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A Rádio Observador está no Museu de Terras de Besteiros a fazer uma viagem histórica pelo município do concelho de Tondela. O Rúben Marques é o nosso guia técnico superior do museu. Rúben, a história de Tondela, como é contada neste museu, começa pela pré-história. Há aqui vários monumentos dessa altura, sendo que houve um que acabou por não poder ser, porque foi pilhado anos antes de se descobrir a importância que poderia ter para o país.

Nós aqui no concelho de Tondela temos muitos sítios arqueológicos relevantes. Alguns, infelizmente, ao longo do tempo, foram sendo destruídos. Outros, felizmente, encontram-se bem preservados e nós aqui no museu até tentamos fazer visitas guiadas a alguns deles. Já referimos há pouco a Arquinha da Moura, que não é uma questão de ser mais importante, mas é aquele que para o turista, para o visitante, acaba por ser mais espetacular. É como entrar numa caverna feita pelo homem e entrar numa dimensão totalmente diferente. Visitar a Arquinha da Moura é sem qualquer coisa de especial. Fazemos visitas a um segundo monumento megalítico, também do período neolítico e que achamos que é relevante e que é a Estela Menir de Caparrosa. Em termos práticos, o que é a Estela Menir? É um monólito erguido pelo homem da pré-história. Este, em particular, tem cerca de três metros de altura total e tinha como objetivo, por um lado, marcar o território e por outro, seriam cultos de fertilidade e de fecundidade. Era a maneira de o homem da pré-história pedir aos deuses que as suas mulheres tivessem bebés, que os animais e que a natureza fossem férteis, porque disso dependia totalmente a sua sobrevivência.

Monumentos, talvez da mesma altura, mas com propósitos completamente diferentes.

Exatamente. Nós achamos que eles terão sido construídos mais ou menos na mesma altura, no período neolítico, mas a Arquinha da Moura é uma sepultura coletiva e a Estela Menir de Caparrosa, como eu estava a explicar, tem intuitos diferentes. Serve para marcar o território. Curiosamente, passados todos estes anos, estamos a falar de mais de 5 mil anos, ele ainda se encontra na fronteira entre Tondela, Viseu e Vouzela. Portanto, por efeito curioso, ele ainda hoje serve quase para marcar essa divisória territorial. E para além disso, é um monumento de culto à fertilidade e isso é fundamental. Daí o formato deste menir e de quase todos os menires ter o formato fálico.

Sendo que menires nesta região não são um monumento propriamente muito usual, como estava a explicar.

Se nós formos à zona do Alentejo, eles são relativamente comuns. Na zona centro e norte do país, já são mais incomuns. Daí que ao termos no mesmo território, um dólmen importante como a Arquinha da Moura e um menir destas dimensões, que é o caso do que existe em Caparrosa, nos deixa particularmente felizes.

Rúben, estava a explicar-nos que este menir, quando foi construído há milhares de anos no Neolítico, tinha um objetivo em concreto. O tempo foi passando, as populações foram continuando aqui nesta região e foi assumindo outras importâncias, como esta de dividir territórios.

Provavelmente, ele quando foi construído, já serviria para marcar o território. Aquilo que eu disse é que, por ironia do destino, ele ainda hoje se encontra numa fronteira, portanto, ainda hoje está a marcar o território. Eu aproveitava, era só para depois dar aqui um outro pormenor importante, é que para além de ser um menir de dimensões consideráveis e para além de estar num local onde não existem assim tantos menires, este também é importante porque nos mostra nas suas várias fases diversas gravuras.

Por exemplo?

Temos algumas gravuras que são fáceis de identificar, mas essas não são do período de construção. Nós temos, por exemplo, duas fases onde aparece um T. O homem da pré-história não tinha alfabeto, portanto, nós sabemos garantidamente que isto foi feito posteriormente. E o T aparece nas duas fases que estão voltadas para o concelho de Tondela. Portanto, terá sido alguém que achou, provavelmente alguém que vive neste concelho, que decidiu marcar os lados do monumento que estavam voltados para a sua própria terra.

E não é possível saber em que altura é que essa marca foi deixada no monumento?

O T não sabemos. Depois temos duas datas que nos dizem 1801 e 1804. Portanto, também sabemos que foi algo feito no século XIX. Hoje diríamos que é um ato de vandalismo. Provavelmente, quem fez isso no século XIX não sabia sequer que estava a esgravatar num monumento tão antigo e tão importante.

Os grafites da altura.

Os grafites da altura. Mas o que também importa dizer é que, tirando o T, tirando estas datas e tirando uma cruz de Cristo, existem outras gravuras que essas sim, nos parecem contemporâneas à construção do monumento. E são muito importantes por causa disso. Estamos a falar de gravuras com vários milhares de anos. Muitas vezes não as sabemos identificar, porque eles têm formatos geométricos, formatos difíceis de percebermos, mas seguramente que teriam algum significado. E para nós, são importantes porque marcam e individualizam este monumento.