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Está no ar o Contracorrente. No programa de hoje não largamos o assunto que tem marcado a atualidade neste final de ano: a crise no interior do governo com a demissão de Pedro Nuno Santos. Onde irá parar este governo, presidente, primeiro-ministro e oposição? Quem responde aos portugueses? Ligue, o número de telefone é o 910 024 185, deixe a sua opinião nas redes sociais ou envie-nos um e-mail para o endereço ouvinte@observador.pt. José Manuel Fernandes, bom dia uma vez mais.
Bom dia.
Queres começar por onde?
Pode ser pelo presidente, que eu acabei de falar. Devo dizer que não nos deu grandes novidades, disse aquilo que nós estávamos à espera que ele dissesse. E eu com franqueza até digo que é normal que ele dissesse isto, porque ontem houve algumas comparações feitas entre o que se está a passar agora e o que se passou com Pedro Santana Lopes. E eu posso comparar as trapalhadas, e desse ponto de vista direi que houve pelo menos tantas trapalhadas do que no tempo de Pedro Santana Lopes. Sim, não houve aquela trapalhada do discurso de tomada de posse, umas coisas assim um bocado mais anedóticas, mas houve bastantes trapalhadas. Agora, a situação política é completamente diferente e é bom se ter ideia dessas diferenças. Primeiro ponto: nós temos eleições, como o presidente lembrou, vai fazer um ano no final do mês que vem. Quem ganhou as eleições foi, de facto, o Partido Socialista com António Costa. Eu dou pouca relevância ao fato de ser uma maioria absoluta de dois partidos, porque havia um acordo entre esses partidos e isso não me parece relevante. Foi um argumento que o presidente usou. É diferente, era uma maioria de dois partidos, acho que isso não é relevante.
PSD e CDS.
PSD e CDS. Agora há um que ele não usou e que eu acho que é relevante para todos os efeitos. Foi a primeira vez em que o primeiro-ministro eleito, eu sei que primeiro-ministro eleito é constitucionalmente errado dizer, mas o primeiro-ministro eleito se tinha ido embora e foi substituído por outra pessoa que ninguém esperava que fosse Pedro Santana Lopes. Quem estava mais por dentro das intrigas do PSD percebeu que ele tinha vindo a ganhar poder.
Só para lembrar, José Manuel, saiu Durão Barroso para a Comissão Europeia.
Exatamente. Durão Barroso saiu para a Comissão Europeia, houve uma grande controvérsia sobre se o presidente devia ou não nomear Pedro Santana Lopes. O Sampaio demorou imenso tempo a decidir, chamou o Conselho de Estado, chamou imensa gente a Belém, andou ali às voltas. Acabou por provocar a demissão de Ferreira Rodrigues como líder do Partido Socialista, mas no fundo cumpriu a Constituição e seguiu aquilo que é a tradição britânica. Aliás, o Sampaio de alguma forma a representa, que é: há uma maioria no Parlamento, essa maioria escolhe o primeiro-ministro, é o que a Constituição prevê. Só que depois o primeiro-ministro fez o que fez e houve aquelas trapalhadas. Portanto, havia uma sessão de fragilidade. Depois havia outra coisa que também não é pouco importante. Não eram apenas haver sondagens a dizer que o governo está melhor ou o governo está pior. Tinha havido umas eleições no verão anterior, eleições ao Parlamento Europeu, valem o que valem, têm sempre a abstenção muito elevada, mas foram as eleições, já agora é bom recordar, em que o Partido Socialista obteve o seu melhor resultado até hoje em termos percentuais. Não em número de votos, mas em termos percentuais, foram essas eleições. E o resultado dos partidos, que até foram coligados, PSD e CDS, foi uma catástrofe. Portanto, havia indicações neste sentido, que de alguma forma recordou hoje Marcelo Rebelo de Sousa, indicações de que havia uma clara alternativa. Portanto, aquilo que é o terror, o pânico de qualquer presidente da República é dissolver a assembleia e depois confrontar-se com uma situação igual. E Marcelo já correu esse risco uma vez, porque poucas pessoas previam a maioria absoluta. Podia ter havido uma mudança de maioria que não ocorreu, que todos sabemos, mas ele podia ter ficado com a situação mais ou menos idêntica. Portanto, um PS em minoria, dependente da geringonça. No entanto, tinha ali uma situação de bloqueio e teve que dissolver. Todas as dissoluções anteriores ou confirmaram o governo em funções. A primeira dissolução todas ainda era com uma Constituição diferente, portanto, eram eleições intercalares, não antecipadas. Isso quer dizer, as legislaturas duravam quatro anos e se houvesse uma eleição pelo meio, o governo que tomava posse só tinha o tempo faltava pro resto da legislatura. E foram as eleições da AD. Depois houve uma nova dissolução quando caiu o Bloco Central e houve a emergência do PRD e um quadro político completamente diferente, também o primeiro governo minoritário na altura de Cavaco Silva. Depois nova dissolução passado dois anos e primeira maioria absoluta de Cavaco Silva. Depois temos uma nova dissolução quando foi o Pântano e muda a maioria para uma maioria que era de centro-esquerda passou para o centro-direita e depois tivemos a nova dissolução em que surge a maioria de José Sócrates. Portanto, os eleitores de alguma forma deram sempre razão aos presidentes quando eles dissolveram o Parlamento e não se dissolvia para voltar ao ponto de partida. E é isso que Marcelo disse hoje. Independentemente tudo aquilo que eu penso que o Marçal tem estado a fazer nos últimos anos e da forma como ele tem exercido a presidência, eu tenho criticado imenso, neste momento concreto, eu acho que ele não tinha outra alternativa.
Zé, posso só contar-te uma coisa? Uma vez a falar com uma pessoa que tinha estado em Belém, em funções daquelas que davam para assistir alguns momentos históricos. Jorge Sampaio terá perguntado exactamente: "E agora, o que é que acontece se o resultado das eleições confirmar der Santana Lopes como vencedor? O que é que acontece?" E alguém terá dito: "Só há uma solução." E ele terá perguntado: "Qual?" Ele disse: "Demissão." E Sampaio terá perguntado: "Demissão?" "Sim, do senhor Presidente."
É esta percepção. Digamos também, a situação de bloqueio era um bocadinho diferente da atual. Era uma situação um bocadinho diferente, a tensão era diferente, aquilo que ele disse hoje: "Não se pode resolver de oito em oito meses, os portugueses não querem experimentalismo, não há alternativa clara." Tudo isso é óbvio. Nós sabemos pelas sondagens que não há alternativa clara neste momento ainda. O PS continua a ser o primeiro partido nas sondagens. Talvez fosse mais difícil renovar a maioria absoluta, mas a situação não ficaria substancialmente diferente. Não há nenhuma indicação nesse sentido. Agora, uma coisa que eu acho que é curiosa, e também é dois, digamos assim, que é aquilo que o primeiro-ministro António Costa diz na entrevista que deu a Francisco Paulo Semão sobre a sua relação com o Presidente da República. Em que está quase sempre em defensiva, quer dizer, cada um ao terreno de cada um, e diz que fizeram um tratado de Tordesilhas. E que esse tratado de Tordesilhas é o presidente trata dos afetos e nós tratamos dos problemas. Dá um bocadinho vontade de rir, porque afetos é uma coisa que também preocupa qualquer político, que gosta de ser popular, e depois tratar verdadeiramente os problemas é uma coisa que António Costa gosta de adiar. Mas é curioso que ele tenha dito que há um tratado de Tordesilhas. Um tratado de Tordesilhas faz-se com situações que não deviam ser naturais. O tratado de Tordesilhas é o que está definido na Constituição. Isso é indicador do tipo de relação que têm os dois. O que nos remete para a segunda parte, que é o que vai acontecer ao governo. Até porque há também um recado nas declarações de Marcelo Rebelo de Sousa, que é, e vou citar mesmo: "É fundamental que 2023 seja um ano bom para os portugueses." Ora, todos sabemos que vai ser um ano complicado. Isso depende de todos nós e muitíssimo do governo. Sendo que ele ontem promulgou o Orçamento de Estado com a nota de que já era um Orçamento de Estado desatualizado, com pressupostos desatualizados. Promulgou, enfim, também não poderia fazer uma coisa diferente, não promulgar seria também derrubar o Parlamento, mas com nota de que há ali pressupostos, e todos sabemos que há, os pressupostos da inflação, os pressupostos do crescimento, os pressupostos do déficit deste ano, tudo aquilo já está desatualizado. Temos uma situação diferente. Ora bem, relativamente ao António Costa, que o líder da oposição tiver sido apanhado por esta crise de férias no México, às vezes acontece. Não está por dentro exatamente do que se está a passar dentro do governo em situações de grande crise. Eu lembro uma vez de uma coisa que até foi Jorge Sampaio que costumava falar disso quando ele era líder da oposição. Ele era líder da oposição quando começou a primeira crise do golfe.
Em 90?
Em 1990.
Agosto de 90.
Agosto de 90. E na altura, ele que, como disse, gosta muito dos exemplos britânicos, de olhar para a democracia do Reino Unido, disse: "O líder da oposição não foi ouvido como devia ter sido." Havia a maioria absoluta de Cavaco Silva na altura. "O líder da oposição não foi ouvido como devia ter sido ouvido. No Reino Unido, mandaram um Falcon buscar o líder da oposição que estava de férias, era agosto também, para ele poder ser ouvido." Enfim, aqui ninguém mandou Falcon nenhum buscar o Montenegro. A única coisa que sabemos da entrevista de hoje é que dão-se relativamente bem, deve ter sido uma relação civilizada com António Costa. Aí julgo que haveria uma grande diferença se o líder fosse Pedro Nuno Santos. Grande diferença. E já se percebeu desde o princípio, até pela história do aeroporto. Mas o mais extraordinário é nós termos descoberto que António Costa também está de férias. Também está de férias, de vez em quando faz um tweet ou outro para percebermos que ele está vivo, mas está algures. Enfim, eu nem sei onde, não sei se a Helena sabe. O Montenegro a gente sabe que está com a família no México.
Sabes, Helena, e não nos queres dizer?
Não, de modo algum.
Aquilo que vale a pena refletir é por que isto foi um ano horrível.
Mas deixa-me só dizer uma coisa. Eu acho que ele achou que tinha encerrado aquela má experiência de entrevista à Visão, tinha dado a entrevista ao Expresso.
E à CMTV. Duas entrevistas consecutivas.
Ficaram congeladas, digamos assim.
Para controlar os danos do que tinha sido aquela entrevista à Visão. E achou que podia ir de férias. Isto é público e notório, não há aqui qualquer registo em confidências. Ele achou que tinha feito um controle de danos, ia de férias, deixava ficar duas entrevistas e nós iríamos estar durante o fim do ano entretidos a comentar aquelas duas entrevistas e, sobretudo, aquilo que o Expresso faz hoje capa, que é que ele estará disponível para um novo mandato. Deve estar tão disponível para ser candidato a um novo mandato com alegria e satisfação, quanto eu certamente para aceitar ir tratar das lâmpadas da Ponte sobre o Tejo, que é uma coisa que me arrepia e eu já sei que o Samuel adora.
Tratar das lâmpadas não, mas subir à torre é uma coisa.
Nada disso.
Subir ao topo do pilar, já fiz uma vez.
Exatamente. Isso é aquele momento em que eu penso que a pessoa simula um assalto, que é apresa e tem o que antes de comer. É claro que nós estaríamos aqui todos entretidos a comentar isso, que António Costa queria estar disponível para ser novamente candidato.
Mas eis que-
Mas eis que estala isto.
Na véspera de Natal.
E ele está fora ou está de férias, e agora estamos assim.
Isso é uma semana depois.
O problema é por que o governo teve um ano horrível? Isso é que vale a pena perguntar. E a razão de ser, e isso acontece. Reparemos, nós já temos sete anos de António Costa, já fez sete anos, 2015 a 2022. Ele já teve várias remodelações, sempre muito arrastadas, sempre com dificuldade, aquilo foi sempre arrancado a ferros. Muitas vezes com os ministros querendo sair, ele sem deixar sair, mas sempre geridas de uma forma politicamente, apesar de tudo, as coisas nunca saíram muito mal. As mudanças foram quase sempre, não estou a dizer que sejam para melhores ministros, mas para ministros que lhe davam menos problemas políticos. Exceto um caso que, ao princípio, não deu muitos problemas políticos, mas depois tornou-se noutro problema, que foi o ministro Cabrita, mas que ao princípio resolvia um problema de uma ministra que estava completamente desgastada. E isto começa logo mal, porque o governo nasce mal. Já comentamos isso muitas vezes. E a questão importante a perceber aqui é por que o governo nasce mal, por que razão é que António Costa tem todas as condições para fazer um governo. Repara, pela primeira vez, era um governo que ia durar quase cinco anos. Há uma disponibilidade de pessoas da sociedade civil para ir pra um governo destes, que é diferente do que aquela ideia. A única pessoa que ele foi buscar foi a Elvira Fortunato, praticamente. Que é aquela ideia: "Isto vai durar, tenho tempo, posso planear a minha vida, não é uma coisa para meio dúzia de meses ou uns anos, ou uma coisa curta. É uma coisa que eu tenho tempo para fazer alguma coisa a sério." Mas ele faz uma coisa na formação desse governo, que agora se começa a tornar cada vez mais evidente, que é ele foi buscar praticamente ninguém de fora do seu círculo. São tudo pessoas do seu círculo que são de alguma forma promovidas, o que mostra que o círculo é um círculo relativamente pequeno, já foi maior do que é hoje, e afasta as pessoas que no Conselho de Ministros aparentemente lhe fariam frente, discordariam, fariam demorar o timing das decisões. Estou a falar em concreto de duas pessoas que queriam ficar e nenhuma delas ficou. Alexandra Leitão e Pedro Siza Vieira, que nós nunca percebemos muito bem porque eles tinham saído na altura, ficou alguma surpresa.
Que têm sido muito críticos nas últimas semanas.
Têm sido muito críticos e percebe-se que há ali qualquer coisa que já vem de trás. Eu não sou mosca, não estive nos Conselhos de Ministros, tenho ideia de que houve muitos Conselhos de Ministros, nomeadamente durante o período da pandemia, em que o tempo da decisão era muito atrasado porque havia muitas discussões e António Costa não é uma pessoa que goste de decidir, gosta que esteja de acordo para sair uma espécie de mediana. Ele não gosta de optar por um lado e pelo outro, isso é muito diferente.
É para ir fazendo, como se costuma dizer.
Para ir fazendo e não para fazer, ao contrário de Pedro Nuno Santos. É evidente que o registo de Pedro Nuno Santos implica riscos, e esses riscos estão à vista, mas ele é muito diferente. Isso é a razão de ser. Até que ponto é que ele já percebeu isto e vai aproveitar este momento para um passe de mágica, digamos assim, como por exemplo sugeria aqui há pouco o Marçal Grilo no Explicador. Atenção, Marçal Grilo já foi membro do governo, é uma pessoa que tem muita experiência e é uma pessoa de há muito tempo, e eu acho que tem uma vantagem em relação a nós todos, que eu aliás não conhecia e que achei muita graça ele confessar essa vantagem, que é Não vê a televisão com o frenesim que muitos de nós vemos, que estão sempre ali a ver as últimas tricas. E, portanto, aproxima-se mais.
Acompanha, mas com distanciamento.
Com distanciamento, sem estar ali a ver a novidade do dia e portanto será mais parecido à mediana dos portugueses. Àquilo que os portugueses não estão sempre a ver qual é a última novidade da política.
Posso interromper-te? Por acaso, até porque tem a ver com o quadro da época, em que nós temos de fazer algumas compras, umas coisas que faltam e pela agitação da minha própria vida doméstica neste período.
13 metros.
Exatamente. E sendo que o mais novo se caracteriza por um Enrique tudo, que nem vos conto. O que acontece? Tenho reparado que as pessoas, nós temos sempre os cafés com as televisões ligadas, os sítios com as televisões ligadas, mas aquilo parece que está para lá e nota-se que as pessoas às vezes parece que ficam paradas a olhar. Há como se de repente houvesse novamente algo, quer dizer, o que está a acontecer? Nós entramos muitas vezes nos restaurantes e aquilo está para lá, a não ser que seja o futebol, claro, e não sei o que, as pessoas ficam a ver o resto das notícias da política. É uma espécie de uma imagem que está para ali e de repente vê-se que as pessoas ficam como se quisessem perceber, interrompem, dão ali uns segundos, um minuto para tentar perceber. Ou seja, é sinal que estão muito preocupadas.
É sinal que estão preocupadas. Eu acho que há aqui um sinal. Eu já uma vez disse, penso eu, que foi aquela entrevista do Bito Emnos, podia ter sido o momento de viragem, que as pessoas de repente começavam a olhar para António Costa de maneira diferente. Eu recordo-me de uma vez, há muitos anos, na altura do famoso buzinão da ponte, quando de repente se percebeu que o vento tinha mudado ou estava a mudar.
Maioria absoluta de Cavaco Silva, 1993.
1992 ou 1993. E nessa altura, uma pessoa de um gabinete de um membro do governo ligou-me pouco antes do buzinão com a seguinte conversa: "Já viste? Podemos aumentar as portagens de 50%" e na altura era de 100 pra 150 escudos. "Podemos aumentar 50% e isto passou, as pessoas aceitam, recebem tudo." Não tinha começado o buzinão ainda, pois primeiro começou o buzinão, depois houve o bloqueio. Depois a partir daí toda a gente sabe. E o que eu quero dizer com isto? Quer dizer que quem está dentro muitas vezes dos governos, dentro da bolha daquele círculo, não percebe que há coisas que vão acumulando e que de repente explodem.
Não acompanham a chamada vox populi.
Não é só a vox populi, é uma perceção que nem se apanha bem nas sondagens, não se apanha bem em lado nenhum, mas vai acontecendo. Isto que a Helena estava a dizer, as pessoas de repente estão ali a olhar mais para aquilo. Todos nós temos grupos de WhatsApp e de repente começaram a circular uma quantidade de memes sobre isto absolutamente rara.
Aliás, o Nogueira Leite, aqui num especial que foi feito, penso que era especial, da "Tempos de Feita", chama a atenção para uma coisa. Na Caixa Geral de Depósitos, saíram pessoas, porque o Paulo Macedo entrou para substituir o António Domingues, tinha havido aqueles problemas todos, e o Paulo Macedo não quis algumas das pessoas da equipa do António Domingues. Eu depois ouvi isto e fui realmente ver. Sim, superiores, mas estamos a falar o dobro daquilo que a Alexandra Reis levou. Estamos a falar na casa do milhão, não é de um meio milhão. E até a indenização, porque a Caixa Geral de Depósitos, tal como a TAP e a RTP, são empresas com participações do Estado, mas não estão ao abrigo do gestor público. Há ali umas diferenças, nomeadamente em termos de vencimento, porque as outras estão ou estavam indexadas ao salário do primeiro-ministro. Não podiam ultrapassar o salário do primeiro-ministro, embora depois aquilo tenha ali um horror, mas um horror que nem vos conto, de ajudas de custo para isto e para aquilo, só não há para respirar. Mas estas, a TAP, a Caixa Geral de Depósitos, os CTT, quando não eram nacionalizados, a RTP, porque são empresas que estão em setores concorrenciais, a sua tabela de vencimentos é diferente e a própria forma do cálculo das indenizações quando saem.
Não, no caso dos administradores da RTP não é. É para alguns funcionários, mas para os administradores não é.
Diz, desculpa.
Os administradores da RTP estão limitados pelo estatuto.
Mas considera-se que há coisas, como estão num campo concorrencial, que são diferentes.
Sim, mas isso podem contratar pessoas por valores que não...
Claro, o evidente, vamos lá, é a TAP e a Caixa Geral de Depósitos. E o valor de indenização que essas duas pessoas tinham era tão grande que eles ainda tentaram que eles ficassem a gerir empresas do grupo da Caixa Geral de Depósitos, para ver, enfim, arranjando uma nova colocação, mas claro que as pessoas preferiram...
Sim, e na altura era outro, o ambiente era outro.
Era outro. Portanto, isto é para dar conta, o ambiente era mesmo outro.
E não houve.
E eles não foram conseguir contratados.
E não foram conseguir contratados por outro lado. Aconteceu uma série de coisas.
Não era uma empresa intervencionada.
Era uma empresa intervencionada que ia receber ajuda. Atenção.
Sim, estava.
Estava numa situação complicada, foi um processo complicado, mas depois houve toda aquela guerra por causa do António Domingues e das condições e tal. E o ambiente era diferente.
Mas o ambiente, o que eu quero dar o exemplo é mesmo esse, é que o ambiente era diferente, porque se quiséssemos pegar, podíamos pegar. Por que o Paulo Macedo não ficou com eles? Como é que é possível que uma equipa que esteve tão pouco tempo agora vá saindo?
Vamos lá pôr tanto dinheiro e eles levam aquilo.
E era a banca, a banca dos milhões. A verdade é que saíram com aquelas indenizações. Agora esta senhora são 500 mil, quer dizer, claro que é imenso.
Não, o vento mudou. Os senhores de Murça também são um sinal disso, porque as pessoas podiam protestar cá atrás, mas outra coisa é protestar cá atrás, outra coisa é protestar lá à frente, como aquilo aconteceu, e aquilo não tem nada a ver, ao contrário do que Marcelo tentou fazer passar, acho que não tem nada a ver com partidos. Aquilo é vox populi mesmo.
Sentiste que o alvorecer era o sistema?
Senti que aquilo pode depois traduzir-se no voto nalguns partidos, mas não é nada que esteja organizado pelos partidos, não é as receções que faziam, por exemplo, ao Passos Coelho, que eram coisas às vezes que se via as velhas amoladas, as coisas desse género, que eram coisas organizadas. Repara, mas claro que foi organizado pelas pessoas que o organizaram.
Mas não é por isso que-
Mas não era partidário, eles eram eleitores e até um deles penso que era militante do PSD na altura.
Sim, curiosamente eram os irmãos Cavaco.
Os irmãos Cavaco. Mas não é por isso que deixam de expressar um sentimento da época.
Eu acho que é preciso perceber isto. Hoje começou-se a falar de uma notícia que tinha passado despercebida e que nesta história é importante, que é uma notícia do Expresso de maio deste ano. Uma notícia quando Alexandra Reis está quase a ir para a NAV, em que se diz, dentro da TAP, fala-se de que ela recebeu uma indemnização escandalosamente grande. Mas nós perguntamos ao Ministério das Infraestruturas e não obtivemos nenhuma resposta. Portanto, os governantes já deviam estar alertados, já deviam ter recebido os sinais de alerta. E eu continuo a dizer, eu não sei se isto já acabou.
O que queres dizer com isso, Emanuel?
Não sei se isto já acabou, porque já se percebeu que há uma parte do Partido Socialista que não está satisfeita por ter sido só Pedro Nuno Santos a vítima, digamos assim. E há respostas que Fernando Medina ainda tem que dar. Às vezes é bom olhar para os jornais populares. O que é que está na capa do Correio da Manhã de hoje? Na capa do Correio da Manhã de hoje está uma fotografia do casal Fernando Medina e Stefanie, dizendo: a mulher de Fernando Medina era diretora jurídica da TAP. Ela estava de baixa e não foi ela que assinou os papéis ou viu os papéis ou deu o amém aos papéis, pelo menos no sentido formal do termo. Eu tenho sempre a seguinte questão: por que Fernando Medina se lembrou da senhora que estava na NAV? Por quê? Quem é que lhe falou nela? Eles nunca se cruzaram na vida.
Posso chamar-te a atenção para um comentário que foi feito ontem pelo António Costa, nosso colega, não primeiro-ministro na CNN. Ele segue estas coisas há muito tempo e tem particular atenção nas áreas da economia, agora através do ECO. E ele chama a atenção para o seguinte: quando começaram a chegar as informações sobre as nomeações, ele diz que ouve ali uma coisa atípica. Vão começando a chegar os nomes e durante duas horas não se sabe quem é que vai para a Secretaria de Estado dos Transportes.
É uma de última hora, toda a gente diz que foi uma nomeação de última hora.
Não se sabe, ele diz que durante duas horas, ele teria até seguido aquela cronologia. Não se sabe, e é estranho, e ao fim de duas horas aparece o nome de Alexandra Reis, o que a ele lhe deu a convicção ou a perceção de que se estaria diante de uma escolha mesmo de última hora, no verdadeiro sentido da palavra. Alguém terá sugerido aquele nome.
Aquele nome. Agora, quem foi esse alguém? É difícil ter sido Pedro Nuno Santos, conhecendo a relação entre os dois.
Pois claro.
Portanto, quem foi esse alguém que deu essa ideia? E até que ponto é que esse alguém que deu essa ideia poderia conhecer ou não conhecer este detalhe. Eu acho que ainda vamos saber mais coisas, ainda vamos provavelmente perceber mais alguns detalhes. Fernando Medina parecia protegido porque nem sequer estava no governo quando tudo isto aconteceu, tudo aconteceu antes, a nomeação para a NAV, a saída da TAP e nomeação para a NAV, mas até pelo próprio facto de haver gente no Partido Socialista que não está nada contente com esta situação, não se sabe o que é que poderá sair ainda de fora. Vamos estar à espera, no fundo, da remodelação. Nessa remodelação vamos perceber se há mais mudanças ou não, não apenas dos ministros que já se percebeu que são fracos. Há um ministro que teve a sorte grande, que ninguém está a falar dele por estes dias, mas que merecia estar a ser bastante mais escrutinado, que é o ministro dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho.
No tempo em que era ministro da Defesa.
Quando era ministro da Defesa, nomeou para uma empresa pública, um alto quadro do Ministério da Defesa, que tinha tomado decisões que ele já tinha considerado suficientemente graves para mandar para a Inspeção-Geral de Finanças e para o Ministério Público. Alguém que hoje em dia está a ser investigado, é arguido sob suspeita de corrupção. E ele já suspeitava disso e faz essa nomeação, que é uma coisa um bocadinho extraordinária. E depois temos que pensar o que é que vai acontecer na Nas pastas de Pedro Nuno Santos, que para todos os efeitos, são pastas emblemáticas do governo. Quando nós vemos aquelas hierarquias dos ministros, ele aparece estava quase no fim, porque aquilo atira alguns ministros quase pro fim. A ministra da Saúde, por exemplo, o ministro da Saúde também aparece quase no fim, porque os outros ministérios têm mais relevância. Mas alguns ministérios estão para cima que ninguém liga nenhum. E alguns estão no fim, que são aqueles que dizem muito às pessoas. E aqui há dossiês muito delicados.
Cada obra, não é? Tem o dossiê das obras, que é o que é visível.
O dossiê das obras é um dossiê que passa uma parte do PRR, embora não seja ele que controla o PRR. É um ministério que tem que descalçar a bota da TAP. Ainda está para muitos assuntos ainda pra tratar. Já falamos de alguns deles ontem, se a Christine continua ou não continua, até que ponto ela se aguenta, mas sobretudo, o que vai acontecer à TAP, privatiza ou não privatiza, é Lufthansa, não é Lufthansa. Estão aqui muitos temas em aberto, complicados, não são fáceis. Alguém me dizia ontem que se mandarem embora a Christine, em princípio devia ser o que podia acontecer, é mais difícil substituir a Christine do que substituir um ministro, porque encontrar alguém para gerir a TAP com competência é seguramente mais difícil do que encontrar um ministro no ponto em que está a companhia. Já se demonstrou isso com o concurso público internacional. Depois, temos a aposta na ferrovia, que é preciso ver exatamente o que vai acontecer. Uma coisa é ter lá um homem que fez disso o seu tema político. Outra coisa é ver quem lhe vai seguir, o que ele possa fazer. Eu acho que há um elefante na sala que é a habitação. A habitação tem sido fracasso atrás de fracasso. Mesmo aquilo onde eles já começaram a construir algumas habitações, está tudo atrasado. Os outros programas, cada vez que se fala de habitação, o governo vem anunciar uma nova geração de políticas. Já o fez, que eu me recorde, pelo menos duas vezes. E depois, do ponto de vista da gestão do governo, nós vamos entrar no mês de janeiro, em que vamos continuar a ter problemas no SNS, eles não vão desaparecer. Vamos ter uma sucessão de greves nos professores.
Há já greves convocadas para dia 3.
Há já greves convocadas para dia 3. Além dos temas do Pedro Nuno Santos, há os temas de política que estão ferventes. Aquilo que espera o nosso primeiro-ministro quando voltar de férias, não é apenas ter um governo novo a tempo de poder ir pra discussão da moção de censura, numa posição já com mais alguma força, porque pra moção de censura, com as pessoas a perguntarem quem é o novo ministro, eu acho que ele deve ter noção que isso é um bocado difícil. Desse ponto de vista, a Elina Silva fez bem. Qualquer moção de censura é sempre pra ser chumbada, num quadro deste gênero, mas do ponto de vista de marcar politicamente a agenda e aumentar a pressão sobre António Costa, sobre o governo, está correto.
Marca pontos na chamada luta política.
Luta política. Vamos ver o que é que sucede, porque vamos ter agora um pequeno intervalo. Vamos ter o nosso presidente da República a cruzar-se com José Sócrates na posse de Lula da Silva, no Brasil. Não sei se vão estar na mesma sala, se não vão estar, mas pagava pra ver.
Vai ser no mínimo curioso.
No mínimo curioso.
Bom, o que falta saber sobre este caso da TAP, o que ele nos diz sobre o atual momento político que vivemos nesta altura no país. É isto que vamos discutir até ao meio-dia com o José Manuel Fernandes, com a Helena Matos e também com os nossos ouvintes. Já temos vários ouvintes inscritos. O número de telefone é o 91 0024 185. Ligue, pode usar este número também para enviar a sua mensagem de voz. Já temos em linha o nosso primeiro convidado, André Azevedo Alves, participante regular, aliás, no Contracorrente, muito atento aos protagonistas da política portuguesa. Bom dia, André Azevedo Alves. Já sabemos tudo sobre este caso TAP ou ainda falta saber mais?
Não, parece-me claramente que ainda falta saber mais. Aliás, essa é uma das razões pelas quais o timing da decisão da demissão de Pedro Nuno Santos me parece mais ter sido determinado pela avaliação política, de oportunidade política do próprio Pedro Nuno Santos e do seu desejo de, neste momento particular, se distanciar do governo e se distanciar de António Costa, do que propriamente pelo que já sabemos do caso até agora, em que, sendo claro que há obviamente também responsabilidades de Pedro Nuno Santos, nem sequer é totalmente claro qual a repartição de responsabilidades com outros membros do governo, desde logo com Fernando Medina, e o que é que o próprio António Costa sabia ou não. Sabemos que António Costa, geralmente nestes casos, a primeira reação é sempre que não sabia de nada e que queria esclarecimentos. Mas parece-me que há coisas por apurar e há tantas coisas por apurar que me parece que a própria demissão de Pedro Nuno Santos deve ter mais uma interpretação política, em sentido mais lato, no seu relacionamento com António Costa e dentro do Partido Socialista, do que propriamente com este caso em particular.
Porque foi no seu ministério, porque o secretário de Estado era dele.
Sim, é verdade, mas se nos recordarmos, por exemplo, do que se passou ainda há poucos meses com o anúncio do novo aeroporto e da autorização pública de Pedro Nuno Santos por António Costa, a mim parece-me que essa seria muito provavelmente uma ocasião mais propensa a Pedro Nuno Santos ter apresentado a sua demissão. Ou seja, apresentou uma decisão Supostamente fruto de uma deliberação longa, de uma ponderação longa, uma decisão estratégica, veio anunciá-la publicamente, foi imediatamente desautorizado pelo primeiro-ministro, teve que vir fazer uma espécie de ato de contrição também pública a contragosto, notoriamente a contragosto, mas continuou em funções. Eu creio que nessa altura continuou em funções porque terá feito uma avaliação política de que, apesar de tudo, seria no seu interesse continuar dentro do governo. Neste momento, sendo claro que obviamente há responsabilidades também de Pedro Nuno Santos, sem dúvida, mas parece-me que aqui terá pesado mais a avaliação de que face ao desgaste e face à evolução do próprio relacionamento de Pedro Nuno Santos dentro do governo e com António Costa e com outras figuras dentro do governo, Pedro Nuno Santos neste momento prefere estar fora a estar dentro. Porque de outra forma eu não consigo perceber que Pedro Nuno Santos saia neste momento e tenha permanecido quando foi publicamente desautorizado sobre a questão do novo aeroporto.
O André dizia há pouco que ainda não sabemos tudo sobre este caso. Parece-lhe que vamos saber tudo sobre o caso TAP ou não há outra forma?
Sim, é possível que venhamos a saber mais, mas também o padrão infelizmente na política portuguesa é que os casos depois tendem a ser substituídos por novos casos e muitas vezes sem que os anteriores fiquem totalmente esclarecidos. Aliás, o José Manuel Fernandes recordava e muito bem a situação do ministro dos Negócios Estrangeiros, que se calhar em alguns aspetos é mais relevante o caso até do que este. Que aqui há mais uma questão relativa ao pagamento da indemnização e ao enquadramento ético relativamente a esse pagamento e à negociação que foi feita. E no caso do atual ministro dos Negócios Estrangeiros, as implicações do caso que o José Manuel Fernandes referiu são até provavelmente mais graves. E esse, por exemplo, é algo que não é discutido. Sabemos também que a agenda mediática tende a ter um espaço de atenção relativamente curto e concentrado. Portanto, geralmente não dá para mais do que uma coisa ao mesmo tempo. E portanto também é possível que este caso, ainda mais depois da demissão de Pedro Nuno Santos, que nós se calhar aqui por algum tempo a atenção se desvie para outro tema sem que este acabe por ficar completamente esclarecido. Agora, parece-me que claramente do ponto de vista político, aqui o principal resultado ou a principal consequência que foi deste caso é a guerra civil no interior do PS, que vinha passando de um estado em que estava latente para estar progressivamente mais explícita e mais aberta, com a demissão de Pedro Nuno Santos, parece-me que fica completamente explícita e muito provavelmente 2023 vai ser um ano bastante agitado, não só do ponto de vista político em geral, mas no interior do próprio Partido Socialista.
Vai afetar a busca da verdade deste caso, essa luta entre os Pedro Nunistas e os Medinistas?
Muito provavelmente. Aliás, eu acho que algo que foi sintomático foram as reações que vimos imediatamente após Pedro Nuno Santos anunciar a sua demissão. Tivemos reações de várias figuras, algumas influentes no Partido Socialista, de apoio imediato a Pedro Nuno Santos. E portanto, de louvar a sua ação, de louvar a sua verticalidade, o que tem implícito uma crítica a outras figuras do governo, inclusivamente a António Costa. Portanto, de alguma forma vitimizando Pedro Nuno Santos e elevando a sua atuação. E portanto, elevando a sua postura que vai ser feita do caso, não só fora do Partido Socialista, mas no interior do próprio Partido Socialista e por pessoas próximas do governo e da área socialista, vai depender muito de como é que se posicionam também nessa luta de fações no interior do próprio PS.
André, daqui a dois dias temos a habitual mensagem de Ano Novo do Presidente da República. Seria importante Marcelo Rebelo de Sousa lembrar o caso na sua mensagem habitual de fim de ano?
Acho que sim, é importante Marcelo Rebelo de Sousa dizer algo sobre esta sucessão de casos.
Já está gravada, não é? Em princípio, já está gravada. Não sabemos é quando é que ele a gravou.
Pois, porque o Marcelo Rebelo de Sousa... exatamente. André?
Sim. Acho que seria importante dizer algo sobre esta sucessão de casos e também sobre quais são os critérios do Presidente da República para exercer os seus poderes neste contexto. Nós sabemos que Marcelo Rebelo de Sousa tem uma preferência grande pela estabilidade. Aliás, creio que foi ontem que Santana Lopes referiu que pelos padrões de Jorge Sampaio, que foram aplicados ao próprio Santana Lopes, provavelmente o governo já teria sido demitido umas três ou quatro vezes. Evidentemente que a situação de Santana Lopes também é um pouco diferente, porque foi alguém que chegou a primeiro-ministro substituindo Durão Barroso. Mas de qualquer forma, voltando a Marcelo, acho que era importante Marcelo dizer algo sobre esta sucessão de casos e, em especial, sobre como é que o Presidente da República se posiciona relativamente ao exercício dos seus poderes e como é que perspetiva a sua própria atuação e o que pode ser o seu próprio contributo para a estabilidade política e para usar a expressão consagrada, o regular funcionamento das instituições. Porque me parece que também Marcelo Rebelo de Sousa, no conjunto desta sucessão de casos, e não me refiro só a este último Embora este último também foi bastante elucidativo disso, porque Marcelo teve umas quatro ou cinco posições em talvez 48 horas. Marcelo também não sai nada bem desta sucessão de casos. Tem tido uma postura que é quase sempre justificativa do governo, por vezes mais justificativa do governo até do que de pessoas da área do Partido Socialista. E depois à medida que as coisas vão se sabendo, o próprio presidente da República acaba por também não ficar bem nas várias fotografias destes casos. E portanto acho que seria importante, mais do que comentar pormenores deste caso ou de outro caso, mas comentar esta sucessão de casos e a postura do próprio presidente da República face à situação política que é marcada por esta sucessão de casos.
Por mais um caso a fechar o ano político. André Azevedo Alves, muito obrigado. Votos de um excelente 2023. Helena Matos, entre uma filhó e votos de boas festas, o que é que na tua opinião falta saber sobre este caso? Há a apurar eventual laxismo, eventual encolher de ombros de outros ministérios?
Em primeiro lugar, parece-me que é grave porque foram transmitidas falsas informações à CMVM. Ou seja, não é indiferente para o montante de indenização que Alexandra Reis levou as razões que são apresentadas para a sua demissão, ou para o seu afastamento da TAP. Essa é uma das coisas. Aí mentiu-se claramente. Depois mentiram os ministros Pedro Nuno Santos e Fernando Medina, porque quando se resolveram fazer de surpresos com o montante da indenização que foi atribuído a Alexandra Reis. É claro que essa indenização pode variar consoante as razões que são apresentadas para a sua demissão, mas ninguém se pode fazer de perplexo nesta matéria. Nós temos uma legislação até relevante, saída também em governos socialistas e não só, sobre o estatuto do gestor público e está lá tudo previsto.
Portanto ninguém, na tua opinião, poderia alegar o desconhecimento da lei.
Ou então temos de estar convictos que convidámos para serem ministros duas crianças que não sabem nada do assunto e que estão a fazer leco todo o dia e não sabem que existe uma coisa chamada lego, ou uma coisa mais básica ainda, sei lá, brincar aos pinipons, por aí, e depois fazem de conta que não sabem. Tudo isto está previsto, aliás, porque tem de estar. Pode discutir-se as interpretações, e é claro que elas são variáveis, e tanto que são variáveis que sabemos que Alexandra Reis se achava com direito ao triplo daquilo que depois efetivamente aceitou. Portanto, haverá ali margem para interpretação. Agora, que os montantes são estes, sim, nós temos o estatuto do gestor público e temos sobretudo uma outra questão, que são as empresas que estão fora desse universo do gestor público. Portanto, da próxima vez que nos vierem falar da reprivatização dos CTT, pensem que os CTT são exatamente uma das empresas que quando estava no universo Estado, estava fora deste estatuto. Por quê? Porque se considera que há algumas empresas, o caso da Caixa Geral de Depósitos, da TAP, da RTP, e também à época dos CTT, e depois uma empresa na área da defesa que se chamava EMPORDEF e que hoje já está integrada dentro de outra, que por estar em áreas onde existe concorrência, têm de ter um estatuto diferente ou reger-se de forma diferente. E aqui chegamos àquilo que efetivamente me interessa. Quando começou aquela doideira do não nos tapem os olhos, ou lá como é que era. Em que, de repente, nós tínhamos de ter a TAP, e a TAP era nossa, e a TAP era estratégica. Quer dizer, neste momento não temos nem a TAP estratégica e temos um enorme encargo às costas, porque para se poder ter uma empresa na área da aviação, está-se a concorrer diretamente. E o patrão Estado é muito mau, porque não vigia nada, não controla nada, há as questões políticas e acabamos com a administração da TAP a ganhar mais do que ganhava quando estava lá o acionista privado e a ser certamente muito menos controlada e vigiada nestas áreas procedimentais, porque depois há outras áreas em que o governo acha que sabe de aeronáutica. Mas nestas áreas procedimentais, do que se fosse um acionista privado. Quer dizer, neste momento a Galp, por exemplo, o CEO da Galp, o Andy Brown, vai sair no final deste ano. É um problema da Galp. Quer dizer, as razões que levaram ao afastamento de Andy Brown, calcula-se que seja o fato de ele ter feito um conjunto de considerandos sobre a política energética do governo com o qual ele não estava de acordo. A Galp entendeu que era melhor, se calhar, ter um CEO menos vocal. Certamente que chegaram a um acordo, mas é um problema da Galp com o seu CEO e com os seus acionistas. Agora aqui o problema é que o acionista somos nós, cuja carteira está um pouco depenada, variando na escala, e em alguns está mesmo vazia. Portanto, isto dá um enquadramento que se percebe, e há bocado o Emanuel falava aqui da mudança dos ventos, e claro que há uma mudança dos ventos, porque eu referi aqui o caso da Caixa Geral de Depósitos, cujos administradores, quando saem, tinham levado, não há tanto tempo quanto isso, indeminizações muito superiores à de Alexandra Reis. É certo que eles a seguir não foram convidados pelo Estado para irem gerir uma sociedade financeira qualquer em que houvesse participações do Estado, mas dá um bocado conta daquilo que é este universo. Portanto, aqui não há margem para surpresa.
Portanto, cumpriu-se a lei
Cumprisse a lei. É claro que há sempre margem, por isso é que existem gabinetes de advogados e por isso é que eles são tão ricos. Mas vamos agora ver uma coisa. O que eu acho é que era a Caixa Geral de Depósitos, a TAP, depois temos o caso da RTP, os CTT deixaram de estar na área do Estado. Esperemos que se mantenham por lá no setor privado para todo o sempre, embora haja sempre quem queira reverter essa privatização. E depois temos aqui uma coisa que se chamava EMPORDEF, em 2012, quando foi feita esta legislação sobre os gestores públicos, depois houve atualizações, que é a área da defesa. Nós não sabemos nada sobre o setor empresarial do Estado na área da defesa, ou seja, soubemos que houve um escândalo num hospital. É algo de tão obscuro quanto isto. Esta EMPORDEF, que até esteve para ser extinta várias vezes, de repente percebeu-se que já não estava em extinção, integrou as tais indústrias da defesa. Nós tivemos um ligeiro vislumbre sobre este universo a propósito do escândalo das obras no hospital militar. Percebemos que há nomes, aliás, um dos nomes estava à frente desta EMPORDEF, e depois tem a ver com a questão das indústrias da defesa. E aí está mais ou menos tudo, desde decisões de gestão, alguma transparência, está quase tudo tapado pelo chamado segredo do Estado, porque como é na área da defesa, o rótulo segredo do Estado mais ou menos pode ser usado muito convenientemente. Este é um universo sobre o qual eu creio que teremos de investigar muito mais. Gomes Cravinho, que foi ministro da Defesa, terá certamente muito mais para explicar do que aquilo que só soubemos sobre o hospital militar. E temos que politicamente trazer para a discussão a questão do setor empresarial do Estado. A discussão sobre este setor empresarial presta-se às maiores demagogias. Pensem do charivari vergonhoso que foi feito com os Estaleiros Viana do Castelo. Os Estaleiros Viana do Castelo eram a TAP marítima. Tínhamos sempre o problema dos estaleiros.
É verdade, tens toda a razão. Íamos ficar sem construção naval e Viana do Castelo ia fechar.
Sim.
E aquilo era um buraco que não acabava, em que se metiam todos os anos milhões e nunca saía dali. E de repente é uma empresa de sucesso.
Exato. E estava dentro do tal grupo das empresas na área da defesa. Sempre que se tenta mexer neste universo, onde predominam as tais figuras e as eminências pardas do regime, como as Alexandras Reis, os Albertos Coelhos, toda essa gente que percebemos que tem imenso poder, que aufere salários que são três vezes o do primeiro-ministro, em alguns casos, não em todos. E depois fazem-se aqueles charivaris, até houve um autarca de Viana do Castelo que chegou a fazer uma coisa como se fosse um velório.
Sim, um autarca socialista.
Uma coisa vergonhosa. E há dezenas de empresas destas em que sempre que se tenta mexer, se avança com o interesse público, mas na verdade, nós não temos ali nada de interesse público. Temos o pior do público e do privado, que é um mundo que se rege como se fosse privado, ganha como se fosse privado, às vezes até mais do que se fosse privado, mas não é escrutinado no seu desempenho como se fosse privado. E acabamos, o contribuinte, a pagar a estrutura do como se fosse privado destas empresas e simultaneamente os seus prejuízos, porque são públicos. Sendo que no caso das indústrias da área da defesa, destas empresas, nós nem sequer temos muita real dimensão do que é que está ali, porque há uma enorme falta de informação. A TAP, ao pé daquilo que acontece com o setor empresarial do Estado na área da defesa, é uma empresa de paredes de vidro, sem estar a querer fazer qualquer ironia em comparação com o Partido Comunista. É mesmo muito transparente. Portanto, eu creio que nós temos de passar a discutir o setor empresarial do Estado, porque os portugueses são demasiado pobres para sustentarem esta espécie de universo paralelo, de regras pouco claras do chamado setor empresarial do Estado. Eu aconselho a que vão ao site da Direção Geral do Tesouro, vejam o que é do setor empresarial do Estado. Há coisas assombrosas. Há quanto tempo é que muitas delas não colocam lá informação e o que lá está escrito sobre vencimentos, ajudas de custo, bónus. Portanto, alguém que vem dizer que não sabe. Mas como é que não sabe? Só se tivesse chegado da lua na véspera ou tivesse ido de férias, umas férias muito grandes como o primeiro-ministro, e estivesse há três anos de férias, então não sabia.
Muito bem, vamos ao encontro dos primeiros ouvintes. António Lamas liga-nos do Montijo, é reformado. Bom dia, António.
Muito bom dia a todos os observadores. E antes de entrar nas irritações, quero desejar a vós todos um excelente ano de 2023.
Obrigado.
Com muita saúde, com muita clarividência e com muita coragem para aquilo a que eu chamo, copiando o professor Cavaco Silva, o monstro que aí vem. Então, entrando no tema do programa. Antes disso, só um pequeno parêntesis. A Helena Matos falou há bocado daquele senhor presidente da câmara que andou a fazer um enterro. Esse senhor é secretário de Estado hoje. Não sei qual é a pasta, mas ele é secretário de Estado. O que me é confusão é como é que depois de uma notícia como saiu, esta como todas as outras que levaram às 11 demissões, estão sempre a sair nas notícias, o primeiro-ministro e o presidente da República não falam entre si? Os ministros não falam entre si? Os secretários de Estado não falam entre si, entre os ministros, o primeiro-ministro e o presidente da República? Eu não entendo como isto é possível. Isto só é possível por uma razão. Desculpem-me o termo, que eu vou ser mesmo ordinário. É uma classe política muito reles, muito poucochinha. Já temos 11:15 e há mais gente para falar, eu só vou dar um exemplo que eu conto muitas vezes. A minha mulher foi professora durante toda a vida até se reformar. Por milagres dos deuses, teve uma turma extraordinária num dos anos em que leccionou. Desta turma, e porque temos um ambiente pequeno, o Montijo, conhecemo-nos uns aos outros, as famílias, os pais, os filhos, toda a gente se conhece, essa turma pariu qualquer coisa como muitos alunos cinco e alguns alunos três, quatro. Dos alunos cinco, todos eles saíram e hoje em dia acompanhamos a vida deles, são alguns amigos, são CEOs de algumas companhias internacionais, investigadores, médicos, arquitetos, veterinários, um investigador no estrangeiro, como eu já disse. E do aluno três, quatro, havia lá um que era o pior deles deste grupo, e todos eles entraram em grandes universidades. Todas as universidades, algumas estrangeiras, a fazer PhDs. Este um que saiu entrou para o PSD, queria ser político, entrou para o Partido Socialista, chegou a vereador, chegou a ministro e é hoje em dia deputado europeu. Isto é o retrato da nossa política. Portanto, é aquela brincadeira que eu costumo dizer: o regime está assim como está. A República está como está hoje, venha à quarta e, sobretudo, venha um ano muito feliz para vocês todos.
Obrigado, António. Desejos de bom ano também para si. António Lamas ligava do Montijo, reformado. Vamos até Cascais. Deixa-me só ligar-te o microfone, Helena.
Desculpa, eu esqueci-me. Queria só esclarecer, trata-se do secretário de Estado do Mar, José Maria Costa. Esta informação aqui deixada pelo nosso ouvinte.
Está feito o esclarecimento de Helena Matos sobre a pessoa que falámos há pouco, de que terá organizado até um funeral simbólico em Viana do Castelo.
Era presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo quando houve todo o processo de privatização dos estaleiros de Viana do Castelo, mais uma empresa do sector empresarial do Estado, e que se gerou aquela comoção nacional toda. Foi simulado uma espécie de um velório ou de uma cerimónia fúnebre aos estaleiros de Viana do Castelo, no qual o José Maria Costa se apresentou com um ramo de flores, porque iria ali, como nós vamos a um ato fúnebre. Na verdade, os estaleiros de Viana do Castelo estão bem, recomendam-se. Não sei o que é que o secretário de Estado do Mar, ao que parece, diz que já virou essa página.
Vamos até Cascais, onde liga Manuel Monteiro. Bom dia.
Bom dia. Eu vou tentar ser rápido. Eu todos os dias quando me deito, normalmente sei o dinheiro que tenho e de manhã quando me levanto, às vezes vou ver o dinheiro, uns dias faltam-me €2, outros dias faltam-me cinco, faltam-me 10 e assim sucessivamente. Eu acho que alguém durante a noite vai lá e tira-me algum dinheiro. Eu não sei como é que isso acontece, mas tenho uma suposição que alguém faz contas durante a noite e sabe o que é que calha a cada um dos portugueses e vai lá e entretanto se tira. Tirando esta brincadeira, o que eu acho que acontece, e tenho pena, é que de todo este dinheiro que vem para Portugal, que não haja realmente pessoas capacitadas para o gerir de forma que o país vá avançando com realmente as necessidades que são necessárias para o país. Eu não consigo e nem tenho capacidade para gerir essas coisas, mas também acho que no Governo, e não só neste, mas em outros, há sempre muita gente que está ali exatamente por outras razões, que acontecia naquela célebre série "Yes, Prime Minister", em que os jogos de poder por trás vinham compor as coisas dentro do poder e não em torno do benefício do país. Era só isso que eu queria dizer. Muito obrigado.
Obrigado, Manuel Monteiro, por ter ligado. Motorista de táxi, ligava de Cascais. E o que dirá sobre isto tudo Pedro Carvalho, que é gestor e liga da Amadora. Bom dia, Pedro.
Muito bom dia a todos aí no estúdio e aos ouvintes da Rádio Observador. Eu sou assinante do jornal e da rádio e portanto acho que é de facto um jornal que fazia falta, verdadeiramente independente e que tem uma opinião demarcada dos poderes políticos. Relativamente ao tema hoje em questão, eu tendo a concordar com aquela tese que o PS não estaria preparado para esta maioria absoluta que lhe caiu no colo devido a ter agitado um bocadinho aquele papão do Chega e portanto está à vista os resultados dessa impreparação. Mas gostaria também de aduzir aqui como outro argumento o seguinte: relembramos que no fim da anterior legislatura houve dois anos, praticamente ou mais, de total anormalidade que foi a pandemia. Portanto, se tivéssemos tido uma vida normal ou se a República tivesse seguido o normal curso das coisas, eu penso que a impreparação, a falta de competência, a falta de visão do PS e do Governo já estariam à vista há mais tempo e se calhar não teria tido o resultado que teve nas eleições que lhes deu maioria absoluta. Aliás, o projeto da geringonça estava praticamente esgotado ao fim da primeira legislatura, portanto, na segunda foi um arrastar e depois veio a pandemia que permitiu prolongar este estado de coisas.
Relativamente ao futuro, o presidente já disse que não vai dissolver a assembleia, o que até de certa forma acho natural, uma vez que as legislativas ocorreram há cerca de um ano, mas agora penso que o governo se irá arrastar mais um, dois anos e será derrubado ou por uma crise natural ou por uma crise artificial criada pelo próprio. A dificuldade que o PS vai ter é que nesse momento a oposição já estará bastante mais reorganizada. A oposição tem lideranças recentes, nalguns casos, ou que vão ser eleitas agora brevemente em janeiro, no caso a Iniciativa Liberal. E penso que os portugueses já terão outras alternativas. E penso que o PS poderá perder o poder e teremos um outro governo que eu espero que seja reformista, com visão, que queira fazer dos portugueses verdadeiros cidadãos e não subsidiodependentes, porque o PS o que tem não é um projeto para o país, é um projeto para o próprio PS, que é a permanência no poder, transformando-nos a todos, em vez de cidadãos, em subsidiodependentes, no âmbito daquele Estado extremamente assistencialista e no âmbito daquilo que a Helena Matos ontem muito bem referiu como o apoiadismo. Queria desejar mais uma vez um bom dia a todos e um excelente 2023.
Obrigado, Pedro. Desejos também para si de um ótimo 2023. A nossa próxima convidada é a Raquel Abecasis, colunista do Observador. Participa habitualmente também aqui no Contracorrente para analisar a atualidade política. Raquel, bom dia.
Bom dia.
Bom dia. Parece-lhe que já foi tudo dito sobre este caso? Dá o caso por encerrado ou não?
Não, obviamente. Aliás, como estamos a ouvir neste Contracorrente, o caso não está encerrado. E eu acho que não estará nos próximos tempos, até porque o facto de as coisas terem acontecido nesta altura faz com que elas se prolonguem até aparecer uma solução governativa de substituição, pelo menos destes membros do governo que saem. Depois isto coincide também com a saída do Presidente da República para o Brasil, para a tomada de posse do presidente brasileiro. E eu acho que os primeiros dias de janeiro vão ser ricos ainda em sucedâneos deste caso e ainda em consequências deste caso. E, por outro lado, acho que, como também temos ouvido, as questões não estão todas resolvidas. Já não digo as questões técnicas, mas digo também as questões políticas, porque nós estamos todos aqui a comentar a estratégia da saída do ministro Pedro Nuno Santos, mas a verdade é que se ele não tivesse saído, estaríamos todos a perguntar porque é que ele não saía. E a prova disso é que estamos todos agora a perguntar: e Fernando Medina, o que é que sabia ou não sabia e quais as responsabilidades que teve neste caso, se não em mais nada, pelo menos na escolha deste nome? O que é que faz com que ele vá buscar esta senhora, que aparentemente não conhecia, para o governo, sem qualquer escrutínio, de tal forma que ao fim de 20 e tal dias este caso sucedeu. Portanto, eu acho que nem todas as questões estão resolvidas. Acho que o que seria prudente fazer, e também noto aqui que o Presidente da República, que de facto nunca deixou de ser um analista, percebeu ao longo destes dias muito bem o que se estava a passar. E se nalguns momentos anteriores tem feito várias gafes aqui, eu acho que ele fez as coisas bem e acho que empurrou as consequências dessa situação para aquilo que elas acabaram por ter, pelo menos até agora. E acho que se calhar tem pé aqui, não para fazer aquilo que a oposição, cumprindo o seu papel agora pede, de pedir eleições antecipadas e a moção de censura da Iniciativa Liberal, que me parece que faz todo sentido, etc. Mas acho que é o momento, talvez, de fazer de Presidente da República e fazer aqui um número de chamar o Primeiro-Ministro à belela e pedir-lhe medidas concretas para evitar que este tipo de situações continuem, porque de facto ao fim de nove meses, isto é de uma maioria absoluta, isto é completamente inexplicável.
Parece-lhe, Raquel, que a mensagem de Ano Novo do presidente poderá expressar ou deverá expressar o que Marcelo, na sua opinião, Marcelo Rebelo de Sousa, deve dizer no próximo encontro com o Primeiro-Ministro? Ou pelo menos parte ou o espírito da conversa?
Não sei se vai expressar. Acho que alguns recados vai deixar. É verdade que essa mensagem já estará gravada, mas conhecendo o Presidente da República e a sua capacidade de improviso, imagino que ainda tenha ido a tempo de se calhar fazer algum retoque nessa mensagem de Ano Novo, de forma a que ela reflita a situação atual e a insatisfação que se começa a notar com a situação atual. Portanto, acho que alguns recados haverá. Veremos depois se já vai abrir pistas para aquilo que tencionará fazer no início do ano ou se vamos ter que esperar para perceber exatamente se aqui sim, Marcelo Rebelo de Sousa vai pedir mais responsabilidades a António Costa ou se vai deixar andar o barco a apodrecer durante mais algum tempo.
A Carla Jorge Carvalho noutras edições do Contracorrente tem Feito a mesma pergunta à Raquel, dando ideia de que o primeiro-ministro, expressando aqui uma opinião do José Manuel e também de Helena, que o atual primeiro-ministro está cansado, não estará com o vigor inicial necessário para as funções. Mas eu gostava de lhe perguntar. Sim, Helena.
Até porque Raquel, isso é muito interessante. Raquel, logo veremos se o tempo lhe dá ou não razão.
E se me der razão, eu quero uma retalia da Rádio Observador.
Exatamente. A Raquel tem uma tese desde o princípio, que é pessoal, não sei se transmissível, mas arriscada. Raquel, explica lá.
A minha tese desde o princípio é que esta legislatura não vai chegar ao fim e continuo muito convencida disso. Acho que os factos têm vindo a dar razão. Acho que este não é o momento, obviamente, mas eu diria que se calhar daqui a um ano, um ano e meio, na pior das hipóteses, até à baliza das eleições europeias, eu acho que vai haver aqui um desfecho que vai precipitar o fim desta legislatura, e assim António Costa não vai conseguir ultrapassar Cavaco Silva na longevidade da governação. Acho que também há esse pormenor, que eu acho que é talvez aquele que mais incomoda António Costa e que mais o faz pensar se chega ou não chega ao fim.
Será um péssimo resultado nas eleições europeias a antecipar?
Pois, a política tem sempre imprevistos, como nós temos visto.
Nos últimos oito dias ou nas últimas semanas.
Nos últimos meses, nos últimos anos, enfim, temos visto muita coisa na política nacional. E eu não tenho certeza se isto chegará até às eleições europeias, mas diria que as eleições europeias são uma meta. Agora, depende muito do que é que vai acontecer. E sobretudo, aquilo que eu acho que motiva muito isto é assim: o primeiro-ministro, é a minha tese. Para complementar a minha tese, eu acho que o primeiro-ministro a última coisa que imaginou é que iria ter uma maioria absoluta. Eu cheguei mesmo a achar que ele talvez não quisesse ganhar as eleições. Agora, uma maioria absoluta e quatro meses e meio de governação em cima de sete anos de governação, tenha governado bem ou mal, é um desgaste que está à vista que não é possível gerir a partir de uma determinada altura com uma maioria absoluta, com aquilo que uma maioria absoluta exige, que é uma energia reformista e de transformar o país. Já percebemos que essas ideias não existem e eu acho que o primeiro-ministro agora tem um problema agravadíssimo, tendo em conta que tem quatro anos pela frente. É que ele não tem capacidade de recrutamento de ministros e de secretários de Estado, como temos vindo a ver nos últimos casos, e depois disto será muitíssimo mais difícil que alguém queira integrar um governo de António Costa, não sabendo se daí a um mês ainda tem emprego.
Pois, e é nesse sentido a minha última pergunta, que é: António Costa poderá procurar um vigor adicional numa remodelação integrando, por exemplo, independentes?
Pois, mas só que isso é sempre um presente envenenado, que se envenena ainda muito mais pelo feitio de António Costa, que não gosta de ser contrariado. E a história que temos visto de independentes no governo de António Costa, mesmo os seus melhores amigos, como era o caso de Pedro Siza Vieira, acabaram como acabaram. Nesta altura tão arriscada, ir buscar independentes, tendo o feitio que António Costa tem e sabendo-se que os políticos profissionais acabam sempre por matar os independentes, não é talvez a melhor estratégia. Por outro lado, ir recrutar na madrassa socialista, peço desculpa pela expressão, já vimos o que é que dá. Eu acho que isto é mesmo um caso bicudo e é muito difícil olhar para a frente e perceber que pode haver um futuro diferente.
Raquel, muito obrigado e votos de bom ano.
Obrigada.
Raquel Abecasis.
Eu também, para todos, para o José Manuel, para a Helena e para todos os ouvintes.
Obrigado.
Raquel Abecasis, colunista do Observador, a ajudar-nos a olhar para este caso TAP e também para as repercussões políticas que o mesmo tem tido. Hugo Fonseca, liga-nos do Porto. És gestor comercial, tem 40 anos. Bom dia, Hugo.
Bom dia a todos. Desde já desejar um bom ano para vocês todos e que 2023 seja um ano que vocês deem continuidade a esse fantástico trabalho que têm desempenhado. Relativamente a esta questão, isto já está na tentativa de falar deste governo, mas de forma muito sintética, e eu acho que eu vou apenas expressar. Eu sei que vocês aí não me podem ver dessa maneira, mas eu vou expressar aquilo que eu ouço muitas vezes na circunstância de eu andar muitas vezes na rua e estar em contacto com muita gente. E de facto parece que há uma ideia generalizada que ali lá no Largo do Rato, há um caldo de cultura que roça quase a criminalidade. E eu acho que isto é deveras preocupante. Quando nós vemos um partido político tão grande, num país tão pequeno como o nosso, que tem este caldo de cultura. E eu lamento também estar quase de acordo com esta ideia, porque na verdade, aquilo que tem vindo a acontecer nos últimos anos, mais em particular nos últimos meses, mas no fundo também se recuarmos um pouco ao período em que tivemos José Sócrates à frente do governo. Se nós formos fazer as contas aos mandatos de José Sócrates e agora essa sequência do senhor Costa, o nosso país vai demorar 30 a 40 anos a recuperar destes dois bombos Eu acho que isto é muito triste. E estes senhores só fazem isto porque a culpa é nossa, é dos portugueses, que mostram constantemente desinteresse por isto no que toca a ir a votos. Quando têm que ir lá demonstrar o seu interesse e a sua voz, não vão. Andamos quase com 50% de abstenção, por vezes até mesmo mais de 50%. E este tipo de político não são os políticos bons, porque no PS também há gente boa, como é óbvio, e noutros partidos também. A questão é que este tipo de políticos estão sempre à espera da sua oportunidade para fazer estas engasgonjas todas de milhões. Eles gostam disto, 50%, 45% de abstenção. O povo não quer saber. Eles não querem saber. A gente dá aqui €120 de vez em quando, €240, mesmo que isso determine que nos anos consecutivos seguintes não tenhamos nenhum benefício, nem nenhum aumento, mas agora carteirinha, €120, está bom. E na verdade, o povo português é desinteressado, não quer saber, não mostra interesse. E esta gente que anda no submundo faz isto às claras. Já não tem a vergonha de arranjar uns esquemazinhos mais interessantes, eles fazem isto às claras. Para terminar: a desilusão no senhor Marcelo Rebelo de Sousa. Nós esperamos de um presidente que seja o fiel da balança, mas que nestas horas demonstre que está lá. E o senhor Marcelo Rebelo de Sousa, eu digo isto com muita desilusão, porque eu votei nele duas vezes, e estou completamente desiludido em ver um senhor constantemente a justificar os atos destes senhores, a desculpabilizar os atos destes senhores e depois, quando tem que tomar uma iniciativa, simplesmente desapareceu. Um bom dia para vocês todos e que 2023 nos livre desta gente. Obrigado.
Obrigado, Hugo Fonseca, pelo seu depoimento e pelo seu telefonema no "Contra Corrente". Vamos até ao encontro de Pedro Castro, é consultor em aviação comercial, liga de Lisboa. Bom dia, Pedro.
Bom dia. Bom dia a todos aí no estúdio e também aos ouvintes. Bom ano. Gostaria de dividir a minha intervenção em duas partes, a parte política e a parte material, que é aquela que eu domino, na verdade. A parte política, eu ouço muito falar que Pedro Nuno Santos tem muito poder. Eu diria que esse poder está ligado ao ministério que ele dirigia, que era um ministério cheio de dinheiro e nomeadamente uma companhia cheia de dinheiro. E com dinheiro compra-se muitos favores e tem-se, de facto, muito poder. Eu acho, pessoalmente, de um ponto de vista psicológico, que Pedro Nuno Santos faz parte daqueles políticos que são narcisistas manipuladores e que ao tirar este poder e este dinheiro a que ele tinha acesso, e com o qual ele eventualmente comprava o tal poder que tem e que tinha, que isso acabe de uma vez por todas. Ainda do ponto de vista político, ouvi ali há pouco Raquel Bocasilles dizer: "Vamos ter um governo independente, com independentes." Eu ainda estou naquela fase em que eu gostava que os órgãos que são supostamente independentes, as entidades que são supostamente independentes, sejam limpas de políticos. Aquilo que estava a passar na NAV e que se passa na ANAC, não se fala aqui, por exemplo, que um dos vogais da NAV, do Conselho de Administração, é um ex-chefe de gabinete de Pedro Nuno Santos. Que o regulador, a ANAC, também tem Duarte Lopes da Silva, um ex-secretário de Estado do Ministério das Infraestruturas. E portanto, estas entidades, que são supostamente o contrapoder e têm de ser nas missões que cumprem, que são importantíssimas na aviação comercial, têm de ser neutras, objetivas e até por imposição do regulamento europeu sobre estas entidades, elas não o conseguem ser porque são ocupadas por este tipo de pessoas. E vou dar aqui só um exemplo concreto, que toda a gente vai perceber, que é os slots. Toda a gente já ouviu falar dos slots e da importância que eles têm num aeroporto congestionado como Lisboa.
Os slots são os lugares de estacionamento, digamos assim, no aeroporto.
São as faixas de aterragem e de descolagem. Ou seja, quando uma companhia aérea, qualquer que seja, quer voar para Lisboa, ela não pode simplesmente dizer: "Olha, vou aparecer aí às 11h. Estejam preparados." Há um processo de atribuição que está regulamentado, a lei é geral e abstrata, e depois tem que ser aplicada ao caso concreto. Aliás, isto dava um bom tema de programa, mas só para explicar em breves traços. Existe uma entidade que faz esta atribuição de slots. De acordo com o regulamento europeu, que não foi transposto corretamente para o espaço jurídico português, e que por isso em 2016 e em 2018 Portugal foi levado ao Tribunal de Justiça Europeu por causa disso. Atenção que isto é um passado. Essa entidade que faz a atribuição dos slots é a NAV, desde 2020. Assim decidido por Pedro Nuno Santos, que inclusivamente disse: "Esta é uma entidade objetiva, neutra e que pode fazer essa função de forma independente, como é exigência do próprio regulamento europeu." O que é que ele colocou lá? Alguém da sua confiança no Conselho de Administração E o que é curioso é que os estatutos da NAV indicam que se eventualmente estiver em causa a sua neutralidade, objetividade e independência no exercício das suas funções, a ANAC, que é a entidade reguladora, é que deve dar o tiro de alerta. Ora, o conselho de administração da ANAC, como referi há pouco, também já está dominado por Pedro Nuno Santos. Então, quando se fala em independente, eu gostava é que a César o que é de César. Eu não me importo, acho que é normal, não é o meu desejo, mas que num governo de um partido que ganha estejam lá políticos, é o que é. Agora, nas entidades independentes, neutras, que estão aqui a servir como contrapoder e que são importantíssimas e fundamentais, isto não seja praticado, isto sim é grave. E que isto passe pelo pinos da chuva, porque ninguém sabe muito bem o que a NAV faz, ninguém sabe muito bem o que a ANAC faz.
Não especificamente a NAV, mas as entidades reguladoras já foram tema também aqui no Contracorrente. Também se falou na altura do risco da partidarização dessas mesmas entidades. Pedro Castro, eu peço imensa desculpa de o estar a acelerar, mas temos muitos ouvintes inscritos e gostava de os ouvir. Diga.
Só um último ponto. Se a TAP estivesse cotada numa bolsa em Wall Street, com a admissão de Pedro Nuno Santos, o valor das ações da TAP teria aumentado drasticamente. As pessoas têm que ter noção que em termos de aviação comercial, esse foi provavelmente o pior ministro que nós alguma vez tivemos. E outra questão é: no futuro, a TAP não é infraestrutura. A TAP é um agente económico. Para o próximo ministério. Claro que ninguém quer ter este dossier da TAP no seu ministério, como é óbvio, e por isso é que ficou no Ministério das Infraestruturas. A TAP não é uma infraestrutura. Isto é tão ridículo como dizer que as autoestradas são uma infraestrutura e os autocarros que andam nela também são uma infraestrutura. Não são. São agente económico e portanto a pertencer a algum ministério, a ser tutelado por algum ministério, teria que ser no Ministério da Economia, no limite.
Como esteve em governos anteriores. Obrigado, Pedro Castro.
Como esteve, exatamente.
Obrigado pela sua opinião e também pelas informações que nos prestou sobre o mundo empresarial da aviação comercial, nomeadamente a TAP. João Oliveira liga-nos de Oeiras, é economista. Bom dia, João.
Bom dia. Eu gostava de referir duas questões. A primeira é uma questão estrutural. Vivemos num simulacro de democracia. Nas eleições só são oferecidas duas opções aos portugueses. Uma é o secretário-geral do PS eleito pelos militantes deste partido. A outra é o presidente do PSD eleito também pelos militantes deste partido. São estes os dois únicos candidatos elegíveis, na prática. Já houve uma triagem prévia feita pelos militantes do arco do poder. No dia seguinte à eleição, o partido eleito começa a fazer o contrário do que prometeu durante a campanha eleitoral. É questionável qual é a liberdade de escolha do povo nestas circunstâncias. A questão mais constitucional tem a ver com a situação extraordinária. Temos tido um líder do maior partido da oposição, Rui Rio, cuja maior ambição foi servir o primeiro-ministro. Já passou à história, felizmente, mas é assim que ficará na história. Por outro lado, temos um presidente que já no segundo mandato está num processo de degradação psicológica e que parece que ficará na história também como o presidente beijoqueiro, que tem que dar beijinhos a tudo o que é rato saia que lhe aparece à frente. Tem comportamentos inapropriados, sobretudo para um presidente da República. Hoje no aeroporto disse que não podia acionar a bomba atómica todos os anos. Chama-se a isto retórica. Ele não acionou a bomba atómica nenhum. Parece também já só ter como ambição servir o primeiro-ministro. Está claramente ao serviço da estabilidade do primeiro-ministro no poder. Bom dia e obrigado.
Obrigado, João Oliveira, pelo seu telefonema e pela participação no Contracorrente. Luís Palmeiro é consultor, está agora no ar. Bom dia, Luís.
Muito bom dia. Muito obrigado pela oportunidade. Eu só queria fazer um comentário com duas vertentes. Primeiro, olhando para o modelo do Estado, que não basta ser eficaz, mas tem que ser eficiente. E está provado em quase 50 anos de democracia que a eficiência não é uma palavra que seja prioridade ou seja uma referência para qualquer governo. E estou a falar de qualquer governo que tivemos desde 75. E portanto, a demonstração que este governo ou o resultado deste governo em um ano de governação é o exemplo de que as pessoas que são escolhidas, as pessoas que são indicadas, as pessoas que nos gerem a nossa vida, são incompetentes e são manifestamente desinteressadas do interesse público, têm como objetivo sempre interesses próprios e interesses económicos e interesses vários que não passam pelo interesse público. E portanto continuamos a alimentar e cada vez a bola vai sendo maior. Isto em primeiro lugar. Eu penso que tem que se remodelar o sistema do Estado. O Estado não como empresa, mas com uma vertente empresarial, porque, por exemplo, António Costa, e olhando como administrador de uma grande empresa, já teria sido demitido pelos acionistas em função deste ano de gestão. Segunda vertente É a questão da oposição. Já ouvi dizer aqui em comentários, e mesmo por notáveis comentadores, que a própria oposição não está preparada. Isto é aflitivo e assustador. Quando temos os vários partidos da oposição que manifestamente não são capazes de pronunciar-se e ter uma posição ativa à gravidade do que se está a passar, assusta-me saber que nem de um lado nem do outro poderei ser suportado ou terei a possibilidade de ter uma visão mais positiva do futuro do nosso país. Basta ver, temos dois partidos que sei claramente ao que vêm, a Iniciativa Liberal e o Partido Comunista, tudo o resto eu olho e vejo que são movimentos políticos que estão com estratégias dissimuladas. Inclusivamente, temos um partido que é o one man show, em que o vice, olho pro currículo do mesmo e não sei o que o senhor fez na vida, e neste momento é presidente de uma bancada. Já para não falar do partido do Bloco de Esquerda, que não entendo muito bem a função do Bloco de Esquerda na nossa democracia. Portanto, olhando a estas duas vertentes, o meu comentário é que me deixa terrivelmente assustado por não pensarmos como é que deve ser o modelo de Estado. Eu já ouvi, inclusivamente, sobre sugestões de como poderíamos remediar esta situação que se passou com esta senhora, que não sei se é engenheira, se é arquiteta ou deve ser uma iluminada, tal a forma como ela tem sido tratada e acompanhada, e a forma como ela tem transitado pelos corredores do poder. E isto é demonstrativo de que não queremos ir a lado nenhum ou se queremos, temos que parar e definitivamente pensar o modelo governativo. E como alguém referiu, e pra terminar, quando falaram da série "Yes, Prime Minister", essa série por acaso acho que é elucidativa de como poderia funcionar o Estado. Os quadros intermédios asseguravam a função do Estado enquanto os políticos faziam a política. E isso é um modelo que poderia, é verdade que é uma sátira, mas também tem o seu lado positivo. E finalmente, eu gostava de saber o deputado que eu elejo todas as vezes que vou a uma eleição. Estou farto de estar num sistema político em que se encobrem e que se escudam e que ninguém se justifica e ninguém se responsabiliza. Muito obrigado e bom dia.
Obrigado, Luís Palmeiro, pela sua reflexão no Contracorrente de hoje. Estamos com poucos minutos até ao final do programa. Pedia, portanto, aos próximos ouvintes que acelerassem as suas intervenções. Filipe Pais de Vasconcelos, advogado reformado, Liga de Carcavelos. Bom dia, Filipe.
Bom dia.
Estamos a ouvi-lo.
Estou. Bom dia. Olhe, só uma pequena coisa. Eu hoje de manhã escrevi um comentário no vosso jornal.
Sim.
E eu lembrei-me que esta palhaçada toda que nós temos assistido no PS, lembrei-me muito de um filme que pessoal há muitos anos, que é "La Grande Bouffe", que eram quatro ou cinco javardos que comiam selvaticamente, e eu não consegui ver aquilo ao intervalo sem me borrar. E agora eu estou a ver "La Grande Bouffe" ao vivo e tenho que ver até ao fim o que é uma idiotice. Eu não queria dizer mais nada, que estou com pouco tempo. Tudo de bom. Saudações.
Obrigado. "La Grande Bouffe", filme de 1973 com Marcello Mastroianni. Obrigado por esta referência cinematográfica de Filipe Pais de Vasconcelos. Henrique Pinto é empresário e liga de Lisboa.
É um filme mítico.
Um filme mítico.
Olá, bom dia.
Bom dia, Henrique.
Bom dia a todos. Antes de mais, de iniciar a minha participação no vosso maravilhoso programa Contracorrente, deixe-me desejar a todos vós, à Helena, ao José Manuel Fernandes e a si próprio, e a todos os colaboradores da Rádio Observador, um 23 melhor do que este.
Obrigado em nome de todos.
Com muita saúde, paz, amor e algum dinheirinho no bolso. Vamos então à participação. Olhe, eu estou profundamente triste, mas muito triste com o que está a acontecer neste país. O povo português resignou-se a esta sina. E enfim, resignou-se. "O que é que vamos fazer?" Bem, nós podemos fazer muita coisa. No ato do voto, nós podíamos perfeitamente fazer uma análise de quem concorre às eleições e dizer: "Espera aí, este não." E obviamente que o país está neste marasmo, cada vez mais pobre, suicidiodependente, e não saímos disto. Eu não queria acabar a minha participação desta forma. Eu nasci em Moçambique, sou moçambicano, sou africano, mas já vivo em Portugal desde 1976, não deixando de ir à minha terra quando posso ir. Eu estava convencido que isto se passasse lá na minha terra. Corrupção atrás corrupção. Mas agora chego à conclusão: eles são os autênticos alunos, nós é que somos os professores, porque isto é às descaradas, completamente às descaradas. E depois vejo alguns jornalistas, felizmente não são todos, vai-me perdoar a expressão que eu vou usar, são os autênticos freteiros, como diz o Camilo Lourenço. E valha-nos a nós que nós temos a Rádio Observador. José Manuel Fernandes, o senhor é um homem extraordinário, e a Helena também, e a todos vós Porque este país precisa de um marão, de uma sacudidela, tipo um terramoto. Porque eu estava convencido que isto fosse a terra onde eu nasci. Repare, você veja que o José Sócrates passeia livremente, ninguém faz nada. No país onde eu nasci, o filho do presidente, hoje presidente, Armando Guebuza, está preso. O secretário de Estado ou ministro não sei de quanto, está preso. Há um que está detido na África do Sul. E eu gosto tanto de Portugal, tenho um grande amor por este país. Casei-me aqui, os meus filhos nasceram aqui. Eu amo este país. É um país que tem tudo para dar certo. Tudo. Clima, gastronomia, praias maravilhosas. Pelo amor de Deus, povo português, não se resignem, estejam atentos, façam o trabalho que têm a fazer. Não podemos permitir que estes políticos nos façam o que têm andado a fazer, sobretudo a esquerda.
Para concluir, Henrique.
Vou enviar uma mensagem ao Montenegro: não seja igual ao Rui Rio. Seja mais direto e objetivo. Um abraço para vocês todos, o meu muito obrigado.
Obrigado, Henrique.
Um ano de 2023 fabuloso.
Obrigado, Henrique. Desejos também de um 2023 fabuloso. Temos três minutos, Helena e José Manuel. Falámos pouco aqui da oposição. Pergunta final: falta vigor à oposição? E olhando para o atual panorama político, com esta sucessão de casos e casinhos, Helena, como é que partes para 2023?
Bem, parto como de costume. Cá vamos andando e por cá nós todos bem. Eu acho que aquilo que nós temos aqui é que é muito difícil as oposições afirmarem-se, sobretudo se não forem de esquerda, afirmarem-se por um projeto para a sociedade. Até porque um projeto que não seja de esquerda esbarra de imediato com aquele discurso que nós tivemos sobre a TAP. A TAP é nossa, é de todos nós, os privados vão com lucro. Portanto, sendo difícil afirmar um projeto político alternativo, isso já aconteceu, por exemplo, com Sá Carneiro. O que temos, sobretudo, é, para as oposições, o cavalgar dos casos e dos casinhos, porque são os casos e os casinhos que vão esboroando os governos. Pode dizer-se que o Partido Socialista não perde propriamente eleições, atualmente. O que acontece é que às vezes não as ganha. E talvez uma das derrotas mais difíceis para o Partido Socialista tenha sido exatamente 2015, porque aí, sim, havia algo de diferente, ou podia ter havido algo de projeto político diferente. E daí um bocado aquela diabolização em torno da figura de Passos Coelho, porque as outras figuras que tinham tido projetos políticos tinha sido Sá Carneiro, que estava morto, ainda por cima tinha morrido de forma dramática, portanto estava já naquele panteão político, por assim dizer, e depois Cavaco Silva, que era diabolizado ou não diabolizado, consoante as circunstâncias, mas que já não vinha ao país com projeto político diferente. Agora, aqui os casos e casinhos são de facto fundamentais, porque são eles que permitem este esboroar. Eu continuo na convicção de que aquilo que nós conhecemos de casos e casinhos é muitas vezes alguma coisa que por azar ou infortúnio dos protagonistas vem à frente. Muitas vezes os factos que estão diante dos nossos olhos, nós não lhes ligamos se não vier num invólucro do caso e do casinho. Esta notícia, aliás, sobre as indemnizações de Alexandra Reis, já andava por aí há muito tempo, nomeadamente na secção de economia do Expresso. Portanto, é como se nós precisássemos de repente que houvesse um despertador que tocasse e dissesse: "Isto é um caso e vamos todos atrás disto." E eu digo que em 2023 se olhe com mais atenção para o setor empresarial do Estado, porque isso não é um casinho, é mesmo um caso muito sério.
Certo.
Bem, só duas notas finais muito rápidas. Primeiro que tudo, foi um casinho que fez cair Boris Johnson. E ele caiu por votação dos deputados da sua bancada. Acho que não é preciso dizer mais nada. Obviamente, a oposição estava ao ataque, mas quem o derrubou foram os deputados da sua bancada. Segundo aspecto que eu acho importante: há no comunicado da TAP, só queria chamar a atenção para isto, há no comunicado da TAP feito há dois dias, uma passagem que diz o seguinte: "A TAP e Alexandra Reis submeteram o teor do acordo a um compromisso recíproco de confidencialidade." Portanto, muito poucas pessoas sabiam deste teor, mas ele acabou nos jornais. Quem é que beneficia com o aparecimento daquela notícia? Neste momento, não sei se é o benefício do infrator, não faço ideia, porque não sei se foi um infrator, mas há alguém que está a beneficiar. E esse alguém que está a beneficiar é a presidente da TAP, porque a presidente da TAP não queria uma adversária a controlar a TAP, que era o que ia fazer Alexandra Reis. E, portanto, eu vou acabar como comecei. Ainda há muitas coisas por saber, por conhecer e por perceber tudo o que se passou nos bastidores desta história, que tem aspetos mais complicados do que parece à primeira vista e ainda pode ter mais consequências políticas.
Muito bem. Está assim terminado o último Contracorrente de 2022. Helena e José Manuel Fernandes, bom ano.
Obrigada, igualmente.