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Este episódio contém descrições de violência que podem impressionar algumas pessoas. Dentro do armazém está uma rapariga com ar de estar morta. É tudo o que o rapaz consegue dizer. O choque é demasiado grande, a situação demasiado inesperada. Tem 17 anos e ainda está a estudar. O trabalho na oficina de metais é só uma ocupação de verão para ganhar algum dinheiro. Passam uns minutos das 9:00 quando entra no armazém. É ali, nas traseiras da oficina, que o rapaz a encontra. O cenário é tão assustador que nem fixa a cara da vítima. Foge dali assim que a vê, corre para a oficina e dá o alerta aos colegas. É a manhã de sexta-feira, dia 31 de julho de 1992. Os agentes da PSP de Odivelas atendem o telefone. Só ficam a saber que houve um crime, sem mais detalhes. Parece que dentro de um armazém na Póvoa de Santo Adrião está uma rapariga com ar de estar morta. No início, os jornais nem pegam no assunto. Ao que tudo indica, houve um crime, sim, e particularmente macabro. Mas são só três parágrafos no Correio da Manhã. Uma notícia curta que nos meses seguintes não terá desenvolvimento. Jovem sem nua, morta à facada. O jornal não diz que dentro do sapato da vítima estavam 4 mil escudos. Nem que a Brigada de Homicídios da Polícia Judiciária conseguiu recuperar do chão do barracão vários pedaços do intestino dela. Nessa altura, também não se fala em Estripador. Até que esse nome apareça, ainda hão de passar largos meses. Só depois disso é que os investigadores, os jornalistas e o resto do país passam a ter noção de que anda um assassino em série à solta. A esse nome, Estripador de Lisboa, vão ficar associados alguns dos crimes mais violentos e misteriosos do país. Estes crimes serão tão difíceis de deslindar que a polícia vai ter de seguir pistas durante anos, vai ter de pedir ajuda ao FBI e vai ter de mudar a forma como faz as investigações. Mas para já, a PJ não tem suspeitos, não tem a arma do crime e não sabe quase nada sobre aquela mulher. Nem sequer sabe que ela é só a primeira vítima. A Caça ao Estripador de Lisboa é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Inês Castelo Branco, com banda sonora original de Mário Laginha. Episódio um: Foi a última vez que a viu.

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A investigação arranca horas depois do crime. A vítima está intocada, deitada de barriga para cima, com as pernas muito abertas entre bidões amarelos, verdes e brancos, cheios de químicos usados na oficina de metais. Assim que o rapaz lhe disse o que tinha encontrado, o patrão deu ordens para chamar a polícia e não deixou entrar ninguém. O corpo está parcialmente nu. Tem roupa interior e a saia puxada para cima à altura do peito. O resto das roupas estão espalhadas pelo chão. Tem o pé direito descalço e no dedo grande do pé esquerdo está pendurado um sapato preto sem salto. As notas que tem lá dentro, 4 mil escudos no total, estão bem à mostra. É a primeira pista. Os agentes não estão a olhar para o resultado de um assalto que correu mal. Quem matou esta mulher não tinha qualquer intenção de a roubar. À medida que continuam a analisar a cena do crime, dão-se conta de que têm em mãos algo que nunca viram antes. Na zona do umbigo, os investigadores detetam dois cortes profundos, na vertical, um a seguir ao outro, como se a dada altura o assassino tivesse hesitado. Os intestinos da vítima, percebem a seguir, foram arrancados do corpo. O barracão é pequeno, terá 4 m² no máximo, e está desarrumado, o que dá a entender que houve uma luta entre vítima e agressor. Isso significa que o crime foi cometido ali mesmo. A mulher não foi morta noutro local e arrastada depois para o armazém. Os agentes recolhem primeiro as roupas e os sapatos da vítima. Depois passam aos vestígios que encontram na parte interior das unhas. São minúsculos, uns esbranquiçados, outros castanhos, resquícios de pele humana e sangue seco O que confirma que a mulher, antes de morrer, terá arranhado o agressor. No regresso ao edifício da PJ, esses vestígios não vão ser submetidos a exame, mas também não vão ser descartados. Vão ser congelados para possíveis análises no futuro. Agora não é possível fazer mais nada com eles, porque o ADN ainda está a dar os primeiros passos em Portugal. O material para análise teria de ser enviado para Londres, mas os testes custam uma fortuna e, além disso, era preciso ter conseguido recolher amostras maiores do que as que foram encontradas na cena do crime. O laboratório de polícia científica já existe em Lisboa, mas os meios de que dispõe ainda são muito arcaicos.

Tínhamos lá a secção de genética, de biologia, mas limitava-se a fazer o tipo secretor, que na altura se chamava tipo secretor. No fundo, é o grupo sanguíneo. Nós encontrávamos uma ponta de cigarro no local do crime. A ponta de cigarro não era destruída, não era desprezada, era recolhida, mas a única coisa que dali se tirava era o tipo secretor. Qual era o grupo sanguíneo do fumador. Hoje diz-nos quem é que fumou. Isto faz toda a diferença.

Carlos Ademar Fonseca fez parte da secção de homicídios da Polícia Judiciária durante quase 20 anos. Começou num tempo em que ainda havia agentes na PJ e a designação de inspetor estava reservada aos chefes da secção. Há de juntar-se em breve aos investigadores. Explica que, naquela altura, também não eram os especialistas do laboratório, mas os próprios agentes que faziam a recolha de vestígios. E os procedimentos que utilizavam não tinham nada a ver com os atuais.

O facto de não haver ADN não nos obrigava a ter tantos cuidados no local do crime. O facto de passar a haver ADN obriga-nos a trabalhar o local do crime com outros cuidados, porque tudo aquilo é frágil, tudo aquilo é sensível e tudo aquilo se pode estragar. Pode haver misturas e é o suficiente para dificultar, se não estragar, a própria amostra. Portanto, não havia ADN, trabalhava-se mal o local do crime. Digo trabalhava-se mal porque estou a comparar com a forma como se trabalha hoje.

Estamos no início da década de 90. Nesta altura, os homicidas ainda não se apanham com ciência. O método usado pelos agentes é mais Sherlock Holmes e menos CSI.

Era dedução, dedução, dedução e dedução. Não havia mais nada. Era mesmo isso só. Era a prova testemunhal a funcionar em pleno. A pessoa virava a tal dedução, empurrava para um sentido e depois procurava-se pessoas que pudessem ajudar a esclarecer se de facto ir por ali faz ou não faz sentido, é ou não é o caminho certo. Muito pouca prova material, a não ser a própria arma do crime quando era encontrada. Apenas essa. De resto, que mais? Não havia mais nada, havia muito pouco.

Do chão do barracão, manchado de amarelo por causa dos químicos, os agentes recolhem um dente, vários pedaços de intestino, dois botões e duas pulseiras que poderão vir a ser úteis para identificar a vítima. Uma tem as iniciais MVPL e uma data, 22 de maio de 1970. Na outra, de um lado lê-se: "Eu te amo", e no outro estão outras quatro iniciais: AMRR. O barracão é vasculhado várias vezes, mas aquilo que os agentes não conseguem mesmo encontrar é uma faca, uma lâmina ou qualquer outro tipo de objeto cortante. É um problema. Significa que, depois de matar a vítima, o assassino levou a arma do crime com ele. O barracão de tábuas de madeira e telhado de metal fica nas traseiras da oficina, numa zona de terrenos baldios e hortas, onde alguns vizinhos aproveitam para estender a roupa. Fica no fim de uma rua sem saída, mas que dá para as traseiras de uma correnteza de prédios. É improvável que ninguém se tenha apercebido de nada. Mas os trabalhadores e o proprietário da oficina de metais não viram nada de estranho. E a única vizinha que abre a porta aos agentes da Brigada de Homicídios da PJ, também não. Nesta altura, a notícia de que foi encontrado um corpo já se espalhou pela Póvoa de Santo Adrião. Há cada vez mais pessoas na praceta, curiosos e não só. O homem aproxima-se dos agentes da PSP, que asseguram que dali para a frente ninguém passa. Explica-lhes que não tem notícias da filha, que não voltou para casa na noite anterior. Acha que a vítima pode ser ela. O cenário no interior do barracão é demasiado violento. Os agentes não querem expor ninguém àquela visão sem que seja estritamente necessário. Para evitar um reconhecimento em falso, pedem-lhe que vá a casa buscar uma fotografia da filha. Minutos depois, o homem está de volta com um bilhete de identidade emitido há uma semana apenas. Os agentes olham para a fotografia E percebem imediatamente que é ela. Vítima número um: Maria Valentina Pereira Lopes. O nome resolve uma das dúvidas da PJ. M. V. P. L. As iniciais numa das pulseiras são dela e a data de nascimento também. Tem 22 anos, dizem à Polícia Judiciária, o pai e a mãe, que entretanto também já ali está. Depois de identificarem o corpo da filha, dão a chave para resolver a segunda dúvida. Explicam que as iniciais da outra pulseira, A. M. R. R., correspondem aos nomes e apelidos de um ex-namorado que está preso em Alcoentre e é conhecido como Ganú. Garantem que mesmo que não estivesse na cadeia, nunca lhes passaria pela cabeça que o rapaz fosse capaz de fazer alguma coisa contra Valentina. Em relação ao namorado mais recente da filha, é que já não podem dizer o mesmo. Uma das primeiras coisas que os agentes da Polícia Judiciária fazem é reconstituir a história de vida da vítima com a ajuda da irmã gêmea. Maria Antonieta conta que a primeira vez que Valentina experimentou injetar-se com heroína, só tinha 13 anos. 1983, Póvoa de Santo Adrião. Valentina já fuma haxixe há bastante tempo, pelo menos desde que chumbou no primeiro ano do ciclo preparatório e desistiu da escola. Não estuda, mas também não trabalha. Dentro de pouco tempo vai começar a prostituir-se para conseguir pagar a droga. Vive com os pais e os oito irmãos, quatro rapazes e quatro raparigas, no bairro da Quinta da Quintinha, na Póvoa de Santo Adrião, em Odivelas. Mas vai ser por pouco tempo. Antes de fazer 14 anos, sai de casa para viver com o namorado, conhecido pela alcunha de Rato. Há de voltar aos 15, mas só por uns meses. Maria Antonieta conta à PJ que a seguir a irmã muda-se com outro namorado para uma barraca no bairro do Bonsucesso, também em Odivelas. Ele é conhecido por Ganú. Com mais sete anos do que Valentina, é analfabeto, servente na construção civil, toxicodependente e tem um extenso cadastro. Vão viver juntos durante cinco anos, até 1990. Depois, ela é obrigada a voltar para a casa dos pais. O namorado foi preso. Já não moram lá todos os irmãos. As duas raparigas mais velhas mudaram-se e dois dos rapazes estão presos. Um em Sintra, outro em Pinheiro da Cruz. Valentina instala-se e fica durante mais ou menos um ano, altura em que há de sair para viver com outro namorado, agora nas Galinheiras. Quando também essa relação acabar, volta outra vez. É na casa dos pais que vai estar a morar quando for assassinada. A reconstituição da PJ conclui que o último dia de Valentina não foi diferente dos outros. Quinta-feira, 30 de julho de 1992. Como de costume, Valentina cumpre um horário rígido de trabalho. Na altura, dirá um dos irmãos aos agentes, injetava entre 15 a 18 mil escudos de heroína por dia. Aos clientes, dependendo do serviço, cobrava entre 1000 e 1500 escudos. A meio da manhã já está na zona dos Quatro Caminhos, onde a estrada militar se cruza com a Nacional 250, perto do bairro do Catujal, em Loures. Volta a casa rapidamente para almoçar e às 15h30 regressa. Come pouco. Dá para perceber assim que se olha para ela. É baixa, tem cerca de um metro e meio e está cada vez mais magra por causa do consumo continuado de droga. Pesa 45 quilos, talvez nem tanto, mas nem por isso abranda. À noite a rotina repete-se. Chega a casa às 20h e às 22h, depois de comer qualquer coisa, sai novamente até a meia-noite, 01h, mas agora para a zona do Pingo Doce da Póvoa de Santo Adrião. Depois de o sol se pôr, é sempre ali que se prostitui. Diz que é mais seguro. Na maior parte das vezes está com os clientes mesmo no parque de estacionamento do supermercado. Quando eles não têm carro, leva-os sempre para o mesmo sítio. Uma zona isolada a cinco minutos a pé. É a barraca de madeira, sem porta nem janelas, onde vai ser encontrada morta depois do amanhecer. Suspeito número um: o ex-namorado. Numa investigação que começa sempre pelas relações mais próximas da vítima, o ex-namorado é o clássico suspeito número um. E neste caso, acreditam os agentes, é um suspeito mais do que plausível O homem tem 40 anos, mais 18 do que Valentina, e não consome drogas. Desde que a conheceu, há cerca de dois anos, deixou de trabalhar como servente de pedreiro. Ouvido pela PJ, explica que o objetivo era o de acompanhá-la mais enquanto ela exercia a prostituição. Detalhe: enquanto o fazia, andava armado com um martelo e uma faca de mato. O homem garante à polícia que as armas eram apenas para segurança da namorada, das outras prostitutas e até dos próprios clientes. Mas a mãe de Valentina conta outra história. Acusa-o de extorquir dinheiro à filha, de a obrigar a prostituir-se para o sustentar, de a espancar e até de a manter presa em casa durante vários dias seguidos. Diz que quando Valentina conseguia libertar-se e fugir para casa dos pais, o homem ia buscá-la para a levar de volta à força pra barraca onde moravam. Garante que a relação só acabou no dia em que, depois de uma destas fugas, a família de Valentina se viu obrigada a intervir. Meses depois disso, a filha continuava a ter medo de sair de casa quando sabia que ele andava por perto. Valentina dizia que se ele a apanhasse, a matava. A mãe não tem dúvidas: o assassino é ele. Interrogado pela polícia, o ex-namorado de Valentina recusa que alguma vez a tenha ameaçado. Admite que a acompanhou na noite do crime, mas garante que foi a pedido dela. Tinha sido assaltada e andava com medo de que pudesse voltar a acontecer. Diz que às 10:50 da noite, quando chegou ao parque de estacionamento do supermercado, ela estava lá a conversar com um homem baixo e alourado. Aproximou-se quando ele se foi embora. Valentina tirou uma nota de 1000 escudos do sapato, onde costumava guardar o dinheiro, e pediu-lhe que lhe fosse comprar um maço de SG Filtro. Subiu para a motorizada e foi à procura de um sítio ainda aberto para comprar os cigarros. Quando regressou, Valentina estava a entrar num carro vermelho. Uns 15 ou 20 minutos depois, viu-a regressar. Diz que lhe entregou os cigarros, perguntou-lhe a que horas se encontravam no dia seguinte e foi-se embora. Garante aos agentes que essa foi a última vez que a viu. E sem indícios que apontem para o contrário ou provas que o impliquem no crime, os investigadores não podem fazer mais nada. Carlos Ademar Fonseca explica que o caso é especialmente complicado por causa da história da vítima.

Estes casos que envolvem prostituição, que envolvem contatos esporádicos, que é o caso, quando daí resulta um crime, para um investigador é sempre muito complicado investigar. Não é por acaso que os casos que envolvem prostitutas mortas são casos muito difíceis de resolver. O que nós podemos fazer é o que fazíamos na altura. Hoje há, felizmente, mais ferramentas. Na altura não havia. É o contato humano, o contato com as pessoas das relações dela, as pessoas que estavam por ali, a vizinhança. Isto é, obcer contatos com esta gente toda e tentar sacar o máximo possível de informação que nos permita ir mais além.

Nesta altura, os agentes já falaram com familiares, amigos, colegas e até clientes de Valentina. E continuam sem pistas. É sábado, dia 1 de agosto. Passam menos de 48 horas desde o crime. Ela é magra, mas não muito alta e tem cabelos castanhos com as pontas pintadas de loiro. Entra no posto da GNR da Póvoa de Santo Adrião e pede para falar com os responsáveis pelo caso de Valentina. A Tina, como lhe costumava chamar. Apesar de se conhecerem há um ano e meio e de se prostituírem na mesma zona, não eram propriamente amigas. Esclarece que Tina nunca lhe fez confidências nem nada que se pareça. Depois, explica que na noite do crime nem sequer foi trabalhar. Tinha ido passar uns dias a Tomar com uma tia. Voltou na quinta-feira à noite, mas já era tão tarde que foi direta para casa. Diz que quer ajudar a apanhar o responsável pelo homicídio e oferece-se para fazer tudo aquilo que for preciso. Chama-se Maria João Rodrigues Vieira André dos Santos, tem 26 anos e também é toxicodependente, consumidora de heroína. Não há de fazer com que o assassino seja apanhado, mas vai cruzar-se com ele. Os resultados da autópsia deixam muitas dúvidas, mas são claros sobre a causa da morte. Valentina ainda estava viva, mas inconsciente, quando o assassino fez os primeiros cortes. Primeiro, asfixiou-a com as mãos, mas ela só morreu na sequência de graves lesões abdominais. O relatório, assinado pela médica legista Isabel Pinto Ribeiro, diz que os cortes foram feitos com um objeto corto ou perfurante que o homicida não deixou para trás Seguiu-se o arrancamento por tração do intestino da vítima. Conclusão: para além da arma do crime, o agressor levou com ele uma grande parte dos intestinos de Valentina, muito provavelmente como troféu. Nesta altura, o agente Carlos Ademar Fonseca ainda não se juntou oficialmente à investigação, mas já está mais ou menos por dentro do caso. O primeiro andar do edifício sede da PJ, na Rua Gomes Freire, em Lisboa, está reservado à secção de homicídios. Ao todo, há três brigadas de seis elementos cada. Quando se encontram nos corredores, os agentes trocam impressões sobre os casos uns dos outros.

Se nós expusermos o caso, pode haver sempre uma opinião, uma ideia que surja de repente, que possa fazer um rasgo e que resolva o caso ou pelo menos ajude a empurrá-lo para frente. Portanto, nós conhecíamos o caso, estávamos a par do caso, se bem que naturalmente apenas pela rama, não o conhecíamos em grande profundidade.

Dessas conversas de corredor, sai imediatamente uma certeza: por causa do troféu do crime.

Obviamente, um taradão qualquer, evidentemente, mas a nossa esperança era podermos vir a encontrar esses vestígios na casa de uma busca qualquer que fôssemos fazer.

O problema é que o tempo está a passar e simplesmente não há buscas para fazer, porque também não há suspeitos. Quando são conhecidos os resultados do exame toxicológico, também não ajudam. Sem surpresas, o teste é positivo para morfina e cocaína. Mas há um dado relevante noutro teste. Os esfregaços realizados não detetam espermatozóides e também não são encontrados sinais de violação. O que significa que se o homicida manteve relações sexuais com a vítima, elas foram consentidas e com proteção. Isso, porém, não os leva muito longe. Não há mais pistas, nem potenciais suspeitos para perseguir. A polícia está a zeros. A 3 de dezembro de 1992, quatro meses depois do crime, há um documento no processo de Valentina assinado pelo agente responsável pelo caso. O prazo inicial para que a investigação seja concluída está a aproximar-se do fim, mas a PJ não está pronta para desistir. "Não foi possível, até ao momento, apurar qualquer elemento que nos leve à identificação do ou dos autores do crime em investigação", pode ler-se na carta, onde é pedido mais tempo. Numa altura em que a taxa de resolução de homicídios ronda os 90%, os agentes não estão habituados a ficar sem respostas. Talvez por isso, vão começar a pôr tudo em causa. Se há alguma coisa certa desde o início, é que Valentina foi vítima de crime. Mesmo assim, conta Carlos Ademar Fonseca, até sobre isso alguns agentes vão ter dúvidas.

Isto era homicídio, não havia muitas dúvidas quanto a isso. No entanto, apesar disso, ainda poderia haver ali algumas dúvidas que surgiram numa cabeça ou noutra. "Isto não será porque ela era toxicodependente, uma overdose, isto ou aquilo, sentiu-se mal e lá ficou. E um roedor qualquer andou por ali a esgravatar, por causa daquelas escoriações que havia. Poderia criar-se a sugestão de terem sido provocadas por as garras de algum roedor com alguma envergadura".

O que leva à pergunta: e se afinal Valentina não tiver sido assassinada? Na verdade, até existem argumentos que sustentam a teoria. O barracão onde Valentina foi encontrada não tem porta e fica entre hortas e baldios, terreno fértil para ratazanas, baratas e outras pragas. Tudo isto numa altura em que, na memória coletiva do país, ainda está fresca uma célebre capa do jornal Tal & Qual. A fotografia mostra quatro crianças sorridentes num chão coberto de lama, num dos muitos bairros de barracas da capital. Os animais que têm ao colo são demasiado grandes, mas o título do jornal não deixa dúvidas. Os ratos de Lisboa parecem coelhos. Teria Valentina sofrido uma overdose no barracão e sido depois atacada por um ou mais animais daqueles? Será que a polícia tinha percebido tudo mal e afinal nem sequer tinha havido crime nenhum? José Manuel Anes é criminalista. Em breve também vai ser chamado a ajudar na investigação, como perito do laboratório de polícia científica e professor assistente de antropologia na Universidade Nova de Lisboa. Acredita que neste caso houve uma desqualificação da vítima, que fez com que a morte não fosse manchete de jornais, nem fonte de grande preocupação entre as autoridades.

"Prostitutas, deixa estar. Pronto. É a nossa sociedade. Prostituta é prostituta. Coitadas, elas são vítimas, mas são pecadoras, entre aspas, e portanto merecem o castigo".

Valdemar Pinheiro é jornalista. Cobre assuntos relacionados com crime e polícias há mais de 45 anos.

Não era a primeira vez que uma prostituta era assassinada. Eu também acredito que, por se tratar de quem era, que a Polícia Judiciária talvez não se tenha empenhado logo na investigação.

Em 1992, o jornalista trabalha no Correio da Manhã e a morte de Valentina também lhe passa ao lado. Até porque o mais provável era que tivesse sido um crime isolado. Mas isso está prestes a mudar. São 7 horas da manhã de 2 de janeiro de 1993, um sábado. O sol ainda não nasceu, mas o dia já está a clarear. Carlos continua sozinho na cama. Esta noite, Fernanda não voltou ao quarto 38 da pensão onde moram os quatro. Ele, ela e as crianças. Uma menina de seis anos e o bebê, que nasceu há apenas um mês. Não é costume. Às primeiras horas da madrugada, o mais tardar às 6 da manhã, Fernanda está sempre de volta à pensão na Rua das Gaivotas, em Lisboa. Fica preocupado, mas o bebê está a acordar. É preciso mudar-lhe a fralda e aquecer o leite. Tem muito que fazer e Fernanda há de estar aí a chegar. Nem se dá ao trabalho de abrir a porta e perguntar aos outros hóspedes se tiveram notícias dela. As horas passam e nada. O homem sai do quarto e desce ao rés-do-chão para telefonar para os hospitais. Nada, também. Fernanda não deu entrada em lado nenhum. Lá fora está um típico dia de janeiro, gelado. Em vez de sair para a ir procurar, deixa-se ficar no quarto com as crianças para não correrem o risco de se desencontrar. Mesmo que tivesse decidido sair, não faria a menor diferença. A essa hora já não havia nada a fazer. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio.

As cenas do crime estavam contaminadíssimas pelo caos total.

Isto era um caso que a Polícia Judiciária não tinha muito interesse em divulgar o aparecimento destas vítimas.

Podiam estar ali 30 pessoas atrás dele que ele não via ninguém, tão concentrado estava naquilo que estava a fazer.

"A Caça ao Estripador de Lisboa" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Inês Castelo Branco, e tem banda sonora original de Mário Lajinha. O guião e as entrevistas são de Tânia Pereirinha. A sonoplastia é de Bernardo Almeida. O design gráfico é de Miguel Fraso Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.