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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Como é que aconteceu o atropelamento em Albufeira? Os disparos que ouvimos foram feitos pelos militares da GNR que corriam atrás do carro que atropelou pelo menos 16 pessoas na zona de bares da Oura, no Algarve, na madrugada de terça-feira. Foram registrados por um vídeo que mostra o momento em que o condutor segue sempre em frente numa rua cheia de pessoas, sem abrandar. O homem, embriagado, só seria detido depois, mais à frente, quando foi forçado a parar, enquanto as vítimas eram assistidas e levadas para o hospital.
We were literally over there, literally on the road, and then the car just came out of nowhere. I just got hit, but then the ambulance came and I was on the ground. Loads of people got hit.
Como é que tudo isto aconteceu? E que zona é esta, em Albufeira, conhecida por excessos, desacatos e vandalismo? Vou conversar com Mariana Furtado, jornalista de sociedade do Observador. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira e esta é a história do dia de quarta-feira, 26 de agosto. Olá, Mariana.
Olá, Sara.
Como é que tudo isto aconteceu?
Tudo aconteceu na madrugada desta terça-feira, perto das 3:00, na zona da Oura, em Albufeira. E há um condutor que circulava num Skoda preto alugado numa transversal à Avenida Sá Carneiro, que é também a avenida conhecida como a Rua dos Bares, em Albufeira. E na interseção entre estas duas ruas, há uma patrulha de militares da GNR que faz a verificação dos condutores que pretendem entrar na avenida principal, porque esta avenida tem a circulação exclusiva a residentes entre as 19h e as 6h. E este condutor, que irá dali a uns minutos atropelar várias pessoas, não respeita a primeira ordem destes militares e segue, contornando as baias que ali estavam, só que vira à esquerda, e portanto, em direção a norte, rapidamente se apercebe que circula em contramão na Avenida Sá Carneiro e está sem saída. Aliás, vê também que no caminho tem outro grupo de militares a controlar este acesso a norte da avenida e faz inversão de marcha, portanto, volta a ignorar as ordens que as autoridades aqui lhe dão e segue já em direção a sul, percorrendo os vários bares desta avenida. E alguns metros abaixo, ao pé já do Bar Blue Star, é novamente interceptado por militares que estão a pé e que o advertem novamente para parar a marcha, mas novamente, apesar de abrandar um pouco, não segue estas indicações e continua. E é a partir daqui que começa o percurso descontrolado, colhendo várias pessoas que ali se encontravam à porta dos vários bares. E esta última equipe de militares é também a mesma que ainda dispara pelo menos sete tiros para o ar, para avisar tanto as pessoas para se afastarem, mas também o próprio condutor, que não para, apesar destes tiros, e continua o percurso desenfreado.
São aqueles militares que se veem no vídeo a correr atrás do carro à medida que ele vai avançando. Várias pessoas neste percurso, percebe-se, são abalroadas ou são atingidas de alguma forma. Aliás, uma das jovens que vai ainda no capô do carro, vai na parte da frente do carro, levada pelo carro até cair. De que ferimentos estamos a falar? Quantas pessoas é que foram atingidas?
Os últimos dados que temos indicam já que 16 pessoas ficaram feridas, duas das quais com gravidade, sobretudo nos membros inferiores. E pelo menos uma delas terá mesmo de ser sujeita a uma intervenção cirúrgica. E dois destes feridos ligeiros são os próprios militares da GNR, que também acabaram feridos no decurso dos atropelamentos.
Foram aqueles militares que também tentaram travar a marcha do veículo à medida que ele ia avançando. Há pouco explicavas que há o atropelamento, e isto não é uma coisa que acontece num só ponto, ele vai avançando. Nós também percebemos pelo vídeo que há pessoas que se afastam e há outras pessoas que nem se apercebem do que está a acontecer. Estão de costas, eventualmente. E, portanto, há algumas que só por uma unha negra não são atingidas pelo carro. Portanto, ele vai atropelando pessoas, mas não para. Ele segue sempre em frente?
Sim, ele continua sempre em frente até chegar a um cruzamento no fim deste troço mais a norte da Avenida Sá Carneiro. E aqui depois restam-lhe três opções: seguir em frente, continuando pela mesma rua dos bares, virar à direita ou virar à esquerda. E ele escolhe esta última opção, portanto, vira à esquerda, logo a seguir volta a virar à direita e entra aqui numa praceta, na Praceta do Sol Nascente, mas depara-se com um problema: é uma praceta, portanto, a única saída que terá é a própria entrada.
Da praceta.
Exatamente. Ou seja, é um beco em que até alguns carros que costumam estar estacionados no centro, torna difícil a circulação lá dentro. E este condutor ainda inverte a marcha pela segunda vez em todo este trajeto, só que, novo problema, fica atrás de um carro que seguia em marcha mais lenta em direção à única saída. E a última decisão que ele toma nesta sucessiva cadeia de acontecimentos é abandonar o carro e fugir a pé para o meio dos prédios que há nesta zona. Depois, é aqui que acaba por ser detido por outro grupo de militares que estavam numa entrada mais a sul, na Rua dos Bares, e ainda os outros que vieram a correr a pé desde a zona dos bares.
Portanto, ele não é detido logo ali no sítio onde as pessoas começam a ser assistidas nesta altura. Começam a chegar ambulâncias. Não é detido ali, é alguns metros, bastantes, mais à frente, que é detido pela GNR. O que se sabe sobre este condutor?
Até ao momento em que estamos a gravar este episódio, durante a tarde de terça-feira, este condutor ainda está a aguardar a medida judicial que lhe será aplicada, mas o que já sabemos é que é um cidadão com dupla nacionalidade, portuguesa e angolana. Aliás, quando ele se identifica junto das autoridades, mostra um documento de identificação que é atribuído a pessoas estrangeiras e é também um cidadão imigrante no Reino Unido, que estava a passar as suas férias em Albufeira.
Portanto, ele não é residente em Portugal à partida, ele reside no Reino Unido.
Exatamente. Aliás, o próprio carro em que tudo isto acontece é um carro alugado. Sabemos também que submetido ao teste de despistagem de alcoolemia, acusou também uma taxa de álcool no sangue de 1,29, o que corresponde já a uma taxa-crime.
É a partir de 1,20, não é?
Exatamente. E que está detido sob suspeitas de crimes de ofensa à integridade física qualificada, condução sob o efeito de álcool e condução perigosa.
Já voltamos à conversa com a Mariana Furtado. Na segunda parte vamos olhar para esta zona, a zona de bares na Oura, em Albufeira, e para os problemas que a têm deixado na história. Estamos de regresso à História do Dia, hoje com a Mariana Furtado, jornalista de sociedade do Observador. Mariana, a zona em que tudo isto acontece não é uma novidade para as pessoas. Já era conhecida por excessos, também por alguns episódios de violência. Que zona é esta?
Sim, é esse o cenário desta zona. Estamos a falar da Avenida Sá Carneiro, também conhecida como a Rua dos Bares, e logo esta designação já nos diz muito sobre que tipo de zona é que estamos a falar. É uma rua típica da vida noturna de Albufeira, onde existem dezenas de bares e vários estabelecimentos de diversão noturna em fila contínua.
Porta com porta.
Porta com porta, exato. Sucedem-se uns atrás dos outros, repletos de luzes, música e, claro, muito consumo de bebidas alcoólicas. E é também uma zona muito frequentada por uma mistura de portugueses, mas também estrangeiros, com destaque sobretudo para os turistas britânicos, com dezenas de turistas a encher a rua todas as noites, mesmo a meio da semana, numa terça-feira.
É verdade que estamos no verão, mas até nem está um tempo espetacular no Algarve, mas ainda assim a diversão noturna continua. Que tipo de queixas são mais comuns ali?
O tipo de queixas que ali são mais comuns são as de qualquer zona com uma intensa vida noturna. Já sabemos, o barulho, alguns desacatos, também intensificados por este consumo de álcool, mas mesmo alguns episódios de vandalismo. Há um caso que ficou mais mediático, que se passou em 2017, quando a GNR foi chamada a esta zona devido a vários desacatos que aconteceram entre jovens estrangeiros, turistas britânicos, nesta zona de bares de Albufeira, e que começou por ser uma festa num bar, que acabou em confusão por toda a avenida. Portanto, toda esta avenida que o carro deste condutor também circula. E tudo isto porque nesta altura, em 2017, os turistas britânicos não tinham reagido bem à hora de fechar portas.
Portanto, os bares começaram a fechar e eles não acharam uma grande ideia.
Exatamente. E foi preciso chamar a GNR para tentar explicar que seria uma boa ideia e as autoridades acabaram a ter de chamar reforços e dispararam também tiros para o ar nesta ocasião para ajudar a evacuar a zona.
A ideia que eu tenho é que foram desacatos e agressões entre dezenas de pessoas pela rua inteira. Não foi uma coisa muito concentrada.
Certo. E já nesta altura, o próprio presidente da Associação dos Comerciantes de Albufeira, o Luís Alexandre, dizia que estas rixas entre turistas de férias na região de Albufeira eram episódios comuns e que se repetiam ano após ano.
Esses alertas vão surgindo, as notícias vão surgindo, 2017 já foi há nove anos. Já houve alguma tentativa para resolver este problema?
Sim, a Câmara Municipal de Albufeira até recentemente adotou medidas, designadamente a redução dos horários de funcionamento dos vários estabelecimentos e também a imposição de um limite máximo do som exterior de 74 decibéis. Isto claro que foi algo que não agradou particularmente aos empresários do setor e aos donos destes bares, que se queixam destas medidas, mas mesmo para os moradores, os efeitos destas medidas não são muito positivos, já que na prática e como vemos, mesmo que os bares fechem mais cedo e com a música mais baixa, os clientes mantêm-se na rua a falar alto e a divertirem-se.
Como aliás terá acontecido na madrugada em que acontece este atropelamento. Obrigada, Mariana.
Obrigada, Sara.
Mariana Furtado é jornalista de sociedade do Observador. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico é do João Ribeiro, e eu sou a Sara Antunes de Oliveira. Até amanhã.