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A Rádio Observador está no Museu de Terras de Besteiros, no município de Tondela, um museu municipal que conta a história de Tondela, mas não só. O Ruben Marques está a fazer-nos uma viagem por este museu. O Ruben é técnico superior do Museu Terras de Besteiros e é uma visita que pretende fazer uma viagem histórica e estamos, por isso, na sala dedicada à era megalítica.

Antes de mais nada, sejam muito bem-vindos a Tondela e ao Museu Terras de Besteiros. O nosso museu tem estas valências, que é mostrar o património cultural concelhio e uma das nossas primeiras salas é dedicada precisamente ao megalitismo. E nós temos aqui alguns objetos provenientes de um dos monumentos megalíticos mais importantes, que se chama Arquinha da Moura. Apesar do nome Arquinha da Moura, isto não tem absolutamente nada a ver com o nosso passado muçulmano.

É bem mais antigo.

É muito mais antigo. Nós estamos a falar de um monumento que terá cerca de 5500 anos de antiguidade.

Para quem não sabe o que é a Arquinha da Moura, como é que a descreveria?

Simplificando, é um dólmen, uma anta. Isto significa o quê? Que é uma sepultura coletiva que foi construída na pré-história, mais concretamente no período neolítico. A construção desses monumentos, que geralmente eram feitos com pedras de tamanho muito grande, significa imediatamente que o homem da pré-história cuidava dos seus mortos, sepultava-os e para além disso, colocava junto dos corpos, ou dos fragmentos, ou das cinzas, todos estes objetos que nós conseguimos ver aqui na sala.

Que objetos são esses? A rádio é som, mas descrevendo, Ruben, que objetos é que conseguiram encontrar perto dessa Arquinha da Moura?

No interior e nos arredores da Arquinha da Moura, nós encontrámos dezenas e dezenas de objetos, entre eles pontas de seta, lanças, machados em pedra polida. Encontrámos alguns vasos cerâmicos, encontrámos objetos também decorativos, contas de colar, encontrámos um machado muito pequenino e que, pelo seu tamanho, achamos que será um machado votivo. Ou seja, encontrámos todos aqueles objetos que, quer em termos utilitários, quer em termos votivos e do próprio embelezamento da pessoa, eles achavam que seriam necessários. E necessários para quê? Se estamos a falar de uma sepultura, seriam necessários para a vida que viria após a morte. Ou seja, a existência dos dólmens mostra-nos que o homem da pré-história, muito longe daquela ideia que nós às vezes temos de um ser pouco inteligente, pouco sensível, é uma ideia completamente errada. O homem da pré-história era um ótimo engenheiro, caso contrário, não teríamos um monumento com mais de 5000 anos. Para além disso, tinha convicções religiosas muito fortes. Ele sepultava, cuidava dos seus mortos e para além disso, ao colocar todos esses objetos, nós temos a indicação de que eles acreditavam na vida, na ressurreição, na vida depois da morte.

Eu não sei se é possível saber responder à pergunta que lhe vou fazer, mas encontrar estes objetos, um dólmen como a anta da Arquinha da Moura, pode-nos levar a concluir que havia uma população de dimensão considerável dessa época aqui a residir na terra que passou a ser Tondela?

Tudo indica que já existiam populações humanas a residir em Tondela há mais tempo. Mas em termos de vestígios físicos e materiais, a Arquinha da Moura prova-nos que, pelo menos desde o período neolítico, desde há 5000, 6000 anos, que seguramente residiam cá e residiam de uma forma permanente. Mas para além da Arquinha da Moura, temos outros monumentos megalíticos e, portanto, para eles existirem é porque essas populações aqui estavam fixadas e aqui sobreviviam.

Antes de me antecipar a esta visita histórica, esta viagem histórica que nós vamos fazer, queria só perguntar-lhe, portanto, nós vemos uma sala relativamente pequenina, mas com muitos objetos. Vemos, por exemplo, um machado, setas. Estes objetos são todos da mesma época ou são de épocas diferentes em que foram fazendo essa escolha?

Vou só fazer aqui uma pequena introdução. O monumento, embora seja muito antigo, manteve-se escondido até à década de 1990. Os arqueólogos só o descobriram há muito pouco tempo e como ele felizmente se manteve escondido dos olhares indiscretos, ninguém perturbou o local. E, portanto, quando as primeiras escavações arqueológicas foram feitas, aquilo que os arqueólogos encontraram foi um monumento extraordinariamente bem conservado, não remexido, e portanto encontraram lá um espólio imenso. Nós aqui, nestas primeiras três salas, vamos encontrar algumas dezenas de objetos, mas eu quero que tenham a perceção de que isto é apenas uma amostra.

A ponta do iceberg, como se costuma dizer.

Muito pequenina. Nós só de pontas de seta temos à volta de 400, machados de pedra polida temos dezenas, ou seja, são muitos e muitos objetos. Aquilo que me pergunta faz todo o sentido. Quando encontramos tantos objetos, significa que provavelmente o monumento foi sendo reutilizado por diversas gerações e, portanto, durante centenas e centenas de anos, esse dólmen, essa sepultura, terá sido utilizada. Abre-se o dólmen, coloca-se o corpo ou os restos do cadáver, fechava-se e voltava-se a abrir quando fosse necessário. Portanto, houve essa reutilização. E nós temos quase a certeza disso, porque alguns objetos parecem-nos mais antigos e depois temos outros objetos já feitos em metal que nos trazem para uma cronologia um pouco mais recente. Um pouco mais recente, mas ainda dentro da pré-história. Daquilo que nós chamamos da Idade dos Metais.