Hoje em dia, não é difícil entrar num “scroll infinito” que potencia o “brainrot”, a escolhida como palavra do ano de 2024 pela Universidade de Oxford e que remete para uma deterioração do estado mental potenciada pelo consumo de conteúdo mais trivial e de uma forma não intencional nas redes sociais. A dependência das redes sociais é um problema identificado entre 86% dos jovens portugueses, segundo um estudo de 2023, e as gerações mais novas reconhecem que querem reduzir os seus tempos de ecrã.

Esta é uma das conclusões de Os Números Que Somos desta semana, que também revela a preocupação de grande parte dos portugueses com a proliferação de fake news, conteúdos feitos com o intuito de enganar as pessoas com informações falsas, em diversas plataformas. Contudo, notícias enganosas continuam a ser partilhadas todos os dias nas redes sociais.

Nos últimos anos, surgiu uma revolução tecnológica que introduziu ferramentas de inteligência artificial (IA) muito avançadas no bolso de cada um. Desde a simples pesquisa de informação, à criação de obras de arte ou até à execução de um roteiro de viagem totalmente personalizado, a IA, num ponto de vista mais generalizado, foi bem recebida por todas as gerações de portugueses.

Estes e outros dados surgem no inquérito feito em parceria com a Netsonda em que o Observador revela quais são os hábitos de consumo de informação em Portugal e como é a presença digital dos portugueses. As pessoas leem jornais? Que redes sociais é que utilizam? E que tipo de impacto creem que terá a inteligência artificial no mundo? Cruzando informação recolhida em seis regiões do território continental (Grande Lisboa, Grande Porto, Litoral Centro, Litoral Norte, Interior Norte e Sul), e analisando as respostas dadas pelas diferentes gerações, estes são os principais resultados.

Imprensa escrita é pouco lida pelos mais jovens. 41% dos portugueses dizem confirmar sempre a veracidade das notícias que veem online

Metade da população passa menos de 30 minutos por dia a ler jornais ou revistas. A imprensa escrita é, de todos os meios disponíveis para as pessoas poderem ficar a saber aquilo que se passa no país e no mundo, o menos consultado. 49% dos inquiridos referem recorrer a esta forma de consumir conteúdo noticioso durante menos de meia hora por dia (e 24% não lê). Em comparação, 29% dedicam mais de duas horas por dia à televisão e outros 30% às redes sociais — com 60% dos participantes a admitir ouvir rádio até uma hora diariamente, presumivelmente no trajeto até ao trabalho ou no regresso a casa.

Os mais jovens são os que menos consomem notícias através da imprensa escrita, com 37% dos participantes até aos 28 anos a revelar não ler jornais ou revistas no seu dia a dia. Esta percentagem diminui com a idade, ou seja, com o avançar dos anos, sobe também a percentagem de pessoas que ainda recorre a este meio. A Geração Z destaca-se por dedicar menos tempo diário à televisão (49% até uma hora) e também à rádio (68% até uma hora). Por outro lado, são também os que mais utilizam redes sociais, com 54% a indicarem um uso superior a duas horas por dia.

“Para os jovens, as redes sociais são [a principal] fonte de informação”, explica o professor da Universidade Autónoma de Lisboa Vítor Tomé, que apesar de não ver “problema nenhum” com a utilização destas plataformas como palco de divulgação de notícias, aponta para a existência de uma “bolha”. “Nas redes sociais, eu só encontro as notícias que os meus amigos partilham e, às vezes, não temos consciência da nossa bolha”, continua.

O especialista em literacia mediática diz ao Observador que, assim, os jovens acabam por ficar à mercê do algoritmo que é alimentado pelas outros utilizadores com quem interagem. Vítor Tomé menciona também que, na sua grande maioria das vezes, as notícias que aparecem nas redes sociais — pelas quais esta percentagem elevada de jovens fica a conhecer o que se passa na atualidade — são, na verdade, apenas os títulos. “Os títulos não têm datas, não verificam as fontes, não têm declarações. E claro, os títulos que surgem nas redes sociais, normalmente apelam à emoção [dos leitores]”.

Desta forma, entre televisão, rádio, imprensa escrita e redes sociais, a internet continua a ser onde os inquiridos passam mais tempo diariamente. Assim, existindo uma grande liberdade na circulação dos conteúdos, aumenta a probabilidade de serem disseminadas notícias falsas ou imprecisas. Questionados se confirmam a veracidade da informação que partilham ou comentam online, 41% da população dizem fazê-lo sempre e outros 40% referem ter esta atenção periodicamente. Porém, a realidade pode não ser assim tão linear.

Segundo Vitor Tomé, “há muitas formas de fazer a verificação de factos — umas mais avançadas e outras menos”. Uma pesquisa simples no Google ou em outros motores de busca pode ser considerada uma verificação, o que raras vezes é suficiente para chegar ao fundo de uma questão. Relatando um caso pessoal, o professor e investigador revela ter estado à procura de confirmar uma informação que lhe foi enviada e, quando pesquisava nos seus canais habituais pela veracidade do conteúdo em análise, a resposta remetia sempre para o texto original que suscitou as dúvidas.

Neste caso em particular, tendo muita experiência na verificação de factos, conseguiu provar que a informação era efetivamente enganosa, mas admite: “Não estou a ver que haja 80% de pessoas que vão verificar a informação a este grau”. Quando se fala em “verificação simples”, a tal pesquisa no Google, por exemplo, adverte que é preciso ler com uma maior atenção as fontes citadas para garantir que não se trata de um círculo vicioso de desinformação.

De acordo com os dados do inquérito, os jovens são quem tem mais atenção ao detalhe e, assim 48% refere verificar sempre qualquer tipo de publicação que partilha na internet, tal como os Millennials que são igualmente representados nesta medida. A história é diferente entre os mais velhos. Apenas 28% dos Baby Boomers diz verificar sempre a veracidade das notícias em que comentam online, mas outros 51% indicam fazê-lo apenas pontualmente. A percentagem de inquiridos que refere nunca confirmar a veracidade das afirmações que propagam ou comentam nas redes sociais é de apenas 1%. De uma forma geral, 13% diz que não costuma partilhar ou comentar conteúdos noticiosos online.

Já Paulo Couraceiro, investigador da OberCom e da Universidade do Minho, acrescenta que as pessoas “tendem a acreditar mais na informação que vai de encontro às suas convicções e tendem a partilhar com mais facilidade outro tipo de informação, se tiver uma postura mais ativista, mais participativa nos meios digitais”. Desta forma, o especialista aponta para a percentagem mais reduzida — aqueles que compartilham sem verificar —, dizendo que é um comportamento “problemático” olhar apenas para o título de uma notícia e partilhá-la sem “refletirem muito sobre o conteúdo que lá está”.

“É problemático, porque nós sabemos que as pessoas, muitas vezes, além da notícia, vão ver os comentários para tentar perceber aquilo que é a perceção do ambiente online — se é mais positivo ou negativo — e acabam por tomar isto como uma perceção de opinião pública”, refere também Paulo Couraceiro ao Observador.

Metade dos jovens quer passar menos tempo nas redes sociais. WhatsApp, Facebook e Instagram são as plataformas mais populares

Além de consumir notícias — o que aparentemente não ocupa uma grande importância no quotidiano da população (especialmente a mais nova) — a internet acaba por ser uma ferramenta que permite manter contacto com pessoas que estão a grandes distâncias ou que simplesmente não têm disponibilidade para se encontrar cara a cara. 43% dos participantes continuam a privilegiar a comunicação presencial, mas 23% admite comunicar maioritariamente através de canais digitais, como mensagens ou redes sociais.

A diferença é mais vincada, novamente, entre gerações. 32% da Geração Z diz que comunica mais com outras pessoas online e 36% prefere o presencial — e, num intermédio, 32% acredita que passa de uma opção para outra de forma equilibrada no seu dia-a-dia. As gerações mais avançadas, apesar de haver uma redução significativa da comunicação exclusivamente digital (16% da Geração X e 12% dos Baby Boomers), continuam a adotar cada vez mais o online para conversar com outras pessoas.

Quando começaram as diferentes gerações?

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Geração Z — 1997 a 2012

Millennial — 1981 a 1996

Geração X — 1965 a 1980

Baby Boomers — 1946 a 1964

Esta métrica é fácil de comprovar, uma vez que 92% dos inquiridos mais velhos utiliza regularmente o WhatsApp — uma estatística que é transversal a todas as gerações e escalões de rendimento. A plataforma de mensagens da Meta é a aplicação mais utilizada por todos os participantes do estudo, com 91% da população a referir ter uma conta e utilizá-la diariamente. O top 3 de redes sociais com mais utilizadores portugueses tem domínio total da empresa de Mark Zuckerberg, fechando com o Facebook (83%) e com o Instagram (81%).

Apesar de serem as mais populares, a sua afluência varia consideravelmente com a idade dos utilizadores. Por exemplo, apenas 69% dos Baby Boomers têm uma conta no Instagram, enquanto esta rede é a mais popular entre os mais jovens, com 96% da Geração Z a confirmar a sua utilização. Já no Facebook, a história é a mesma mas com os papéis invertidos. 72% dos adultos com menos de 28 anos têm conta no Facebook — e, na sua maioria (69%), com uma utilização diária inferior a meia hora — enquanto 92% dos que têm mais de 60 anos estão inscritos na plataforma — onde 69% passam mais de 30 minutos por dia.

O LinkedIn quebra a tendência que mostra grandes diferenças entre as redes sociais utilizadas pelas gerações. Contudo, os padrões de utilização mudam se olharmos para outras variáveis. Na Grande Lisboa e no Grande Porto, a plataforma é utilizada por mais de metade dos seus habitantes que responderam ao estudo (55% e 56%, respetivamente). Quando se afastam dos centros urbanos, principalmente no Interior Norte (37%) e no Sul (33%), a sua percentagem de utilizadores diminui.

O mesmo se verifica para os escalões de rendimento. Apenas 30% dos inquiridos que recebe menos de 1.000€ por mês manifestou-se como sendo um utilizador do LinkedIn, enquanto 59% os participantes com rendimentos superiores a 3.000€ dão a mesma resposta. Assim, verifica-se que independentemente da idade, a plataforma dedicada à partilha de oportunidades de emprego é mais popular entre os que mais recebem e aqueles que vivem nas grandes cidades.

Para as restantes redes sociais incluídas no inquérito, nota-se uma diferença clara na utilização entre géneros. 43% das mulheres usa o Instagram durante pelo menos uma hora por dia, ao passo que apenas 31% dos homens faz a mesma coisa. O próprio número de homens na rede social é inferior ao de mulheres, com 88% das mulheres que participaram no estudo a admitir ser utilizadoras da plataforma, contra 74% dos homens.

Em que redes sociais tem conta?

Fonte: Netsonda

O TikTok é uma aplicação que teve o seu “boom” de utilização na altura da pandemia. Cinco anos mais tarde, continua bastante popular nas populações mais jovens — e não tanto nos mais adultos —, com 60% da Geração Z a utilizar a plataforma. É, também uma das mais utilizadas diariamente, com 36% da população a admitir abrir o TikTok todos os dias durante pelo menos uma hora por dia. Relativamente a quanto tempo passam a fazer scroll ao número quase interminável de conteúdos que são publicados, quase metade das mulheres (47%) passam mais de uma hora na rede social, enquanto 49% dos homens a utilizam durante menos de meia hora.

“As pessoas preferem notícias humorísticas”, descreve o investigador Paulo Couraceiro, afirmando que o TikTok é o principal lar deste tipo de conteúdos. “As fontes jornalísticas digitais perdem peso numa rede social como o TikTok. Sobretudo as celebridades, as personalidades, os influencers passam a ser mediadores dessa realidade noticiosa”, continua. Este fenómeno ganha uma maior visibilidade devido ao algoritmo presente na plataforma, que ao oferecer conteúdos mais personalizados e de acordo com os interesses individuais, cria “um efeito de afunilamento maior”.

O X é também visto como uma das plataformas mais populares na internet. Nos últimos anos, tem havido uma grande variação do fluxo diário de utilizadores da rede social, principalmente por motivos políticos. Elon Musk adquiriu o então Twitter em 2022 e alterou uma série de políticas internas da plataforma para “promover a liberdade de expressão”. Por discordarem dos ideais do novo proprietário e dos novos algoritmos incorporados, introdução de subscrições pagas e pacotes premium, houve uma comunidade de utilizadores que acabou por abandonar a rede social. Na população portuguesa, apenas 22% dos inquiridos diz ter uma conta na aplicação. Destes, existe um maior volume de jovens (45% da Geração Z Vs. 15% dos Baby Boomers).

Com uma grande amostra de utilizadores e de diferentes redes sociais disponíveis no mercado, de uma forma geral, os portugueses consultados pela Netsonda consideram ter uma utilização equilibrada destas plataformas na sua rotina diária (65%). Quando se discrimina pelas gerações, no entanto, repara-se que metade (53%) dos mais jovens — até aos 28 anos — admitem que gostariam de reduzir o tempo que passam online.

Segundo o especialista da Universidade do Minho Paulo Couraceiro, este reconhecimento parte de uma maior atenção à saúde mental e a um “bem-estar digital”. O investigador refere que os mais jovens tendem a estar cada vez mais dependentes dos ecrãs para alimentar as suas interações sociais e, mesmo em encontros presenciais, “o telemóvel está sempre presente”. E apesar de agora ser algo prevalente na vida desta faixa etária, os que reconhecem esta utilização excessiva admitem que “o contacto presencial tem algo que é insubstituível”.

Paulo Couraceiro remete ainda para a criação de movimentos online de “Digital Detox”, que “apelam de forma explícita a uma redução do tempo que se passa online. Este conceito de “bem-estar digital”, continua o investigador, é uma realidade que os próprios fabricantes de telemóveis começam em ter em conta. Tanto nos dispositivos Apple como nos Android, existe uma funcionalidade que permite ver o tempo de ecrã o que, segundo o especialista ouvido pelo Observador, “quando são confrontados com essa realidade, os jovens realmente reconhecem que existe uma excessiva dependência”.

Portugueses conscientes da pegada digital, preocupados com os dados e em fuga das dating apps

Uma vez que a presença humana no meio digital tem vindo a aumentar todos os anos, com isto têm subido o número de campanhas de consciencialização do conceito de pegada digital e medidas de segurança a tomar no espaço online. Estas aparentam ter tido um impacto na população abordada pela Netsonda, com 71% dos inquiridos a revelar ter consciência da sua pegada digital. Contudo, apenas 27% afirmam ter total noção do impacto da sua atividade digital, enquanto 45% reconhecem ter alguma consciência, embora não totalmente clara.

O conceito de pegada digital é desconhecido por apenas 6% dos participantes do estudo. No fundo, trata-se do “rasto” que cada utilizador deixa quando utiliza uma determinada plataforma. Sejam elas ações diretas como uma publicação numa rede social pública ou até coisas mais “privadas” como histórico de pesquisa e o acesso a determinadas páginas. “As pessoas vão tendo uma consciência cada vez mais importante da pegada digital. Mas a verdade é que, mesmo eu tendo consciência, a questão é, será que eu tenho uma literacia básica que me permite, por exemplo, não publicar ou não partilhar dados privados?”, refere o professor Vítor Tomé.

O especialista explica ao Observador que o conceito de pegada digital está ligado fortemente a questões de segurança de dados e que, para uma pessoa “proteger efetivamente os seus dados pessoais”, é preciso mais que “consciência”. Através de fotografias que se colocam na internet, Vítor Tomé diz que é fácil as pessoas determinarem a sua localização e, em certos casos, têm acesso à sua morada. Daqui, entra-se em espiral com informações como o número de contribuinte e de telefone, todos dados muito ligados a compras online, por exemplo.

Neste sentido, três em cada quatro inquiridos admite preocupar-se com o controlo dos seus dados pessoais, com 42% a inquietar-se muito com o assunto. As compras online (78%) são o contexto em que as pessoas mais têm cuidados neste sentido, seguido pelas redes sociais (72%) e pelos serviços públicos e governamentais (52%). Além destes exemplos, as populações mais jovens têm ainda uma preocupação que as mais velhas não apresentam: as aplicações de encontros. 43% da Geração Z e 42% dos Millennials revela ter uma maior atenção à privacidade nestas plataformas, enquanto os mais idosos — por não frequentarem estes mesmos espaços — não se manifestaram tão fortemente neste sentido.

Utiliza ou já utilizou alguma aplicação de encontros?

Género
masculino

Género
feminino

Fonte: Netsonda

“Há cada vez mais ferramentas que permitem explorar dentro das próprias aplicações quem está e quem não está”, admite Vítor Tomé. O especialista explica que é por motivos de “exposição” indesejada, medo e “alguma desconfiança em relação aos outros”, que o número de utilizadores nestas plataformas tem vindo a diminuir. Aplicações como o Tinder, Bumble ou Grindr são ou já foram utilizadas por 27% dos inquiridos — com uma maior representatividade entre os mais jovens (36% dos Millennials e 27% da Geração Z).

Paulo Couraceiro evoca um “estigma” que existe na sociedade e, assim, algumas pessoas acabam por ter “dificuldades” em assumir que utilizam aplicações de encontros. Ao mesmo tempo, reforça que existe uma noção preconcebida dos utilizadores de um “risco na utilização destas aplicações do ponto de vista da privacidade das informações e da exposição íntima”.

No entanto, a percentagem de antigos utilizadores é bem maior que a de atuais, com apenas 6% dos participantes do estudo a dizer que ainda recorrem a estas aplicações. O número de utilizadores é, também, superior entre homens relação às mulheres. Para responder ao tal “êxodo feminino”, Vítor Tomé aponta para as indicações do “medo” e “desconfiança”, alertando para os crescentes movimentos “anti-mulher” e “anti-feminismo” que têm aparecido com cada vez maior sonância no meio digital.

Inteligência Artificial: uma ferramenta do futuro ou algo que terá um efeito negativo no mundo?

“A inteligência artificial até democratiza muito o uso da tecnologia”, defende o diretor do Laboratório de Inteligência Artificial e Ciência de Computadores (LIACC) da Universidade do Porto, Luís Paulo Reis. 7 em cada 10 inquiridos pela Netsonda admite já ter recorrido a estas ferramentas com IA. Da população geral, 26% confessam uma utilização regular e 46% fazem-no ocasionalmente. Apenas 12% não tem qualquer interesse nestas novas tecnologias emergentes.

Como era de esperar, a Geração Z destaca-se com 44% a utilizar estes meios de forma regular. Com o avançar da idade, a utilização regular de IA diminui (27% dos Millennials, 19% da Geração X e 12% dos Baby Boomers), mas o interesse mantém-se elevado. “A inteligência artificial faz com que pesquisas na internet, por exemplo, sejam agora perfeitamente possíveis de fazer, tornando as consultas de informação mais acessíveis para os idosos”, explica o especialista em declarações ao Observador. “É simplesmente falar com a IA, explicar o que quer e a ferramenta responde”, acrescenta.

Efetivamente, de acordo com o estudo realizado pela Netsonda, 28% dos inquiridos com mais de 60 anos têm curiosidade em aprender mais sobre inteligência artificial e, segundo Luís Paulo Reis, isso faz todo o sentido. O que faz diferir esta de outras tecnologias que habitualmente não são tão bem recebidas pelas camadas mais velhas da população, é que “fala de temas que são muito caros aos idosos”. “Por exemplo, é muito fácil falar sobre saúde ou bem-estar. É fácil usar a inteligência artificial para combater um pouco a própria solidão, porque conversar com uma inteligência artificial é uma ótima maneira de, realmente, combater um bocado a solidão”.

Apesar de o especialista defender que a IA “democratizou” o acesso à tecnologia, os dados revelam que as pessoas com rendimentos mensais líquidos inferiores a mil euros são, também, quem menos utiliza estas ferramentas. Contudo, Luís Paulo Reis acredita que existe uma relação causa-efeito entre o rendimento e a utilização regular de inteligência artificial. “A inteligência artificial é uma ferramenta de gestão absolutamente essencial. É essencial porque não vai substituir os gestores, mas vai permitir distinguir um gestor que use IA dos que não a usam e, quando mais avançados são os empregos e mais dependem da tecnologia, mais a inteligência artificial é útil”, justifica, apontando para as áreas da Ciência ou da Saúde como exemplos de ramos em que é utilizada.

Costuma utilizar ferramentas com inteligência artificial (IA)?

Rendimento Mensal Líquido

Até 1.000€
1.001 - 1.500€
1.501 - 2.000€
2.001 - 3.000€
Mais de 3.000€
Fonte: Netsonda

57% dos inquiridos recorrem à IA tanto para fins profissionais como por lazer — mas esta segunda opção, de forma individual, acaba por ser a mais popular (23% vs. 20% apenas em contexto laboral). De uma forma geral, 81% da população utiliza estas ferramentas para a pesquisa de informação e 60% para apoio na redação de textos ou artigos. Apesar de ser possível discriminar as utilizações mais comuns entre a população inquirida, as pessoas muitas vezes usam IA sem saber que o estão a fazer.

“Uma das ferramentas com mais IA que existe é o motor de busca da Google. Ou seja, durante décadas, as pessoas fizeram pesquisas na internet sem perceber o que estava por trás”, esclarece o também presidente da assembleia geral da Associação Portuguesa para a Inteligência Artificial (APPIA), afirmando, ao mesmo tempo, que existe uma “grande confusão” com o que é a IA, confundido o Chat GPT — o chatbot da empresa OpenAI — com aquilo que é a inteligência artificial na sua generalidade. “Estamos a falar de uma IA generativa ou conversacional, mas há muitos tipos diferentes”.

Existe, ainda, um volume de pessoas que reconhece outras aplicações relevantes, como tradução e comunicação multilingue (32%), apoio em saúde e bem-estar (29%), criação de conteúdos — como imagens, música ou vídeos (29%) — e até a organização de viagens ou atividades (26%). Contudo, é colocada a questão: será que existem riscos associados a uma utilização excessiva de IA para a população mais jovem? A resposta de Luís Paulo Reis é sim, mas garante que decorrem esforços de consciencialização junto desta geração para assegurar que este efeito negativo não se materializa.

“A inteligência artificial deve ser uma ferramenta usada para aprendizagem. [Os jovens] Devem utilizá-la para potenciar e aprenderem as coisas, não para substituir exatamente essa aprendizagem e usar a IA para fazer o trabalho que eles teriam que fazer”, expõe o especialista, admitindo que seria “perigoso” os jovens não perceberem este conceito — bem como “se os professores não forem capazes de ensinar isso aos mais jovens”.

Este esforço de consciencialização aplica-se, não só aos jovens, mas à população geral. “Realmente a IA vai melhorar o mundo. Por exemplo, a área da saúde. Vamos ter melhor saúde, com melhores diagnósticos e cuidados personalizados. Vamos ter melhor educação, porque a IA permite um ensino adaptado ao ritmo de cada aluno. Aulas em qualquer idioma. Neste momento é trivial ir ao Camboja e falar com uma pessoa no Camboja. Não tem dificuldade nenhuma porque a IA trata disso. Se nós temos muito mais produtividade, efetivamente, vamos ter um mundo muito melhor”, defende Luís Paulo Reis.

Num parecer geral, quase metade dos inquiridos concorda com esta perspetiva. 47% das pessoas acredita que a IA contribuirá para melhorar o mundo, enquanto apenas 26% acreditam num impacto negativo no futuro. 18% dizem que terá um efeito neutro num mundo e os restantes 9% não têm ainda opinião formada. A distribuição é bastante uniforme entre gerações — apesar de os mais jovens acreditarem de uma forma mais vocal, com uma resposta positiva de 61% da Geração Z contra 35% dos Baby Boomers, que se revelam mais neutros ou indecisos.

Este inquérito foi realizado pela Netsonda em colaboração com o Observador, entre os dias 7 e 11 de agosto de 2025. O estudo foi realizado através da aplicação de um questionário online junto do painel Netsonda. O universo-alvo é composto por uma amostra representativa de indivíduos com 18 a 64 anos residentes em Portugal continental. Os inquiridos foram informados do objetivo do estudo e demonstraram vontade de participar. Foram recolhidas 800 entrevistas online (CAWI). Esta dimensão amostral está associada a uma margem de erro de 3,46%, com um nível de confiança de 95%.