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Por que Maria Madalena tem tão má reputação? Este é o 11º episódio da segunda temporada de "As Histórias da Bíblia", o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.
Eu sou Daniel Nascimento, padre e professor na Universidade Católica Portuguesa.
Eu sou João Basto, padre e colunista do Observador.
Esta semana falamos sobre uma das personagens mais famosas do Novo Testamento, mas também uma das mais incompreendidas de toda a Bíblia: Maria Madalena. Aparece nos quatro Evangelhos como uma das mulheres mais presentes na vida pública de Jesus. De acordo com o Evangelho de João, foi a primeira pessoa a ver Jesus depois de ressuscitar e foi ela quem anunciou a ressurreição aos outros discípulos, o que lhe valeu o título de Apóstola dos Apóstolos. Mas é também uma personagem no centro de inúmeras teorias da conspiração. Até os dias de hoje, persiste o mito de que Maria Madalena era uma prostituta arrependida, e muitos veem nisto uma tentativa da Igreja de menorizar a importância teológica desta mulher. O Código da Vinci popularizou a teoria de que Madalena teria sido a namorada ou a mulher de Jesus Cristo, e que os dois teriam tido uma descendência ocultada ao longo dos séculos pela Igreja. E a famosa legenda áurea conta a história de como Maria Madalena teria viajado para a França depois da morte de Jesus, onde viria a morrer. Uma lenda medieval de difícil comprovação histórica. O que sabemos, afinal, sobre uma das personagens mais fascinantes do Novo Testamento? Estas são as histórias da Bíblia. Olá a todos. Como sempre, antes de irmos para o tema do nosso episódio, quero lembrar que os nossos ouvintes podem enviar perguntas, comentários e sugestões para o nosso e-mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt. E nós estamos aqui todas as quintas-feiras para um episódio extra de cerca de 10 minutos, em que respondemos a uma pergunta enviada pelos nossos ouvintes para este nosso e-mail. Vou repetir: ashistoriasdabiblia@observador.pt. Também podem deixar comentários no YouTube ou nas plataformas de podcast. Esse episódio especial das quintas-feiras fica disponível apenas em podcast, não passa na Rádio Observador e, portanto, já sabe, para ter a certeza que não perde nenhum episódio, é uma questão de clicar em "seguir o programa" para receber uma notificação sempre que sair um novo episódio. Pode fazê-lo em qualquer plataforma em que ouça o nosso podcast. Na próxima quinta-feira, vamos responder a uma pergunta sobre algumas das citações bíblicas mais controversas sobre as mulheres. Pode ouvir a resposta na próxima quinta-feira. Esta semana falamos então, como dizia, de Maria Madalena, essa figura do Novo Testamento que ao longo da história se viu envolvida em inúmeras teorias da conspiração. Daniel, vamos tentar começar pelo princípio. Madalena aparece nos quatro Evangelhos, mas em Mateus, Marcos e João, segundo estive a ler, só nos aparece pelo nome já no final da história, nos relatos da prisão e da morte de Jesus. Enquanto no Evangelho de Lucas é diferente. O nome dela aparece um bocadinho antes, quando nos é dito que ela é uma das várias mulheres que andavam com Jesus e com os 12 discípulos. Consegue explicar-nos quem era esta personagem?
É interessante, João, que a chamemos por Madalena, porque o nome dela é Maria e esse é um dos fatores que contribui para uma certa confusão, é porque parece que quase todas as mulheres se chamam Maria, há várias Marias. Madalena é Maria de Magdala. Magdala é uma cidadezinha. As escavações arqueológicas feitas no século XX e também XXI foram descobrindo uma certa importância deste lugar ali ao pé do Mar da Galileia. E seria Maria vinda desta terra de Magdala.
É como dizer Maria Lisboeta.
É, mais ou menos isso. E a origem dela será Madalena, designa esse lugar de onde ela terá vindo, muito provavelmente. E é uma personagem importante nos Evangelhos, que aparece nos lugares-chave com outras mulheres a observar Jesus crucificado. É daquelas que vão ao sepulcro, quer de noite, quer depois como testemunhas da ressurreição. Mas é talvez, sobretudo, São Lucas que nos dá mais alguns pormenores. No outro episódio anterior, o João já falava desta ideia de que há vários discípulos de Jesus, há vários círculos concêntricos à volta de Jesus. Ou seja, há estes 12, os apóstolos, que seguem mais de perto, depois há outros grupos, há vários outros tipos de grupos que vão seguindo mais ou menos de perto, mais ou menos vezes. E é São Lucas que nos diz que Maria Madalena, Maria de Magdala, é uma destas que acompanhava, não sabemos com que frequência, mas que faria parte deste entourage de discípulos que, para utilizar uma expressão de Lucas, que acompanhavam e serviam com os seus bens. E podemos imaginar esta mulher, que aconteceu algo de especial. Lucas diz-nos que foi libertada de sete demônios, que era alguém que acompanhava e ajudava a manter também do ponto de vista logístico, alimentar, não sabemos exatamente no quê, mas que estava ali a acompanhar e a ajudar.
João, o Daniel estava justamente a dizer isto, que a dada altura o texto do Evangelho nos conta que Jesus tinha expulsado sete demônios de Maria Madalena, ou que esta mulher tinha sido liberta de sete demônios. O que isto quer exatamente dizer?
O texto de Lucas e depois também um bocadinho de Marcos falam disso. Os sete demónios aqui prestaram-se a vários equívocos, até porque em Lucas 7 há uma outra mulher que se apresenta arrependida, daí às vezes a colagem de Maria Madalena em Lucas 8 para Lucas 7, ou essa tal mulher mais vista como uma mulher prostituta.
Já vamos a essa associação.
Já vamos a essa associação, mas aqui sete não tem a ver tanto com pecados, os demónios também não, necessariamente. Claro que nós, quando temos sete demónios, dado que na Idade Média se estabeleceu que existiam sete pecados mortais, há aqui uma espécie de colagem na exegese aos sete pecados mortais e aos sete demónios. Há também depois a ideia dos sete demónios serem associados à ideia da luxúria, da prostituição, mas são coisas diferentes. Ou seja, demónio está no mundo antigo mais ligado à ideia de doença física e até psíquica, e o número sete tem a ver, já falámos isso algumas vezes, da numerologia ser muito importante na Bíblia, com a ideia de totalidade. Quando nós dizemos que Maria Madalena foi liberta de sete demónios, que é dizer que Maria Madalena foi totalmente restabelecida daquilo que lhe impedia uma relação justa com Deus, com Jesus, com ela mesma e com os demais. E, portanto, não é propriamente a ideia de uma mulher pérfida que não conseguia ter uma vida moral impecável. Pode estar muito longe disso.
Uma recuperação total.
Exatamente. Ou seja, é uma recuperação total para lá, claramente, desta ideia moral pouco impecável.
Vamos então tentar desmistificar algumas ideias sobre esta personagem. Daniel, em primeiro lugar, a ideia que mais habitualmente surge associada a Maria Madalena é de que era uma mulher de má vida, uma prostituta arrependida, um bocadinho como o João estava aqui a dizer. E também como o João já introduziu, segundo se percebe quando se lê os textos, isso parece ter origem numa certa confusão entre personagens de diferentes momentos do Evangelho. Por exemplo, olhando então para o Evangelho de Lucas, no capítulo 7 temos o famoso episódio em que Jesus vai almoçar à casa de um fariseu e a dada altura estão eles no almoço e aparece uma mulher que é descrita como conhecida naquela cidade como pecadora, o que parece logo induzir aqui um pecado sexual. Essa mulher ajoelha-se aos pés de Jesus, lava-lhe os pés com as lágrimas, enxuga os pés com o cabelo. É um episódio que depois até dá origem a um desentendimento entre o fariseu e Jesus, porque o fariseu revolta-se ali um bocadinho porque acha que Jesus não devia deixar que uma pecadora lhe tocasse. Jesus acaba por perdoar os pecados àquela mulher. Logo a seguir, no parágrafo a seguir, no capítulo 8, é a primeira vez em que o Evangelho de Lucas coloca Maria Madalena como uma das seguidoras de Jesus. Daniel, será que esta sequência de acontecimentos ajuda a explicar a ideia de que Maria Madalena era essa mulher do episódio anterior? Pelo menos, há um famoso sermão do Papa Gregório Magno, ainda no século VI, que confunde estas duas personagens numa só, ou seja, que claramente diz que Maria Madalena era aquela mulher, o que acaba por manchar a reputação de Maria Madalena e até, por exemplo, até fui confirmar isso, até aos anos 60, o Missal antigo, antes da reforma litúrgica, a missa antiga ainda incluía a leitura daquele episódio dessa mulher pecadora no dia de Santa Maria Madalena, portanto, ainda reforçando aqui esta associação.
É interessante. Não sei se foi São Gregório Magno o primeiro a fazê-lo. Quer dizer, é o primeiro que temos notícia, que tem uma série de sermões que faz essa identificação. Talvez houvesse alguma tradição oral, popular, à qual, digamos, um certo olhar um pouco machista, patriarcal, próprio de sociedades antigas, talvez não se seja alheio. O que é facto é que olhando para o texto, não tiramos essa conclusão. Aliás, no Oriente, no cristianismo de língua grega, pelos vistos, não foi feita esta identificação. O que é que acontece no Ocidente? Basicamente, juntam-se três personagens em uma. Maria Madalena, de quem o Evangelho nos diz que é uma mulher que foi, como o João nos explicou, libertada, salva, resgatada, uma doença psíquica, mental, moral, não sabemos bem o quê.
Os tais demónios.
Os tais demónios. E esse texto em que nos apresenta Maria Madalena está imediatamente a seguir, no texto de Lucas, a este texto que dizias, desta unção pré-crucifixão de Jesus, que em São Lucas é feita por esta mulher anônima que é conhecida como pecadora, o que também deixa alguma ambiguidade, não diz necessariamente que era uma prostituta, mas dá-nos a entender um bocadinho isso. Esta tal unção com os cabelos aos pés de Jesus é noutro Evangelho, em João, feita por Maria, não Madalena, mas Maria de Betânia, ou seja, Maria, irmã de Marta e de Lázaro, esta família que conhecemos bem de outros episódios, de quem Jesus era amigo, em casa de quem Jesus se hospedava várias vezes. E, portanto, na tradição ocidental, de certa forma, estas três mulheres são quase fundidas numa. Ainda com um outro episódio. Isso aconteceu certamente na tradição antiga, mas também na tradição moderna. Se formos ver os filmes "A Última Tentação de Cristo", aquele do Mel Gibson, "A Paixão de Cristo", identifica-se ainda um outro texto no capítulo oitavo de São João, em que uma mulher apanhada em flagrante adultério é levada para ser apedrejada. E Jesus, famosamente, diz: "Então quem nunca tiver pecado que atire a última pedra". Esta mulher é salva da morte por Jesus, por claramente adultério.
A famosa mulher adúltera.
A famosa mulher adúltera. Mas a leitura dos textos não nos permite fazer essa identificação. Aliás, pelo contrário, parece-nos que se fosse a mesma personagem, estaria mais claramente identificada.
Mas a verdade é que essa sobreposição de personagens contribuiu pra esta má fama de Maria Madalena. João, de onde é que vem esta ideia de que Maria Madalena era a namorada ou a mulher de Jesus? É só do "Código da Vinci" ou há mais alguma coisa?
Realmente, o "Código Da Vinci" teve um papel importante na difusão recente dessa ideia, se bem que um livro dos anos 80 chamado "Santo Graal, Santo Sangue" faz essa síntese, e também a ideia da "Última Tentação de Cristo", que teve um livro, depois levado ao cinema. Houve aqui uma versão sexualizada da figura de Maria Madalena mais difundida. Ainda assim, há um indício antigo que é um evangelho gnóstico, um texto apócrifo chamado "O Evangelho de Filipe", que tem algumas nuances que às vezes foram talvez levadas ao exagero na sua interpretação. Ou seja, o evangelho, a certa altura, diz que Maria Madalena era companheira de Jesus, dá a entender até, quase literalmente, que ele a amava mais que os outros. E numa zona do manuscrito onde aquilo está muito mal tratado, diz-se que Jesus beijou Maria Madalena e depois há ali uma espécie de lapso, não se consegue perceber muito bem a palavra, e a reconstituição é que Jesus beijou Maria Madalena na boca. Claro que isto dá todo o contexto possível para versões sexualizadas da relação entre Jesus e Maria Madalena. Agora nós também precisamos de ser um bocadinho intelectualmente honestos e dizer que, dado o conhecimento que nós temos das seitas gnósticas, das religiões gnósticas ligadas ao cristianismo, podemos estar aqui mais a falar de uma coisa posterior, ligada àquilo que eram as práticas cultuais, do que propriamente a uma evidência histórica. Ou seja, mesmo o beijo na boca, nas seitas gnósticas, tinha um significado de parceria que nós hoje não associamos, até por causa da questão sexual.
Muito bem, nós já voltamos para a segunda parte de "As Histórias da Bíblia" e vamos tentar compreender o papel que Maria Madalena teve na história de Jesus e o que é que lhe aconteceu depois. É já a seguir a um curto intervalo. Até já. Segunda parte de "As Histórias da Bíblia", com os padres João Basto e Daniel Nascimento. Esta semana estamos a falar sobre Maria Madalena, uma das personagens mais fascinantes do Novo Testamento. Na primeira parte estivemos a olhar para as primeiras referências bíblicas a Maria Madalena, a perceber como é que algumas confusões podem ter alimentado teorias da conspiração sobre esta personagem. E João, estávamos justamente a falar sobre esta ideia.
Da questão do evangelho de Filipe.
Que Madalena era a namorada de Jesus.
Que o beijou na boca, etc. Aquilo que nós podemos acrescentar é: este evangelho de Filipe, como já referimos, é um evangelho gnóstico, e o que nós sabemos das seitas gnósticas era que o objetivo delas era espiritualizar tudo. Claramente os gnósticos tinham uma relação muito perturbada e muito ambígua com tudo o que era sexualidade, afetos, carne, corpo, e por isso é mais ou menos consensual que quando nós estamos aqui a falar de Maria Madalena, companheira de Jesus, e que Maria beijou na boca Jesus e vice-versa, estamos a falar aqui mais de uma parceria espiritual, de uma amiga, de uma companheira espiritual, mais do que propriamente uma amante. É óbvio, no século XXI, já existiu em 2012 também, uma investigadora de Harvard, uma Karen King, que apresentou, até com um bocado apoio da National Geographic, um manuscrito, um papiro, onde Jesus chamava a Maria Madalena "a minha mulher", mas houve um jornalista, Ariel Sabar, que seguiu o rasto de investigação e descobriu que era tudo falsificado por um alemão. Portanto, ops.
E que, portanto, há muita teoria da conspiração em torno dessa ideia.
Sim, há muita tentativa de tentar colar, mas realmente depois a história é um pouco mais complexa.
Deixe-me só fazer mais uma achega. Já falámos em episódios anteriores sobre estes textos apócrifos, dentro dos quais há estes gnósticos e, portanto, esta ideia de algo iniciático, secreto, só pra alguns. E nesse texto de Filipe, neste chamado Evangelho de Filipe, que o João referia, é um texto desta categoria, em que temos que perceber também o código, a linguagem. No fundo, há mais uma contraposição entre Maria Madalena e Pedro sobre a questão da autoridade, de quem tem ali mais autoridade, e mesmo esta questão do beijo, neste código típico, nesta linguagem específica deste tipo de textos, é mais uma ideia de transmissão de conhecimento do que propriamente uma coisa sexualizada.
E é um tipo de texto que depois agrada muito a quem quer livros e filmes.
Na Idade Média isso foi uma das coisas mais
Esotéricas pegaram nisso e depois chegou aos Da Vinci deste mundo.
Daniel, depois daquela primeira aparição de Madalena como seguidora de Jesus, que falamos na primeira parte, os evangelhos são unânimes em apresentar Maria Madalena no final da história. Ela está por ali perto da cruz. E claro, depois o evangelho de João faz uma descrição muito detalhada do momento da ressurreição, da qual Maria Madalena acaba por ser a primeira testemunha. Qual é a importância deste acontecimento e desta personagem no fim da vida de Jesus?
Se formos comparar os vários evangelhos nestas aparições de Jesus ressuscitado, têm todos algumas diferenças, mas têm um esquema relativamente semelhante. O de João é um pouquinho mais diferente porque destaca e dá mais espaço a este encontro com Maria Madalena, que é esta primeira a encontrar Jesus ressuscitado. Percebe-se também aqui uma certa intimidade que os que quiserem olhar pra isso de forma sexualizada encontrarão aí. Isso é algo muito moderno. Mas ainda assim, a intenção do evangelista é mais destacar Maria como um protótipo do discípulo. Termina este relato com esta ideia: "Eu vi o Senhor". Este testemunho de ver o Senhor ressuscitado é uma espécie de refrão que depois tipifica a resposta dos que são testemunhas da ressurreição e se tornam apóstolos, portanto, enviados. E assim, Maria Madalena torna-se esta apóstola dos apóstolos.
É a primeira que aparece por ali. Ainda tem aquela conversa de: "Estou à procura do Jesus, que não o encontro".
Sim, e depois conhece-o e Jesus chama-a por Maria, pelo seu nome, e ela reconhece, identifica-o como mestre, "Rabbuni".
Mas essa ideia do apóstolo, é curioso que Maria Madalena acaba por ser a primeira que depois vai anunciar aos outros. Dá-lhe até uma espécie de autoridade também sobre os outros apóstolos. Queria entrar aqui um pouquinho nesta discussão.
Sim, por esse sentido é um pouquinho subversivo no que toca o papel da mulher, mas São João também aqui e acolá mostra-nos mulheres num papel proeminente. É interessante. Quer a própria Maria, junto à cruz, também com Maria Madalena e outra Maria, junto à cruz. Enquanto os outros evangelistas colocam as mulheres longe, a olhar de longe, estas estão ali. São as que não abandonaram, foram as discípulas mais fiéis.
Podemos dizer que nos evangelhos nada é escrito por acaso, nada acontece por acaso. A decisão de fazer de uma mulher a primeira testemunha de um facto inacreditável, sobretudo num contexto em que a palavra das mulheres não tinha o mesmo valor que a palavra dos homens, foi deliberada.
É deliberada e é possivelmente uma das dimensões mais fortes que nos levam a entender que há aqui um elevado grau de historicidade. No episódio anterior, quando nós falamos de Jesus, falamos de um tipo de argumento, que é o argumento do constrangimento, o critério do constrangimento.
O embaraço.
O embaraço. Ou seja, aquilo que cria embaraço nos discípulos e nas primeiras comunidades, é sinal de que existe aqui alguma dimensão histórica muito forte. Reparemos, no mundo judaico e romano, o testemunho de uma mulher tinha muito pouco ou senão nenhum valor. Tanto assim é, por exemplo, São Paulo, quando enumera as testemunhas da ressurreição, por exemplo, na primeira carta aos Coríntios, no capítulo 15, omite as mulheres por completo. Começa por Pedro, Cefas, e depois os 12, e não há nenhuma referência a Maria Madalena. Ora, se na época se quisesse inventar uma história convincente, jamais escolheria uma mulher como testemunha-chave. E por isso, nós podemos claramente dizer que há aqui algo historicamente enraizado e também teologicamente enraizado, porque Maria Madalena parece fazer aqui uma continuidade entre o caminho para a cruz, a cruz, o sepultamento, a ressurreição. Quem lê esta narrativa parece indicar o seguinte: quem é capaz de reconhecer Jesus, mesmo que haja este mal-entendido, como o Daniel falou, de Jesus tratá-la pelo nome e Maria Madalena tratá-lo por Rabbuni, que é uma expressão mais-
Mestre.
Sim, mas é mais ligada à língua original. O texto parece que tem a necessidade de trocar o grego pela língua original, mostrando que há aqui uma intimidade maior, até linguística. Os nossos ouvintes saberão, os evangelhos estão escritos em grego, mas aqui e acolá aparece no texto grego uma palavra em hebraico, que é esta, Rabbuni, quer dizer, meu mestre.
Portanto, há aqui uma-
E portanto, mostram que é uma palavra que em si ficou preservada aqui na memória e isso tem um certo valor.
Sim, ou seja, há aqui uma ligação à língua original daqueles que claramente poderiam estar mais familiarizados. Agora, voltando ao raciocínio, parece-me que a ideia é: só é capaz de reconhecer a ressurreição, pelo menos em primeiro lugar, quem acompanhou a crucifixão. A ideia de que a ressurreição é uma espécie de vitória contra a cruz está em Maria Madalena claramente desmentida, porque há esta continuidade.
É preciso uma-
É preciso perceber que as coisas estão muito ligadas. Jesus é ressuscitado por crucificado, não é ressuscitado apesar de ter sido crucificado.
E esse lugar preponderante de uma mulher logo no início do cristianismo, de certa maneira, ao longo do tempo, acabou por ser menorizado pela Igreja. Por exemplo, representá-la durante tantos séculos como uma pecadora, uma mulher que era definida pelo seu passado sexual, foi uma forma de relativizar o lugar de Maria Madalena em relação aos apóstolos homens?
O lugar da mulher na Bíblia e dissemos que as coisas são mais ambíguas, mas nós não podemos desmentir. E aqui o Daniel Margarête, a quem já nos socorremos algumas vezes, diz claramente que existiu e existe uma tendência patriarcal e machista de leitura da Bíblia que vive muito confortável com a ideia de que a mulher, desde Eva até Maria Madalena, é a pecadora, é a prostituta, é quem induz o mal ao mundo e que o homem é a pessoa sagaz e perspicaz, que coitado, cai nas garras da mulher, porque ela é o perigo à solta que induz e seduz o homem com os seus cabelos, com os seus cantos e com as suas palavras, e que o homem, coitadinho, que é um bocadinho lerdo, cai em tudo o que as mulheres dizem, mas a culpa é sempre das mulheres. Isso é uma interpretação machista, patriarcal. Acho que já temos alguma adultez suficiente e estudo suficiente para entender que não tem, no cômputo geral da Bíblia, isso não é possível fazer essa transposição.
Mas a verdade é que, como dizia há pouco, a Igreja parece ter demorado muitos séculos a desfazer o equívoco.
Sim, demorou muitos séculos.
Só nos anos 60 é que se deixou de ler aquele texto bíblico.
Em 1960, quando se faz a reforma litúrgica no Vaticano II, é que claramente se passou do texto bíblico da pecadora de Lucas 7 para a ressurreição de Jesus. E só mais recentemente, com o Papa Francisco, é que realmente houve aqui um refundar, se quiséssemos falar assim com linguagem um bocadinho descontextualizada, da figura de Maria Madalena. Em 2016, o Papa Francisco elevou a memória de Maria Madalena à festa. Tem aqui uma linguagem um bocadinho-
O dia de Maria Madalena agora...
Está aqui várias gradações. Nós temos memórias, festas e depois solenidades. E Maria Madalena era uma memória e em 2016, na altura do Jubileu da Misericórdia, o Papa Francisco colocou o dia de Maria Madalena como uma festa. Posteriormente, atribuiu-lhe o título de Apóstola dos Apóstolos, o que se calhar com a nossa ideia de que São Pedro é a figura preponderante, nos pode chocar um bocadinho. Aliás, isto não é um título que o Papa Francisco inventou. Santo Tomás de Aquino, que está longe de ser o teólogo e o filósofo mais heterodoxo do mundo, chamava Maria Madalena a Apóstola dos Apóstolos. Em 2021 é que é separada definitivamente dos irmãos, daquela família de amigos, de Maria de Betânia, de Marta e de Lázaro, e portanto já é vista de forma mais autónoma.
Portanto, realmente foi muito tempo pra se corrigir essa-
Sim, foi muito tempo e agora recentemente foi mais rápido.
Sim, porque a Igreja também vive um bocadinho do contexto de tradição recebida e dizíamos há bocadinho que a dada altura se identificaram, se fez essa conflagração dessas mulheres numa. Essa identificação não é impossível. O texto não diz que esta não é aquela.
Mas também não diz que é.
Não diz que é, a questão é essa. Isso também se faz com outras figuras. Por exemplo, o Tiago, irmão de João, um dos 12, com o Tiago, irmão do Senhor, enfim, há vários Tiagos e também a tradição ocidental também misturou um bocadinho. Depois o Tiago, qual é o Tiago menor e o maior, e depois ainda há outro Tiago no grupo dos 12 e, portanto, às vezes também há alguma confusão. Depois uma análise mais fina dos textos procura: "Ok, se calhar é isto que é mais especificamente bíblico e há outras camadas que porventura são uma tradição posterior, que são mais secundárias".
Sim, talvez aqui seja o grande exemplo daquilo que vimos falando ao longo dos episódios, que é: a Bíblia é um texto que vai sendo relido ao longo da história da humanidade e nós hoje temos um conjunto de ferramentas que nos permitem avançar com um conjunto de hipóteses que não existiam antigamente. Até, por exemplo, a facilidade que nós hoje temos de muitas pessoas lerem a Bíblia, até no seu original grego, e depois a possuírem em casa em traduções. E isto permite-nos, até com os recursos arqueológicos, tecnológicos que nós vamos tendo, já dou aqui um exemplo pra percebermos a vantagem que nós temos hoje. Nós conseguimos chegar não a outras conclusões, mas a outras perspectivas. Dou um exemplo. Antigamente, livros e exegetas contaram as vezes em que aparece a palavra, sei lá, o verbo dizer, numa determinada formulação em grego, no original Novo Testamento. Antigamente, nos anos 70, os coitadinhos tinham que abrir os livros e tinham que andar a contar as palavras todas, tim tim por tim tim. Hoje, isso é tudo muito mais fácil, metemos num software qualquer e aquilo sai na hora. Portanto, acho que temos que ver que aqui há outras perspectivas, há um evoluir da ciência também bíblica, e isso é positivo.
Daniel, um dos textos que depois acabariam por fixar, de certa maneira, essa ideia de que Maria Madalena era essas três mulheres todas em conjunto, foi a famosa Legenda Áurea, aquele livro do monge Tiago de Voragine, que reuniu as histórias de vida de dezenas de santos e, aliás, de onde vêm muitas das tradições que nós hoje ainda conhecemos da vida dos santos mais antigos, e muitas lendas também. Quando escreve a história de Santa Maria Madalena, o autor deste famoso texto menciona todos aqueles episódios, a refeição na casa do fariseu, os irmãos Lázaro e Marta, aquela história do enxugar as lágrimas com os cabelos, etc. Mas eu diria talvez que o mais curioso de tudo é que este livro depois nos conta uma história ou uma lenda do que teria sido a vida de Maria Madalena depois da morte de Jesus, nomeadamente a sua famosa ida num navio sem vela nem timoneiro para França, onde depois acabaria por evangelizar ali a zona de Marselha, aquela região da Provença. Aliás, onde hoje ainda é muito venerada esta figura de Santa Maria Madalena. Isto não passará de uma lenda, certo? Ou será que conseguimos encontrar aqui algum caminho da vida de Maria Madalena depois de Jesus?
Esta Legenda Áurea, pra citar António Guterres, não surge do vácuo. As tradições que depois vão sobre, portanto estas tais tradições
Porventura, poderíamos olhar com uma perspectiva crítica, dizer que não é tudo a mesma coisa. Também esta tradição de leitura que vai crescendo, se quiserem, dá um bocadinho no cravo e na ferradura. Vemos que há uma certa contaminação, de uma perspectiva talvez mais negativa sobre a mulher, isto que o João também vinha dizendo, de identificar Maria como esta pecadora, prostituta, arrependida. Isso é verdade, e a "Legenda Áurea" mostra-nos isso, mas também, de certa forma, identifica com este grupo de apóstolos que a tradição depois vai guardando, conservando destinos de missão. Encontraremos também destes vários apóstolos, de quem não sabemos quase nada do ponto de vista bíblico. Dos 12, basicamente só Pedro e Tiago que o texto nos diz algo. E mesmo assim, de Pedro também nem tanto. Mas todos os outros, depois, terão ido, e é lógico pensarmos que assim foi, para vários sítios, para norte, sul, oriente, ocidente. E neste caso, a tradição conserva-nos este destino de evangelização de Maria Madalena em França. De certa forma, equiparando-a também aos outros apóstolos. É interessante que há uma certa diminuição e um certo machismo, diríamos, no olhar para Maria Madalena, mas também há uma valorização do seu papel missionário, o que parece interessante e de valorizar também.
E há que também reconhecer que estas personagens, como outras, já falámos aqui de Jesus, mas antes falámos de Maria e de José, são personagens que vão crescendo à medida que o texto vai sendo lido. Dou um exemplo, falámos aqui em off desse exemplo ontem. Por exemplo, toda a gente conhece ou já ouviu falar do Sherlock Holmes. O Sherlock Holmes é uma personagem literária de um senhor chamado Sir Arthur Conan Doyle. Nunca nos livros originais o Sherlock Holmes diz ao Watson: "Elementar, meu caro Watson". Isso é uma referência posterior que deriva das séries de televisão, várias foram criadas. Agora, dizer-se que a frase "Elementar, meu caro Watson", por não estar nos livros originais do Arthur Conan Doyle, é uma falsificação, também me parece exagerado, porque realmente a frase "Elementar, meu caro Watson", sintetiza um sentimento que os livros trespassam nos diálogos do Sherlock com o John Watson, esse médico amigo do detetive inglês. E por isso nós às vezes precisamos de respeitar um bocadinho mais as tradições do que tentar, como já falámos com Jesus, vir aqui numa cruzada à espera de encontrar a Maria Madalena pura e o Jesus puro.
Daniel, a Igreja Católica e o cristianismo em geral hoje têm uma perspectiva mais próxima daquilo que terá sido a verdadeira Maria Madalena, ou se calhar ainda haverá muitos cristãos que ainda pensam nela como uma mulher de má vida?
Provavelmente, eu diria que esta última hipótese. Acho que esta contaminação e certa difamação, será talvez a mulher mais difamada da história da humanidade, talvez ainda esteja presente na Igreja, mas tentativas como esta do Papa Francisco de revalorizar, reapreciar a figura de Maria Madalena são importantes. Até também comentávamos em off, até na linguagem popular, isto de chorar que nem uma Madalena, uma Madalena arrependida, também destacam aspetos que não são de todo centrais na figura de Madalena, que de facto nos aparece a chorar no horto, quando Jesus lhe aparece, mas não é esse o aspecto central da sua vida. Portanto, às vezes, a tradição preserva certas coisas que não são centrais, mas ainda assim, valoriza outras que são importantes e por isso acho que devemos também tentar fazer um equilíbrio nesta apreciação nossa da figura de Maria Madalena.
Muito bem, chegamos ao final do 11º episódio da segunda temporada de "As Histórias da Bíblia" e na próxima semana, no último episódio desta temporada, vamos falar sobre o apóstolo Pedro, o homem em quem Jesus confiou a construção de uma igreja, que os católicos lembram atualmente como o primeiro Papa. Já sabem, podem enviar-nos perguntas, comentários e sugestões para ashistoriasdabiblia@observador.pt. Nós estamos aqui todas as quintas-feiras para responder às perguntas num episódio especial em podcast. Até para a semana aqui na Rádio Observador e até quinta-feira em podcast. "As Histórias da Bíblia" é um podcast da Rádio Observador com Daniel Nascimento e João Basto. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Afonso.