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Lazarim é casa do Centro Interpretativo da Máscara Ibérica. A Tatiana Cardoso é responsável por este centro. Tatiana, começo por lhe perguntar o que é esta máscara ibérica.

O centro abriu em 2016, no sentido de preservar e de certa forma divulgar as tradições da máscara ibérica. A máscara ibérica consiste num conjunto de tradições ligadas à máscara. Estamos a falar de tradições não só que se realizam na altura do entrudo, mas também outras tradições que se vão realizando ao longo do ano, principalmente no fim do ano, início do ano, até ao entrudo, que têm esta particularidade do uso da máscara. São festividades que são muito ligadas ao culto da fertilidade dos solos, ao adeus de um ano velho agrícola, início de um novo ano. O fim de algo para dar início a algo de novo. Neste caso, das festividades do entrudo, dar início à primavera, a entrada para a primavera.

Mas sempre nesta altura do equinócio da primavera para o solstício.

Principalmente no solstício de inverno. Como disse, também há tradições, neste caso aqui em Portugal, por exemplo, temos uma tradição que se realiza na altura do verão. Aí sim, no solstício de verão, que no fundo também faz parte deste leque da máscara ibérica, terminando um ciclo, dando início a um novo ciclo e é isso em que consiste a máscara.

Fale-nos um bocadinho sobre a localização. Não é em Lamego, é em Lazarim, uma localidade bem mais pequena. Isto ajuda, de certa forma, a divulgar o que é produzido nesta terra. Por que Lazarim?

Lazarim porque aqui existe particularmente uma tradição ligada à máscara, que é o Entrudo de Lazarim, e por esse mesmo motivo foi construído aqui nesta vila, que dista a 12 km de Lamego. Foi construído aqui no sentido de também, de certa forma, preservar ao mesmo tempo esta tradição e também divulgá-la através de exposições, conforme iremos ter a oportunidade de ver.

Têm muitas visitas também de cidadãos espanhóis, uma vez que é um centro ibérico?

Sim, inclusive ainda este entrudo tivemos visitas de espanhóis, ao longo do ano também. Há muitos espanhóis que também nos procuram. Temos contacto também com várias pessoas ligadas à máscara desse território.

E aqui na entrada temos uma máscara muito grande do Entrudo de Lazarim. A rádio é som, chama à conversa o Fernando Ribeiro, que é responsável pela Câmara Municipal de Lamego. Fernando, estas máscaras de Lazarim são diferentes de outras em que medida?

Não, elas são diferentes de outras. Esta em particular que estava a referir, esta de grandes dimensões, não é uma máscara de Lazarim. Ela inicia aqui um conjunto expositivo que é referente à máscara e nós criamos uma sala que pretendíamos que fosse impactante. Eu diria que esta máscara representa, de certa forma, todas as máscaras, mas de uma forma impessoal, porque não queríamos começar esta exposição a afunilar. Por isso, na altura houve um convite que foram feito aqui aos artesãos para esta sala, para que quatro grupos de artesãos pudessem construir uma máscara, cada um deles da sua forma. Essa proposta não teve grande acolhimento, mas nós achávamos que a ideia era importante e por isso acabamos por nós criar uma máscara mais ampla e que marca aqui a entrada. Ela não é de nenhum lugar em particular e ao mesmo tempo é de todos os lugares.

E é essa a mensagem que querem passar com esta entrada?

Sim, é essa a mensagem que nós queremos passar com esta entrada, ou seja, para que toda a gente se sinta incluído nesta visita ou nesta viagem que nós fazemos sobre a máscara e sobre as manifestações culturais que são propriamente o entrudo.

E essa viagem acontece aqui em Lazarim por que razão particular?

Essa viagem acontece em Lazarim, como a minha colega estava a dizer, porque de facto há uma manifestação cultural que já é específica aqui desta localidade. Tem a particularidade de ao longo do tempo, a sua tipologia de máscaras ter evoluído para máscaras de madeira, nomeadamente a madeira de amieiro. E esse é um elemento muito distintivo em relação a outros entrudos. Ou seja, enquanto em outras localidades a máscara é composta por diversos elementos, pode ser osso, pode ser pelos, pode ser latão, pode ser tecidos. Aqui acabou por se caminhar para uma máscara muito específica e que caracteriza, que é as máscaras que representam ou seres imaginários ou demoníacos, mas que ao mesmo tempo é feita exclusivamente de madeira de amieiro. Além ter a particularidade, mas essa é uma particularidade quase transversal em todas as manifestações, em que não é só a máscara, mas também é o fato. E aqui a característica do fato está muito ligado a elementos perene da natureza, pode ser folhas, pode ser milho, mas também podem ser restos de tecidos. Geralmente é sempre um reaproveitamento ou de materiais inorgânicos, como os tecidos, ou recentemente de vez em quando até já se utiliza alguns plásticos, ou de elementos orgânicos, como sejam folhas, vegetação diversa. Está ligado, de alguma forma, ao reinício. Ou seja, a máscara é o elemento que se mantém sempre fixo e que pode ser repetido ao longo dos anos, mas os fatos não, porque são muito efêmeros.

Curioso. Esta é uma tradição que começou mais ou menos a que altura? Remonta a que altura?

Eu não sei, não consigo dizer exatamente. Sabemos que a partir, principalmente, de inícios ou finais da década de 70 do século passado, 80, ela começou a ter uma manifestação mais forte. Anteriormente, mas nós temos testemunhos que já antes, nomeadamente durante o Estado Novo, esta manifestação já existia e até anteriormente. Não com a forma que adquiriu atualmente, mas ela foi se manifestando e nessa altura, nomeadamente no Estado Novo, era uma manifestação não só aqui em Lazarim, mas também em outros locais, que eram reprimidas, porque geralmente quando nós temos máscaras ou somos mascarados, transformamo-nos, adquirimos um conceito de liberdade diferente e há uma permissividade a dizer coisas e a fazer coisas que em situações normais não se fazem. Isso era sempre tido como uma ameaça, quer para o poder instituído, quer para a própria igreja, e por isso houve alguma, está-me a faltar o termo.

Mas era uma tradição, de certa forma, clandestina.

Clandestina, exatamente. Sim, essa é a palavra, que era feita, mas era feita às escondidas e temos várias decisões, quer de tribunais, quer de autos de polícia, de pessoas que foram detidas por o terem feito.

Então seria absolutamente impossível termos um centro interpretativo da Máscara Ibérica em 1950.

Sim, completamente. Provavelmente, sim.