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Está na hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta terça-feira com a Helena Matos. Se quiser entrar em direto logo a seguir ao Jornal das 10, só tem que ligar pra nós: 91 002 41 85. Mas também pode deixar a sua mensagem nas redes sociais, no site do Observador, ou então enviar-nos a sua mensagem de voz, o seu áudio, através do WhatsApp pro mesmo número. Luís Soares.

Uma bala perdida que feriu uma turista chamou a atenção para a violência no centro de Lisboa. Nos dias seguintes, houve dois esfaqueamentos, também em Lisboa, e o espancamento de turistas no Porto. São notícias que, de certa forma, vieram colocar em causa a ideia de que Portugal continua a ser um país seguro. E qual é o impacto que a insegurança traz à vida dos cidadãos e também o impacto para o turismo? Helena Matos, bom dia. São mais as perguntas do que as respostas?

Sim, bom dia. As perguntas são muitas, até porque nós temos aqui duas coisas a ter em conta. Uma é que os números, consoante são dispostos, podem dizer tudo aquilo que nós queremos e o seu contrário. Depois, a outra questão é que, para lá dos números, temos de ter em conta a forma como as pessoas olham e se sentem, e também como é vista noutros espaços, isto prende-se sobretudo com o turismo, a questão da insegurança. E eu estou a pensar, por exemplo, quando nós vemos, e nós tivemos até uma polêmica este ano, uma polêmica não, mas quando houve muita falatória à volta disso, quando Luís Neves, ministro da Administração Interna, veio referir que quando nós comparamos os números que temos agora, não tínhamos chegado a esta sequência cronológica complicada de agosto, que isto nada tinha a ver com os números da criminalidade, por exemplo, em Portugal nos anos 80. Isso é absolutamente verdade. Qualquer assalto a uma gasolineira, e penso que este foi um dos exemplos então dado por Luís Neves, podia acabar com a pessoa que estava na gasolineira assassinada. Agora, há duas coisas. Nós hoje também não vivemos como vivíamos nos anos 80, podemos ver os indicadores de saúde, os indicadores de habitação, os indicadores de conforto e o poder de compra, nada tem a ver com esses tempos e, portanto, a segurança também faz parte, como todos os outros indicadores da melhoria de vida. E, por outro lado, aqui em relação à criminalidade e à insegurança, nem tudo muda de igual modo. Ou seja, se nós quando dizemos os números da criminalidade estão a baixar. Sim, basta que baixem os roubos para que se possa dizer que os números da criminalidade estão a baixar, porque os roubos são a parte do leão e, portanto, basta que estes números baixem para que logo possamos dizer que sim, que os números da criminalidade estão a baixar. Depois, podemos também dizer: "bem, mas na criminalidade, aquela que é mais a criminalidade violenta e grave." Sim, está a diminuir, mas há um problema. Eu estou aqui a referir-me aos últimos dados do RASI. A criminalidade geral está a aumentar. E a criminalidade geral é aquela com que o vulgar cidadão, felizmente para ele, se confronta, porque o que todos nós esperamos é nunca nos confrontarmos com a criminalidade violenta e grave. E assim pode acontecer que a criminalidade violenta e grave esteja a baixar, mas que as pessoas sintam mais contato com a criminalidade no seu dia a dia, porque estamos a falar daquela criminalidade geral mais comum, e sim, essa tem estado a aumentar. E depois temos um outro problema sério, que é apesar da descida global da violência grave, nós temos um crime que tem estado a aumentar, que é o crime de violação. E os crimes, isto é uma banalidade dizer isto, os crimes não são todos iguais, como é óbvio, e mesmo dentre os graves, também não são vistos todos como iguais. E o crime de violação, pela sua própria natureza, gera pânico, gera uma sensação de insegurança que dificilmente outro crime consegue, a não ser aqueles que são contra as crianças. Portanto, é importante que percebamos e tenhamos a consciência que estamos num território de percepções. Isso é importante, porque as percepções contam. Aliás, a nossa grande preocupação neste momento, e sobretudo dos agentes econômicos, é que aquele crime ocorrido em Lisboa a 10 de agosto, em que uma senhora de nacionalidade sueca acabou a ser ferida por uma bala perdida num tiroteio no centro de Lisboa, que isso possa vir a começar a mudar a percepção que no estrangeiro existe sobre Portugal como país seguro. E sim, as pessoas escolhem o seu destino de férias, sobretudo se nunca lá estiveram, por percepções, seja da beleza da paisagem, da comida que é agradável, mas eles nunca provaram, e também da segurança. Portanto, a percepção conta mesmo. E a questão é que nós em agosto, isto apenas para dar aqui conta desta cronologia, nós tivemos aqui em agosto um jovem de 22 anos a ser baleado na Amadora, depois tivemos a 10 de agosto o tal tiroteio no centro de Lisboa, resultante de um grupo que se dedicava a algo que temos visto como perfeitamente banal e muitas vezes um dos problemas do crime ou os maiores decorrem desta banalização do que não devia ser banalizado, no caso, a venda de louro prensado como sendo droga. Depois tivemos a 14 de agosto um jovem de 15 anos esfaqueado no interior de um autocarro em Lisboa, num trajeto entre o Oriente e Loures. Ele sofreu um corte no rosto e ficou em estado grave. A 16 de agosto tivemos dois casos, um homem que morreu ao ser esfaqueado no Cais do Sodré e também um jovem que foi baleado por dois encapuzados em Corroios. Eu digo jovem, mas a verdade, e isto é

Quando li a notícia, é como se houvesse alguma coisa que estivesse fora do sítio. Ele foi baleado, foi levado para o hospital. Portanto, ele é baleado em Corroios, no Seixal, foi levado para o hospital e nota, ele foi levado para o Dona Estefânia, que é um hospital, para nós, é o hospital de crianças e de repente está ali aquele que é clinicamente uma criança, mas na verdade, ele está com uma bala alojada no tronco. Portanto, a forma como nós temos estas notícias e como estes factos acontecem, não vamos culpar o mensageiro, não é um caso de censura moderna ou antiga, é a forma como estes dados condicionam a nossa sensação de segurança ou insegurança. A mais, junta-se a isto as notícias que chegam do Porto, aí muito mais associada às questões da noite. Tivemos um segurança baleado numa perna no princípio de agosto, depois incidentes graves com um grupo de turistas que foram espancados. Há também agressões com o copo partido sobre um segurança. Portanto, existe aqui uma sequência de notícias que trazem este assunto à atualidade. Sim, já sei que se perguntar: então, mas Lisboa e Porto ou as áreas metropolitanas de Lisboa e Porto são aquelas onde mais está a crescer a criminalidade? Poderemos dizer que depende de como olharmos. Podemos dizer que se calhar quem está em Beja, Castelo Branco e Portalegre pode queixar-se que a criminalidade tem crescido muito mais do que no resto do país. E note-se como aquilo que acontece nestes distritos acaba por quase não ser notícia. Mas em relação às áreas metropolitanas, por exemplo, de Lisboa e Porto, o que nós verificamos é que enquanto que no resto do país, à exceção de Beja, Castelo Branco e Portalegre, determinado tipo de crimes até estão a baixar, nestas áreas metropolitanas, mesmo quando baixam, e nem todos os crimes baixam, nomeadamente temos o caso das violações, e não acompanho este padrão, mas mesmo quando os crimes baixam, sobretudo na área metropolitana de Lisboa, baixa muito menos do que no resto do país e portanto é deste jogo entre a realidade, os números e a forma como olhamos para eles, que eu espero que hoje consigamos falar no Contracorrente, também muito com a perceção económica.

Isso quer dizer com as perceções também.

Porque a economia é mesmo perceção. E agora, eu penso que ainda me vais dar um minuto para eu te responder.

30 segundos.

30 segundos. Esta é para ti, Luís Soares, e para José Luís Carneiro. Talvez se possa dizer que José Luís Carneiro leu Eça de Queiroz. Eça de Queiroz, que era um homem que falava vários idiomas e foi um distinto diplomata, além de um notabilíssimo escritor, ele dizia: "Um homem só deve falar com impecável segurança e pureza a língua da sua terra. Todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro." Fim de citação.

É uma referência aos mentos de Glória Dias.

Claro que é, minha querida. E a José Luís Carneiro.

Helena, voltamos a falar depois das 10 no Contracorrente.

Voltamos.

Até já.

Até já. Ligue 91 002 41 85 e dê-nos a sua opinião em direto no Contracorrente, depois do jornal das 10. Tem também as nossas redes sociais, o site do Observador e pode sempre enviar-nos a sua mensagem de voz por WhatsApp 91 002 41 85.