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Quando foi lançado, no início deste ano, o Museu de Pintura Naïf, no Satão, que resultou da doação de Hermínio Ferreira, houve também uma vontade, ao mesmo tempo, paralelamente, de dar espaço àquelas que são as tradições de Pedrosas. E foi por isso criada uma sala dedicada que contemplasse precisamente isso. Tenho aqui comigo uma das responsáveis por este museu, a Paula Cardoso. Boa tarde. O que é que nós temos aqui nesta sala onde se pode ver, aqui à minha volta, contempladas várias tradições que fazem parte desta aldeia no Satão?
Olá, boa tarde. Nós aqui no Museu de Pintura Naïf, para além de termos a coleção de pinturas exposta, temos também um pequenino núcleo dedicado a esta aldeia de Pedrosas, que era a aldeia natal de Hermínio Ferreira, o doador desta coleção. E esta sala está implantada na antiga casa familiar de Hermínio Ferreira, ou seja, em tempos viveu aqui a sua família e optou-se por fazer este núcleo e dedicá-lo à aldeia, no sentido também de mostrar aquilo que são as tradições e de estabelecer a ligação à comunidade. Ou seja, o sentido de pertença está também aqui presente neste pequeno núcleo, com uma parede dedicada à aldeia dos nossos avós. Ou seja, com a menção, por exemplo, à matança do porco ou à malha do centeio, ou até à procissão do São Saturnino, que é o padroeiro aqui da aldeia de Pedrosas. Também a referência em fotografia para uma das senhoras que já faleceu, mas que todas as pessoas daqui da aldeia e arredores conseguem identificar. E o fato de, por exemplo, os seus familiares entrarem neste espaço e verem aqui a fotografia da sua avó, da sua mãe ou da sua bisavó, esta ligação ao território e às pessoas aqui é ainda mais marcada e marcante. Também neste núcleo, e pegando no São Saturnino, temos ao centro da sala exposta uma estela funerária, uma estela da época medieval. Estela esta que se encontrava na capela de São Saturnino, aqui em Pedrosas. Também no âmbito do religioso, temos um pequeno painel dedicado àamentação das almas, que é um rito quaresmal, uma tradição que se mantém há muitos anos ainda aqui na nossa aldeia. E a acompanhar o texto também temos estilizada aquelas que são as alminhas das Pedrosas. E o que é esta tradição da amentação das almas? A amentação das almas é o juntar, o reunir um grupo de homens, que em outras terras podem ser grupos mistos, mas aqui é masculino. Ou seja, os homens juntam-se todos os dias da Quaresma, desde a quarta-feira de Cinzas até ao Sábado da Aleluia, juntam-se no adro da capela e depois vão pelas ruas amentar as almas, ou seja, fazer esta encomendação das almas, também assim conhecido, com cânticos e com orações, e é uma prática que se vai mantendo ao longo dos anos.
E documentar aqui neste museu essas práticas, que como disse, ainda hoje são tradição aqui na aldeia e também calculo no Satão, faz com que as gerações futuras também não se esqueçam qual é a história de Pedrosas.
Exatamente. É importante nesse sentido. Se os mais velhos o fazem, se os mais velhos têm conhecimento destas práticas, se não se continuar com elas, os mais novos podemos correr o risco de elas se perderem. E então esta tradição, este patrimônio imaterial, é importante que se vá mantendo e que se vá também transmitindo aos mais novos.
E foi por isso também que decidiram destacar esta senhora que me estava a falar, aparentemente anônima. São aquelas pessoas que contribuem para o desenvolver do território e que depois não têm essa visibilidade, porque não têm um grande nome. E foi por causa disso também que quiseram destacar esta senhora que trabalhou na terra, trabalhou no território e que, de certa maneira, nas escuras, permitiu desenvolver Pedrosas.
Exatamente. Podemos ver esta apresentação dessa forma, sim. É uma mulher que aqui não está identificada, é verdade. Quem é da aldeia sabe quem é a senhora. E eu posso referir, era conhecida como a tia Bárbara e era uma mulher que trabalhou no campo, sim, bastante, e é uma mostra daquilo que era a mulher, quer em Pedrosas, quer em muitas aldeias do nosso Portugal, do nosso concelho.
Em um museu cheio de obras valiosas, algumas de artistas estrangeiros, fica aqui também uma sala dedicada àquelas que são as tradições, as atividades e as práticas que aqui nasceram, em Pedrosas, e que aqui continuam a ser praticadas. Paula Cardoso, muito obrigada.
Muito obrigada nós. Visitem-nos.