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Pode parecer uma ideia fora do comum, mas na baía da Trafaria há carrinhos de compras a servirem de um refúgio subaquático para cavalos-marinhos. Ouviu bem. Trata-se de uma intervenção de restauro ecológico no Tejo para travar o declínio destas espécies raras. A ação nasce do programa Devolução, criado pela WWF em colaboração com o Lidl Portugal. Após o financiamento da recuperação de áreas no Gerês, foram os próprios clientes e colaboradores da empresa a votar para escolher o Tejo como a nova prioridade de intervenção. O processo de escolha é enquadrado por Vanessa Romeu, diretora de Corporate Affairs do Lidl Portugal.
Numa fase inicial, nós investimos no restauro do Parque Nacional Peneda-Gerês. Foram 30 hectares, que é um trabalho que está a decorrer e irá decorrer durante cinco anos. E para identificarmos uma próxima fase, decidimos pedir ajuda ao público e pedimos ajuda aos nossos colaboradores, que são embaixadores muito importantes destas causas, e também aos nossos clientes, que puderam escolher qual seria a próxima área a ser intervencionada. E, de facto, por grande unanimidade, foi escolhido o estuário do Tejo.
A poucos metros da azáfama urbana, o estuário acolhe duas espécies de cavalos-marinhos em risco. A poluição, a contaminação sonora e a acumulação de resíduos no fundo das águas ameaçam este ecossistema, que é muito frágil. Gonçalo Silva, mergulhador científico e investigador responsável pela intervenção subaquática da Mar Dive, alerta para os perigos existentes.
Há muitas atividades que interferem com os cavalos-marinhos. Desde logo, a pesca de arrasto e as ganchorras que existem, quer dentro do estuário, depois lá fora, mas há muita atividade ilegal de arrasto e de ganchorra, e isso destrói o fundo. E, portanto, desde logo, destruindo o fundo, os cavalos-marinhos não têm locais para se agarrar e para se fixar. Portanto, essa é das principais ameaças. Depois, aqui especificamente na Trafaria, é uma zona com muito lixo. Aqui a zona do Porto de Pesca da Trafaria é uma zona com muito lixo, mas nós não podemos tirar o lixo sem antes criarmos condições para que os cavalos-marinhos se agarrem. E daí ter nascido este projeto, primeiro criamos habitat artificial com carrinhos de supermercado para que depois possamos retirar o lixo. Os carrinhos são devidamente preparados, o plástico é retirado, e são criados pontos de fixação para fixarmos ao fundo e não criarmos problemas a outros habitats e também nas comunidades.
Com a constatação de que estes animais utilizavam estruturas rígidas descartadas para se fixarem, desenhou-se uma solução temporária: nove carrinhos de supermercado recondicionados por serralheiros locais para funcionar como abrigos. O enquadramento desta estratégia é feito por Ângela Morgado, diretora-executiva da WWF Portugal.
Um projeto muito diferente, mais ligado com uma espécie emblemática, que é os cavalos-marinhos, que ocorrem aqui nesta região da Trafaria. É um projeto que liga emocionalmente as pessoas à natureza por uma espécie bandeira, mas é um projeto muito interessante porque instala abrigos, que são as casinhas dos cavalos-marinhos, para percebermos como é que a espécie se comporta e de que números estamos a falar. Esses abrigos são construídos a partir de material que vai pro lixo. No fundo, são carrinhos de supermercado cedidos também pelo Lidl, que é o principal financiador desta iniciativa aqui no estuário do Tejo, na zona da Trafaria, e que transformamos. Portanto, tem este aspecto criativo e também de reutilização.
A responsável executiva da WWF Portugal reforça ainda a filosofia subjacente a este plano de trabalho.
Nós, quando desenhamos esta iniciativa, a nossa ideia era trazer um movimento de pessoas à volta do restauro.
Financiada através da angariação de verbas com a venda de sacos solidários nas lojas, a iniciativa conjunta do Lidl Portugal com a WWF promove também a reutilização de equipamentos no fim da sua vida útil. Vanessa Romeu explica a relação entre este projeto e os compromissos de sustentabilidade.
Este projeto tem um duplo impacto. Tem um impacto efetivamente nos ecossistemas e no ambiente, mas também tem um impacto na sociedade civil. E se há algo que caracteriza todos os projetos que temos estado a fazer de restauro é, de facto, o envolvimento da comunidade. E ninguém faz nada sozinho. Portanto, se nós conseguimos mobilizar a sociedade também para estar mais sensibilizada para isto, eu acho que é um bom resultado.
Mais do que proteger uma espécie, esta intervenção coloca a ciência e as comunidades a trabalhar em conjunto pela recuperação da biodiversidade no Tejo. Uma visão sublinhada por Ângela Morgado.
Para além de restaurar habitats específicos, para além de termos uma dinâmica de trazer um conjunto de entidades para o restauro, nós gostávamos de criar este movimento de que as pessoas entendessem que a natureza é a base de tudo.
Com mergulhos de monitorização e ações de educação ambiental planeados até março de 2028, a iniciativa Devolução prossegue assim no estuário do Tejo, numa aliança entre a WWF Portugal e um parceiro sempre impulsionador, o Lidl Portugal.