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O Contracorrente hoje arrisca-se a não ser muito contracorrente. Não é assim, José Manuel Fernandes?

Bom dia. Penso que sim, porque vi muito pouca gente defender a nomeação de Rita Rato para diretora do Museu do Aljube. Eu acho que, na verdade, a escolha da antiga deputada comunista é uma daquelas trampolinhadas, para usar um termo popular, que não tem ponta para onde se lhe pegue. O museu, a EGAC, não abriu propriamente um concurso, mas pedia candidatos que fossem licenciados, de preferência, em História Contemporânea. Ora, Rita Rato é licenciada, vá lá, mas é em Ciência Política e Relações Internacionais, o que tem pouco ou nada a ver. O museu também pedia quem tivesse experiência na área dos museus. Ora, Rita Rato não tem nenhuma experiência na área de museus. Pedia experiência na programação e produção de exposições. Outro tiro na água. Em vez de ser um tiro no porta-aviões, é outro tiro na água. Lendo um pouco todos os requisitos, talvez há um que ela cumprisse, que é: sentido de confidencialidade. Acho que no PCP, manter segredos e respeitar a disciplina .

José Manuel, já estás a meter-te com o PCP.

Não tem nada a ver com o PCP, ou melhor, não tem nada a ver com ser militante de um partido. Se a Rita Rato cumprisse o caderno de encargos desenhado para ser diretora do Museu do Aljube, eu acho que não estaria aqui a discutir e que me parece claramente um ato discricionário. Agora, aquilo que sabemos de todo este processo é que ela não obedeceu às regras mínimas, quer dizer, pelo menos seguir aquilo que se pedia. E aquilo que nós sabemos, o que é? Sabemos que concorreram historiadores e que esses historiadores foram liminarmente descartados sem nenhuma explicação razoável. Sabemos que concorreram profissionais com experiência noutros museus e que alguns deles nem sequer tiveram direito a uma entrevista decente. E agora dizem-nos o quê? Dizem-nos que Rita Rato foi a escolhida, não pela sua competência, mas porque apresentou um projeto que, depois quando nos dão os pormenores desse projeto, é duvidoso que ele seja o projeto que o museu necessita, porque é um projeto mais político do que museológico e é um projeto que, sinceramente, eu nem sei bem como é que se enquadra na vocação do museu. Portanto, no fim do dia, aquilo que sobra é a dúvida sobre se pura e simplesmente o que houve foi compadrio.

Mas por que falas em compadrio? Em que sentido?

Eu acho que nesse caso fala-se sobretudo em compadrio político. Quem é que vimos a defender a nomeação de Rita Rato, para além do secretário-geral do PCP, que enfim, dever de ofício, era o que ele tinha que fazer? Vimos a vereadora da Cultura de Lisboa, Catarina Vaz Pinto, uma vereadora eleita pelo PS, portanto, estamos dentro da geringonça. Depois vimos a presidente da Administração do EGAC. Podíamos dizer que era por dever de ofício, mas acontece que a presidente da Administração do EGAC, que é quem gere os equipamentos culturais da Câmara, é Joana Gomes Cardoso. E Joana Gomes Cardoso, por acaso, é filha também de uma importante figura do PS, que é a antiga eurodeputada Ana Gomes. Tudo isto pode ser coincidência. Podem dizer que não houve aqui nenhum favorecimento político, que só contaram os méritos de Rita Rato, mas em política e em coisas públicas, o que parece é. E vou ser sincero, custa-me a acreditar que fosse só isso que contou. E custa-me a acreditar, não é apenas por Rita Rato ser militante do PCP, que por acaso também não é historiadora nem é museóloga. É porque há um outro problema: é que Rita Rato também é alguém que até há bem pouco tempo assumia publicamente que desconhecia alguns episódios mais importantes da história do século XX.

Agora estás a referir-te à entrevista em que ela disse que não sabia o que era o Gulag.

Exatamente. E não é um pormenor. Não é um pormenor, porque ela disse que nunca tinha lido nada sobre o que era o Gulag, que era um tema que não lhe interessava. Mas não só, ela também disse que não sabia sequer que existiam presos políticos na China. E das duas, uma: ou estava a mentir, ou estava a negar a realidade. Eu devo dizer que as duas coisas são possíveis, porque são coisas que nós já vimos muitas vezes, são duas práticas comuns nos comunistas. E devo dizer que mais, nalguns casos, negar a realidade, na forma de funcionar dos comunistas, é uma forma de autodefesa, porque é uma forma de recusar-se a acreditar naquilo que entra pelos olhos dentro. É não querer ver a verdade, é só querer ver a ideologia, porque eles precisam disso pra acreditar naquilo em que acreditam. É quase querer acreditar na mentira, por assim dizer. Por isso é importante saber. Eu, por exemplo, tinha muita curiosidade em saber se nas entrevistas que ela teve na EGAC, lhe perguntaram se entretanto já foi ler alguma coisa sobre o Gulag. Eu gostava muito de saber se, por exemplo, se quiseram saber se ela já sabe alguma coisa sobre os campos de concentração onde agora vivem centenas de milhares de membros da minoria iugur da China, por exemplo. Ou se ela continua a só ler jornais como o "Avant", se não lê outros jornais. Isto não é um detalhe, porque o Museu do Aljube define-se como sendo em prol da liberdade e da democracia. Isto está escrito no site do museu. Portanto, não é aceitável que alguém que justifica regimes ditatoriais possa assumir a direção de um museu que é em prol da liberdade e da democracia.

José Manuel, mas achas assim tão importante o que ela disse nessa entrevista que foi há 10 anos?

Eu acho. Por quê? Porque o PCP não mudou e ela não saiu do PCP. Se o PCP tivesse evoluído, talvez pudéssemos achar que era um detalhe. O PCP é um partido que continua a não ser capaz de condenar a Coreia do Norte. O PCP é um partido que continua a dar uma garrada na ferradura quando se trata de Stalin. O PCP é um partido que ainda agora apoia a repressão em Hong Kong e diz que nós não nos podemos meter nos assuntos internos da China. O que é que Rita Rato diz disso tudo? Fizeram-lhe perguntas? Ou a única coisa que interessa à Rita Rato é a igualdade de género, que ela diz que vai tratar no museu, mas só em Portugal, não nos países do socialismo. Eu acho que tudo isso, sinceramente, são tretas e desculpas.

Mas ela não merece o benefício da dúvida com isso tudo?

Eu acho que o problema aqui não é o benefício da dúvida, e saber se ela consegue ou não até fazer bom trabalho num museu. O problema é o método. Como sempre, o problema é o método quando se trata de questões de política. E neste caso é o companheiro político, ou a suspeita de companheiro político, ou a perceção de que é o companheiro político, a perceção de que há uns donos disso tudo, que tratam de dividir entre eles o que há e que nunca sobra nada para os outros. E este é que é o problema, porque há muitos historiadores, muitos museólogos desempregados e que concorreram e de repente veem alguém passar por cima sem saberem como nem porquê. Acontece que neste momento o mal já está feito e essa é que é a perceção pública. Já se pregou, por assim dizer, mais um prego na credibilidade das instituições públicas, neste caso da Câmara de Lisboa e dos seus dirigentes. Quem manda parece achar que pode fazer tudo, que pode mandar em tudo, que pode empregar os seus amigos, seus compadres políticos por todo lado, tudo a seu prazer. Eu acho que não pode. Ou melhor, eu acho que infelizmente vai podendo, mas isso é para nossa desgraça, porque isso tem custos políticos e, sobretudo, tem custos democráticos cada vez mais pesados.

José Manuel Fernandes e o Contracorrente das manhãs 360, segunda-feira há nova edição, acontece sempre depois do jornal das 08h00.

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