Portugal, março de 2025: a cortina sobe para mais um ato da tragicomédia política nacional. O palco enche-se de jogos e ambições de poder mascarados de moções, o governo minoritário da Aliança Democrática cai e eleições são marcadas para maio. O PCP e o Chega agitam as águas, o PS joga à defesa com argumentos convenientes, mas não convincentes, enquanto Luís Montenegro contra-ataca para evitar o desgaste de uma comissão de inquérito que o levaria à desgraça política. Tudo isto fede a jogos de poder puro, onde o interesse nacional é um figurante esquecido. Mas, como diz o ditado, “os cães ladram, e a caravana passa”. E a caravana, neste caso, é o setor tecnológico e o seu investimento estrangeiro, que não pagaram para ver este circo de má qualidade. Será este desdém uma força ou apenas o luxo de um país pequeno que ainda não percebeu o guião?

Até quando teremos moções que ladram e a tecnologia passa?

Poder-se-ia pensar que três eleições em três anos fariam a economia tremer como gelatina num terramoto. Afinal, incerteza é veneno para planos sérios. Mas não, a economia, e em particular a tecnologia, em Portugal cresce como se São Bento fosse um reality show irrelevante. A Fitch, em pleno caos político a 14 de março, manteve o rating de Portugal em elevada qualidade, como quem diz “crise? qual crise?!”.

Alguns dias antes, a S&P já tinha subido para A, aplaudindo a dívida pública mais magra e uma economia que ri na cara da instabilidade. Porquê? Porque os trunfos estão na mesa: talento qualificado, custos baixos e um sol que o mundo inveja (apesar de neste mês até o sol nos ter virado as costas) . As empresas não esperam que o PS e a AD cheguem às pazes para abrir os cordões à bolsa – num país que dança ao ritmo da Europa e do mundo, o que se passa em Lisboa é só barulho de fundo.

E o investimento direto estrangeiro prova-o com números que gritam mais alto que o Chega no TikTok. Em 2023, Portugal atraiu 7,6 mil milhões de euros, com as TIC a devorar uma fatia suculenta – mais de 30% dos projetos entre 2020 e 2023, segundo a AICEP. Google, Amazon Web Services e Cisco já cá estão, Lisboa e Porto brilham como tech hubs, e a Web Summit de 2024 injetou 300 milhões de euros na economia. Porquê nós? Custos 30% abaixo da Europa Ocidental, 70% dos licenciados em STEM e incentivos fiscais como o SIFIDE II. Se o PS quer fritar a AD em lume brando ou o Chega quer berrar mais alto, isso não tira o sono a uma startup que vê Portugal como talento bom, acessível e com vitamina D de borla.

Mas nem tudo é uma comédia de costumes. Se hoje a tecnologia aplaude de pé, amanhã pode vaiá-la. O setor já vale 5% do PIB (2023, Banco de Portugal), e o Plano de Recuperação e Resiliência promete 2,5 mil milhões de euros para a transição digital até 2026 – mas com o Parlamento a jogar às cadeiras, quem garante que chega a tempo?

À medida que crescemos, a instabilidade pode deixar de ser um fait divers e tornar-se um travão. Precisamos de consensos políticos que não mudem com o vento, de quadros regulatórios simples, estáveis e que acalmem investidores, e de ainda mais aposta no talento – o INCoDe.2030 é giro, mas queremos mais. Estes jogos não são só uma perda de tempo, são uma bomba-relógio para um dos nossos motores económicos.

Imaginemos que éramos a França ou a Alemanha: este circo já teria afugentado investidores e travado o PIB como uma viatura elétrica sem posto para carregar. Mas somos pequenos – 10 milhões de almas, um PIB de 285 mil milhões de euros em 2024 – e isso dá-nos o luxo de sermos um rodapé nas notícias globais.

Uma empresa em Lisboa não se rala com as birras do Chega, as coreografias do PS, ou com as trapalhadas pessoais de Montenegro; quer saber do talento e dos custos. Porém, se nos tornarmos o tech hub que ambicionamos – e há muitos dados a sugerir que sim – o mundo vai espreitar por baixo da cortina – e aí o circo tem de acabar, porque os “cães que ladram” podem começar a morder.

Portugal tem – para já – o luxo de ignorar este circo, mas esse bilhete dourado tem data de validade. Se continuarmos a atrair o mundo, o mundo acabará por nos exigir mais do que apenas circo.