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28 para Faro. A esta hora Lisboa está com 17, Porto 18, Faro está com 24. 08h12, já aqui temos o José Manuel Fernandes. Já sentíamos a tua falta, José Manuel. É hora de Contracorrente nas manhãs 360 do Observador. É assim mesmo, acabou agosto, acabaram também as férias do José Manuel Fernandes, que está de regresso com o Contracorrente. Bom dia, José Manuel, bem-vindo. Vamos falar de quê hoje?

Para falar um pouco sobre termos sabido ontem que José Tolentino de Mendonça vai ser nomeado cardeal. Eu não sou crente, mas gosto muito de Tolentino de Mendonça e achei uma excelente notícia, mesmo que não tenha sido, para mim, muito surpreendente.

Não foi muito surpreendente para ti?

Não, não foi, porque Tolentino de Mendonça já era arcebispo e, sobretudo, era bibliotecário do Vaticano, era e é muito próximo do Papa Francisco. Eu diria que estava na calha para ser cardeal. Talvez a única surpresa é ser já. Ele tem só 53 anos. Vai ser o segundo cardeal mais novo. Ontem, entre os vários comentários, houve alguns que sublinhavam o facto de agora Portugal passar a ter três cardeais com direito a voto num eventual conclave para a eleição do Papa. Três papáveis, digamos assim. Eu acho que é verdade e é importante, mas gostava mais de falar um pouco sobre quem é Tolentino de Mendonça e também sobre o papel que a Igreja deve ter no mundo em que vivemos.

E conheces pessoalmente o novo cardeal português?

Conheço e ainda estava capaz de me referir a ele apenas como o padre Tolentino.

Se calhar ele gostava mais até.

Eu acho que é como ele gosta mais de ser tratado, julgo eu. Ainda ontem, quando conheci a notícia, lembrei-me que ainda há nove anos, não foi há muito tempo, em 2010, escrevi um livro que trouxe aqui, em diálogo com Dom Manuel Clemente, que foi prefaciado precisamente por Dom Tolentino. Chamar de Dom Tolentino faz um bocado de impressão. Nessa altura, estava bem longe de imaginar que juntaria num livrinho dois cardeais.

Dois cardeais. Esse livro que tens aqui chama-se "Diálogo em Tempo de Escombros".

Isso mesmo. Repare, 2010 foi antes da troika e foi antes dos populismos, mas já tínhamos a percepção de que vivíamos um tempo de escombros. É interessante e o livro reflete um pouco isso. O importante é que foi uma conversa sobre Portugal, o mundo, a Igreja Católica. E o que eu achei interessante foi, eu ontem estive a reler o que Tolentino de Mendonça escreveu no prefácio. E há algumas ideias que me parecem muito atuais, talvez ainda mais atuais se pensarmos que já é cardeal, ou que vai ser cardeal, e que está no Vaticano. Mais do que isso, está a cuidar da imensa e preciosa biblioteca do Vaticano. Por exemplo, olha esta passagem: "A relação do cristianismo com o espaço público é-lhe genética, pois foi aí que ele primeiro se formulou". E esta outra: "A experiência cristã também é isso, circulação da palavra, cartografia de várias oralidades, escritas e hermenêuticas plurais, discurso, debate. No fundo, o fazer e o refazer de uma conversa infinita". Eu acho isto muito interessante, uma conversa infinita.

E até parece que estava a adivinhar que um dia ia parar à biblioteca do Vaticano.

Eu acho que é isso e é muito mais ainda que isso. A vida de Tolentino de Mendonça não foi fechar-se entre livros, nem foi enterrar-se na doutrina. Eu acho que foi sempre uma vida de muita abertura, foi uma vida de uso da palavra. Ele era, por exemplo, uma coluna nos jornais, lembrei-me disso. Foi de uso da cultura, foi de chegar a mais gente. Foi, sobretudo, penso eu, de dialogar com mais gente. É muito a ideia de que é necessário conversar permanentemente, que era também a ideia que ele defende nesse prefácio. A sua ideia é que o poder da Igreja é muito o poder da palavra. Há aqui uma outra passagem que eu acho interessante, em que ele recorda George Steiner e o que ele escreveu sobre São Paulo, e que é o seguinte: "Poucos homens, em toda a história, acreditaram tanto como ele no poder da palavra". Ora, eu acho que para este poeta, que agora vai ser cardeal, é uma lição que se deveria estender aos cristãos no seu conjunto.

E achas que isso está a acontecer?

Eu acho que não. Acho que não e acho que é isso que é importante e este é que era o meu ponto. A minha posição de partida não é a de um cristão, pois como já disse, não sou crente, não tenho fé. Contudo, sinto que sou fruto da cultura cristã, nasci num país católico e mesmo sendo agnóstico, gostava de ver a Igreja Católica mais presente no espaço público. O tal espaço público, como diz Dom Tolentino, lhe é genético. E nesse livrinho, ele não foge à dificuldade, que é esta dificuldade dos dias de hoje. Como ele refere, e volto a citar: "Hoje em dia houve uma recomposição do lugar público concedido ao religioso em geral e ao cristianismo em particular, e há embaraços e impasses de parte a parte ainda por ajustar". Ora, aquilo que eu acho que esse ajustamento nunca vai acontecer é se persistirmos em dois erros. O primeiro erro, do lado da Igreja, é o erro da tentação de ficar no conforto da concha, que é uma coisa que ele também fala no prefácio, e de evitar as grandes controvérsias culturais. No fundo, de calar-se, ter medo. Fora da Igreja, e esse é o segundo erro, é o erro de excluirmos a legitimidade do religioso, de, e volto a citar Tolentino de Mendonça, caírmos na tentação da parte da cultura de insistir numa privatização obsessiva do religioso, nem se dando conta do paradoxo que é idealizar uma sociedade aberta e, ao mesmo tempo, clandestinizar uma porção fundamental dela. Sinceramente, não sei qual destes dois erros é o mais grave, mas sei que esses dois erros são pão nosso de cada dia.

Contracorrente com José Manuel Fernandes, à conversa com Carla Jorge de Carvalho. Amanhã, nova edição, sempre depois do Jornal das 8, aqui na sua Rádio Observador. 08h19, vamos à bola com o Pedro Sousa.

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