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O Centro Interpretativo da Máscara Ibérica, em Lazarim, tem uma sala dedicada ao Entrudo. O Fernando Ribeiro, responsável pela cultura do município de Lamego, está aqui conosco a fazer esta visita. Fernando, primeiro deixa-me começar por lhe perguntar o que é o Entrudo?
O que é o Entrudo? Boa pergunta, eu nunca me fiz essa pergunta a mim mesmo. Não sei o que é que haveria de responder a isso. Mas o que é o Entrudo? O Entrudo é, no fundo, um marco em determinada altura do ano, coincide com aquele período antes da Páscoa, e que tem a ver com todo um conjunto de tradições cristãs e pagãs, que se vão misturando e que se tentam conciliar umas com as outras. Nós temos, por exemplo, aqui no domingo, que é chamado de Domingo Gordo, onde se pode comer tudo e mais alguma coisa, que antecede a Quaresma, e depois logo em seguida, esse encher de barriga, digamos assim, acaba por dar lugar a um período de muita contenção em termos daquilo que se come e como se come. Ou seja, um período mais de meditação, mais de introspeção. Isso, no fundo, é o Entrudo. O Entrudo é uma explosão de alegria, de festa, de transgressão e que depois vai dar sequência a um período de contenção e de introspeção, como referes há bocadinho, de religiosidade. E é isso, esse é o Entrudo. Agora, propriamente uma definição, podia-se arranjar uma, mas eu acho que cada um de nós poderia dar uma diferente conforme se posiciona neste tipo de coisas, ou porque gosta mais da manifestação pagã, ou porque é mais religioso e então se diria em relação a isso.
Fernando, entramos nesta sala, a temperatura baixa um bocadinho e vemos, de repente, vários fatos completos para este Entrudo. O que é que vemos quando entramos?
Nós aqui nesta sala quisemos recriar aquilo que é o dia do Entrudo e toda uma situação caótica, porque não há uma ordem, há um determinado caos, da forma como os caretos e as pessoas se movimentam nas ruas aqui da vila. Há um cortejo que eles fazem, até porque esse cortejo foi criado há uns anos uma espécie de festival de máscara, em que é atribuído o prêmio à melhor máscara.
A melhor máscara do ano ou do Entrudo.
E o que motiva os artesãos a todos os anos terem máscaras novas, e cada vez serem mais elaboradas para adquirir isso. É um prêmio simbólico, mas que para eles tem muita importância. E que levam muito a sério, às vezes com algumas zangas, que é normal. Mas, no fundo, temos aqui um conjunto de caretos vestidos a rigor, que mostram essa diversidade e esse movimento, que é complementado com um conjunto de fotografias que nos fazem quase sentir nesse mesmo Entrudo. Também temos o barulho dos bombos, que também é utilizado, e é isso.
Destes fatos completos, são perto de talvez mais de meia dúzia, talvez 10 fatos completos que têm aqui em exibição.
Temos dois, quatro, seis, oito, nove, porque o espaço não permite mais.
E são diferentes em que medida? Não só na máscara, também no traje?
São no traje. Aqui, tirando uma ali que utiliza cera pilheira, a maior parte deles utiliza o colmo e a palha. Ou seja, aqueles produtos, além um que utiliza a cana e faz da cana um fato, e que está ligado, de fato, a esse conjunto de elementos que são muito perenes. Ou exatamente o contrário, que são muito efêmeros e que de um ano para o outro podem não se aguentar. Nós atrás referimos que geralmente os fatos vão-se mudando todos os anos, é verdade, mas há alguns que conseguem ser mais cuidadosos e mantêm-nos ao longo do tempo. Esta sala aqui também tem uma coisa muito particular-
Conte-nos
...nós havíamos de falar, que também aqui está representada a leitura do testamento, que é uma coisa extremamente importante aqui em Lazarim, em que dois grupos, um feminino e outro masculino, solteiros, só podem ser solteiros, escrevem os segredos uns de outros. Ou seja, esses grupos, antes do dia do Entrudo, da terça-feira, reúnem-se muitos dias antes e vão escrevendo as coisas que aconteceram ao longo do ano sobre as pessoas, com nomes.
O que é que se fazem com esses segredos?
Com esses segredos contam-se, deixam de ser segredos.
Na altura do Entrudo.
No Entrudo, deixam de ser segredos.
Também levará muitas zangas, imagino eu.
Diga?
Também pode levar algumas zangas, imagino eu.
Ah, leva de certeza, porque o contar não tem filtro. Conta-se mesmo tudo, aquilo que é bom e aquilo que é mau. Essencialmente aquilo que é mau ou aquilo que eventualmente poderá pôr a pessoa em causa.
E de onde é que vem essa tradição?
Eu não sei exatamente de onde vem essa tradição, mas eu tenho uma teoria em relação a isso. Eu acho que isso funciona como uma coisa que eu chamo de um reset social. Ou seja, nós temos poder sobre o outro, principalmente em lugares em que todos nós nos conhecemos e que são pequenos. Temos um poder sobre a outra pessoa quando temos uma informação que mais ninguém tem e que essa informação possa ser embaraçosa de alguma maneira para o outro. E o que isto faz, no fundo, é acabar com esse poder. A partir do momento em que ele é dito de forma pública, pode ser muito embaraçoso, e muitas vezes é embaraçoso, pode fazer-nos corar de vergonha, mas esse poder acaba por desaparecer, porque a partir daí toda a gente conhece. No dia a seguir, como toda a gente se junta e toda a gente dança, isso fica mais ou menos calmoEu digo mais ou menos porque eu acho que nunca ficará. E depois reinicia-se um novo ano e novos segredos e novos poderes irão ser criados. Isso acaba por ser um nivelamento.
Um equilíbrio.
Um equilíbrio, sim.
E as pessoas que participam nesse ritual dos segredos também estão mascarados com as máscaras?
Alguns sim. Esse grupo que faz os segredos de uns e de outros. Os rapazes falam dos segredos das raparigas e dos defeitos das raparigas, pode ser mais complicado, e as raparigas que fazem exatamente o oposto. E alguns deles participam neste cortejo. Mas nessa altura tudo é posto, é limpo. Tudo é dito e se vocês lerem alguns deles, vão perceber isso.
Também têm alguns dos segredos aqui?
Não, temos uma recolha da maior parte dos testamentos que nos foi possível recolher. Estão aqui uns escritos à máquina, outros escritos à mão e que têm os versos de uns e de outros sobre um e outro com nomes, mas que depois tudo acalma.
Ao mesmo tempo que é lido o defeito da pessoa em questão, é distribuída a parte do corpo de um burro. Portanto, eles têm que conseguir associar este defeito ou este segredo à parte do corpo do burro, uma pata ou o rabo.
Um segredo amoroso seria um coração de um burro, por exemplo?
Depende do ponto de vista.
Por exemplo, uma traição pode ser o elemento masculino do burro. O elemento masculino ou feminino.
Sim. As orelhas.
Pode ser várias coisas. As orelhas de alguém que-
Que é muito cusca, por exemplo.
Por exemplo, tem essas relações.
E é obrigatório haver essa parte do corpo do burro distribuída quando contam?
É sempre distribuída, sim.
Ok, então não podem ser assim tantos segredos quanto isso.
Eles arranjam sempre maneira, têm uma imaginação. Até porque este testamento é conhecido como os testamentos do compadre e da comadre, mas também o testamento do burro e da burra. Portanto, tem que ter esta distribuição das partes do corpo do burro.
No final, tudo é queimado, o burro, tudo isso, no sentido de purificação e de reiniciação de um novo processo. E o fogo também está sempre presente, que é uma coisa já muito ancestral. Desde sempre foi utilizado e sempre foi associado a essa renovação e a esse começar de novo. E é este o Winter do Lazarim.