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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
Preciso de ajuda, Paulo.
Diz lá.
Ajuda-me. Afinal, Jorge Pinto vai mesmo a votos nas presidenciais?
Ora bem, parece que sim, pelo menos pelas últimas informações de ontem. O próprio tratou de clarificar isso ontem, durante a tarde, depois de ter dito no debate à onze, na RTP, na noite anterior, que não seria por ele que António José Seguro não seria eleito presidente.
Onde é que já ouvimos uma coisa parecida?
Parecida, não é? Adivinhava-se aqui, depois desta frase, a disposição do candidato para desistir, não dividindo assim por tantos candidatos os votos da esquerda. Mas não. Ou o candidato disse que não queria, ou se expressou mal, ou ouvimos todos mal. Jorge Pinto vai então ficar, disse-o ontem, mas ainda assim sobra uma dúvida: como é que ele pode garantir então que não será por ele, se mantiver na corrida, que Seguro não fica pelo caminho? É que isto está tudo muito renhido, as sondagens apontam para aí, e não é impossível que Seguro fique a uma distância inferior à votação de Jorge Pinto. Ou seja, que os votos de Jorge Pinto, se fossem contabilizados em Seguro.
E se fossem direitinhos para os outros candidatos.
E que se fossem direitinhos todos lá, aqui muitos ses, obviamente, que ditassem a passagem de Seguro à segunda volta, por exemplo. A política pode ter aqui várias versões para a mesma história, mas a aritmética não pode ter duas versões.
Então e o almirante começou a disparar para todos os lados?
Não para todos os lados, só para dois, mas a disparar muito. Acho que lhe tomou o gosto e depois de ver que a técnica de ataque vigoroso resultou contra Marques Mendes, Gouveia e Melo também começou a disparar contra António José Seguro, porque é aí, no centrão, que está o ouro, pelo menos parece que Gouveia e Melo acredita nisso. E perante a queda nas sondagens, era óbvio que o almirante tinha de fazer alguma coisa, tinha de alterar a estratégia, porque a alternativa era ficar a ver o jogo da bancada, ver os outros a jogar. E fez alguma coisa. O único debate que lhe correu mesmo muito bem foi o último, contra Marques Mendes, e a partir daí, Gouveia e Melo parece que encontrou o seu rumo. Não olha muito para André Ventura, não perde tempo com o Cotrim, porque os votos estão no eleitorado do PSD e do PS, um eleitorado que ainda não parece muito convencido com os candidatos dos partidos, ainda que António José Seguro pareça estar finalmente a convencer os eleitores do PS. Esta versão renovada do almirante, em luta aberta contra o sistema ou contra os candidatos que ele diz representarem o sistema, ainda pode trazer muitas surpresas durante esta campanha.
Ainda temos muita campanha aí pela frente. Entretanto, parece que há alguma coisa que não falha no serviço de saúde.
Vamos descobrir que falha tudo e que falta tudo também. Faltam profissionais nos hospitais, já sabemos, e por isso as urgências vão funcionando em sistema de rotatividade. Faltam médicos de família nos centros de saúde e por isso há mais de um milhão e meio de pessoas que não têm médico de saúde. E o último caso, esta última polémica que envolve o INEM, o caso do homem que morreu depois de ter esperado três horas por socorro no Seixal, na margem sul, na zona de Lisboa, mostra que falta muito mais. Por exemplo, faltam ambulâncias para acorrer a todas as chamadas e faltam macas nos hospitais. E por faltarem macas nos hospitais, estes têm que reter as macas das ambulâncias onde chegam os doentes para que estes lá fiquem. E isto impede obviamente que as ambulâncias depois fiquem operacionais imediatamente para ocorrer a outras emergências e muitas vezes esperam horas à porta das urgências dos hospitais só para que lhes seja devolvida a maca. No meio disto tudo, só não têm faltado duas coisas no Serviço Nacional de Saúde: reforços no orçamento, que duplicou em cerca de uma década, e a nossa paciência para aguentar isto tudo.
Por falar em paciência, é desta que vamos ter aeroporto?
É desta, não falha. Se havia dúvidas, o ministro das infraestruturas tratou de as desfazer com um aviso muito sério à ANA, concessionária do aeroporto, e numa visita às obras do Aeroporto Humberto Delgado, Miguel Pinto Luz não podia ter sido mais claro: acabou o tempo dos sucessivos adiamentos, agora é que é. E eu pergunto-me: onde é que nós já ouvimos coisas parecidas? Temos ouvido muito nos últimos 50 anos.
O é desta.
É desta. Agora é que é. O ministro espera que as obras que estão a decorrer não criem a ilusão de que o novo aeroporto afinal não faz assim tanta falta, não é assim tão importante, e mostrou-se muito confiante na conclusão das obras muito rapidamente daqui a 12 anos. Nós sabemos que isto nunca é de um dia para o outro, mas com tanta energia ministerial, até pensávamos que o aeroporto estaria pronto, sei lá, daqui a uns 10 anos. Mas para que tanta pressa? Afinal, já esperamos tanto tempo, mais dois ou três anos.
Qual é a pressa?
Vai acontecer. Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.