o abalo de fé, de quem atribui tudo a Deus e pergunta porque é que Deus permite estas coisas. “Se pensa que é Deus que anda a puxar os cordelinhos, onde estaria a nossa liberdade?”, responde ele aos paroquianos. “Não podemos ficar parados nesta dor e sofrimento. Temos de usar a fé para ter confiança, enfrentar e dar a volta.”

Além deste funeral de Carvide, o padre Sérgio presidiu a mais duas cerimónias fúnebres de vítimas da tempestade: José Encarnação Sousa, o carpinteiro de 73 anos que morreu numa queda quando reparava o telhado de uma cunhada na Torre, concelho da Batalha; e Cláudia Lourenço, uma segurança de 36 anos que não resistiu à inalação de monóxido de carbono de um gerador em Casais dos Ledos, também na Batalha.

As tragédias das vítimas mortais do mau tempo que devastou Portugal a partir de 28 de Janeiro cruzam-se entre si. Uns foram derrubados pela força da tempestade. Outros morreram a arranjar telhados destruídos, a restabelecer a rede elétrica, a tentar usar geradores ou submersos pela força da água.

A contabilização oficial da Proteção Civil reconhece 15 vítimas: 13 com morte certificada no local das tragédias pelo INEM, mais duas que morreram no hospital. Há mais pessoas cuja morte foi noticiada como tendo sido provocada por quedas relacionadas com reparações de telhados, como é o caso de um carteiro de Redinha, Pombal, mas a Proteção Civil remete a atualização sobre esses casos de óbitos em meio hospitalar para a Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde — que está a recolher informação, mas não respondeu ao Observador a tempo da conclusão deste trabalho.

E há o casal de Montemor-o-Velho, que esteve desaparecido uma semana depois de terem ido a uma consulta em Coimbra, durante as cheias, o que motivou um apelo da filha nas redes sociais. Foram encontrados dentro do carro submerso em Soure, quando as águas baixaram. A Proteção Civil indica que não contabiliza formalmente este casal como duas vítimas do mau tempo por o caso ainda se encontrar em avaliação, remetendo para a GNR. Fonte oficial da GNR disse ao Observador que “o caso está em investigação”, por não se poder excluir que tenha havido um acidente de viação, o que provavelmente implicará esperar pelos resultados das autópsias.

Vários familiares de vítimas foram informados de que podem ter de aguardar cerca de dois meses até os relatórios dos exames legais ficarem concluídos. Estes três casos (o casal de Montemor e o homem de Pombal) ajudam a explicar várias referências públicas a 18 vítimas mortais. Em algumas listagens publicadas surge ainda uma morte no concelho da Marinha Grande no primeiro dia tempestade, mas não se verificou, como esclareceu a autarquia ao Observador.

Entre as 15 vítimas mortais reconhecidas oficialmente pela Proteção civil, encontram-se seis que morreram no concelho de Leiria, duas na Batalha, e uma em Porto de Mós, Alcobaça, Sertã, Campo Maior, Silves, Serpa e Vila Franca de Xira. São 12 portugueses e três estrangeiros: um paquistanês; uma estilista holandesa, a vítima mais idosa, de 84 anos; e uma modelo moçambicana, a vítima mais jovem, de 28 anos. Há dois vigilantes de segurança privada, três empresários, cinco pessoas ligadas à construção civil, cinco reformados, cinco ex-emigrantes e dois guarda-redes.

Alguns não foram avisados nem prevenidos. Outros foram azarados. Muitos foram altruístas e generosos. Os 15 são mais do que um número de vítimas com um fim abrupto. Viveram vidas únicas e marcantes. Estas são as suas histórias, contadas na maior parte dos casos por quem os conheceu mais de perto: viúvas, filhos, irmãos, sobrinhos e melhores amigos.

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para ler as histórias
Os que morreram
derrubados pela força
da tempestade
Os que morreram
quando tentavam reparar
os telhados
Os que morreram
na água
Os que morreram
junto aos geradores
O homem que morreu
a tentar devolver
a luz a Leiria

Os que morreram
derrubados pela força
da tempestade

Ricardo adorava motas e pregar partidas. Rogério adorava Angola e futsal. Helda adorava sol e desafios. Abid adorava aprender português e a ideia de trazer os filhos do Paquistão para verem o mar.

Na manhã depois da tempestade, naquele 28 de janeiro, soube-se primeiro da morte de um homem numa carrinha do pão, atingido por uma árvore derrubada pela força do vento junto a Vila Franca de Xira. Sabe-se agora que esse homem era Abid Shahzad, um imigrante paquistanês de 45 anos que estava a sair do trabalho; que passava horas numa loja de telemóveis do centro comercial Babilónia, na Amadora, a ouvir as pessoas falarem português para tentar imitar a pronúncia das palavras; que estava a tratar na AIMA do processo para trazer a mulher, com quem celebrou um casamento combinado entre os pais de ambos, e os três filhos que nunca viram o mar ao vivo e que ficaram deliciados quando o pai lhes mostrou a praia em Portugal numa videochamada.

A seguir, ainda de manhã, soube-se da primeira morte no concelho de Leiria, de um homem que estava no parque solar fotovoltaico, em Fonte Oleiro. Sabe-se agora que esse homem era Rogério Parente, o segurança da obra; que o seu contentor foi arrastado uns 15 metros pela força do vento — era o espaço onde devia estar abrigado e protegido e acabou por desfazer-se em escombros; que Rogério adorava futsal e futebol, tendo sido jogador e treinador; e que adorava também Angola, onde viveu uns anos.

Pela hora de almoço, o presidente da Câmara de Leiria, capital de distrito destruída pela tempestade, anunciava mais duas mortes no seu concelho, em Carvide.

Uma dessas mortes foi a da moçambicana Helda Zeca Muianga, 28 anos, encontrada debaixo dos escombros da casa amovível em que estava a viver. Sabe-se agora que na infância Helda sonhava ser hospedeira, mas fez o seu primeiro voo duas semanas antes, de Maputo para Portugal, onde veio tentar melhorar a vida; que foi modelo de anúncios e concorrente de um concurso televisivo para arranjar um possível namorado (que não resultou); que se queixou do frio às amigas em Moçambique horas antes da tragédia; e que a primeira dama de Moçambique se ofereceu para pagar as despesas com a trasladação do corpo.

A outra vítima mortal em Carvide foi o pintor da construção civil Ricardo Teodósio, quando desabou a garagem de onde tinha acabado de ajudar o pai a retirar a autocaravana. Sabe-se agora que Ricardo fundou o grupo motard dos Arruaceiros de Carvide; que era um aventureiro que vivia a vida no limite mas ajudava toda a gente que lhe pedia; e que se sentia numa fase boa em que finalmente tinha conseguido comprar o carro dos seus sonhos, um Honda Civic transformado — que os amigos prometem agora restaurar para o filho de Ricardo poder usar quando tirar a carta.

As três mortes no concelho de Leiria só foram conhecidas muitas horas depois, devido às avarias nas redes de comunicações na região, mas terão acontecido a meio da madrugada, no pico da força dos ventos, com rajadas que atingiram os 178 km/hora na base de Monte Real, ali bem perto.

Ricardo Teodósio, 38 anos. O aventureiro extravagante

Estava finalmente tudo a compor-se na vida de Ricardo Teodósio. Cinco dias antes de morrer, o pai, Fernando, confidenciou a um amigo que ia passar ao filho a gestão do negócio familiar: Fernando continuaria a fazer os orçamentos, a parte de que Ricardo menos gostava, mas o filho ia passar a coordenar a execução de todos os trabalhos de pintura em obras de construção civil.

Aos sete anos, Ricardo soube que a mãe — até aí funcionária numa fábrica de detergentes — tinha esclerose múltipla. O pai, que saía cedo para obras muitas vezes longe de casa, deixava o filho acordado e já era ele que preparava o seu próprio pequeno almoço e ia sozinho a pé para a escola. Na adolescência, viria a ajudar o pai a tratar da higiene da mãe, que morreria em 2019.

Aos dez anos, Ricardo ajudou com os seus braços o pai a construir a casa de Carvide onde ambos viviam (e onde Ricardo viria a morrer na madrugada de 28 de janeiro): foi ele que lixou as portas para a madeira ficar lisa e auxiliou na preparação dos materiais que os pedreiros iam usar.

Apesar de lhe faltarem dois anos para tirar a carta, pegou na carrinha do pai, que já estava carregada de tintas para ele sair para o trabalho no dia seguinte, e andou com os amigos às voltas por Carvide. Foi uma noite de desvario que acabou com um acidente em que ninguém se magoou. Mas capotou a carrinha e inutilizou as latas de tinta do pai. A sua primeira preocupação foi mandar os amigos todos embora da carrinha, para não serem apanhados nem terem problemas. Depois, ele próprio deixou um bilhete ao pai, a dizer para não se preocupar porque ia arranjar um trabalho para pagar o prejuízo

Um pouco mais tarde, passou a aproveitar as saídas noturnas do pai para também se divertir: convocava os amigos todos para irem brincar com a mota de Fernando Teodósio, uma Macal. Marcava o local onde a mota estava (para depois a deixar exatamente no mesmo sítio sem o pai se aperceber de nada) e desatava a fazer rateres, para desespero da vizinhança com o ruído.

Aos 15 anos, apaixonou-se por uma rapariga de outra turma e, apesar de ser bom aluno, chumbou por faltas para poder estar com ela. O pai não se comoveu com o romance. Se fosse por não perceber as disciplinas, teria sido menos grave. “Não podia admitir um chumbo por faltas e disse-lhe: ‘Voltas novamente para a escola. Se chumbares, sais e vais trabalhar’”, recorda Fernando Teodósio ao Observador. Não correu bem: “Era o que ele queria. Talvez porque sentisse necessidade de ajudar nas despesas da casa”.

Da casa e não só. Por essa altura, apesar de lhe faltarem dois anos para tirar a carta, pegou na carrinha do pai, que já estava carregada de tintas para sair para o trabalho no dia seguinte, e andou com os amigos às voltas por Carvide. Foi uma noite de desvario que acabou com um acidente em que ninguém se magoou. Mas capotou a carrinha e inutilizou as latas de tinta do pai.

Ricardo, à esquerda na foto, com um grupo de amigos motards (foto cedida por amigos de Ricardo).

A sua primeira preocupação foi mandar os amigos todos embora da carrinha, para não serem apanhados nem terem problemas. Depois, ele próprio deixou um bilhete ao pai, a dizer para não se preocupar porque ia arranjar um trabalho para pagar o prejuízo (uns dez mil euros já naquela altura, no princípio dos anos 2000). Andou fugido dois dias e o pai teve de seguir a namorada à saída do autocarro, sem ela se aperceber, para encontrar o filho escondido em casa de um amigo.

Fernando pôs Ricardo a trabalhar com ele, enquanto era menor de idade. Sabia que o filho tinha o sonho de ser eletricista e tinha receio de estar a contrariá-lo encaminhando-o para o ofício de pintor, mas não aconteceu: o miúdo aprendeu a fazer tudo o que é preciso na construção de uma casa e tornou-se um profissional responsável.

Além da profissão do pai, herdou também a paixão pelas motas. Fundou com um grupo de amigos da terra um clube motard sugestivamente chamado “Os Arruaceiros de Carvide” e andou a colar autocolantes com o símbolo do grupo à porta de casa de todos os membros e familiares.

“Na altura, eu morava nas Caldas da Rainha. O Ricardo ia de Carvide às Caldas da Rainha duas a três vezes por semana, só para conseguirmos estar juntos durante duas ou três horas, e isso, para mim, era uma verdadeira prova de amor”
Joana Zorrinho, viúva de Ricardo Teodósio

Fora do trabalho, era um aventureiro que vivia a vida no limite. Um “extravagante”, segundo Diogo Guerreiro, amigo de Ricardo e também membro do grupo. Lembra-se de o ver andar de mota em Carvide com o rabo à mostra, para fazer rir os amigos. Ou de pegar numa cadeira de rodas e se deitar no meio da estrada com a mota tombada, a gemer, a simular que tinha sido vítima de um acidente, só para pregar partidas a quem passava: apenas desfazia o drama quando as pessoas, atónitas e preocupadas, se precipitavam a ligar para o 112. Nem toda a gente achava graça ao susto.

Na vida amorosa, aos 25 anos conheceu Joana, de 19, e os amigos perceberam logo que com esta namorada ia ser diferente. “Estava realmente apanhado por ela, identificava-se muito com ela”, recorda Diogo, o amigo e parceiro dos Arruaceiros de Carvide.

Ricardo e Joana tiveram de adiar o casamento um ano por causa da pandemia. A lua de mel foi no sul de Espanha (foto cedida por amigos de Ricardo).

Joana também ficou “apanhada”, assume agora: “Na altura, eu morava nas Caldas da Rainha. O Ricardo ia de Carvide às Caldas da Rainha duas a três vezes por semana, só para conseguirmos estar juntos durante duas ou três horas, e isso, para mim, era uma verdadeira prova de amor”.

Foram pais em 2018. “Penso que foi o dia mais feliz da vida dele”, assinala Fernando, que se tornou avô. Quando começaram a planear o batizado, Ricardo sugeriu a Joana que aproveitassem para casar também. Parece pouco romântico, mas o jovem pintor era mais de pequenos gestos, como um lanche surpresa num domingo à tarde, uma viagem de carro sem destino aparente, ou a reparação das coisas que Joana estragava acidentalmente.

A festa de casamento e baptizado esteve marcada para 2020, mas teve de ser adiada um ano por causa da pandemia. “Foi um dia memorável”, lembra Joana. “A nossa lua de mel foi no sul de Espanha. Foram dias de felicidade pura. Mal saíamos do hotel, apenas para pequenos passeios em volta. Não importava o sítio, porque o que mais queríamos era estar juntos”.

Ricardo também jogava futebol com os amigos e ia sempre à baliza, por ser uma posição de que mais ninguém gosta. Mas era fora dos relvados e para lá das borgas que defendia as amizades, sempre disponível para conversas em momentos difíceis, conta Diogo; e também para ajudar em qualquer pequena reparação que alguém tivesse de fazer em casa, sem aceitar ser pago — e sabendo-se que o dinheiro até lhe daria jeito para as despesas domésticas.

Joana lembra-se de estar grávida, durante os grandes incêndios na região de Leiria em Outubro de 2017, e mesmo assim Ricardo querer sair de casa para ir tentar ajudar. “Era um homem cheio de carácter, valores, super-amigo de todos. Deixava qualquer coisa que tivesse de fazer para ir desenrascar um amigo”, elogia o pai, orgulhoso.

Recentemente, Ricardo tinha-se juntado ao grupo motard “Clássicos do Palheiro” e ia a passeios, muitas vezes na companhia do pai, também apaixonado por motas: “O meu divertimento era fazer o passeio com a preocupação de não cair. Ele ia naquelas palhaçadas e brincadeiras com os amigos, a ver quem levantava melhor a roda nos cavalinhos.”

Todos os anos faziam um passeio de pais natais: 150 a 300 motards vestidos de Pai Natal, a caminho de um lar de deficientes ou de crianças pobres, para distribuir prendas.

“Sentia o sangue a escorrer cara abaixo, quando ia parar aos olhos limpava, para poder continuar. Não eram as dores físicas que me iriam impedir de tentar ir buscar ajuda para o meu filho”.
Fernando Teodósio, pai de Ricardo

Ricardo estava numa fase boa. Tinha conseguido comprar há pouco tempo um carro com que andava a sonhar desde sempre, um Honda Civic 1600, para restaurar. Tinha um terreno onde estava a construir o seu espaço e onde planeava ter alguns animais. Tinha ajudado a construir a pista de motocrosse dos “Clássicos do Palheiro”. Tinha participado este ano na prova de resistência da zona centro, aguentando duas horas numa mota de 50 cc. Ambicionava percorrer a Nacional 2 de mota com os amigos, com uma carrinha atrás a dar apoio. E, sem ele saber, o pai já tinha falado com o contabilista para mudar a empresa para o nome de ambos, passando o filho a ficar com o papel principal na gestão do negócio. Só ainda não lhe tinha dito a ele.

Ricardo num passeio de mota, um dos seus passatempos preferidos (foto cedida por amigos de Ricardo).

Na madrugada da tempestade, Fernando e Ricardo tiraram uma autocaravana e um Volvo da garagem por acharem que as viaturas estariam mais a salvo na rua. Já estavam de volta à garagem quando foram surpreendidos por uma rajada mais forte de vento, que arrancou o portão e fez o anexo desabar em cima deles.

“Fiquei inanimado. Quando recuperei a consciência, estava tudo em cima de nós”, recorda Fernando. Sem rede telefónica, em aflição extrema, de costelas partidas e rosto ensaguentado das feridas na cabeça, pegou no carro para tentar ir chamar os bombeiros. Primeiro os da Vieira de Leiria, mas não conseguiu passar na estrada. Voltou para trás, para os bombeiros da Ortigosa, mas também não conseguiu avançar. Fez nova tentativa para chegar à Vieira e ainda hoje não sabe onde foi buscar forças para remover tantos telhados, antenas, chaminés, portões e árvores da estrada.

“Sentia o sangue a escorrer cara abaixo, quando ia parar aos olhos limpava, para poder continuar. Não eram as dores físicas que me iriam impedir de tentar ir buscar ajuda para o meu filho”.

Os bombeiros da Vieira colocaram-no numa ambulância, enquanto tentavam salvar o filho. “Quando me puseram dentro da ambulância, arriei, quebrei as forças”, admite. Foi levado para o hospital de Leiria sem saber se tinham conseguido salvar o filho, ao longo de 47 minutos de tentativas de reanimação. Foi depois a nora, acompanhada por uma psicóloga, que lhe foi dar a notícia.

Fernando pedia insistentemente que o deixassem sair do hospital para ir despedir-se do filho. Saiu mesmo antes de ser operado, mas esteve o tempo todo como se estivesse sob efeito de uma anestesia, sem saber muito bem quem o abraçava e lhe dirigia palavras de conforto.

Os amigos de Ricardo, a quem ele escutou os desabafos sobre os maiores problemas e nunca deixou que pagassem qualquer serviço, devolvem agora a amizade à família. Limparam os destroços da casa para que o pai, a mulher e o filho não tivessem de reviver o acidente a cada instante, assumiram a reparação dos estragos, tentam animar o pai a desvendar-lhe diabruras do filho de que ele nunca desconfiou, abrem a cerveja de que só ele gostava e dividem por todos. Já combinaram que vão recuperar o Honda Civic para deixar ao filho do amigo, que tem recebido apoio psicológico.

Os amigos de Ricardo estão também determinados a cumprir o seu sonho de percorrer a Nacional 2, de mota — só porque sabem que ele ia gostar e não o querem esquecer.

Helda Zeca Muianga, 28 anos. A modelo inconformada que queria ser diplomata

“Como é que se vê daqui a 5 anos?” A pergunta foi feita por Helda Zeca Muianga, no reality show “Date my family – Moçambique”, da BSTV. A jovem modelo foi a escolhida para o episódio de estreia deste formato televisivo, em 2022, onde as concorrentes escolhiam um de três pretendentes para um date. Helda seleccionou o que lhe pareceu mais “bonito”, mas depois não gostou da conversa, sentiu que era demasiado caseiro e a relação televisiva não passou de uma amizade.

Na infância, Helda chegou a sonhar com um trabalho na aviação, segundo a irmã Vania Sitoe: “Como boa menina, queria ser hospedeira da LAM [Linhas Aéreas de Moçambique], para ter uma vida glamourosa, cheia de viagens. A ideia de subir a um avião era uma coisa do outro mundo”. A primeira vez que apanhou um avião na vida foi já aos 28 anos, de Maputo para Lisboa, quatro anos depois do reality show — e duas semanas antes de morrer em Moinhos de Carvide, na madrugada em que chegou a tempestade Kristin.

A mãe de Helda, revisora da Imprensa Nacional de Moçambique, influenciou-a a seguir o curso de Relações Internacionais, na Universidade São Tomás de Moçambique. A jovem tinha a ambição de ser diplomata, trabalhar no Ministério dos Negócios Estrangeiros ou numa embaixada ou em qualquer outro posto que lhe permitisse mais facilmente passar a viver na Europa.

Helda sonhou ser hospedeira, mas o primeiro voo da sua vida foi de Maputo para Lisboa, duas semanas antes de morrer (foto cedida pela irmã).

Para ajudar a mãe a pagar os estudos, Helda trabalhou como promotora de eventos e também como modelo no mundo da publicidade, tendo chegado a entrar numa campanha da Vodacom.

Foi nessa altura que participou no reality show “Date my family”. “Aquele cidadão não vai dar conta”, explicou Helda à irmã, para justificar porque é que não tinha dado seguimento ao primeiro encontro. “Ela mostrou que tinha uma personalidade muito forte, mais explosiva e aguerrida”, resume Vania. “Sempre soube muito bem o que queria. Não levava desaforos para casa. Saía dos relacionamentos à primeira ‘red flag’”.

Helda namorou com o irmão de Teodora Auze, de quem se manteve muito amiga depois de a relação terminar. Chegaram a sonhar vir juntas para Portugal, mas Teodora percebeu que seria difícil acompanhá-la, por ter uma filha muito pequena de 3 anos e um rapaz de 18 anos. Combinaram então que Helda viria à frente, e depois mais tarde Teodora juntar-se-ia.

“Eu estou bem, Graças a Deus. Só frio. Hoje está um frio terrível com uma sensação térmica de 1 grau. Está um frio louco, mesmo. Mas vamos gerindo, não é? Ainda não consegui. Mas epá, estou na luta. Já tenho um sítio para ver no fim de semana. Provavelmente saio na próxima semana, em breve vou sair daqui.”
Helda, numa mensagem de áudio enviada de Portugal para uma amiga em Moçambique

“O idioma é o mesmo, há facilidade de chegar sem ter de lutar para falar uma língua diferente. Ela viu no Tik Tok publicações de algumas moçambicanas a explicar como tinham conseguido ir e pediu o visto”, recorda Teodora.

“Nunca se conformou. Queria sempre mais um desafio, era muito inquieta”, diz a irmã, a quem Helda ligou quando recebeu o papel que autorizava a entrada em Portugal: “Tenho uma surpresa”. Estava contente. “Foi a primeira pessoa na família a conseguir visto”, diz Vania, dez anos mais velha. A família juntou poupanças para ajudar a pagar a viagem.

Helda combinou tudo com um amigo da família que já tinha ajudado outros moçambicanos em Portugal. Foi buscá-la ao aeroporto e instalou-a numa casa amovível em Moinhos de Carvide, perto da praia de Vieira de Leiria, para se organizar nos primeiros dias até arranjar um emprego. Era uma espécie de parque de caravanas e casas pré-fabricadas, onde conheceu um vizinho polaco e uma residente portuguesa.

Helda na Praia da Vieira. Os amigos em Moçambique estranharam vê-la de cachecol e luvas (foto cedida pela irmã).

Enviou para Moçambique fotos em que aparece sorridente, junto às letras gigantes da Praia da Vieira, de cachecol e luvas. “Estás na praia toda embrulhada?”, perguntou-lhe a irmã. Helda queixou-se do frio térmico: “É impossível não ter um aquecedor sempre ligado”. E também de uma certa frieza humana: “As pessoas não são muito calorosas como aí em Moçambique, são muito fechadas”.

Nos contactos com amigas e com a família, dois dias antes da tempestade, a jovem moçambicana lamentou em mensagens de áudio estar longe da cidade, sem transportes, e transmitiu novamente o desconforto do frio: “Eu estou bem, Graças a Deus. Só frio. Hoje está um frio terrível com uma sensação térmica de 1 grau. Está um frio louco, mesmo. Mas vamos gerindo, não é? Ainda não consegui. Mas, epá, estou na luta. Já tenho um sítio para ver no fim de semana. Provavelmente saio na próxima semana, em breve vou sair daqui.” Em Maputo estavam 28 graus e uma sensação térmica de 31 graus, como Helda podia confirmar vendo fotos de amigos moçambicanos na praia, o que a levou a desabafar numa mensagem de áudio por WhatsApp: “A temperatura aí está boa. Que inveja. Daria tudo para estar aí. Juro”.

Helda comentou com a irmã o alerta da tempestade, mas nenhuma pensou que viesse a ter esta intensidade. “Estamos habituadas a tempestades no verão. Se eu soubesse que ia ser assim, teria dito para procurar uma igreja, que devia ter uma estrutura mais robusta”, lamenta-se Vania.

Depois de a tempestade Kristin chegar, pelas 4 da manhã, Helda ainda ligou ao seu contacto em Portugal, a dizer que estava com medo, por sentir a casa a abanar.

Na manhã seguinte, em Moçambique, a amiga Teodoroa estranhou que Helda estivesse offline e que as últimas mensagens enviadas não tivessem sido dadas como entregues.

Helda escolheu um curso de relações internacionais para tentar uma carreira na diplomacia (foto cedida pela irmã).

A mãe de Helda perguntou a Vania se tinha falado com a irmã. Ficaram ambas preocupadas, mas o facto de terem outro contacto na região de Leiria que também estava offline tranquilizou-as, levando-as a pensar que seria um problema geral de falha de comunicações.

No dia seguinte, o contacto da família em Portugal ligou-lhes a anunciar a tragédia: a jovem moçambicana foi encontrada debaixo dos escombros da casa amovível que lhe servia de abrigo.

Vania e a mãe de Helda ficaram destroçadas. Primeiro a pergunta: porquê? Porquê com a Helda? Porque é que a tempestade tinha de cair ali? Depois, o rodopio mental por entre os “muitos ses” que podiam ter evitado um fim abrupto de tantos sonhos e expectativas: “Se não tivesse ido para Portugal, se tivessem negado o visto, se tivesse saído dali…” Por fim, a tentativa de procurar a fé: “São os planos de Deus, Ele sabe o que faz”. Helda era crente e evangélica.

A família lançou depois um apelo público a pedir donativos para ajudar nas despesas de trasladação do corpo de Helda, de Portugal para Moçambique. A primeira-dama moçambicana, Gueta Selemane Chapo, ficou sensibilizada e ofereceu publicamente ajuda para financiar essa operação e o funeral.

No meio desta dor, a família tenta proteger o amigo que recebeu Helda em Portugal. “Ele está traumatizado. Sente-se culpado, foi ele quem recebeu a Helda e arranjou o sítio para ela ficar”, justifica Vania. “A minha mãe vai ligar-lhe para acalmar o coração dele e tirar esta culpa que ele tem”.

Abid Shahzad, 45 anos. O paquistanês que queria trazer os filhos a ver o mar

A última mensagem enviada por Abid Shahzad para a sua mulher tinha a fotografia de uma rosa vermelha com a legenda: “Love you too mari Jind”. Significa algo parecido com “também te amo, minha vida”. Eram 23h23 no Paquistão, onde Shaista Farooq, 43 anos, já tinha deitado os três filhos do casal. Eram 18h23 em São João da Talha, no supermercado onde Abid tinha acabado de entrar pela última vez ao serviço como padeiro, na véspera da madrugada em que uma árvore cairia em cima do carro que conduzia.

O casamento em 2006 foi combinado pelos familiares de ambos, como é tradição no Paquistão. Já se conheciam e Shaista garante que podia ter recusado, se a hipótese não lhe agradasse. Não foi o caso: “Fui uma  mulher sortuda, tive um grande homem, que sempre tomou conta de mim, e dos meus filhos. Falávamos de tudo um com o outro, sem segredos.”

Abid e a mulher, pouco depois do casamento combinado entre as famílias que os uniu (foto cedida por Shaista, mulher de Abid).

Não tiveram lua-de-mel, mas pouco depois de casarem foram viver para Nicósia, no Chipre, ela a estudar design de interiores, ele a trabalhar numa banca de venda de legumes num mercado. “Foram os dias mais felizes da minha vida”, recorda agora Shaista.

Voltaram ao Paquistão quando ela acabou os estudos e ficaram a viver em Yezam Mandi, uma aldeia a 32 km de Bahawalpur, a 600 km da capital Islamabad, e a 9.500 km de Lisboa. Abid trabalhava numa loja de mármores e tinha ainda à volta da casa meia dúzia de vacas, 4 búfalos e 20 cabras — negociava leite e animais, para complementar o rendimento.

Abid gostava de ficar nesta loja a ouvir as conversas dos clientes em português, para imitar a pronúncia de certas palavras, como “carregador”, “capa” ou “telemóvel”. Nos primeiros meses em Portugal, frequentou um curso de português no Martim Moniz, para facilitar a integração. E quando visitou os três filhos no Paquistão, levou os livros de português para eles começarem a aprender a língua

O irmão de Shaista e cunhado de Abid, Muhammad Shabaz, veio viver e trabalhar para Portugal com os pais em 2018 e falou tão bem do país que tentou convencer a irmã a vir. Abid incentivou-a, mas acabou por vir ele à frente, em 2023, para preparar as coisas para o dia em que conseguiria trazer a mulher e os três filhos, para lhes dar melhor educação, saúde, segurança e conforto.

Começou por trabalhar numa loja de telemóveis, mas não se sentia tão bem como num estabelecimento do centro comercial Babilónia, na Amadora, gerido por Nadeem, um paquistanês de quem se tornou amigo. Gostava de ficar nesta loja a ouvir as conversas dos clientes em português, para imitar a pronúncia de certas palavras, como “carregador”, “capa” ou “telemóvel”. Nos primeiros meses em Portugal, frequentou um curso de português no Martim Moniz, para facilitar a integração.

Abid estava a tentar trazer a mulher e os filhos para Portugal (foto cedida por Shaista, mulher de Abid).

Um amigo recomendou-o para trabalhar como padeiro no supermercado de São João da Talha. Apesar de ser um horário nocturno, não teria de lidar com porco nem com vinho, o que era importante por motivos religiosos, frisa Shaista.

Acordava ao meio-dia, falava com os filhos no Paquistão por vídeo-chamada para lhe contarem como tinha sido a escola uma vez que eram cinco horas mais tarde, e depois de eles se deitarem ligava à mulher, para tomarem decisões sobre a gestão doméstica, ver a que familiares poderiam recorrer para ajudas pontuais e falarem da vida de cada um.

Um dia Abid surpreendeu a família com uma videochamada da praia, para mostrar aos filhos o mar, que nunca viram ao vivo, e os barcos atracados, que os deixaram curiosos. A praia mais próxima no Paquistão fica em Karachi, a uns 800 km da sua casa. Além das praias, Abid elogiava a natureza e os espaços verdes. E falou-lhes do Santuário de Fátima: “Quando vierem vamos visitar juntos”. No resto, dizia que os portugueses o tinham recebido bem e elogiava os patrões.

A mulher de Abid estranhou que ele não lhe tivesse enviado mensagem à saída do trabalho. Escreveu-lhe e nada. Lembrou-se do alerta de tempestade em Portugal e começou a ligar, com cada vez mais insistência e aflição. Pelas 12h30, o seu telefone tocou e era o irmão a dar a terrível notícia: a força do vento tinha derrubado uma árvore para cima da carrinha que o marido conduzia.

A meio de 2025, já legalizado em Portugal, Abid pôde ir ao Paquistão sem receio de não conseguir regressar. Abraçou longamente a mulher e levou livros para ensinar português aos filhos, o mais velho de 14, as raparigas de 12 e 9 anos. No regresso, trouxe a documentação para dar entrada na AIMA com o pedido de reagrupamento familiar, que lhes permitiria juntarem-se a ele em Portugal. “Estava mesmo contente quando voltou”, recorda o amigo Nadeem.

Apesar de dizer aos amigos que adorava o trabalho, estava já a pensar em abrir um mini-mercado, para poder ganhar mais dinheiro (recebia 300 euros por semana) e sustentar a família.

Mas enquanto a mulher e os filhos não podiam vir, passava momentos difíceis de solidão. Um dia antes de morrer, comoveu-se numa chamada para a mulher: “Estava muito emocionado. Chorava e dizia: ‘Estou a sentir muitas saudades vossas.’” Depois comentou a tempestade e tanto a mulher como a mãe de Abid lhe pediram que tivesse cuidado.

Abid queria levar os filhos a visitarem o Santuário de Fátima. E a verem o mar pela primeira vez (foto cedida por Shaista, mulher de Abid).

Na madrugada da tempestade, Abid ia na carrinha da empresa, cheia de sacos de pão, até à estação de comboios, para voltar para casa. O patrão iria buscar a carrinha depois.

Shaista estranhou que ele não lhe tivesse enviado mensagem à saída do trabalho. Escreveu-lhe e nada. Lembrou-se do alerta de tempestade em Portugal e começou a ligar, com cada vez mais insistência e aflição. Pelas 12h30, o seu telefone tocou e era o irmão a dar a terrível notícia: a força do vento tinha derrubado uma árvore para cima da carrinha que Abid conduzia.

Ficou sem chão: “É muito difícil perder assim um marido que se ama tanto.”

Houve uma cerimónia na Mesquita de Lisboa, onde o Xeque Munir rezou uma oração, a Salatul-janazah, a pedir a Deus que perdoasse Abid e lhe desse o lugar mais alto no paraíso. Antes da oração, é habitual um familiar perguntar se o falecido tem dívidas para com alguém.

A viúva, Shaista, 43 anos, sente que deve fazer tudo para vir trabalhar para Portugal e honrar a vontade do marido de educar os filhos em Portugal: “Era o desejo do meu marido. O nosso filho não quer chorar à frente de ninguém, só sozinho. As filhas, quando toca o telefone, começam a chorar por saberem que não é o pai.”

Uma das filhas de Abid pedia-lhe frequentemente gelados e chocolates e ele lá lhe fazia as vontades. Antes de morrer, aproveitou a deslocação de um vizinho ao Paquistão, foi a um mercado na Amadora e comprou chocolates para enviar à filha. O vizinho acabou por entregar os doces de Abid no dia em que foi enterrado no Paquistão.

Rogério Parente, 57 anos. O ex-treinador de futsal feminino que adorava Angola

No fim da adolescência, Rogério Parente foi o primeiro no seu grupo de amigos a ter dinheiro para comprar um carro, um Seat, onde os levava a passear e a bares fora de Ansião, no norte do distrito de Leiria, onde viviam. Adorava conduzir.

Aos 22 anos, foi admitido num concurso para fiel de armazém ou mercados e feiras de 2ª classe, da Câmara de Ansião, mas nenhum amigo se lembra de ter ocupado a função. O seu primeiro emprego, durante muito tempo, foi como vigilante do hipermercado Continente de Leiria. O seu primeiro hobby, também durante muito tempo, foi o desporto. Adepto fanático do Benfica, jogou futebol no Pousaflores, clube da terra: um amigo lembra-se de o ver jogar e diz que era “um bocado sarrafeiro”. Foi depois durante alguns anos treinador do futsal feminino do Clube de Caçadores de Ansião. E com mais três amigos integrou a direção do clube, que conseguiu a proeza de ser campeão distrital de futebol nas camadas jovens masculinas durante dois anos seguidos, recorda ao Observador o atual presidente, Rui Godinho, que também integrava essa direção.

Profissionalmente, aventurou-se numa sociedade para lançar uma oficina de serviços rápidos em Pombal, mas o negócio não correu bem e acabou por fechar.

Quando a Procuradoria Geral da República de Angola decretou o congelamento das contas e bens de Isabel dos Santos, Rogério Parente deixou de receber salário. Ainda terá ficado uns seis meses a trabalhar que nunca foram pagos

No fim dos anos 2000, conheceu na discoteca Palace Kiay a mulher com quem viria a viver o resto da vida. Nuno Dias, um amigo da Marinha Grande, assistiu ao momento em que se conheceram, mas só mais tarde percebeu que estavam a namorar. Recorda com saudade as noites de diversão, as conversas sobre a hipótese de ter um filho de olhos azuis como ele e o quanto gostava de ir comer arroz de tamboril à Praia da Vieira.

A mulher de Rogério foi dar aulas em Angola. Ele acompanhou-a e apaixonou-se pelo país. Deu-se bem com as pessoas e ficou fascinado com a beleza natural. Num post no Facebook sobre as praias de águas límpidas do Cabo Ledo, 120 km a sul de Luanda, não resistiu a comentar: “É mesmo espectacular, já [lá] acampei e gostei muito.”

Rogério Parente, segundo a contar da direita, na praia com um grupo de amigos (foto do Facebook).

Em Angola conseguiu um emprego numa empresa de Isabel dos Santos, filha do ex-Presidente José Eduardo dos Santos: era responsável pela contabilização da madeira cortada e pelas licenças para abate da floresta, numa indústria no Bengo, a 100 km de Luanda, segundo Alberto Violante, amigo de Rogério desde a adolescência, que também trabalhava na altura em Angola, onde continua ainda hoje. Quando a Procuradoria Geral da República de Angola decretou o congelamento das contas e bens da mulher mais rica de África, Rogério Parente deixou de receber salário. Ainda terá ficado uns seis meses a trabalhar que nunca foram pagos, segundo Alberto Violante.

Durante a pandemia acabou por voltar para Portugal, mas deixou dois caixotes em casa do amigo, em Luanda, a pensar que poderiam ser úteis no dia em que regressasse ao país que tanto o marcou.

Rogério adorava Angola. Quando saiu do país deixou dois caixotes a um amigo, guardados para quando voltasse, mas já não regressou (foto do Facebook).

Voltou a trabalhar como vigilante e estava a guardar uma obra de instalação de um parque solar fotovoltaico em Fonte Oleiro, na Boa Vista, concelho de Leiria.

O engenheiro responsável pela obra, Edgar Santos, explica ao Observador que contratam seguranças para evitar o roubo de fios de cobre. E responsabiliza a falta de uma informação adequada: “Os alertas não foram suficientes. Quando falam em ventos de 140 km/hora, não sabemos o impacto que isso vai ter. Se tivéssemos tido a noção de que ia ser assim, dizíamos: hoje não vai, fica em casa. Nada tem mais valor do que uma vida humana”.

O promotor da obra, Fernando Costa, recorda que passou essa madrugada a fazer força contra as portas para o vento não entrar. E quando a tempestade passou, sem rede nem energia, perdeu a ligação com o mundo: “Caí num buraco negro. Não tínhamos qualquer informação sobre o que se estava a passar à nossa volta. Nem sabia se o país ainda existia.”

Filipe Sousa, vizinho que vive mais próximo da obra (mas ainda afastado), recorda a intensidade das rajadas na madrugada de 28 de janeiro: “Foi o demónio. Nunca tive tanto medo na minha vida. Não imagino o que aquele homem sofreu ali sozinho”.

Rogério era um adepto fervoroso do Benfica (foto do Facebook).

Às primeiras horas da manhã, quis sair de casa de bicicleta para ir à Boa Vista, tentar comprar cigarros e beber café para acalmar a ansiedade. Ao passar pela obra, deparou-se com os contentores desfeitos e o corpo do vigilante no chão, com marcas de ter sido atingido por destroços. Pediu um cobertor a uma vizinha para tapar Rogério, começou a chamar o INEM pelas 8h da manhã, mas foram horas tão caóticas, com estradas cortadas e sem rede de comunicações, que o INEM só terá chegado perto do meio-dia.

Rogério Parente, que adorava sair à noite para se divertir com os amigos, passou a última noite da sua vida num contentor, a guardar uma obra que ainda estava a começar.

Os que morreram
quando tentavam reparar
os telhados

A seguir à tempestade, muitos homens arriscaram a vida para reparar telhados destruídos: os seus ou os de familiares, vizinhos e amigos. José, Fernando, Rui, Alberto e Joaquim caíram e morreram.

Fernando não volta a receber amigos em sua casa para churrascos acompanhados por pão cozido no seu forno. Rui não volta a organizar petiscos com percebes e os vinhos brancos que produzia. Alberto não volta a vibrar com os golos do Sporting nem com o programa “A Sentença”. Joaquim não volta a ir ver o fogo de artifício da passagem de ano a Leiria. E José não volta a sentar-se no baloiço e a conduzir a neta no tractor. Todos tentaram proteger o recheio das suas casas ou dos seus familiares nos dias a seguir tempestade. Todos caíram.

José Encarnação Sousa, 73 anos. O avô que a neta sentou num baloiço

Dos oito irmãos, quatro foram carpinteiros, como José. Dos oito irmãos, três morreram de forma trágica, como José. O irmão mais velho, que José não chegou a conhecer, morreu quando tinha apenas 6 anos: estava a brincar quando caiu a um poço. Outro irmão de José sofreu um acidente quando regressava a casa num tractor: o veículo capotou e foi encontrado já sem vida. José Encarnação Sousa morreu aos 73 anos, em parte porque não sabia dizer um não.

Na manhã a seguir à tempestade, a filha, Graciete, foi ver se o pai estava bem e já José estava a caminho de casas de familiares para consertar telhados, na aldeia da Torre, freguesia do Reguengo do Fétal, concelho da Batalha, a uns 15 km de Leiria, uma das zonas mais afetadas.

Era incapaz de não ajudar no dia-a-dia, acedendo a todos os pedidos de pequenos arranjos que procuravam o seu talento e perfeccionismo. Mais incapaz seria numa circunstância destas de não se pôr ao serviço de tanta gente afetada, assustada, aflita e ansiosa.

“A neta virou-o ao contrário. Era uma pessoa um pouco dura, também por causa do trabalho, e amoleceu completamente. Ia buscá-la à escola e fazia tudo o que ela lhe pedia. Foram ao baloiço da Barrosinha, eu não o imaginava a sentar-se num baloiço, mas ela pediu: ‘Agora és tu.’ E ele sentou-se, derretido.”
Graciete, filha de José, sobre a relação com a neta

A aldeia da Torre foi tão fustigada pelo vento que no dia seguinte só se viam pessoas nos telhados a tentar remediar os estragos.

José chegou a comentar com a filha que um telhado mais destroçado precisaria de 170 telhas. A chuva que continuava a cair era ao mesmo tempo motivo de urgência na reparação, para entrar menos água a destruir o recheio das casas, e de preocupação, por tornar os trabalhos mais difíceis. No fim do dia, Graciete perguntou-lhe se tinha conseguido. E ele devolveu um sorriso: “Há alguma coisa que eu não consiga?”

José empurrado pela neta no baloiço: fazia tudo o que a menina lhe pedia (foto cedida pela família).

Aprendeu o ofício com o irmão Valentim, o mestre de todos os carpinteiros da aldeia, e que lhe ensinou também a tratar dos campos, das hortas e dos animais.

O 25 de Abril apanhou-o na guerra em Angola, de onde só voltou em 1975, mas falava pouco com a família sobre essa experiência intensa.

Casou-se com a filha do patrão do pai, um dos homens mais ricos da terra, o que na época nem sempre era bem aceite devido à diferença de estatuto. Não houve obstáculos: foi aceite e integrado. Mas também não se encostou ao património do sogro: emigrou para França com a mulher e filhos, para tentar melhorar a vida. Trabalhou numa pedreira onde perdeu um dedo, o que levou aliás a que recebesse até ao fim da vida um pequeno valor mensal como compensação por esse acidente de trabalho.

José e a mulher emigraram para França, onde ele trabalhou numa pedreira. Voltaram a Portugal quando a filha entrou para a escola primária.

Voltou à terra quando a filha ia fazer 6 anos, para que pudesse frequentar uma escola primária portuguesa. Trabalhou sempre como carpinteiro e agricultor, a cuidar das terras herdadas pela família.

Quando completou 25 anos de casado, fez uma viagem à Madeira com a mulher e os três filhos. Tinha-se cruzado com um paquete que ia para o Funchal quando voltou da guerra em Angola e esse desejo de conhecer o arquipélago ficou-lhe desde essa altura.

Combateu na guerra em Angola, mas não gostava de falar do assunto. Voltou apenas em 1975 (foto cedida pela família).

Gostava de fazer longas caminhadas, com a mulher ou sozinho, ao domingo à tarde, pelas terras à volta da aldeia. Gostava de jogar à sueca com o sobrinho Carlos e com outros parceiros, mas não gostava de partilhar esses momentos com quem tinha mau perder, com quem se zangava ou com quem fazia batota. Gostava do Benfica e três dias depois da tempestade, quando voltou a ter rede e se voltou a ligar ao resto do mundo, ainda estava incrédulo com a vitória do clube frente ao Real Madrid na noite de 28 de janeiro.

Adorava a neta. Mudou desde que ela nasceu há 4 anos, diz a filha Graciete: “A neta virou-o ao contrário. Era uma pessoa um pouco dura, também por causa do trabalho, e amoleceu completamente. Ia buscá-la à escola e fazia tudo o que ela lhe pedia. Foram ao baloiço da Barrosinha, eu não o imaginava a sentar-se num baloiço, mas ela pediu: ‘Agora és tu.’ E ele sentou-se, derretido.” Também a levava a passear no tractor — também não conseguia dizer que não à neta. “Eram dois compinchas”, resume Graciete, sobre a relação cúmplice entre o seu pai e a sua filha.

“Eram dois compinchas”, resume a filha de José sobre a relação que ele tinha com a neta, aqui a passearem de tractor (foto cedida pela família).

O sobrinho de José, Carlos Sousa, 9 anos mais novo, também testemunhou essa ternura que o avô sentia pela neta. Em Novembro, pediu-lhe ajuda para uns arranjos numa casa em Lisboa e no caminho o tio confessou-lhe que estava a pensar abrandar o ritmo, para se concentrar ainda mais na neta: “Ando com uma labuta, já não tenho idade para isto, tenho de me dedicar mais à família.”

Carlos quis pagar esta ajuda do tio, mas ele recusou: “Nunca lhe consegui pagar.” E esta tentativa de abrandamento também não era fácil: “As pessoas insistiam. E ele, por bondade, não conseguia dizer que não.”

No sábado, 31 de janeiro, Carlos viu da sua janela um helicóptero do INEM a sobrevoar a aldeia. A mulher, que tinha saído, voltou a casa e deu-lhe a notícia: “Foi o tio Zé que caiu.”

Estava a consertar o telhado de uma familiar. Já tinha praticamente terminado, faltava só passar uma esponja e água para aperfeiçoar o acabamento. Ouviu-se o som do balde a cair de uma altura de 6 metros. O corpo de José ficou estendido no chão.

No meio de tanta dor, a filha diz que também consegue sentir orgulho por esta última generosidade do pai.

A Igreja da Torre — onde José assistia à missa todos os domingos, sempre em pé do lado direito do altar — encheu-se para o funeral. “Num dia de semana não é habitual”, salienta o sobrinho. “Só para pessoas que são muito queridas e espalham magia como ele espalhou.”

Fernando Delgado, “Sardinha”, 66 anos. Um “bombeiro” que ajudou todos e arranjou 20 telhados

Há pessoas que se tornam mais conhecidas pelas alcunhas, ao ponto de se colarem ao nome para poderem ser identificadas, mesmo em momentos solenes e derradeiros como a hora da morte. O anúncio nas redes sociais da funerária que assegurou o enterro de Fernando Delgado juntou a seguir o parêntesis “(vulgo Sardinha)”. A alcunha foi herdada do pai, que já a tinha herdado do avô, e não é fácil encontrar quem a saiba explicar. Mas toda a gente na freguesia de Bárrio, em Alcobaça, o conhecia como “Sardinha”, o que dava azo a brincadeiras das pessoas com que se cruzava: “Como está o preço da sardinha hoje?” Fernando ria-se e dizia que estava cara ou que preferia grelhada.

Trabalhou sempre na área da construção civil, tinha uma empresa com a mulher, mas estava a pensar desfazer-se da atividade, para preparar a reforma e deixar de trabalhar tantas horas, segundo uma amiga. Na sua própria casa, construiu uma sala só para receber os amigos mais chegados, preparada com uma churrasqueira e um forno a lenha para cozer o pão que tornava as petiscadas ainda mais apetitosas.

Fernando, conhecido como “Sardinha”, trabalhou a vida toda na construção e foi dirigente do clube da freguesia (foto do Facebook).

Sociável, simpático, extrovertido, cumprimentava ou era cumprimentado por toda a gente que passava por ele na rua. Foi diretor da União Recreativa do Bárrio e grande entusiasta e apoiante das festas locais.

Na manhã depois da tempestade, apareceu logo com a camioneta e passou os dias seguintes a pôr telhas em todo o lado onde faltavam. Uma amiga diz que terá ajudado a reparar uns 20 telhados nesses dias. “Ainda bem que não há rede, assim não estou a atender o telefone em cima do telhado”, terá gracejado, no meio da azáfama.

No sábado, 31 de janeiro, a acabar de repor o telhado numa empresa, foi traído por uma telha que se soltou e deu uma queda de uns 4 metros de altura. Centenas de pessoas fizeram questão de se despedir de Fernando, ou “Sardinha”, no funeral. A amiga explica porquê: “Foi sempre um bombeiro para toda a gente.”

A Junta de Freguesia agradeceu-lhe nas redes sociais a disponibilidade e generosidade de toda uma vida: “O Bárrio ficou mais pobre hoje. Perdeu um amigo muito grande, um homem sempre disponível para ajudar todos. E foi com esse espírito de missão que acabou por perder a vida.”

Rui Cerejo, 63 anos. O empresário de vinhos que adorava percebes

Rui e o irmão, Joaquim, cinco anos mais velho, começaram cedo a trabalhar na empresa dos pais, de produção e comercialização de vinhos. Primeiro a lavar os barris; depois a ajudar na distribuição, assim que tiraram a carta; a seguir a assumir a responsabilidade pelas vendas, com o país dividido ao meio entre os dois: Rui ficava com os clientes de Alcobaça para o Norte, enquanto Joaquim assegurava o sul. Por fim, tornaram-se eles os patrões, quando os pais mudaram o nome da empresa, para partilhar a sociedade: passou a ser a JS Cerejo & Filhos, lda.

Os filhos não se limitaram a gerir o que herdaram e tomaram uma decisão estratégica importante: investir em produção no Alentejo, na região de Avis, para não ficarem limitados às vinhas à volta de Porto de Mós. “A nossa região para vinhos não tem futuro nenhum”, justifica Joaquim, em contraponto com a qualidade dos vinhos no Alentejo.

Rui Cerejo morreu após uma queda do telhado do armazém da empresa de vinhos (foto do Facebook).

Rui Cerejo tornou-se o gerente da empresa, sempre com o apoio do irmão. Deixou de calcorrear tabernas com amostras de vinho para tentar vender pequenas quantidades e passou a frequentar os restaurantes para descomprimir em almoços com outros empresários e amigos.

Também gostava de os receber em sua casa, no Tojal (onde tinha carros antigos que gostava de usar em passeios de fim de semana). Na petiscada mais recente tinha pedido a um fornecedor da Nazaré 20 quilos de percebes, acompanhados por vinho branco fresquinho da própria empresa familiar, que tem como marcas mais conhecidas o Herdade Fonte de Paredes ou o Três Vinténs.

Na segunda-feira, dia 2 de fevereiro, Joaquim tinha estado com o irmão Rui a almoçar num restaurante de São Jorge (cliente da empresa de vinhos) com outros 11 empresários. Joaquim teve de sair para Avis para receber fornecedores; Rui foi para o armazém, cujo telhado ia ser reparado depois de ter sido danificado pelo embate de uns painéis fotovoltaicos arrastados pelo vento.

O gerente subiu ao telhado juntamente com outro funcionário, mas pisou duas telhas que não estavam seguras e caiu de uma altura de 5 metros. Ainda foi levado pelo INEM para o hospital, onde acabou por morrer.

Joaquim mora mesmo ao lado da casa do irmão. Já se tinha reformado, mas está a dar todo o apoio que pode à cunhada e aos dois sobrinhos, de 21 e 30 anos. O mais velho assume para já a gestão do negócio de família.

José Alberto Quinteira, 72 anos. Um sportinguista que salvou duas cabras

A infância de Alberto foi dura. Foi de Vila Real de Trás-os-Montes, onde nasceu, para o Porto, para viver e trabalhar com o pai, quando tinha 12 anos — e acabar a quarta classe. Não estudou mais. Depois, ainda o acompanhou quando foi viver e trabalhar em Lisboa, enquanto a mãe ficou em Vila Real com os irmãos. Aos 18, a mãe morreu quando estava a dar à luz um par de gémeos, que também não sobreviveram. O pai ficou sozinho com a responsabilidade de criar quatro filhos, sendo Alberto o mais velho.

Manteve-se sempre em serviços de carpintaria, mas tinha jeito para outros biscates e arranjos. Um dia um amigo recomendou-o para ir arranjar uma fechadura a casa de Fernanda, na altura funcionária de um restaurante, dez anos mais nova, divorciada. Trocaram contactos, foram-se conhecendo e viveram o resto da vida juntos. Em férias, puderam conhecer bastante bem o norte do país, de onde Alberto era natural.

Alberto na Sertã, terra da mulher, com as duas cabras que ajudou a criar (foto cedida por Fernanda, mulher de Alberto).

Aos 58 anos, foi operado às mãos e pôs uma prótese no joelho, o que inviabilizou que continuasse a trabalhar como carpinteiro. Esteve três anos de baixa antes de se reformar aos 61, depois de se ter submetido a uma junta médica.

Fernanda continua a trabalhar em Lisboa, mas Alberto começou a passar cada vez mais tempo na casa de família da sua mulher, na Sertã, para não ficar na capital sem fazer nada. Assim, passou a dedicar-se a uma horta, com árvores de fruto. Tinha também 18 patos, 20 galinhas e duas cabras — foram oferecidas há três anos por um vizinho, mas ele teve pena de as matar e acabou por tomar conta delas.

Do relacionamento entre Alberto e Fernanda nasceu um filho, hoje com 26 anos, que o pai chegou a levar ao estádio de Alvalade a ver o seu Sporting. Nos últimos anos já só assistia aos jogos pela televisão, mas vibrou com os três títulos recentes do clube do seu coração. Também na televisão gostava de ver o programa “A Sentença”, das tardes da TVI, na companhia de um vizinho.

Alberto aqui ao lado do filho que chegou a levar a Alvalade a ver jogos do Sporting (foto cedida por Fernanda, mulher de Alberto).

A tempestade provocou estragos avultados na Sertã, mas Fernanda demorou a saber se o marido estava bem e se a casa tinha sido atingida. Ficava preocupada com o que via nas notícias, mas devido à falta de rede não conseguiu falar com o marido. “Deus queira que não tenha acontecido nada”, pedia. Só no dia seguinte, graças a um familiar que se deslocou a Vila de Rei para apanhar rede, é que soube que Alberto estava bem, mas a casa tinha sido muito atingida.

Foi visitá-lo à Sertã no fim de semana e proteger as mobílias e as camas com plásticos, para a água da chuva não agravar os estragos. E advertiu Alberto, em quem sentia o nervoso miudinho por não proteger melhor a casa: “Já tirámos as coisas melhores, não se arranja ninguém para o telhado, está tudo encharcado, escorrega tudo, agora acabou-se.”

Alberto trabalhou como carpinteiro desde miúdo até se reformar aos 61 anos por razões de saúde (foto cedida por Fernanda, mulher de Alberto).

“Impus-me porque sabia que ele era bastante teimoso”, justifica. Fernanda voltou para Lisboa e Alberto insistiu em avançar com a reparação. Segunda e terça transportou telhas para o telhado. Quarta, dia 4 de fevereiro, foi sozinho repor as telhas.

O vizinho com quem Alberto via o programa “A Sentença” estranhou ver o carro estacionado e as portas de casa abertas, sem sinal dele. Foi encontrado no chão debruçado em cima do escadote tombado. O funeral realizou-se em Trás-os-Montes, na terra onde nasceu.

Joaquim Ferreira, 73 anos. Um emigrante que “estava na melhor fase da vida dele”

Joaquim Ferreira nasceu em Chã da Laranjeira, freguesia de Souto da Carpalhosa, emigrou para França para trabalhar na construção civil, casou-se com uma portuguesa que tinha emigrado para a Alemanha e se juntou a ele perto de Paris, e tiveram duas filhas.

“Estava na melhor fase da vida dele.” É assim que um familiar define o momento em que Joaquim Ferreira se encontrava nas últimas semanas. “Reformado e à espera de vender a casa em França para se mudar de vez para Portugal, onde passava cada vez mais tempo.”

Joaquim estava a preparar-se para vender a casa em França para voltar de vez para Portugal (foto do Facebook)

Joaquim gostava de dormir a sesta e também de ir a arraiais e festas populares. Tinha grande afeto pela cadela, Tina, uma pinscher alemã. Passou o Natal com a família na Ortigosa, concelho de Leiria. E na passagem de ano foram à cidade ver o fogo de artifício.

Depois da tempestade, estava a ajudar um cunhado que teve 50 mil euros de estragos em casa. Enquanto reparavam juntos o telhado, uma rajada de vento mais forte levantou uma telha de 8 metros que o derrubou para o chão. Ainda foi transportado ao Hospital de Leiria, onde acabou por morrer.

Os que morreram
na água

Nuno tinha passado a semana anterior a recolher bens para ajudar vítimas em Leiria. Jouk fez dezenas de desfiles para ajudar causas sociais. E Valter, GNR e bombeiro, salvava pessoas sem hesitar.

Jouk Harris, estilista holandesa a viver no Algarve há 40 anos, ainda ligou ao marido quando sentiu o carro a ser arrastado pela força da água para a ribeira ao lado de casa. Nuno Paixão, que aprendeu a ser agricultor no Alentejo e ajudou a produzir o melhor azeite do mundo, chegou a comentar em casa que as pessoas deviam ter cuidado a circular no meio de tanta chuva, antes de o seu próprio carro submergir quando ia a caminho de uma consulta. E a morte de Valter, que sobreviveu a tantas situações perigosas para ajudar os outros ao longo da vida, foi acompanhada em direto por vários familiares que seguiam as comunicações via rádio no quartel de bombeiros de Campo Maior.

José Valter Canastreiro, 47 anos. O herói que nunca se gabava dos feitos

Os bombeiros de Campo Maior são uma família também no sentido literal do termo: o pai, a irmã, três tios, dois primos, o cunhado e o sogro de Valter são ou foram bombeiros voluntários naquela localidade alentejana junto à fronteira. Começaram por integrar a fanfarra da corporação em crianças, no fim da adolescência tornaram-se aspirantes e seguiram a carreira, alguns até chegarem a posições de comando, como o pai de Valter, que era também chefe da divisão da Câmara de Campo Maior responsável pelos jardins.

João da Rosa conheceu Valter nos escuteiros e notou desde cedo o quanto gostava de natureza, de acampar, de fazer caminhadas, escaladas, rappel, canoagem, arco e flecha: “Os outros miúdos iam para as festas, nós íamos para o campo.” Nestas aventuras, o amigo levava um caderno para desenhar pássaros. Mais tarde, tornar-se ia também um amante de fotografia, de alpinismo (na Suíça e nos Pirenéus), de mergulho (foi a treinos internacionais em Itália) e de pesca.

Depois de sair dos fuzileiros, Valter ainda pediu os papéis para se inscrever na Legião Francesa (fotos cedidas pela família).

Valter alistou-se nos fuzileiros ao mesmo tempo que João se juntou aos páraquedistas, o que lhes propiciou muitas horas juntos em conversas no comboio — e também a possibilidade de João ver a valentia heróica do amigo: “Foi sempre um defensor dos mais fracos. No comboio, se via alguma injustiça, ia logo meter-se, quando os ‘pintas’ provocavam os picas ou outros passageiros. Uma vez no comboio viu-os a gozar com um senhor mais velho, levantou-se e impôs-se logo. Andávamos sempre com facas, punhais e catanas, mas nem foi preciso nada disso”.

Quando terminou o serviço militar, Valter ainda foi com João da Rosa buscar os papéis para se inscreverem na Legião Francesa, mas acabaram ambos por ir trabalhar para a Hutchinson, uma multinacional de borracha que se instalou em Campo Maior.

João lembra-se de umas festas populares, pela Páscoa, em que andavam os dois de camuflado no meio da água e ouviram ao longe o choro de uma criança. Valter não descansou enquanto não a encontrou: era uma menina de 4 anos, abandonada no meio do nada. Os pais tinham-na deixado sozinha a dormir numa tenda para verem um FC Porto-Sporting. “Acordou, deve ter estado a chorar, começou a andar, já tinha água da ribeira pelos joelhos. O Valter levou-a para uma tenda de um familiar, para a aquecer, e chamou a GNR”, recorda o amigo.

“Se há um nome de herói, o Valter é essa pessoa. Dava a vida para salvar seja quem for. Morreu a fazer o que gosta. Mas era uma pedra que eu tinha na vida — e agora caiu.”
João da Rosa, amigo de Valter

O próprio Valter acabaria por se juntar à GNR, onde o seu dia-a-dia era passado no alto mar (que adorava), em lanchas rápidas em operações de combate ao tráfico de droga e contrabando de tabaco. Nunca se vangloriava, nem partilhava detalhes com ninguém. Disse apenas uma vez a João da Rosa que os contrabandistas o tentavam aliciar com ofertas de volumes de tabaco para ele deixar passar. “Mas ele não cedia”, frisa o amigo.

Valter esteve muito tempo baseado em Vila Nova de Milfontes, mas em todos os fins de semana e folgas arranjava maneira de atravessar o país de uma ponta à outra, quase 300 quilómetros e mais de três horas de viagem da costa até à fronteira, para estar mais perto de Ana Juromito em Campo Maior. Ela não cedeu logo, ia dando para trás, resistiu alguns seis meses. Mas o pai gostava muito deste pretendente e convidava-o para almoçar. E Ana valorizou bastante a presença de Valter em momentos difíceis, como a morte do avô ou uma queda do pai que obrigou a uma cirurgia.

Era bombeiro especialista em mergulho e participou em várias operações de resgate e salvamento (fotos cedidas pela família).

Acabaram por iniciar o namoro. A primeira impressão que Valter provocava era enganadora: “Havia colegas minhas que diziam que ele parecia pouco divertido e um bocado sisudo, mas quando se convivia com ele era o oposto, alegre e brincalhão”, recorda Ana, emocionada. Em caminhadas pela natureza, ele, sempre aventureiro, escolhia o percurso mais difícil. Uma vez, conseguiu convencê-la a acompanhá-lo e Ana chegou ao fim exausta: “Parecia que tinha estado a filmar O Sobrevivente na Barragem do Caia”.

Conseguiu colocação na GNR de Campo Maior para estar mais perto da família, o que o reaproximou dos bombeiros, onde voltou a estar mais ativo, tendo a especialidade de mergulho. “Ele ligava logo ao comandante: ‘Estou livre a partir das 8 da manhã.’ Estava sempre disponível”, recorda o cunhado, Bruno Juromito.

Valter esteve por exemplo nas operações de resgate das vítimas da derrocada da estrada de Borba, em 2018, talvez a missão mais conhecida. Mas os familiares e amigos contam vários outros episódios de heroísmo em que arriscou a vida: o resgate de um pai e filho na barragem, salvamentos de animais em poços, cisternas e rios, o combate às chamas no Convento de Elvas e o incêndio urbano com que se cruzou na rua 25 de Abril: sem equipamento mas sem hesitar, entrou na casa para salvar uma idosa do fogo, o que lhe valeu uma condecoração municipal.

Valter nunca se fazia valer das suas funções, nem mesmo em situações mais tensas. O cunhado conta que uma vez vinham do cinema em Badajoz quando a Guardia Civil os mandou parar e pôr as mãos no tejadilho. Bruno sussurrou: “Valter, diz que és colega, mostra o cartão”. E ele nada. Aguentou uns dez minutos. Quando os guardas espanhóis viram a identificação da GNR, soltaram um: “Já podia ter dito que era colega”.

Na última noite da sua vida, dormiu em casa para ajudar a preparar os filhos de manhã e apresentou-se no quartel de bombeiros, à hora em que ia começar o pico da chuva e das chamadas a pedir auxílio. Ainda ligou à mulher pelas 9h50 a lamentar a notícia da morte de um colega bombeiro, vítima de doença oncológica.

Foi depois incumbido de ir a uma casa que normalmente é mais afetada quando há cheias para se certificar se os moradores estavam bem, uma vez que não havia comunicações nem outra forma de ter a certeza. Atravessou um caminho com água pela cintura, esteve 20 minutos com os residentes e, no regresso, voltou a caminhar pela água, junto a um muro. Mas escorregou e ficou preso debaixo de água, vergado pela força do rio, sem conseguir voltar à tona.

Adorava a natureza, desenhava pássaros num caderno e tornou-se amante de fotografia (fotos cedidas pela família).

Estava acompanhado por uma bombeira, que alertou pelo SIRESP para a situação difícil. O drama foi acompanhado em direto através das comunicações via rádio por elementos de toda a família, que estavam no quartel de bombeiros, ou noutras missões no exterior. O cunhado e o sobrinho de Valter estavam a 20 minutos, junto a uma ponte submersa, e dirigiram-se rapidamente ao local. A mulher de Valter estava a pagar as compras do dia no hipermercado à hora em que ele morreu. Foi depois o sobrinho que a procurou para lhe dar a notícia.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, telefonou duas vezes a Ana, mas não pôde estar presente no funeral. Compareceram a esta cerimónia a sua ajudante de campo, os secretários de Estado da Administração Interna e da Proteção Civil, o presidente da Proteção civil, o presidente da Escola Nacional de Bombeiros, o comandante geral da GNR, o capelão da GNR e o capelão nacional dos bombeiros, cardeal Américo Aguiar.

O Grupo de Ecologia fundado por Valter imprimiu o seu nome nas canoas. A GNR quer fazer um memorial no posto. E a Associação de Bombeiros está a pensar fazer um memorial no rio Caia, junto ao local onde morreu.

Ana Juromito e José Valter Canastreiro iam finalmente casar este ano, ao fim de duas décadas de vida em comum, para oficializar a relação com um papel, precisamente para atenuar complicações burocráticas no caso de lhe acontecer algum imprevisto na vida de bombeiro ou de militar da GNR. Já tinham acertado a data: 31 de julho.

Valter chegou a fazer alpinismo nos Pirenéus e na Suíça (fotos cedidas pela família).

O filho mais velho, de 15 anos, passou toda a gravidez enquanto a mãe trabalhava no quartel, ao som das sirenes. Com dois meses, Valter levou-o a conhecer os outros bombeiros, que ficaram impressionados por o bebé não chorar quando soou a sirene. Agora, tem lidado de forma reservada com o sofrimento.

O filho mais novo, de 10 anos, tem puxado por toda a família, segundo a mãe: “É a tábua de salvação. Chora, grita, faz as perguntas todas: porque é que o pai estava na ambulância, como funciona a morgue, a autópsia, a trasladação, tudo o que se ia fazendo. Não quer ninguém a chorar ao pé dele.”

O amigo, João da Rosa, que também se emocionou na conversa com o Observador, continua inconsolável: “Se há um nome de herói, o Valter é essa pessoa. Dava a vida para salvar seja quem for. Morreu a fazer o que gosta. Mas era uma pedra que eu tinha na vida — e agora caiu.”

Nuno Paixão, 63 anos. O produtor de um azeite campeão que adorava ir ver rallies

Nuno Paixão viveu uma vida inteira a fazer jus ao apelido, segundo as pessoas que o conheciam melhor: “Era apaixonado por tudo o que fazia”. Em 1985, com 22 anos, apaixonou-se por Teresa, que conheceu através de amigos comuns. Montou uma empresa de topografia ainda antes de casar. Iam duas vezes por mês de Lisboa a Serpa, terra da família de Teresa, onde tem também muitos amigos que passaram a ser amigos do marido.

Em 2006, surgiu a hipótese de comprarem um terreno a três quilómetros de Serpa e a quatro quilómetros do Guadiana. Era a localização perfeita para um turismo rural — e assim nasceu o Monte da Morena. Nuno não se mudou só para a terra da mulher com as duas filhas. Mudou também de profissão e de vida.

Dizia a quem o conheceu bem que andar no trator fazia melhor do que ir a um bom psicólogo. Sentia um enorme prazer a tratar dos olivais no trator até às 2 da manhã — por graça, os amigos chegaram a oferecer-lhe a estatueta de um Óscar de melhor trabalhador.

No fim da adolescência já tinha ido apanhar maçãs ou fazer vindimas na Suíça para ganhar algum dinheiro. Mas com a mudança para o Alentejo aprendeu a ser agricultor. Começou por cultivar cereais e rapidamente passou para a olivicultura, ficando fascinado com tudo o que pudesse influenciar a produção do melhor azeite. Este “melhor” não é força de expressão: Nuno estava envolvido na produção do azeite 4C, que ganhou a medalha de ouro numa competição mundial em Nova Iorque.

Mas nem eram os prémios que o moviam. Era mesmo o prazer que sentia a tratar dos olivais no tractor até às 2h da manhã — por graça, os amigos chegaram a oferecer-lhe a estatueta de um Óscar de melhor trabalhador. Dizia a quem o conheceu bem que andar no tractor fazia melhor do que ir a um bom psicólogo. Quando chegava a casa, contava empolgado à mulher e às filhas tudo sobre o azeite que estava a produzir — e que tinha gosto que os outros saboreassem.

Nuno Paixão dizia que andar no tractor fazia melhor do que ir a um bom psicólogo (foto do Facebook).

Outro grande prazer da sua vida eram os rallies, não propriamente como piloto, mas como espectador e organizador. Esteve envolvido na preparação do Rally da Rampa da Pena e no Rally das Camélias. Ia frequentemente ver as provas do Rally de Portugal. E em 2006/2007, quando o Paris-Dakar começou em Portugal, Nuno acordou a mulher e as filhas às 2h da manhã para irem ver os carros e pilotos ao vivo.

Morreu a caminho de uma consulta de fisioterapia, quando tentava atravessar uma estrada alagada junto a uma barragem: o carro foi arrastado e ficou submerso. Foi no dia 4 de fevereiro, uma quarta-feira, exatamente uma semana depois da chegada da tempestade. Ficou tão impressionado com a situação das pessoas em Leiria que se empenhou, com a mulher, a comprar produtos, recolher bens e enviar edredons e roupa para quem tinha sido afetado na zona centro — sem saber que esta acabaria por ser a última semana da sua vida.

Janna Antonia Drieenhuizen, 84 anos. A estilista holandesa no paraíso algarvio

No mundo da moda identificava-se como Jouk Harris, adoptando assim o apelido do marido britânico, que conheceu há 40 anos, e com quem vivia num cenário idílico, numa casa com árvores à volta, junto a uma ribeira, no sítio do Barranco Longo, freguesia de Algoz, concelho de Silves.

A estilista holandesa tinha o seu estúdio em Lagoa e apresentava a sua roupa como sendo para “pessoas de todas as idades, formas e tamanhos”.

Organizou vários desfiles de moda em eventos de angariação de fundos para causas nobres, alguns em parceria com a Algarve History Association, organização que promove o interesse pela História e cultura portuguesas em língua inglesa.

Jouk Harris num desfile solidário em 2017, no Carvoeiro (foto do Facebook).

Os fundos recolhidos reverteram a favor de entidades como o Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens Ria Formosa, a Cruz Vermelha de Tavira, a Madrugada, organização que oferece apoio a doentes em fase terminal na região do Algarve, as crianças vítimas do tsunami no sudeste asiático, os estudantes do Cambodja, a Mãos de Ajudar (instituição de Tavira) e o Banco Alimentar contra a Fome de Estói. O Eastern Algarve fashion show, no Bela Romão Croquet Club em Moncarapacho, em abril de 2014, apoiou organizações que acolhem animais abandonados. A própria Jouk acolheu três cães, que adorava.

No dia da tempestade, aquela quarta-feira 28 de janeiro, a estilista saiu de casa para ir a um banco, em Lagoa. Quando voltou, as águas da ribeira junto a sua casa tinham subido e o carro terá caído à água. Conseguiu ligar ao marido, que estava em casa, a uns 200 metros, a avisar que estava a ser arrastada dentro do carro pelas águas da ribeira, mas o socorro não conseguiu resgatá-la a tempo. A viatura seria encontrada e retirada da ribeira três horas depois, quando o nível das águas baixou.

Na cerimónia fúnebre no crematório de Albufeira, houve discursos do marido e dos filhos, por entre estas músicas preferidas de Jouk: It never entered my mind, de Miles Davis; Anthem, de Leonard Cohen; Que sera sera, de Doris Day; Im Abendrot, de Richard Strauss; e, no fim das intervenções, depois de dois minutos de silêncio, o tema Kol Nidrei, de Max Bruch, com Mischa Maisky.

Jouk e o marido tinham tudo preparado para uma viagem à Índia. O viúvo e os dois filhos da estilista decidiram manter a viagem para a homenagear. Numa visita anterior ao país, Jouk visitou um centro de ioga e deixou uma mensagem no site, a dar conta de como tinha ficado bem impressionada com os diferentes tipos de tratamentos e meditação ali praticados. Assinou “Jouk Harris, PORTUGAL”, o que mostra como o país que a acolheu nos últimos 40 anos fazia parte da sua identidade.

Os que morreram
junto aos geradores

Cláudia, 34 anos, passou os dias a seguir à tempestade a arranjar telhados de desconhecidos. José teve medo que lhe roubassem o gerador. Ambos morreram junto ao aparelho que lhes substituía a energia.

Intoxicação por monóxido de carbono foi a causa de morte apontada pelo INEM em relação a José, um construtor reformado de 73 anos residente em Monte Real, e a Cláudia, uma vigilante de 34 anos a viver na Batalha.

Ambos recorreram a geradores para tentarem substituir a energia que esteve cortada nas zonas onde viviam. Só as autópsias e as análises ao sangue e urina poderão confirmar se foi mesmo a inalação de monóxido de carbono a provocar estas duas mortes. O Instituto de Medicina Legal tem avisado as famílias de que o resultado das autópsias pode demorar cerca de 2 meses.

Cláudia Lourenço, 36 anos. A vigilante “fura-vidas”

Na madrugada da tempestade, sem rede, sem água e sem energia, Cláudia vestiu a farda de vigilante, saiu da Batalha, atravessou a destruição e dirigiu-se a Leiria, à Lusiaves, onde trabalhava. Depois foi a casa da irmã, Andreia, na praia da Vieira, um dos locais mais atingidos pela força do vento, e ajudou a consertar o telhado, a reparar os estragos e a remover os destroços.

Quando ia a caminho do contentor do lixo no cimo da rua, reparou em vários vizinhos que tentavam também arranjar os telhados e mobilizou a família: “Temos de ir ajudar este”. “Agora temos de ir a este”. “Precisamos de ir ali”. Nos três dias seguintes, ajudou a consertar ou tapar com lonas uma dezena de casas de vizinhos na rua da irmã, para não ficarem inundadas pela chuva que continuava a cair na região. Num desses dias, de regresso a casa na Batalha, viu no caminho uma família em dificuldades com o telhado e pediu ao companheiro: “Vamos parar e vamos ajudar”.

Era destemida a confrontar os bullies da escola, a quem bateu várias vezes para defender colegas que estavam a ser gozados ou atacados. No círculo íntimo, tinha várias alcunhas: o diminutivo “Lauzinha”, mas também “fura-vidas” e “mulher furacão”, tal a sua energia, o seu inconformismo e a sua pressa de viver no momento.

“Ela era assim, via alguém em apuros e metia-se em casa das pessoas para ajudar. E era tudo para ontem, tinha de ser no momento”, elogia a irmã.

Cláudia aos 4 anos. A irmã Andreia diz que era uma “maria rapaz” na infância e adorava subir às árvores (foto cedida pela família).

A pressa notou-se logo no dia do parto, há 36 anos. Os pais geriam um café no Seixal e Cláudia nasceu na garagem, sem dar tempo de a ambulância chegar para ir ao hospital. Foi a quarta filha, de um total de oito: cinco raparigas e três rapazes.

Na infância, notou-se que era muito enérgica, um pouco “maria rapaz” a subir às árvores, e destemida a confrontar os bullies da escola, a quem bateu várias vezes para defender colegas que estavam a ser gozados ou atacados.

No círculo íntimo, tinha várias alcunhas: o diminutivo “Lauzinha”, mas também “fura-vidas” e “mulher furacão”, tal a sua energia, o seu inconformismo e a sua pressa de viver no momento. Também lhe chegaram a chamar “Gisela”, por ter um feitio impetuoso e impulsivo parecido com o de Gisela Serrano, uma concorrente de reality shows, mas ela não achava grande graça à comparação.

Quando voltou a Portugal depois de trabalhar em Inglaterra, Cláudia tirou o curso para ser vigilante, seguindo o exemplo de uma irmã (foto cedida pela família).

No braço esquerdo tinha tatuado uma índia a simbolizar a liberdade e uma leoa para representar a força (foto cedida pela família).

Nunca teve medo. Depois de uns meses a colaborar numa loja de roupa em Portugal, foi sozinha trabalhar para Inglaterra, duas vezes: primeiro numa empresa de produção de perus, em Norwich; depois na cadeia de restauração Nando’s, em Londres. Voltou sempre para estar mais perto da família e sobretudo da mãe, que adorava. “Era Deus no céu e a mãe na terra”, recorda Andreia.

Inspirada por uma das irmãs mais velhas, que trabalhava como segurança, fez o curso e seguiu essa carreira. De uma beleza vistosa, era frequentemente alvo de piropos, mas dava logo troco a pôr os atrevidos no sítio. Num supermercado, há três meses, um cliente imigrante pediu-lhe ajuda para perceber o rótulo de um alimento: ela anuiu e ele abusou, dizendo que teriam de ir jantar juntos e agarrando-lhe o braço. Cláudia deu um grito e empurrou-o.

Naquele que viria a ser o seu penúltimo dia de vida, Cláudia passou o domingo, 1 de Fevereiro, ao lado do seu companheiro, a serrar árvores para desobstruir estradas na Batalha. Na segunda-feira, dia 2, ligou um gerador em casa para lavar a farda na máquina e poder ir trabalhar. Foi encontrada já sem vida, deitada no chão perto do gerador.

Cláudia, aqui com uma sobrinha nascida em 2004, voltou para Portugal para ficar perto da família (fotos cedidas pela família).

Cláudia deixa uma filha de 17 anos e um filho de 8. Tinha os seus nomes tatuados no braço direito, juntamente com a latitude e longitude exata do local onde foram atiradas ao vento as cinzas do pai, de barco, em frente ao Padrão dos Descobrimentos, em 2020. No braço esquerdo, tatuou uma índia, que simbolizava a liberdade, a simplicidade e a ligação à natureza; e ainda uma leoa, a representar a força que tanta gente lhe reconhecia.

A chuva não demoveu centenas de familiares, amigos e colegas de assistirem ao funeral. Ao fim de semana, fazia serviços de segurança em jogos de futebol no Amarense, um clube da Batalha, que a nomeou “woman of the match” [mulher do jogo] na partida seguinte. A irmã Soraia partilhou nas redes sociais um texto de homenagem à sua “Lauzinha”, escrevendo que será sempre lembrada pela coragem e pelo amor ao próximo. Acaba assim: “Partiu por falta de luz e de meios, mas deixou uma luz imensa em todos nós. E essa luz ninguém apagará.”

José Manuel Piedade Rosa, 74 anos. O emigrante que trazia chocolates

Sérgio Dinis, 47 anos, sócio de uma empresa de construção que está a erguer 17 prédios em Leiria, passou a noite da tempestade descalço, para não escorregar no soalho da casa enquanto travava um duelo com o vento e fazia força para manter fechadas as portas e janelas da sua moradia, em Monte Real — ao mesmo tempo que ia sentindo as telhas a serem arrancadas pelas rajadas de vento superiores a 170 km/hora.

Antes de amanhecer, saiu de casa, esbarrou em estradas intransitáveis, e decidiu ir a pé ver a casa dos pais e o seu estaleiro de obras, onde encontrou um empregado a chorar, a dizer que tinha morrido em Carvide (ali perto) Ricardo Teodósio, pintor de muitas das suas obras — que teve de parar, a pedido da câmara, para se concentrar na reparação e reconstrução de casas, lares e igrejas. Dias mais tarde, Sérgio vinha do funeral do pintor de quem se tornou amigo quando se cruzou com uma prima, que lhe deu a notícia da morte do tio José Manuel.

No Verão, por altura das festas e arraiais populares da Rainha Santa Isabel ou de São João em Monte Real, vinha de França de carro, primeiro num Opel Ascona, depois num Mitsubishi Pajero. Trazia chocolates na mala para os sobrinhos. E ajudou pelo menos dois cunhados a construírem as suas casas.

José Manuel da Piedade Rosa teve oito irmãs (uma das quais a mãe de Sérgio). Ele era o mais velho. Emigrou em jovem para Estrasburgo, França, onde conseguiu impor-se no mercado da construção.

No Verão, por altura das festas e arraiais populares da Rainha Santa Isabel ou de São João em Monte Real, vinha de França de carro, primeiro num Opel Ascona, depois num Mitsubishi Pajero. Trazia chocolates na mala para os sobrinhos. E ajudou pelo menos dois cunhados a construírem as suas casas.

“Era um trabalhador nato. Marcou-me muito”, diz o sobrinho (foto do Facebook).

Aos 74 anos, mantinha-se ativo, a assumir reparações, a cultivar a sua horta e a preparar petiscos em encontros de amigos e familiares. Mesmo perante uma divergência familiar relacionada com partilhas de uma herança, esforçava-se por manter contacto com todos os ramos. “Era um trabalhador nato. Marcou-me muito”, diz o sobrinho, apenas lhe apontando como defeito alguma teimosia.

Morreu no primeiro fim de semana a seguir à tempestade, quando a maior parte das aldeias à volta de Leiria ainda não tinham energia elétrica e se começava a falar no receio do roubo de geradores. Para se proteger de ladrões, insistiu em guardar o gerador na garagem de casa. “Quem é que havia de dizer que um gerador pequeno numa divisão ampla dava para matar uma pessoa com os gases?”, lamenta-se o sobrinho. José Manuel da Piedade Rosa deixa viúva, dois filhos adultos e uma neta.

O homem que morreu
a tentar devolver
a luz a Leiria

Na véspera da morte, João Paulo Domingues organizou e celebrou o primeiro aniversário da filha. Morreu a reparar a rede elétrica, a 200 metros da sede da empresa onde trabalha o pai e a mulher.

No dia em que João Paulo morreu eletrocutado enquanto tentava trazer a luz de volta, a 9 de fevereiro, havia ainda 56 mil casas sem energia elétrica, 12 dias depois da tempestade que arrasou o centro do país.

João Paulo Domingues, 37 anos, conhecido por familiares e amigos como Tójó, era um dos 2.500 operacionais ao serviço da E-Redes ou de empresas sub-contratadas, como era o seu caso, uma vez que trabalhava para a Canas, uma empresa da Figueira da Foz, concelho onde vivia.

Quem o viu na véspera encontrou um homem feliz, a organizar a festa de primeiro aniversário da filha mais nova, no pavilhão do Centro Recreativo e Cultural Carvalhense, de que era assíduo frequentador. O presidente do clube, António Pedrosa, meteu-se com ele: “Perguntei se precisava de ajuda. Disse que não. Andava todo satisfeito, porque ia receber a família toda para comemorar os anos da filha”.

A família era uma prioridade para João Paulo. Um amigo diz que um dos seus passatempos preferidos era jogar futebol na PlayStation com o filho mais velho, de 9 anos. Outro era assistir a jogos do seu Benfica, de que era adepto fervoroso, festejando cada título de forma exuberante.

João Paulo festejava cada vitória e cada título do Benfica (foto retirada do seu Facebook).

O presidente do Carvalhense lembra-se também de o ver jogar futebol de salão, como guarda-redes. Mas nunca o conseguiu cativar para o rancho folclórico, ao contrário de outros elementos da família: “Ele dizia: ‘Epá, não tenho jeito.’ Se calhar pensava que podiam gozar por ele não saber dançar.”

João Paulo teve uma infância e adolescência marcada pelo desaparecimento da mãe, que se divorciou do pai e saiu de casa, sem se despedir e sem que os amigos saibam de contactos que tenha mantido com o filho depois disso. O rapaz ficou entregue aos cuidados do pai e da avó, que terá desempenhado um papel muito importante na sua vida.

A mulher com quem casou em 2018, aprumado num fato com lacinho, é apontada por um amigo como “uma mulher de armas”. O próprio João Paulo deixou-lhe na sua página de Facebook várias declarações públicas de amor. Há 14 anos, sete anos antes de se casarem, já mostrava uma convicção inabalável: “Cada vez tenho mais certeza de que não te quero perder e quero passar o resto da minha vida contigo, meu amor…”

Reparação de três dezenas de postes até à morte em serviço

No dia da tempestade, 28 de janeiro, a casa de João Paulo também perdeu telhas, como muitas outras na vizinhança. Os estragos foram reparados por um amigo — um gesto que todos dizem que João Paulo também fez muitas vezes ao longo da vida, ajudando quem lhe pedia pequenos arranjos.

O eletricista partiu logo para o terreno com uma equipa de colegas, numa luta contra o tempo para tentar reparar o mais rapidamente possível a rede elétrica nas zonas afetadas. Terá participado diretamente na reparação de três dezenas de postes de média tensão.

“Perdeu a vida enquanto procurava trazer luz e normalidade à vida de outros. (...) A tempestade deixou marcas visíveis — mas a perda de João Paulo é uma marca invisível que fere o coração da nossa comunidade.”
Comunicado da Junta de Freguesia de Lavos, onde João Paulo residia

O primeiro emprego de João Paulo foi na Lusiaves, a empresa onde ainda trabalham o pai e a mulher. Depois mudou-se para a Canas e estava ao serviço desta empresa subcontratada pela E-Redes quando sofreu o acidente que lhe tirou a vida, na Cova das Faias, em Leiria, a 200 metros da sede da Lusiaves. Um colega que o acompanhava ficou ferido. A E-Redes instaurou um inquérito ao acidente.

O Carvalhense decidiu logo cancelar o baile de Carnaval, em solidariedade com a família do funcionário. A Câmara da Figueira da Foz, presidida por Santana Lopes, decretou um dia de luto municipal.

A Junta de Freguesia de Lavos, onde João Paulo residia, sublinhou a sua coragem: “Perdeu a vida enquanto procurava trazer luz e normalidade à vida de outros. (…) A tempestade deixou marcas visíveis — mas a perda de João Paulo é uma marca invisível que fere o coração da nossa comunidade.”

“Já não vai entrar em casa nem brincar com os filhos”

No dia em que o eletricista morreu em serviço, estava prevista na Fonte Luminosa, em Leiria, uma vigília solidária pela população sem eletricidade, convocada sob o mote: 12 dias sem eletricidade — exigimos resposta”.

Após a morte de João Paulo, uma publicação do Clube EDP de Leiria nas redes sociais notou que era fácil exigir “urgência” e “respostas” quando “não se tem de subir a um poste sob tensão, com o corpo exausto e quilómetros de rede destruída pela frente”. E apelava a que a vigília de Leiria não fosse “um grito de revolta contra quem trabalha”, mas sim “um minuto de silêncio por quem morreu a servir o povo”.

A Câmara da Figueira da Foz decretou um dia de luto municipal. E a Câmara de Leiria converteu um protesto contra a falta de luz numa vigília silenciosa.

Ao fim da tarde, a Câmara de Leiria informava que, após a morte de João Paulo, a vigília seria “transformada exclusivamente num momento simbólico de homenagem a todas as vítimas da tempestade Kristin”, em “recolhimento e respeito pelas famílias atingidas”. O presidente da Câmara, Gonçalo Lopes, exaltou “o herói” que morreu a tentar restabelecer a energia.

A mulher de João Paulo publicou 4 dias depois um post emocionado no Facebook: “Perdi o pilar da minha vida já há 15 anos, o homem que me fez acreditar na vida, no amor e na família. Como é possível Deus permitir que algo aconteça assim? Já não vai entrar em casa nem brincar com os filhos, (…) duas crianças que amavam e amam o pai. Como lhe dizia, a menina é menina do papá e agora não se vai lembrar do pai (…) Daqui para a frente vou aprender a viver novamente pelos nossos filhos, mas vai ser uma batalha muito dura para mim”.

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