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Foi representante especial do Secretário-Geral das Nações Unidas para as operações de paz. A dias de se completarem três anos de guerra na Ucrânia e perante as negociações para pôr fim a este conflito, em que os Estados Unidos tomaram a dianteira, e de que maneira, Vitor Ângelo vai direto ao assunto na tarde política. Muito bem-vindo.

Muito boa tarde. Muito obrigado pelo convite.

Obrigada nós por ter aceitado. Adensa-se nesta altura a tensão entre os presidentes norte-americano e ucraniano. Donald Trump chamou Volodymyr Zelensky de ditador e diz que Vladimir Putin é que tem as cartas na mão. Podemos dizer que esta vantagem do líder russo nas negociações foi dada de bandeja pelos Estados Unidos?

Foi certamente um trunfo importantíssimo dado a Vladimir Putin pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele acaba, aliás, esta tarde, de lhe dar outro trunfo ao dizer que não quer que Zelensky seja convidado para a reunião do G7, que está prevista para o Canadá para junho deste ano, o G7 de 2025. Ora, isso também é, evidentemente, algo que diminui a autoridade, o prestígio e a força do presidente ucraniano. Além de que, evidentemente, ao dizer que Zelensky é um ditador, está pura e simplesmente a repetir uma expressão que tem sido frequentemente utilizada nos círculos que estão à volta de Vladimir Putin. Ou seja, ele quer tirar qualquer tipo de legitimidade a Zelensky para enfraquecer Zelensky em qualquer processo de negociações com Vladimir Putin.

Há alguma maneira de tirar essa força negocial ao Kremlin?

A maneira era, do lado dos Estados Unidos e do lado dos países aliados da Ucrânia, continuarem a reconhecer que se trata de uma agressão ilegal que viola a lei internacional por parte da Rússia e que a Rússia tem que não só obedecer à lei internacional como parar imediatamente esta agressão. Essa era a única maneira de se entrar depois num processo negocial que fizesse sentido e que fosse equilibrado. A maneira como as coisas estão a ser preparadas pelo presidente norte-americano, estão a dar todo o tipo de vantagens ao presidente da Federação Russa e a retirar qualquer tipo de autoridade, qualquer tipo de força à parte europeia e, nomeadamente, ao presidente Zelensky, da Ucrânia, que é o principal interessado e que não pode, de maneira nenhuma, estar ausente das negociações.

Tem havido algum desnorte por parte da União Europeia. Parece que não é uma questão de falar ou não a uma só voz, é uma questão de ter muitos líderes. Será que a estratégia de Emmanuel Macron está a ser acertada ou a União Europeia ficará arredada das negociações pela forma como a administração Trump está a tratar a Europa?

É óbvio que quer Vladimir Putin, quer Donald Trump, não querem que a União Europeia e a Europa em geral entrem no processo de negociações. Eles pensam que estas negociações são uma questão entre as grandes potências, e as grandes potências são a Rússia e os Estados Unidos. A Europa não é vista nem em Moscou, nem em Washington, como uma potência geopolítica, é vista pura e simplesmente como um conjunto de Estados, uns mais fortes, outros mais fracos, mas na realidade, um conjunto de Estados que não constituem uma confederação, que não constituem um país, e que não constituem uma potência e, por isso, não devem participar, na opinião desses dois dirigentes das duas grandes potências, não devem participar no processo negocial. Aliás, é claro, quer do lado americano, quer do lado russo, de que ambos os presidentes detestam profundamente a União Europeia e um dos objetivos políticos de ambos esses dirigentes é acabar com a União Europeia e fraccioná-la o máximo possível.

E é neste contexto de ameaças dos Estados Unidos e da Rússia a que temos aqui também esta ideia de envio de tropas de forças de paz para a Ucrânia e de tropas. O ministro português dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, afastou essa ideia, pelo menos da parte de Portugal, de enviar tropas para território ucraniano. E mesmo entre os líderes que se reuniram em Paris, não há propriamente consensos. Estávamos aqui a falar sobre esta questão da União Europeia falar a várias vozes ou não, mas qual é que é a sua ideia no que toca a este envio de forças de paz e também aqui o papel da ONU nesta matéria?

Eu participei em muitas forças de paz, em muitas discussões no Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre o envio de forças de paz e não vejo, neste momento, qualquer hipótese de se poder enviar para a Ucrânia uma força de paz, seja ela composta por países europeus, seja composta por Estados europeus e não europeus. Para haver uma força de paz é preciso primeiro que haja um cessar-fogo, é preciso depois que haja um plano de paz, que não existe, e enquanto não houver um cessar-fogo e não houver um plano de paz, é impossível enviar forças de paz para a Ucrânia. Nem os ucranianos estariam em condições de aceitar essa presença, mas sobretudo os russos não quereriam, de modo algum, que essa força de paz fosse destacada para a Ucrânia.

Isso quer dizer que esta ideia que tem sido lançada é precipitada. O próprio secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, considerou a possibilidade de se enviarem forças de paz se houver acordo, mas enfim, agora estamos todos a falar sobre isto.

Esta ideia é uma ideia que é, pura e simplesmente, uma ilusão neste momento. Enquanto não houver um acordo de cessar-fogo, como eu disse, e depois um acordo de paz, é impossível enviar uma força de paz, seja ela uma força europeia, seja ela uma força internacional, seja ela aprovada apenas pelos europeus ou aprovada no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Por isso, falar de forças de paz numa altura em que a guerra continua e em que não há nenhuma perspectiva de se chegar a um plano de paz, parece-me não só absolutamente prematuro, mas um erro de quem não percebe como é que funcionam estas coisas e que não sabe que sem um acordo de paz, não há forças de paz.

E qual é que seria o melhor mediador nestas negociações de paz? E até aqui apelando também à sua experiência nesta matéria e tendo em conta que os Estados Unidos já tomaram a dianteira, mas tínhamos, por exemplo, o Catar. Aliás, o Catar, isto é no Meio Oriente, estava aqui a fazer uma confusão, naturalmente. Mas que mediador é que poderia ser aqui o melhor, Victor Angelo?

Neste momento não há nenhum mediador possível.

Desculpe, fiquei nei da...

Não há nenhum mediador possível, tendo em conta que quem poderia fazer a mediação seria ou os Estados Unidos ou uma coligação de países europeus em conjunto com os Estados Unidos. Mas a verdade é que esta coligação de países europeus em conjunto com os Estados Unidos não me parece viável neste momento. E nós na próxima semana teremos a visita a Washington do primeiro-ministro do Reino Unido e do presidente da República Francesa, irão juntos a Washington falar com Donald Trump, mas eu não creio que essa visita dê qualquer tipo de resultado. E, por outro lado, é bem claro, eu creio que não há dúvidas neste momento, que Donald Trump está inteiramente do lado do Vladimir Putin e por isso não pode, de modo algum, servir de mediador, porque lhe falta uma coisa fundamental, que é o equilíbrio entre as partes, ou seja, tem uma posição favorável a uma das partes, quando deveria ter uma posição neutra e uma posição que permitisse fazer a mediação. E não a tem.

Estamos a ver, de alguma forma, um voltar atrás no tempo, porque podemos agora voltar a ter um Reino Unido com papel chave neste equilíbrio de poderes, como aconteceu no passado, porque de alguma forma se perde este aliado tão charneira como foi no último século os Estados Unidos.

Sim, o Reino Unido é um aliado importante e era importante que o Reino Unido trabalhasse em conjunto com as forças da União Europeia e é nesse sentido que parece que as coisas estão a evoluir. Para além do Reino Unido, é evidente que apesar de todas as críticas que se possam fazer ao presidente francês Emmanuel Macron, Emmanuel Macron tem tentado nas últimas semanas encontrar uma solução e encontrar um ponto de encontro, digamos assim, entre os diferentes países europeus e o Reino Unido.

E fez bem em tomar esta dianteira?

Como?

Fez bem em tomar esta dianteira?

Alguém deveria tomá-la. Na realidade, deveria ter sido ao nível de Bruxelas, deveria ter sido o presidente do Conselho Europeu a tomá-la, mas a verdade é que o presidente do Conselho Europeu e mesmo a presidente da Comissão Europeia não têm, neste momento, força suficiente para tomar esse tipo de iniciativas e o único chefe de Estado que parecia estar em condições, embora enfraquecido, mas estar em condições de tomar esse tipo de iniciativa, parecia ser o presidente francês. Mas é muito difícil e eu penso que ele não vai conseguir o resultadoResultados que espera, porque nós estamos numa situação completamente nova. Há uma semana, por exemplo, nas margens da Conferência de Munique, da Conferência sobre a Segurança em Munique, os ministros dos Negócios Estrangeiros do G7, incluindo os Estados Unidos, criticaram abertamente a agressão russa contra a Ucrânia. Hoje, dia 20 de fevereiro, esses mesmos ministros, uma semana depois, estão reunidos no Canadá a preparar a reunião do G7 e o ministro dos Negócios Estrangeiros norte-americano disse que no comunicado que viesse a sair da reunião do G7 não se podia falar de agressão russa. Ou seja, em uma semana, a posição dos Estados Unidos mudou bastante e nós estamos perante uma situação que é extremamente confusa, que é completamente incompreensível e que certamente não facilita a unidade dos países ocidentais. Antes pelo contrário, nós estamos rapidamente a caminhar para uma fratura ao nível do mundo ocidental.

Na sequência do que está a dizer, Victor Angelo, terá de vir uma mudança também em termos institucionais para a Europa ser um bloco com uma só voz e uma voz efetiva. Até estava há pouco a dizer que o presidente do Conselho Europeu é que deveria ter tomado a dianteira. Temos demasiadas pessoas a mandar, digamos assim?

Temos demasiadas pessoas com receio, sobretudo com receio do presidente norte-americano. E a partir do momento em que se receia o líder de uma das potências mundiais, é impossível tomar iniciativas e a única coisa que se faz é pequenas reuniões e praticamente manter o silêncio. É isso que nós estamos a assistir ao nível, nomeadamente, das instituições europeias. As instituições europeias estão bastante preocupadas com as tomadas de posição do presidente Donald Trump, mas, por outro lado, não tomam qualquer tipo de iniciativa.

Mas esta ida de António Costa e Ursula von der Leyen a Kiev na segunda-feira, dia 24, em que se assinalam os três anos de guerra, pode de algum modo resultar numa posição de força e que ajude a União Europeia a recuperar a centralidade que deveria ter neste processo? Ou será só mais uma dessas pequenas iniciativas?

É mais uma pequena iniciativa. Na realidade, Donald Trump, nomeadamente, e não só Donald Trump, Vladimir Putin, mas Donald Trump não reconhece a autoridade, não reconhece a força, não reconhece o papel geopolítico da União Europeia. E quando quer falar com alguém da União Europeia, fala provavelmente com o primeiro-ministro da Itália ou falará provavelmente com o futuro chanceler alemão. Poderá falar, mas não se sabe exatamente se o fará, com o presidente francês, e fora da União Europeia, mas na Europa, falará com o primeiro-ministro do Reino Unido. Mas falar com Ursula von der Leyen ou falar com António Costa sobre questões geopolíticas globais, eu não penso que ele reconheça qualquer tipo de autoridade, quer a von der Leyen, quer a Costa.

Neste momento, estamos a olhar para aquilo que pode ser uma Guerra Fria século XXI, riscos crescentes de um poder reforçado da Rússia, de um Estados Unidos alienado dos europeus?

Eu não chamaria a isso uma Guerra Fria, chamaria a uma divisão do globo em zonas de influência. A zona de influência americana, a zona de influência chinesa e depois o resto do globo com os pequenos países, que uma vez se irão submeter aos Estados Unidos, outras vezes irão submeter-se à China ou à Rússia. Mas na realidade, estamos a falar de três grandes zonas de influência e é nesse sentido que estamos a caminhar. E é também nesse sentido que estamos a destruir as instituições multilaterais, a começar pelas Nações Unidas, a começar também pela NATO, porque eu não vejo nem como as Nações Unidas, nem como a NATO poderão sobreviver a uma crise tão profunda como aquela que se está a desenhar neste momento.

Várias notas de pessimismo que deixa aqui Victor Angelo. Agradecemos lhe esta participação no "Direto ao Assunto" da tarde política da Rádio Observador, com uma ideia-chave também que não vê neste momento qualquer hipótese de enviar forças de paz para a Ucrânia. Isso é uma ilusão e é um erro de quem não percebe como é que funcionam estas coisas. E falámos aqui com quem percebe destas questões e destes processos, tendo em conta que Victor Angelo foi representante especial do secretário-geral das Nações Unidas para as operações de paz.