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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O que liga Cristiano Ronaldo e Tolentino de Mendonça?

No Funchal, descobrimos aqui uma ligação familiar curiosa. Não sei se estava por dentro. Não, não estava. Mas é um bom primo, é um primo famoso.

Há seis meses, quando desenhámos e estudámos a árvore genealógica do almirante Gouveia e Melo, numa série de trabalhos especiais sobre os principais candidatos à Presidência da República, uma das surpresas foi o fato de ter Cristiano Ronaldo como primo. Agora que arranca o Mundial de Futebol, numa parceria renovada com a Associação Portuguesa de Genealogia, fizemos o mesmo para alguns jogadores da Seleção Nacional. O primeiro trabalho, já publicado no Observador, é precisamente sobre o capitão da Seleção Nacional, que tem, entre os antepassados, muitas outras figuras surpreendentes, algumas que chegam até à descoberta da Ilha da Madeira. Vou conversar com o Bruno Roseiro, editor de desporto do Observador, que foi explorar a história mais antiga de Cristiano Ronaldo. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira e esta é a história do dia de sexta-feira, 12 de junho. Bem-vindo, Bruno.

Olá, Sara.

Quanto trabalho deu construir e depois detalhar e explicar a árvore genealógica de Cristiano Ronaldo?

Muito, primeira resposta.

Resposta simples.

Resposta simples, com uma parte mais fácil, digamos assim, e outra mais complexa. A parte mais fácil é: a grande maioria dos antepassados, ou a larga maioria, está toda muito concentrada na zona Norte da Madeira e em Porto Santo, ou seja, isso facilita bastante. Temos depois algumas outras histórias, como por exemplo, o fato de só mais tarde termos percebido que o avô materno morreu na Austrália, para onde tinha emigrado. E há uma outra ligação também aí, que é a meia-irmã de Dolores, que deu a ideia de chamar Cristiano a Ronaldo, exatamente por todas as dificuldades que ela teve durante a gravidez, era uma meia-irmã desse mesmo avô, José Nunes de Biveiros. Além disso, a única exceção é Isabel Rosa da Piedade, que é bisavó do lado do pai e que nasceu na praia, em Cabo Verde, portanto, é a parte africana que está nesse código genético de Ronaldo. À exceção destes dois casos, tudo concentrado na Madeira.

Está tudo ali concentrado no arquipélago. E até onde é que foi possível chegar nessa viagem para trás?

Em termos de linha pura, digamos assim, estamos a falar de antepassados até 1590. Ainda assim, aquilo que se percebe é, estando tudo muito concentrado na Madeira, portanto, essa é a parte complexa, são letrinhas muito pequeninas e temos de ir à procura de tudo isso. Da mesma maneira como muita gente descobre a Madeira por Ronaldo, Ronaldo está também geneticamente ligado aos descobridores da Madeira e é também até aí que vão os seus antepassados.

Que explicação é essa para ele ter nascido, afinal, na Madeira?

Temos de recuar aos tempos do descobrimento da equipa, neste caso, não de Martinez, mas do Infante Dom Henrique, que tinha Tristão Vaz. Tristão Vaz foi um dos descobridores da Madeira e que ficou com a governação da zona de Machico. Posteriormente, casou com Branca Teixeira e é a partir dessa linha que depois se chega a Cristiano Ronaldo. Mas é também nessa linha que existe uma sexta neta de Tristão Vaz, Dona Isabel de Serpa, penso que é Isabel de Serpa, que casou com Pedro Lumino de Castro, que por sua vez é sexto neto de Adão Gonçalves Ferreira.

Que é uma figura que é essencial na história da própria Ilha da Madeira.

Tem essa coisa curiosa que é não foi escudeiro, não foi cavaleiro, não andou a descobrir outras ilhas. Foi, sim, a primeira pessoa a nascer na Madeira. Ele era filho de Gonçalo Aires Ferreira, com essa particularidade de ter o nome de Adão por ter sido o primeiro, assim como a irmã teve o nome de Eva por ser também a primeira.

De todas as ligações que tu foste encontrando, qual foi a que te surpreendeu mais?

Inevitavelmente a de Pinga, porque é uma ligação que se nós olharmos para a floresta e não para a árvore, faz sentido, porque Pinga também é madeirense e havia essa probabilidade de poder acontecer. Mas, por outro lado, quando nós pensamos em Pinga, foi o primeiro grande jogador português, aquele que na história do futebol português, pela primeira vez falou de um gênio, digamos assim, porque era alguém que com a bola nos pés conseguia fazer a diferença. Conseguiu ser internacional por Portugal quando ainda jogava no Marítimo e que depois, mais tarde, a partir de 1930, quando assina pelo Futebol Clube do Porto, acaba por ser a primeira grande estrela e a primeira grande referência que o Futebol Clube do Porto tem em termos de futebol. Ganhou dois campeonatos de Portugal, depois ganhou três ligas, havia depois essa distinçãoA partir de 34, 35 passou a ser Primeira Liga. E foi alguém de tal forma importante na história do Futebol Clube do Porto que José Maria Pedroto, que eu diria que é talvez a grande referência em termos de construção de ADN daquilo que é o Futebol Clube do Porto, tinha sempre o Pinga como referência. E ele, além de ter feito 16 anos no Futebol Clube do Porto, deixou uma marca que as grandes referências que se seguiram tentaram sempre também dar continuidade.

Mas era exatamente por quê? Pela maneira como jogava, pelo sucesso que teve?

Era pela maneira como jogava.

Porque tu também escreves isso no teu especial, que ele é considerado por alguns o primeiro grande gênio do futebol português.

Sim, isto é uma parte mais pessoal. O facto de quem joga bem com o pé esquerdo naquela altura, acho que inevitavelmente destacava-se dos demais. Ele tinha uma capacidade de finta. Ele com o passar da carreira não foi marcando muitos gols, fazia muitas assistências, porque ele era o desequilibrador nato. Era aquela referência que quando a equipe não encontra os caminhos para a baliza, pura e simplesmente lhe dava a bola e ele sabia como lá chegar. E daí ser exatamente essa primeira referência e haver essas citações em muitos livros antigos do futebol português que falam de Pinga como o primeiro gênio do futebol português, exatamente pela capacidade, sobretudo técnica, que ele tinha e que mostrou sobretudo no Futebol Clube do Porto.

Bruno, há também, além de Pinga, além de Tristão Vaz, além de todos os nomes de que já falamos, uma ligação a um cardeal.

Também. E quando nós pensamos onde é que ele nasceu, também conseguimos perceber essa ligação. Neste caso é Tolentino de Mendonça. E estas ligações fazem-se saltando algumas gerações.

Não é uma coisa muito próxima.

Não, nunca é muito próximo. Por exemplo, Cristiano Ronaldo e Pinga partilham os mesmos avós, mas Cristiano Ronaldo são os décimos segundos avós de Cristiano Ronaldo, que são também os sétimos avós de Pinga. No caso de Tolentino Mendonça, é também essa a ligação, ou seja, os sétimos avós de Ronaldo são, em simultâneo, os quintos e os sextos avós de Tolentino de Mendonça, com essa particularidade de estas ligações virem sempre pelo lado da mãe, de Loures, e não pelo lado do pai. Portanto, é por aí que nós conseguimos encontrar essas ligações.

A todas estas pessoas.

Sim, a Pinga, a Tolentino Mendonça, a Tristão Vaz, a Adão Gonçalves Ferreira e a mais um outro que provavelmente já iremos falar, vai sempre pelo lado da mãe de Loures.

Mas isso também porque há menos informação do lado do pai?

Eu acho que tem muito a ver com locais de nascimento e depois a partir daí, a maneira como se foi construindo a linhagem. O pai, Dinis, e a mãe, de Loures, de Ronaldo, acabam por ser primos muito afastados, porque pensando naquilo que era a realidade da Madeira, chegava uma certa altura onde era complicado haver casamentos que não fossem entre primos.

Certo, muito afastados. A insularidade tem dessas coisas.

Era algo comum, mas de facto é do lado da mãe que vêm todas estas ligações mais de notáveis, digamos assim, como existe, neste caso, de Tolentino de Mendonça.

Vou fazer uma inconfidência em relação à maneira como isto é feito. Quando nós recebemos os dados que nos são enviados pela Associação Portuguesa de Genealogia, nós depois usamos um sistema, uma página onde pomos as ligações. E o problema é que esse sistema não admite casamento entre primos. Certo?

É um problema.

Foi um problema com a árvore genealógica do Ronaldo por causa disso.

Aqui os dois problemas são: um, temos de fazer as ligações dos primos com o tracinho à mão e depois posteriormente colocar. E dois, o tamanho da árvore, que para quem ainda está convencido que não é preciso óculos para ler ao perto, é de facto um desafio.

Mais de 40 é melhor puxarem os óculos, mas vai valer a pena ver este especial. Nesta árvore, claro, já se sabia por causa da árvore que fizemos na altura das árvores que fizemos para os candidatos presidenciais, está o almirante Gouveia e Melo, e é uma ligação também algo complexa.

Sim, é complexo. Mais uma vez também tem casamentos entre primos à mistura. Agora, tem aqui uma particularidade que é, quando foi feita a árvore de Henrique Gouveia e Melo, conseguiu perceber-se que havia uma ligação através de duas linhas entre o almirante e Ronaldo. À luz da árvore do Ronaldo, consegue-se perceber que existe uma terceira linha que também faz com que estejam ligados.

Então eles são mesmo familiares, de várias maneiras.

São mesmo familiares, com algumas gerações de distância para haver essa ligação, mas existem não duas, mas três linhas, que neste caso é uma linha que vem da avó materna, que acabou por morrer ainda nova, quando a mãe de Loures tinha cinco, seis anos, o que fez também com que o avô José Nunes Viveiros depois casasse uma segunda vez e posteriormente fosse para a Austrália. Portanto, aquilo que eu achei mais curioso aqui foi como é que duas pessoas que são as mesmas, seguindo a árvore de um, neste caso, Gouveia e Melo, conseguem se encontrar duas linhas, mas depois seguindo-se a árvore de Ronaldo, consegue-se encontrar uma terceira. E há uma outra curiosidade de um outro jogador que não vale a pena nomear, que dentro de todos os candidatos presidenciais, não foi encontrada uma ligação entre um candidato presidencial e um jogador da seleção, mas à luz do jogador da seleção, consegue-se encontrar uma ligação a um dos candidatos presidenciais também. Portanto, há sempre essa particularidade, depende um bocadinho quais são as linhas que se estão a seguir e depois as ligações que se conseguem encontrar.

Isso já é um teaser para os próximos trabalhos dos jogadores da seleção nacional. Obrigada, Bruno.

Obrigado, Sara.

Bruno Roseiro é editor de desporto do Observador. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Rafael Pego, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira. Bom fim de semana.