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Esta é a história do dia da Rádio Observador: os 101 resgatados do inferno de Azovstal. Estamos ouvindo a chegada a Zaporíjia de autocarros que resgataram uma centena de pessoas da região de Mariupol. Cento e uma pessoas saíram do complexo industrial de Azovstal, onde algumas estiveram dois meses sem ver a luz do dia. Uma viagem muito perigosa e muito difícil. Os enviados especiais do Observador à Ucrânia testemunharam o alívio sentido por estas pessoas à chegada a Zaporízhia. A ONU conseguiu resgatar essas mulheres, idosos e crianças de um cenário de destruição e morte. Hoje vou conversar com o editor de fotografia do Observador, João Porfírio, que esteve em Zaporízhia, a cerca de 230 km de Mariupol. Bem-vindo, João Porfírio.
Olá, Ricardo.
Onde estás?
Estou em Zaporízhia, bem no centro da cidade de Zaporízhia.
Tu e o Carlos Diogo Santos tiveram aí dois dias à espera que estas pessoas resgatadas de Mariupol pudessem chegar a Zaporízhia. Foi muito difícil resgatar estas pessoas?
Sim, e quem confirma isso é o porta-voz da ONU, que explicou ao Observador depois destes civis terem chegado a esta espécie de parque de estacionamento deste centro comercial, que foi improvisado para receber com a maior comodidade possível estas pessoas. O portavoz da ONU explica exatamente isso, que foi uma operação complexa, uma operação cheia de riscos, e esse porta-voz ressalva muito essa ideia que estamos a fazer uma operação de resgate num país em guerra.
Tivemos alguns incidentes de segurança que tivemos que resolver ou esperar, ou conversar durante o tempo da operação. Então isso aconteceu.
E isso é muito perigoso. Aliás, esses civis testemunharam enquanto saiam nos autocares daONU, de bombardeamentos muito perto dos autocars e, portanto, tudo isto atrasou e o mesmo porta-voz explicou ao Observador que as negociações foram feitas minuto a minuto, ou seja, dá a sensação que cada metro que o autocarro andava tinha que ser negociado.
Negociações a cada minuto, negociações que no final das contas chegamos a concluir com esse número de pessoas que chegaram aqui com a gente hoje, esperamos que não seja o único.
E João Porfírio, afinal, quantas pessoas chegaram aí a Zaporizhzhia transportados nestes autocarros da ONU?
Esta terça-feira chegaram 127 civis nos autocarros da ONU. São mais 27 do que se sabia. Sabia-se que tinham sido retiradas 100 pessoas da fábrica, mas não sabíamos destas mais 27 pessoas. Quem o diz é novamente Saviana Abreu, porta-voz da ONU, que entrevistou o Observador, explica que foram 127 civis, crianças e idosos naturalmente.
Cento e uma pessoa saíram da fábrica, mais de 100 pessoas nós conseguimos evacuar da fábrica, sessenta e nove delas vieram com a gente pra cá, pra Zaporízhia. As outras decidiram ficar em Mariupol, por vontade própria.
As outras 58 pessoas juntaram-se aos autocarros da ONU ao longo do caminho e chegaram então a Zaporícía ao mesmo tempo e nos mesmos autocarros. De ressalvar também que esta entrada não programada de civis a meio do caminho foi naturalmente muito negociada e foi até um dos principais entraves a que a caravana prosseguisse mais rapidamente. Mas obviamente a ONU vendo que há pessoas a meio do caminho que precisam de sair e que pedem auxílio pra sair, fez de tudo para que essas pessoas fossem incluídas nesses autocarros. No entanto, a vice-primeira ministra da Ucrânia veio dizer que de fato esse foi um grande entrave. E veio até dizer que os russos estavam a impedir que essas pessoas entrassem nos autocarros e diziam até: "Só sai daqui quem está nos autocarros da ONU. As outras pessoas ninguém sai daqui".
João, e uma vez chegados aí a Zaporizha, o que aí encontraram? Foi montada aí uma espécie de operação especial humanitária?
Sim, mas em ponto muito pequeno. Imagina um parque de um centro comercial, um parque de estacionamento de um centro comercial, centro comercial esse que está aberto ao público. É uma espécie de um centro comercial que vende tudo, vende comida, roupa, artigos pra casa.
Um grande armazém!
Um grande armazém que alberga tudo aquilo que possamos precisar.
Mas que está a funcionar em plena guerra, é isso, João?
Sim, está aberto ao público, portanto as pessoas podem ir às compras. Era muito curioso ver pessoas que se deslocavam àquele local para irem às compras normalmente e ao lado havia imensas tendas da Cruz Vermelha, por exemplo.
E essas tendas haviam o quê? Cuidado médico, alimentação?
Lá havia de tudo aquilo que é necessário a estas pessoas. Havia uma tenda enorme da Cruz Vermelha e nessa tenda bastante comprida havia cerca de 10 mesas muito compridas com várias cadeiras pra as pessoas se sentarem e os voluntários serviam comida quente às pessoas. Não só comida quente, mas também chá, café e além disso tentavam distrair de alguma maneira as muitas crianças que ali estavam, não só com comida, mas também com brinquedos, guloseimas. As crianças eram entretidas de alguma maneira pelos voluntários. No exterior desta grande tenda branca montada bem no centro do centro comercial, do parque de estacionamento, havia também uma tenda um pouco mais pequena da UNICEF, essa sim dedicada então às crianças. Esses voluntários da UNICEF tinham a responsabilidade de irem diretamente ter com as crianças e perguntar aos pais que necessidade é que as crianças tinham e depois assim que chegavam era-lhes entregue uma garrafa d'água e uma mochila azul, aquele azul que todos conhecemos característico da UNICEF, e nessa mochila tinha canetas pra pintar lápis e um bloco de folhas brancas pra colorir e também um bloco com desenhos pras crianças pintarem o seu interior.
E resta saber, João, que desenhos farão essas crianças nas próximas semanas. A ONU, João Porfírio, conseguiu entrar no complexo de Azovstal ou não?
Não entramos na fábrica, não é uma operação que nós podemos, por questões de segurança, entrar e por também autorização das partes em conflito.
Saviana Abreu, porta-voz daONU, explicou que ficaram a pouquíssimos metros da entrada da fábrica e que tinham visibilidade para a saída dos civis. Não tiveram autorização por parte das tropas russas, não lhes deram essa permissão para entrar, mas garante Saviana Abreu que viram a saída dos civIS para garantir que eles não eram alvejados nessa saída.
Esta viagem, já percebemos isso, esteve sempre rodeada de incerteza e daí também a demora pra percorrer estes pouco mais de 230 km.
Sim, é verdade. Uma operação destas e tantos autocarros com tantos civis, é preciso ter todos os cuidados necessários e a ONU tentou fazer de tudo pra que esses cuidados fossem salvaguardados. Aliás, quem o diz también é a vice-primeira ministra da Ucrânia, que chegou a este parque de estacionamento deste centro comercial sem aviso prévio. De repente estamos os jornalistas à espera que algo aconteça e que os autocarros cheguem e vem a assessora muito exaltada a falar muito alto: "Por favor, jornalistas, cheguem cá, por favor, cheguem cá". E de repente chega a vice-primeira ministra e começa logo a falar, nem espera que todos os jornalistas se posicionem, os tripés, os microfones. Começa a falar e começar a descrever as condições em que esta viagem decorreu. A vice-primeira ministra descreve cenário de terror naquela fábrica, que houve bastantes constrangimentos e contratempos na retirada destes civis de Mariupol, mas garante, em resposta a um jornalista, que apesar de Mariupol ser uma cidade completamente controlada pelo exército russo, não é uma cidade perdida. E acrescenta: "Mariupol é Ucrânia."
João, chegaram aí 69 pessoas que estiveram em Azovstal, saíram 101 do Complexo Industrial. Que histórias contam estas pessoas, João?
Histórias naturalmente horríveis. Há uma mulher, por ejemplo, com quem falamos, com duas crianças e a mãe dessa senhora, que dizia que foi muito difícil ficar estes dois meses fechada num bunker. Ela esteve fechada no bunker do seu prédio e depois então no bunker da fábrica e descreve o quão horrível foi passar estes dois meses no bunker com as duas crianças, porque obviamente as crianças têm necessidades que nós adultos conseguimos controlar de alguma maneira. Não só esse tipo de necessidades, mas também necessidades de saúde. As crianças desta senhora com quem falamos infelizmente precisam de muitas vitaminas, têm problema de saúde e precisamm de muitas vitaminas, e elas não foram obviamente salvaguardadas e as crianças não tomaram durante todo este tempo. Outras pessoas também descrevem o caminho que foi feito dentro dos autocarros até saírem da zona que é controlada pelas tropas russas. Há relatos horríveis de pessoas que nos dizem que as pessoas entre os 12 e os 60 anos eram obrigadas a sair dos autocarros, despirem-se e mostrar se tinham tatuagens nazi, se tinham tatuagens alusivas ao Batalhão Azov Eram obrigadas a isso para que os russos os deixassem sair e entrar novamente nos autocarros. Falámos também com uma trabalhadora da fábrica, uma engenheira eletrónica da fábrica Azovstal, que descreve tudo aquilo que aconteceu desde que entrou na fábrica no primeiro dia até ao dia em que saiu do bunker. Ela conhece a fábrica muito bem, conhece o complexo muito bem e descreve que quando saiu conseguiu ver a total destruição do local onde trabalhava e isso foi um enorme choque também para esta senhora com quem falámos.
Foi um processo de seleção deles mesmos, pessoas que queriam sair. Nós temos que entender que é um país em guerra, as pessoas que lá estão, estão há dois meses sem ver a luz do sol, eles não sabem o que tem aqui fora, eles não sabem da segurança que vai ter sair. Então foi uma decisão deles sair agora e eles vieram.
Algumas destas pessoas estiveram dois meses sem ver a luz do dia, estiveram trancadas nesta fábrica. A ONU vai conseguir repetir esta evacuação? Vai conseguir retirar mais pessoas de Mariupol e Azovstal?
A intenção é mesmo essa. Aliás, ainda há algumas dezenas de pessoas dentro do complexo fabril e, portanto, a ONU comprometeu-se a retirar todos estes civis desta fábrica e é assim que vai continuar a tentar fazer.
Achamos, acreditamos que com essa primeira operação muita gente que está lá poderia agora ter um pouco mais de confiança de que isso pode acontecer, que pode ser seguro e mais pessoas queiram sair e podemos fazer mais operações como essa.
Aliás já esta terça-feira foi anunciado que outra equipa daONU chegou perto do complexo da fábrica e que vai tentar retirar o máximo de civis possível mascomo calculamos todo o processo de negociação vai repetir-se,todo o processo de incerteza durante todo o percursovai repetir-se,portantoé impossível calcularmos um diae uma hora para anova chegada decivis vindosdestazona da Ucrânia.
E estas pessoasque entretanto chegaramaí a Zaporítia vão praondeagora?
Ao contrário dos últimosdois messesestas pessoasestão finalmente livreseem relativa segurançae porisso commuitos familiares aquía esperatambémmuitas pessoassvão optarpor ficar em cidadesrelativamente pertodeZaporitiaporque aintenção dessas pessoa séum dia voltarpra Mariupol. Euma dessascidades édnepro,é umagrandecidade quéfica relativamenteperto deZaporítiay Portanto muitasdessaspessoasnos disseram que vãopradnipropra casade familiaresmas outrastambém prAA Odessa porexemploPortantovão recorrer-semuito afamiliares quelhes deem casaquelhes deem abrigopara umeeventual possibilidadede voltaresaMariupol.
Entretanto João Porfíliocom o alívioDe chegaraí a portoseguroem Zapoorítsiasoaramde novo assirenes. Tocarasó aíou tocaramem váriascidades?
Simsoaramas sirenesaqui emZapooríziumuito audíveisnolocalonde estavam aspessoasuketinham acabado degardesta longaviagemmas assirenestocaronõ sóaquimas tambémem KievemKharkivemOdessa porexemploe estassimrenes tocamem regiõesonde poderáhavera ameaçadattaque áreoe nostelemóveisnós tenemosumas aplicaçõesquaconseguimos perceberem quezonase qué assirenessoame nãosó issomas tambéo sítío exatoondevhouvo ataqueefelizmente nõfoi aqui.
ObrigadoJoão.
ObrigadoRicardo.
JoãoPorfílioeditor defotografiadoObservadore onosso editorde sociedadeCarlosDiogoSantoses tãounaUcrânahádduassemanaso Observadorvaicontinuarno terrenoaacompanhar estashistóriaspoucotempodepois dachegadadoscivisaZaporíasurgironotíciasde umforteataquerussoà zonadocomplexodoAzovstalosmilitaresrussosreforçaramo contingented combateemnúmero dehomen se dearmentquesta foiahistóriado diaque contocouma ajudadaTânia Olyniknastraduçõesasonoplastiae músicado genéricosãodo JoãoRibeiroeu souo RicardoConceičãaté amanhã .