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Margarida, se eu te falasse em batatas fritas da avó, achavas que me referia a quê?

De um belo petisco que eu tenho muitas saudades, mas nós não íamos falar de joias?

Vamos, mas tu já sabes que com Isabel II há sempre espaço para improvisar. "Do Avesso", um podcast sobre moda, com Margarida Brito Pais e Maria Ramos Silva.

Fico mais descansada, porque eu preparei-me para um programa inteiro sobre pregadeiras, alfinetes de peito e afins.

Não, fizeste muito bem e por isso mesmo temos que falar já rapidamente da Granny's Chips, que na verdade tem um nome prosaico e familiar, querido até, mas é uma joia supervaliosa feita com dois diamantes cortados do lendário diamante Cullinan. Esta pregadeira é uma das mais famosas do mundo e seguramente uma das peças mais espetaculares que a rainha Mary deu à sua neta, a rainha Isabel II, e que usou no seu jubileu de diamante em 2012.

Bem, a rainha Mary de Teck, que também recebeu uma pregadeira como presente de casamento em 1893. As mulheres de Hampshire juntaram-se e encomendaram uma peça com diamantes e pérolas à joalheira Garrard.

Querida, é claro que a rainha, como qualquer monarca, tinha muito mais peças na sua caixa de joias. De certeza até bem mais vistosas. As pregadeiras costumam ter menos visibilidade que as tiaras. É até um pouco injusto, porque conseguem sobreviver até hoje com bastante mais utilidade e aplicação democrática, sem estarem reservadas a figuras e ocasiões especialíssimas.

E mais do que isso, podem ser usadas por todos.

É verdade.

Basta seguir as passadeiras vermelhas com atenção e ver como os homens também têm aderido tanto a essa tendência nos seus looks mais festivos. A pregadeira é um apontamento discreto, mas marcante.

Pois é, e curiosamente, essa diversidade também faz parte dos seus primórdios. Na era medieval, estas peças eram usadas tanto por homens como por mulheres e podiam ter várias formas, inscrições, pedras aplicadas a uma base de couro ou mesmo prata. Eram um presente comum entre amantes e também amigos.

Historicamente, e no vestuário, também têm um lado prático, porque servem para prender uma peça, nomeadamente o colarinho, uma função que podem conservar até hoje.

Estou a pensar nas fraldas dos bebês.

Também.

Os famosos alfinetes dama. O primeiro período moderno de joias estendeu-se de 1500 a 1800. A exploração e colonização globais trouxeram nova prosperidade à Europa e à Grã-Bretanha, juntamente com novas fontes de diamantes, pedras preciosas, pérolas e metais, também eles preciosos. Ora, as rápidas mudanças na moda de vestuário durante esta era geraram também alterações significativas no estilo das joias. É esperado. A procura de novas peças resultou na desconstrução e fusão de muitas peças antigas de joias para criar novas criações. Por causa disso, há muito poucas peças de joias que sobreviveram desta época, ou seja, se calhar já está tudo desmontado.

Isso acontece muito, até em museus, muitas vezes tem só uma parte.

Exatamente. Sendo que os principais estilos de joalharia durante este período são o do Renascimento, Georgiane e Neoclássico.

Bem, a fase mais moderna, mais tardia, acaba por ser interessante, mais uma vez, graças à rainha Vitória. Nós estamos sempre a falar da rainha Vitória.

Mas é inevitável.

Até 1900 imperavam os motivos com flores, animais, camafeus com retratos, os corações. E claro, quando o marido da rainha Vitória morreu, em 1861, as joias ganharam um aspecto mais sombrio e eram comuns durante a fase do luto na era vitoriana. Sabes que até era comum juntar pedaços do cabelo do morto a peças.

Eu confesso que me entusiasma mais a resposta francesa a essa toada negra. A arte nova marcou o período entre 1895 e 1905 e trouxe desenhos bastante mais solares com insetos, pássaros, flores, formas sensuais e inovadoras, algumas criadas por Georges Fouquet, um senhor de referência nesta área. Mas depois, Margarida, veio a Primeira Guerra e acabou-se a euforia na lapela.

Bem, pelo meio ainda tiveste criações ao estilo Eduardino. Depois da morte da rainha Vitória. Aí a principal nota é a introdução da platina nas peças de joalharia, incluindo nas pregadeiras.

E sabes que no final do século XIX, o Grand Tour era o standard europeu para as viagens das classes altas e quando as senhoras viajavam por destinos como Veneza, Florença ou Roma, não traziam postais como souvenir.

Não me digas, traziam joias. Quer dizer, as joias eram os nossos ímãs.

É verdade, exatamente. É uma boa associação, nada de ímãs para o frigorífico, coitados, ainda estavam à espera dos frigoríficos, mas sim, as pregadeiras, em particular, eram um ótimo souvenir, muito recorrente. Já nos anos 20 do século XX, tu voltas a ter uma explosão criativa com art déco, entre formas geométricas, desenhos abstratos, referências do cubismo e do fauvismo, motivos egípcios, indianos, assim um mundo inteiro. E depois, a conjugação muito própria de materiais e pedras mais ou menos preciosas.

Outra coisa interessante é esta transformação pela qual passam várias peças de joalharia ao longo dos anos. Há um bom exemplo, que desapareceu no roubo do Louvre no final de 2025, que é a pregadeira do laço de diamantes que pertenceu à Imperatriz Eugénia. Começou por fazer parte de um cinto e foi convertida numa pregadeira só com 2400 diamantes.

Pois, coisa pouca. A verdade é que atualmente é possível brilhar sem usar uma peça tão cara. A Julia Roberts é apenas um dos nomes que usou várias pregadeiras numa gravata.

E esse look.

Não é? Estava ótima e apontou para uma das tendências, de facto, deste ano. Estão em muitas lapelas masculinas, como tu dizias, e bem, até serviram para fechar um volumoso sobretudo preto no desfile de alta costura da Dior. Certamente por isto, não é?

Claro. São peças muito versáteis, não só na sua função, lá está, podem fechar um sobretudo, como aconteceu, como também no seu design.

É verdade.

Isto talvez, por em termos técnicos, serem de simples execução, na medida em que são presas por um alfinete que suporta a peça, podendo ter uma base maior, mais pequena, desde que o peso esteja equilibrado, as possibilidades de design e estilo são infinitas. Prova disso é o facto A arte ter tido um impacto enorme neste tipo de peças.

Sim, há aqui um grande contágio.

Sim, falamos da art déco, mas também tens o surrealismo, por exemplo. Desse movimento, uma das minhas peças preferidas é "O Olho do Tempo", do pintor-

Do Salvador Dalí, não é?

... Salvador Dalí. A peça foi desenhada em 1949 pra mulher do artista e tem dois elementos que eram muito comuns nas suas pinturas, que é o olho e o relógio.

Eles estão, mas desta vez em diamantes.

Desta vez em diamantes, em bom.

Dalí era um polivalente, de fato, mas se calhar esta área é menos explorada. Ele começou a trabalhar com joalheria em 1940, quando colaborou com o Charles Vaillant em cinco peças surrealistas, que viriam a ser exibidas no Museu de Arte Moderna. Mas foi em 1949 que carimbou muitos designs únicos de joias, quando começou a trabalhar com o Carlos Alemán, que era um joalheiro argentino. O Dalí selecionava as pedras, parece que com base na sua cor e simbolismo. Ele também era todo dado a estes misticismos. Mas também estava fortemente envolvido em todas as etapas do processo de produção e artesanato.

E aqui desta década de 40, tens também uma peça que me fascina sempre, que é o Flamingo da Cartier.

Essa peça, sim.

Que o Eduardo ofereceu à Wallis, que é cravejado em diamantes, rubis, esmeraldas e safiras, e o seu design excêntrico tornou-o numa das joias mais famosas da duquesa. Mas o mais interessante é que esta peça descobriu-se mais tarde, com base nos arquivos da Cartier, que foi feita a partir de algumas joias que a duquesa já tinha. O duque levou um colar e quatro pulseiras à Cartier em Paris, mandou desmanchar e fazer aquela joia. Coincidência ou não, o que é certo é que a peça foi entregue poucos dias antes de os nazis invadirem Paris.

Ora um bom timing.

E de o duque viajar pra Madrid, como sabemos, depois pra Portugal. O que eu não sei é se foi só um acaso ou se de facto conseguir esconder uma pregadeira dentro da mala ser mais fácil do que esconder um porta-joias, teve aqui algum peso na decisão.

É capaz. O que sabemos é que se não chegaram a ouvir o podcast pelo Observador sobre este par famoso da nossa história, têm que tratar disso rapidamente, porque vale muito a pena a audição. Porque cá em Portugal é impossível falar de joalheria sem mencionar a história e Cacucas, uma criadora que em 1963 se lança na renovação pública do design das joias em Portugal, quando apresenta sua primeira exposição individual na Galeria Diário de Notícias. Aliás, tu sabes que há várias pregadeiras dela dessa década que trazem já um registo de modernidade nas formas absoluto. Aliás, essa época é uma época muito destes ares modernos.

Mas é engraçado, porque ao mesmo tempo, nos anos 60, as pregadeiras ganham uma fama meio bafienta.

É verdade.

Uma tradição da avó ou outra pessoa mais velha da família.

Não era muito pop. Em que a cultura pop explode.

A oferecer uma peça destas na comunhão ou num aniversário marcante, ninguém gostava de receber isto.

Sim, eu acredito que muitas pregadeiras foram escondidas no fundo das caixas de joias, ou reconvertidas em outras peças, como brincos, que são talvez mais usáveis, mais práticos. Aliás, por contraste pop nessa era, eu diria que se calhar os crachás e os pins, muito mais baratos e juvenis, levaram a melhor em termos de moda. São muito mais plásticos.

Sim, invadiram completamente o mercado. Já na década de 90, tens a incontornável rainha das pregadeiras com propósito político aqui. Madeleine Albright, que foi a primeira mulher a ocupar o cargo de Secretária de Estado nos Estados Unidos e embaixadora americana nas Nações Unidas, ficou conhecida pelos seus alfinetes de peito com significado, mensagens políticas. De tal forma que a sua coleção, imagina, 200 pregadeiras.

Bem que mundo.

Faz parte do Museu Nacional da Diplomacia Americana.

Eram autênticas armas diplomáticas.

Foram, de facto, reconhecidas pelos seus pares como uma arma diplomática. Aliás, uma das peças desta exposição é uma pregadeira com uma cobra enrolada e que foi usada numa reunião com autoridades iraquianas, depois destas a terem chamado de serpente sem o alto.

À própria senhora, à Madeleine Albright.

Porque ela antes tinha dito umas coisas pouco simpáticas sobre o Saddam Hussein e alguém depois disse que ela era uma serpente. Então ela decidiu usar uma serpente ao peito e foi assim a primeira vez que usou uma pregadeira e nunca mais parou.

Sentimos um novo boom nesta tendência, de facto, como falávamos, mas eu lembro-me que há 10 anos, ela também já andou por aí. Na Met Gala 2016, não sei se te lembras, mas a Uma Thurman desfilou na red carpet com uma peça da Cartier de 1948, chamava-se Birds of Paradise, que já tinha figurado em várias exposições, mas nunca tinha aparecido assim numa passadeira vermelha e foi uma grande revelação.

Deve ter sido uma peça emprestada à Uma Thurman.

Pois, quase de certeza.

Ainda que ela pudesse comprar a peça se quisesse.

É um facto.

Algo que já esteve bem associado à condição feminina, estas pregadeiras.

É verdade, porque mais enfeitadas ou menos enfeitadas, este objeto, de facto, tem um cariz utilitário, prático. Foi ganhando importância e cariz estético, mas também um valor econômico. Ficou sempre muito ligada, ou pelo menos no seu origem, ao universo feminino e também aos lavouros.

Sim, tanto assim é que até temos a expressão "ter dinheiro pros alfinetes".

Pois é.

Que na verdade, passou a constar em forma de lei no primeiro Código Civil Português, que é de 1867, que data o reinado Dom Luís, e lê-se assim: "A mulher não pode privar o marido, por convenção antenupcial, da administração dos bens do casal, mas pode reservar para si o direito de receber, a título de alfinetes, uma parte de rendimento dos seus bens e dispor dela livremente, contando que não chegue a terça parte dos rendimentos líquidos do casal".

Ora bem. Olha, Marida, hoje cada um trata dos seus próprios alfinetes, felizmente, e nós também temos de tratar dos nossos. Portanto, até pra semana.

Até pra semana.