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As armas e os barcos. E o resto é história.
É apenas fumaça.
Do incêndio de Coimbra, ainda na zona do Chiado. E faz um filho, fá-lo de um rosto, é de pai, filho vermelho, troco de morte, fogo de amor. Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, sejam bem-vindos ao episódio 174 de "E o Resto é História", com Rui Ramos e o engripado João Miguel Tavares, que hoje vai fazer este programa com uma voz cheia de sensualidade.
É verdade.
E hoje, o que nós vamos fazer? Vamos dedicar o programa a dois livros, dois dos livros que mais impacto tiveram em todo o século XX. Livros que mudaram a maneira como olhamos para a violência e para os regimes que a promovem e que à sua maneira transformaram o mundo. E acho que não estou a exagerar, certo, Rui? Um desses livros foi editado há 60 anos na União Soviética, mas vamos deixá-lo para a segunda parte do programa. O outro livro foi editado em 1929, chama-se "A Oeste Nada de Novo", e é um retrato devastador da guerra das trincheiras por parte do escritor alemão Erich Maria Remarque, que sabia do que falava, porque esteve lá na frente ocidental em 1917, com apenas 18 anos. A experiência durou pouco mais de um mês, porque foi gravemente ferido e levou o resto da guerra a recuperar num hospital alemão. Mas o que é certo é que o impacto de "A Oeste Nada de Novo" foi tão grande que um ano depois de ter sido lançado, ele já estava a ganhar o Oscar de melhor filme, graças à sua adaptação americana ao cinema em 1930, e a obra de Remarque continuou a ser editada e filmada até os dias de hoje. Na Netflix está agora disponível uma nova e bastante recomendável adaptação do livro ao cinema, desta vez em língua alemã. Rui, explica-nos então isto. Tendo em conta que livros antiguerra é coisa que não falta por aí. O que faz de "A Oeste Nada de Novo" um livro diferente dos outros?
Porque à altura em que saiu, é recebido como a reflexão de uma geração, aqueles que tinham tido 19, 20 anos durante a guerra e que tinham combatido na guerra, uma reflexão sobre o modo como a guerra os tinha afetado. E é essa reflexão que o Erich Maria Remarque faz no livro. O livro é, sobretudo, sobre a experiência de guerra de uma geração. Aliás, ele até distingue dos mais velhos, dos soldados mais velhos, isto é, aqueles que já tinham família, empregos, carreiras, quando a guerra começou e que tinham uma vida organizada para a qual voltar, e aqueles como ele, ele é um deles, que não tinham isso, que eram estudantes, como o protagonista do livro, que vem e a maneira como a guerra subverte o mundo deles e a vida deles e lhes cria aquela sensação, que é muito enfatizada no livro, de que já não vão conseguir adaptar-se a uma vida supostamente normal. Isto é, ficaram na guerra, ficaram para sempre na guerra. Essa é a ideia do livro. Mas nós temos um livro e temos um filme, não é?
Aliás, a desculpa de falarmos hoje aqui no programa foi o filme.
É do filme da Netflix.
Tem estado nos tops.
Sim, dos mais vistos em Portugal. Aliás, era um dos 10 filmes mais vistos em Portugal da Netflix esta semana. Vamos falar do livro de 1929 e do filme agora estreado em 2022. E já sabem, eu já fiz várias referências a isso, que eu não sou muito adepto de julgar filmes que usam o passado como cenário ou como intriga. Não sou adepto de julgar esses filmes pela sua adequação às regras da história dos historiadores. Isto é, acho que é um erro examiná-los como se examina um livro de um historiador, em termos de rigor, de fidelidade às fontes, etc. Tenho uma grande relutância em julgar um filme que tenha o passado como cenário ou um acontecimento do passado como motivo da história que conta, julgá-los dessa maneira. Parece-me que é deslocado. São coisas diferentes. Mas no caso deste filme, permite outra coisa, acho eu, um exercício historicamente interessante, que é perceber a diferença entre a maneira como agora, hoje em dia, no Ocidente, na Europa, nos Estados Unidos, olhamos para a guerra e como essa experiência de guerra era pensada há cerca de um século, nos anos 20. O contraste que eu vou fazer entre o filme deste ano e o livro de 1929 não é para saber qual é que era mais fiel ao que aconteceu. Também não é para dizer se o filme era fiel ao livro ou não era fiel ao livro, isso também me parece uma discussão bastante desinteressante. É reparar nas diferenças e interpretar historicamente as diferenças. Isto é, o que as diferenças entre o livro e o filme nos dizem como a maneira como nós pensamos hoje em dia sobre a guerra, isto é, a maneira como concebemos a guerra hoje em dia e a maneira como a guerra era concebida, pelo menos por um autor de um livro que foi muito bem recebido pelo público há 100 anos, isto é, foi lido, vendeu imenso. Como é que se olha para a guerra em 1929 e como é que se olha para a guerra em 2022? O livro, já falaste, Erich Maria Remarque tinha sido soldado durante a Primeira Guerra Mundial, tinha estado um mês ou dois meses na frente antes de ser ferido e é no hospital, quando ele vai para o hospital, depois de ter sido ferido em combate Que decide escrever um livro e começa a recolher informações e testemunhos de outros soldados, diários, informa-se para começar a organizar o livro. O livro sai em Berlim, na sua edição original em alemão, em janeiro de 1929, e num dia vendeu 20 mil exemplares. E num ano vendeu 1 milhão de exemplares. Isto é, 1 milhão de exemplares em alemão, isto é na edição original. No verão de 1929, isto é, no ano em que saiu, já havia traduções em inglês e em francês, e essas traduções venderam também 1 milhão de exemplares durante o ano de 1929. Em 1930, já há um filme, e o filme até já tem um prêmio da Academia de Hollywood. Portanto, o "Oeste Nada de Novo" ficou um clássico da literatura sobre a guerra. Eu recordo-me, por exemplo, quando nos anos 1970, aqui em Portugal, as publicações Europa-América editaram uma coleção de livros de bolso, que se tornou extremamente popular, vendeu milhares de exemplares também. Um dos livros, acho que era o número quatro da coleção desses livros de bolso Europa-América, era assim que aquilo se chamava, era o "Oeste Nada de Novo". Curiosamente, o número 33 era o livro que vamos falar a seguir. Isto é, dois livros que estavam na coleção entre os primeiros 30 e tal editados e eram dois livros extraordinariamente conhecidos, que valia a pena editar em livro de bolso e tiveram imensas edições em português, em Portugal, na década de 70.
Ele também foi recentemente editado outra vez em Portugal, em português, portanto ele está disponível.
O livro e também o filme contam a história de Paul, um jovem soldado alemão na frente ocidental, isto é, do ponto de vista da Alemanha, na parte da França e da Bélgica ocupada pelos alemães entre 1914 e 1918, onde os alemães enfrentavam os ingleses, os franceses e a partir de 1917, os americanos. Havia outras frentes de guerra, havia a frente de guerra no leste, perante a Rússia, na Itália também, nos Balcãs, no Médio Oriente. A frente ocidental refere-se à guerra no norte de França, na Bélgica e no norte de França.
A guerra que ficou conhecida como a Guerra das Trincheiras.
E é a guerra que nós associamos à Primeira Guerra Mundial, uma vez que tem aquela característica, é uma guerra estática, praticamente entre 1914 e 1918, uma guerra de artilharia, sobretudo, com os sistemas de trincheiras, ofensivas que não levam a lado nenhum. Ficou a ser para os ocidentais a imagem da guerra. A guerra era muito diferente no leste, que era uma guerra de movimento, ou no Médio Oriente, também é uma guerra de movimento, mas esta é a guerra de que o livro fala, é a guerra da frente ocidental.
E quase uma guerra inútil, no sentido em que morre milhões e milhões de pessoas e não foi a lado nenhum, para esse lado, para o lado nenhum.
A ideia que ali se cria é operações muito custosas em termos de recursos utilizados e de vidas humanas, e que não levam a grandes progressões no terreno. Progredem-se uns metros, recua-se uns metros e era fácil ali criar uma ideia da guerra como algo de absurdo, ao contrário do que estava a passar nas outras frentes, onde havia grandes movimentos militares, isto é, recuos e avanços. Aqui começamos com as diferenças. No livro, Paul alista-se em 1915, no filme é em 1917. O filme passa-se com um soldado que tem muito menos experiência de guerra do que o soldado do livro. E isto é importante, porque o filme, que tem uma cinematografia, aliás, espetacular, lindíssima, até sinistra, tem uma banda sonora muito bem escolhida. Mas o filme enfatiza muito o fato de Paul, o soldado, nunca se habituar à guerra. A guerra é um horror, porque de certa maneira permanece sempre estranha e alheia a Paul. Ele está sempre com um ar chocado, boca aberta, às vezes parece que vai vomitar, como se fosse alguém que estivesse a passar numa rua, numa estrada, e de repente assistisse a um acidente horrível e ficasse ali em estado de choque. O livro tem uma aproximação completamente diferente. A guerra no livro é horrível porque, ao contrário do que acontece no filme, se torna uma rotina, se torna habitual, tornando os soldados insensíveis à carnificina e às condições inimagináveis, às dificuldades. Paul conta a história na primeira pessoa e a grande dificuldade que ele tem é tentar criar no livro, distância entre ele e aquilo que ele está a viver, e cada vez tem menos sucesso nisso. Percebe-se que ele está a ser absorvido, a perder a sensibilidade para o que está a acontecer, a tornar-se mais ou menos indiferente. Que é uma coisa que nunca acontece no filme. No filme, ele está sempre num estado de absoluto choque com aquilo que está a acontecer e a ver. Há uma diferença entre o livro e o filme que é fundamental. No livro, há uma parte central, que é uma parte muito importante, que é o tempo de licença que Paul passa em casa, a meio do seu serviço militar e ele vai à casa de licença, uma espécie de férias. E o que essa passagem serve no livro é para enfatizar a maneira como a guerra tirou Paul do seu mundo familiar. É o mundo familiar, é o mundo da casa dele, da família, é esse mundo que lhe parece estranho e artificial. Não é o mundo da guerra, é aquele mundo já. Aliás, há um pequeno incidente que dá isso, é quando a mãe, à despedida, lhe diz: "Olha, tu agora vais voltar. Vê lá Vai para o norte de França, ocupado. Dizem: "Lá tem que cuidado com as mulheres francesas". E ele ouve isto e diz: "Ela não faz ideia nenhuma do que eu estou a passar. Estou nas trincheiras, as mulheres francesas, o que é isso?" Na imaginação da mãe, ele parece que está de férias em França e de repente pode ser seduzido por uma senhora francesa qualquer, que depois o leva para uma vida comprometida. Ele diz: "Minha mãe não faz absolutamente nenhuma ideia do que se passa." E esse é o horror da guerra do ponto de vista de Erich Maria Remarque. Isto é, a guerra absorve os soldados, torna-se normal. E é aquilo que eles eram antes da guerra, isto é, durante a paz, que se torna estranho, que eles começam a ver como artificial. Portanto, enquanto no filme o horror da guerra é a guerra nunca poder ser normal, a guerra causa-nos sempre um choque constante, como se tivéssemos a ver um acidente de comboio, um acidente enorme, um acidente de trânsito que tivesse causado feridos e mortos e estivéssemos ali horrorizados. No livro, o horror da guerra está precisamente em tornar-se de repente absolutamente normal. Paul está ali envolvido naquilo. Aliás, há uma cena no livro que também está no filme, que é quando Paul cai numa cratera e encontra um soldado francês, mata o soldado francês e depois assiste à agonia do soldado francês. Enquanto no filme ele está ali completamente horrorizado com a morte e aquilo parece, no filme, que é mais uma prova do horror absoluto de uma coisa que ele não consegue viver com isso, no livro, a cena tem um sentido completamente diferente. No livro, sim, ele também entra num estado de choque, porque tem de estar ali bastante tempo na cratera com o soldado francês que ele feriu a morrer, mas o sentido é que ele pouco a pouco vai-se apercebendo. Ele sai dali apercebendo que aquilo não tem importância nenhuma, que aquilo não lhe diz nada. Ele depois conversa com os colegas e a conclusão dele é: "Parvuíses que me passaram pela cabeça quando eu estava na cratera." Isto é, aquela preocupação com o soldado francês eram parvuíses. Aquilo é o que eles fazem todos os dias, tentar matar os franceses.
O que tu estás a dizer é que o filme humaniza aquilo que o livro desumaniza.
Não, o que eu estou a dizer é que o ponto do livro é precisamente a desumanização. No filme, eles mantêm-se sempre humanos. E, portanto, horrorizado perante a guerra. E o ponto do livro é chamar a atenção para outra coisa, é a maneira como a guerra absorve completamente o indivíduo e o torna parte. É como se no filme a guerra estivesse fora do indivíduo, está fora do soldado, ele está a olhar para a guerra. E no livro, a guerra está dentro do indivíduo, entrou já dentro dele. A mim parece-me que a perspectiva do livro é muito mais assustadora, de alguma maneira, sobre o que a guerra é feita. O filme parece-me que é feito por e para gerações que, felizmente, ainda bem, não tiveram a experiência da guerra. E portanto, para quem a guerra é praticamente uma espécie de espetáculo cinematográfico, estão a olhar para a guerra e estão a ficar horrorizados. E é como Paul, o soldado no filme, é como se estivesse a ver um filme acontecer em tempo real, de repente, ali à frente dele, e portanto ele está ali horrorizado. E no livro, Paul, o soldado, está absorvido, está esgotado pela guerra, é como que se para ele não houvesse mais nada. E a ideia inquietante do livro é não poder haver mais nada. Isto é, ele não se está a ver a sobreviver àquilo. Esse é que é o ponto. Não é apenas que pode morrer fisicamente. A ideia é, mesmo que ele sobreviva fisicamente, ele nunca mais vai sair daquela guerra. Aquilo transtornou-o completamente. Ele nunca mais vai poder ter a vida normal que teria se não tivesse a guerra. Esse é o grande ponto do livro e obviamente não é a questão que o filme levanta. A questão que o filme levanta é mais o espetáculo da guerra como um espetáculo horrível. Aliás, Remarque, quando publica o livro em 1929, escreve-o antes, ele já tinha lido, aliás, até tinha feito uma resenção de outros livros sobre a guerra, entre eles um livro muito importante, que é "As Tempestades de Aço", de Ernst Jünger. Ernst Jünger é um dos maiores escritores alemães do século XX, está num outro campeonato do que Erich Maria Remarque. Está muito acima. Aliás, o "Tempestades de Aço" também é um livro muito superior a "O Este Nada de Novo". Mas é um livro que, sobre a guerra, de maneira nenhuma se pode considerar um livro pacifista. É mais uma reflexão sobre a guerra. Aliás, como depois Ernst Jünger vai explicitar num outro livro, a guerra como uma experiência interior. Ernst Jünger tem uma experiência da guerra completamente diferente de Remarque Erich Maria Remarque fez a guerra durante quatro anos, entre 1914 e 1918, e durante esses quatro anos esteve sempre na linha da frente, isto é, em tropas de assalto. Um dos poucos indivíduos que sobreviveu. Ele viveu depois muito tempo, morreu já nos anos 90 com 90 e tal anos, e quando morreu era a última pessoa viva que ainda tinha aquela que era a maior condecoração militar prussiana, o Pour le Mérite, que lhe tinha sido dada em 1918. Ele era um rapaz, um miúdo, por ter aguentado quatro anos de guerra, onde foi ferido variadíssimas vezes, voltou sempre à frente. E a experiência dele da guerra é esta experiência total, uma experiência dessa guerra como experiência interior. E de alguma maneira, o Erich Maria Remarque apanha essa ideia da guerra como experiência interior e apenas a projeta no sentido de imaginar o que acontece a alguém que depois de ter essa experiência, como é que vai voltar à vida normal. E basicamente, a ideia de Remarque é: não vai conseguir sobreviver. Enfim, há outras diferenças entre o filme de 2022 e o livro de 1929. Enquanto o livro mantém sempre o ponto de vista do soldado, do Paul, é ele que está sempre a contar a história, o filme de 2022 intercala a história do soldado com a história das negociações de paz, concentrando-se no negociador alemão, o Matthias Erzberger, que é um político democrata cristão do partido do centro católico, e é ele que está a negociar com os franceses a paz. É verdade que isto introduz um elemento dramático no filme, porque cria a expectativa sobre "ele vai sobreviver ou não vai sobreviver?", porque estamos a contar os minutos para tudo acabar, mas ao mesmo tempo cria aquela ideia de que a guerra é inútil e sem sentido, porque pode acabar a qualquer momento através de uma assinatura. E é uma visão simplista da guerra que o livro não tem. O livro do Remarque evita a política, evita comentários sobre a guerra, sobre o sentido da guerra, evita isso tudo. E curiosamente, essa falta de comentários torna a tragédia ainda maior, porque aquilo não tem saída, não há saída para aquilo. Finalmente, há a diferença da morte do Paul.
Mas aí agora temos que fazer aquelas coisas que é chamado um spoiler alert, não é? Porque tu vais contar o final do filme, para quem não viu, pode ficar aborrecido contigo. Portanto, spoiler alert, mas diz. Quem quer ir ver o filme para a Netflix e acha muito importante saber como é que ele acaba, não ouça esta parte.
Não ouça esta parte. No filme, Paul morre numa ofensiva nos últimos 15 minutos, não vou descrever como. A verdade é que também não houve ofensivas nos últimos 15 minutos, aquilo é uma ficção, mas tudo bem, o filme tem liberdade para isso. Aliás, a indisciplina nas Forças Armadas alemãs-
Deixa-me só explicar, é os últimos 15 minutos porque a guerra tem um dia e uma hora marcada mesmo para acabar.
A assinatura daquilo que vai ser o armistício, quando faz, determina que a guerra vai acabar às 11h do dia 11 de novembro, às 11h do 11º mês. E há a contagem, começa-se a contar os minutos até às 11h. Isso era muito improvável, até porque há o caso da Armada alemã, em que em novembro de 1918, também os seus comandantes pensam fazer uma ofensiva de última hora também contra a Armada britânica e os marinheiros revoltam-se e não aceitam. É muito improvável que pudesse haver ofensivas 15 minutos antes das 11h do dia 11 de novembro. No livro, Paul morre de uma maneira, eu quase diria, mais trágica, porque morre num dia em que não se passa nada. E por isso é que o título do livro é "A Oeste, Nada de Novo", porque é o relatório do dia em que ele morre. É um dia tão tranquilo na frente, em que não se passa nada, ele é atingido por um sniper e o relatório diz: "Na frente ocidental não se passa nada, não se passou nada. A oeste, nada de novo." Mais uma vez, isto é muito mais grave, muito mais dramático do que a morte do filme. O livro enfatiza a ideia de como a guerra anulou os indivíduos e fez os indivíduos fazerem parte dessa guerra. Enquanto, repito, o filme parece que mostra pessoas normais que estão envolvidas num acidente muito grave.
Muito bem, acaba assim a primeira parte. Até já. Volaremos com um novo livro. Olá, então estamos de volta para esta segunda parte de "O Resto é História", com mais um grande livro que marcou o século XX. E ele foi publicado há 60 anos, em novembro de 1962, na União Soviética, liderada por Nikita Khrushchov, e foi um dos grandes acontecimentos literários, realmente, desse século XX. Foi a publicação de "Um Dia na Vida de Ivan Denisovich", de Aleksandr Solzhenitsyn. É o primeiro relato da repressão stalinista e dos horrores nos campos de trabalho da União Soviética e é protagonizado por um homem inocente, condenado a 10 anos de prisão num gulag. Solzhenitsyn sabia do que estava a falar, também aqui, tal como Remarque, porque ele próprio passara oito anos detido em vários campos soviéticos. Parece que ter passado pelas coisas ajuda a escrever melhores livros. E esta foi a estreia de Solzhenitsyn na literatura. Transformou-o logo numa estrela planetária. Oito anos depois, estava a receber o Prêmio Nobel. E em 1974, foi obrigado a sair da União Soviética, partindo para um exílio que durou duas décadas. Eu tenho duas perguntas para ti, Rui. Qual a importância A importância de "Um Dia na Vida de Ivan Denissovitch" para o conhecimento do regime soviético e também tendo em conta o retrato que ele traçava do país, como é que o regime permitiu a sua publicação e tolerou Soljenitsin durante mais de 10 anos? Ele continuou a viver na União Soviética durante mais de 10 anos após esta sua estreia literária. Como é que isto se explica? O regime às vezes é mais complexo do que parece.
Sim. E há outra coisa também: os livros podem ser lidos de várias maneiras, esse é que é o ponto, e podem ser usados de várias maneiras.
E a interpretação foi mudando com o tempo. Certo.
Com o tempo e mesmo com quem estava a ler. Mas primeiro eu gostava de dar a ideia da importância, e não é fácil exagerar, da importância de Alexander Soljenitsin. E vou citar uma entrevista que vi de Stephen Kotkin, penso que de 2018, quando foi o centenário de Solzhenitsyn. Stephen Kotkin é hoje, eu diria, o mais importante historiador da União Soviética e autor de uma monumental biografia de Stalin, que aliás já tivemos aqui a ocasião de recomendar o volume segundo, ainda estamos todos à espera do volume terceiro. Já foram publicados dois volumes, quase mil páginas cada um. E o Stephen Kotkin, perguntado sobre Solzhenitsyn, disse isto, e que vindo do Stephen Kotkin é impressionante. Ele disse: "Há duas personagens fundamentais na história da Rússia no século XX. Uma é Stalin e outra é Alexander Solzhenitsyn." Stalin, praticamente o dono, o líder da União Soviética entre os anos 20 e os anos 50, e alguém que escrevia romances. E são, para Stephen Kotkin, as duas figuras fundamentais da história da Rússia no século XX. Um ditador de um regime totalitário, e um escritor.
A parte do ditador, todos nós sabemos. O escritor é que é o surpreendente.
O escritor, ele diz, é ele e Stalin. O século XX é quase um duelo entre Solzhenitsyn e Stalin. O Alexander Solzhenitsyn, como tu já referiste, foi preso em 1945, aos 27 anos. Ele era então capitão do exército soviético, estava até na Alemanha, em plena guerra.
Portanto, tinha combatido na Segunda Guerra.
Estava a combater, aliás, ainda estava a combater quando é preso. E é preso por quê? É preso porque numa carta a um amigo, uma carta privada, atenção, ele faz alguns comentários críticos sobre a condução da guerra pelos líderes da União Soviética. Essa carta é interceptada pelos serviços de espionagem do regime, que liam as cartas todas, e é a base para ele ser preso, torturado. É torturado na prisão da Lubyanka, em Moscovo, na prisão do NKVD em Moscovo, a tortura do sono. É condenado a oito anos de trabalhos forçados num campo de concentração e depois há aquilo que se chama o exílio interno, isto é, a proibição de voltar ao seu local de residência habitual, que era onde ele tinha nascido, que era a Rússia europeia. Portanto, ele fica, depois de ter cumprido os oito anos nos campos de concentração, proibido de voltar à Rússia europeia. Isto por aquilo que tinha dito em privado numa carta a um amigo. Ele é acusado de fazer propaganda antissoviética. Isto é, numa carta privada que foi lida por ele e pelo amigo. Isto é o regime, a ditadura comunista funcionava assim. A experiência dos campos de concentração afasta-o completamente do comunismo e fá-lo regressar, e isto é importante para compreender o livro, fá-lo regressar ao cristianismo da sua família, isto é, regressar à tradição cristã ortodoxa. Ele depois de sair dos campos de concentração arranja um lugar de professor numa escola. A história é muito mais dramática, porque durante um tempo em que ele está preso no campo de concentração e depois no exílio, ele está doente com um câncer e está a pensar que vai morrer. Aquilo é uma coisa horrível, preso num campo de concentração, doente com um câncer. O câncer depois cura-se e ele vê isso também como algo de providencial. Mas depois do campo de concentração, ele arranja um lugar de professor em escolas secundárias e é à noite, em segredo, que escreve, vai escondendo os manuscritos. E a sua ideia, desde cedo, desde 1958, pelo menos é o que ele diz, desde 57, 58, é registrar a memória da experiência dos milhões de pessoas que tinham estado presas e que tinham morrido nos campos de concentração comunistas. Isto é, na prática, ele desde os anos 50 que tem a ideia de vir a escrever aquilo que vai ser "O Arquipélago Gulag", sua grande obra, que será publicada no Ocidente em 1973. É um pouco o dever da testemunha. Isto remete para uma outra obra literária, que é o "Réquiem" da Anna Akmatova. E ela, no prefácio, diz isso, ela está junto da polícia política comunista a tentar obter informações sobre um filho que tinha desaparecido, tinha sido preso e tinha desaparecido, e ela está numa multidão onde há pessoas a tentar procurar notícias do marido, do pai, do irmão, dos filhos, tudo. Era uma multidão que se reunia todos os dias porque as pessoas eram presas, ninguém sabia o que lhes tinha acontecido, se estavam mortos, se estavam vivos, se estavam a ser torturados, se tinham sido deportados, ninguém sabia nada. E ela está ali naquela multidão, uma multidão aflita, ansiosa, desesperada, e conta ela que alguém se voltou para ela e deve a ter reconhecido, como escritora, e pergunta-lhe: "Você é capaz de escrever isto?" E ela diz: "Sou." Esse dever de testemunha, isto é, dar testemunho, não deixar passar aquilo que é o horror sem ficar registrado, é algo que está presente em Anna Akhmatova no poema "O Réquiem", que é sobre isso, e também em Soljenitsin. Quer dizer, a ideia de que isto não pode ficar esquecido, isto é, temos de dar testemunho do que aconteceu. Mas antes do "Arquipélago Gulag", que é um ensaio de investigação literária, como Soljenitsin lhe chama, ele escreve uma narrativa, uma novela, mas ele prefere um conto. Ele diz que é um conto, de facto, que é "Um Dia na Vida de Ivan Denisovich", que é basicamente a descrição de um dia na vida de um prisioneiro num campo de concentração, por volta do fim dos anos 40, princípio dos anos 50, é no inverno. O texto segue, portanto, o Ivan Denisovich Chukov, que é o nome dele, desde que se levanta na camaratas dos presos até voltar a deitar-se. É uma descrição muito minuciosa, que não nos poupa a nenhum pormenor, um realismo totalmente cru, sem qualquer comentário ou consideração do narrador. Aquilo é uma espécie de tudo muito, aparentemente objetivo, na tradição do realismo do século XIX. Nós vemos o Ivan a levantar-se, a sentir-se doente, a vestir-se, a pôr os seus trapos, literalmente trapos, a sair de noite, ainda é de noite, para a neve e para o vento gelado, debaixo dos holofotes e das metralhadoras dos guardas, cheio de fome, assustado, não sabe o que lhe vai acontecer. É uma história de sobrevivência ao nível mais elementar que se pode imaginar, uma coisa arrepiante.
Isso bate então na minha pergunta.
Exatamente. A questão que tu fizeste. Como é que uma narrativa destas é publicada numa revista oficial soviética, a "Novy Mir", "Novo Mundo", em 17 de novembro, sábado, de 1962. É publicada. A razão está na luta pelo poder que decorre então na liderança soviética. Stalin tinha morrido em 1953, nove anos antes. Há logo a seguir uma primeira disputa pela sucessão de Stalin, que resulta na liquidação do Lavrenty Beria, o chefe dos serviços secretos. Nikita Khrushchyov emerge como o novo líder. Khrushchyov é um colaborador de Stalin, tinha sido um colaborador de Stalin, que aliás, como todos os outros dirigentes soviéticos em 1962, todos eles tinham sido colaboradores de Stalin, mas Khrushchyov tenta afirmar o seu poder distanciando-se de Stalin, isto é, distanciando-se daquilo que Stalin tinha feito e representado. E em 1956, no seu relatório ao Congresso do Partido Comunista da União Soviética, Khrushchyov denuncia aquilo que ele chama os erros e os crimes de Stalin. O anti-stalinismo torna-se, de repente, a bandeira de Khrushchyov. Isso é recebido com algumas dúvidas pelos outros líderes comunistas. Nem todos estão convencidos que isto é uma boa via, isto é, denunciar os crimes de Stalin, os horrores que tinham sido cometidos sob Stalin, em grande medida, porque tinham sido eles próprios, incluindo Khrushchyov, que tinham presidido, tinham estado no poder enquanto esses crimes, erros tinham sido cometidos. O próprio Khrushchyov oscila, aquilo dá à ditadura comunista soviética, no fim dos anos 50, princípio dos anos 60, uma certa esquizofrenia. Algumas vezes está a denunciar os crimes de Stalin, estão a libertar presos dos campos de concentração e a reabilitá-los, às vezes, até mesmo alguns que tinham sido executados e mortos, a sua memória está a ser reabilitada. Isso por um lado. Por outro lado, o regime continua tão repressivo e intolerante como sempre. Tinha se visto isso, por exemplo, nas reações oficiais à atribuição do Prémio Nobel de Literatura a Boris Pasternak, em 1958, depois da publicação no Ocidente do "Doutor Jivago", um romance que também, historicamente, um sucesso enorme, também adaptado ao cinema no Ocidente. O Pasternak, aliás, é um grande escritor russo, curiosamente descendente de judeus portugueses, que é uma coisa interessante. O Pasternak é censurado, é ameaçado, é obrigado a renunciar ao prémio numa campanha dirigida por Khrushchyov pessoalmente. Temos a esquizofrenia da ditadura na passagem dos anos 50 para os anos 60, mas há essa disputa no poder, é uma disputa que passa pelo passado soviético e em 1961, Soljenitsin sente-se, de alguma maneira, animado por isso, para enviar o seu manuscrito à direção da revista "Novy Mir", "Novo Mundo", que é uma revista literária publicada em Moscovo e dirigida por um poeta, mas também importante dirigente comunista, que é o Alexander Tvardovsky. Alexander Tvardovsky é alinhado com Khrushchyov. Tvardovsky lê "Um Dia na Vida de Ivan Denisovich", lê o manuscrito, adora o manuscrito, adora a escrita de Soljenitsin e percebe que o texto pode ser usado como mais uma denúncia dos crimes de Stalin. E isso interessa a Khrushchyov em 1962 e vai interessar ainda mais em outubro, novembro de 1962. E por quê? Khrushchyov está Fragilizado pela crise dos mísseis de Cuba, que falamos aqui há algum tempo.
Certo. Também fez 60 anos.
Exato. E interessa-lhe fazer recuar os seus críticos e adversários na direção soviética com mais um momento de anti-stalinismo, de denúncia de Stalin, que só ele é que pode protagonizar.
Portanto, não foi uma ingenuidade.
Não é nada uma ingenuidade.
Não é uma coisa que aparece surpreendentemente. Ninguém tinha lido bem.
Não, tinha sido lido, estudado e discutido. Khruschev leu também, também gostou do livro. Manda imprimir uma edição de 500 exemplares, antes de sair na revista, para ser distribuída pelos dirigentes soviéticos, a quem ele dá quase como trabalho de casa: "Têm de ler isto." O que faz com que, antes mesmo da sua publicação na Novy Mir, em novembro de 1962, nos círculos políticos e intelectuais de Moscou, já toda a gente tinha ouvido falar do livro, muita gente tinha lido e toda a gente discutia o que é que ia sair ali. Obviamente, aqui há um enorme equívoco, verdadeiramente. Khruschev e Tvardovsky criam uma novela anti-stalinista. Era isso que queriam. Eles até sugerem, aliás, o Tvardovsky sugere a Soljenitsin que introduzisse uma denúncia do Stalin no texto. Isto é, uma referência ao Stalin a denunciar Stalin. Há um outro conto de Soljenitsin que é publicado em 1963, que é "A Casa de Matryona". Aliás, é um conto belíssimo e que se passa em 1956. Os editores pedem a Soljenitsin para pôr o ano em 1953, no tempo de Stalin, que é para parecer que é uma denúncia do stalinismo e não da vida na União Soviética, mesmo já depois de Stalin. O Soljenitsin faz, nessa altura, um jogo com as autoridades, que ele descreve num livro, aliás, fascinante, que é o "Carvalho e o Bezerro", que é a sua história política e literária na União Soviética. Ele faz um jogo, ele diz que não, não pode introduzir esse tipo de denúncias, porque tem de manter a coerência do livro. O livro é narrado do ponto de vista de um preso, e esse preso era um pobre trabalhador que não conhecia nada de política, que fora enviado para o campo de concentração, condenado a 10 anos de trabalhos forçados, apenas por ter sido capturado pelos alemães durante a guerra, que é uma coisa que aconteceu imenso. Muita gente que veio dos campos de concentração alemães foram diretamente para os campos de concentração soviéticos, porque quem tinha estado preso no Ocidente era considerado suspeito na União Soviética. Talvez tivesse absorvido ideias ocidentais, tinha visto como as coisas eram, e portanto, vai para um campo de concentração. Aliás, "Um Dia na Vida de Ivan Denisovich" faz referência a esses presos. Isto é, gente que veio de Buchenwald e vai para os campos de concentração na Sibéria. Soljenitsin usa a ideia de que isto é narrado por um pobre trabalhador que não tem nenhumas ideias políticas, portanto não pode estar a introduzir algo que é incoerente. E depois fazem a outra: "Mas então por que não reescreve o livro fazendo do protagonista um intelectual?" E Soljenitsin diz: "Não, eu quero fazer um livro do ponto de vista do povo, a União Soviética é o estado dos trabalhadores, portanto, isto deve ser do ponto de vista dos trabalhadores." E ele conseguiu que as autoridades aceitassem a ideia de que tem de ser como está. A verdade é que Soljenitsin o que quer é dar uma ideia do que eram os campos de concentração comunistas, sem amenizar isso por qualquer comentário político que, para o texto ser publicado, teria de ser um comentário político na linha de Khruschev. Isto é, dizer que aquilo tudo tinha acontecido apenas por causa de Stalin. E a verdade é que Soljenitsin, no fim dos anos 50, no princípio dos anos 60, já achava que o stalinismo era um mito. Isto é, que os crimes que Khruschev queria atribuir pessoalmente a Stalin eram os crimes do comunismo, não eram crimes de Stalin. E os campos de concentração não eram de Stalin, eram dos comunistas. E o que Soljenitsin quer fazer é confrontar esta sociedade que vive debaixo do comunismo com a realidade prisional que o regime estava a tentar fazer esquecer no princípio.
Como um desvio de Stalin.
É, como se fosse uma coisa: "Bem, o Stalin tinha feito isto, mas de facto nós somos..." Isto é percebido claramente no Ocidente. Na Guerra Fria, aliás, há uma grande curiosidade sobre os intelectuais russos dissidentes. Já o Boris Pasternak tinha sido publicado no Ocidente, tinha recebido o Prêmio Nobel em 1958. Em 1963, aparecem imediatamente traduções de "Um Dia na Vida de Ivan Denisovich" nos Estados Unidos, na Inglaterra, na França, na Alemanha. São um enorme sucesso. Nos anos seguintes, Soljenitsin é proibido de publicar na União Soviética e os seus livros começam a sair no Ocidente, em edições em russo e também em traduções, como "O Pavilhão dos Cancerosos", "O Primeiro Círculo", "Agosto de 1914". E em 1970, ele recebe o Prêmio Nobel da Literatura, que ele não pode vir receber em 1970. É-lhe atribuído, mas ele não pode vir receber. E "Um Dia na Vida de Ivan Denisovich" também é adaptado ao cinema numa produção norueguesa e americana.
Tenho que suspender agora esse equívoco vai ter que ficar para o podcast. Eu despeço-me de quem nos está a ouvir em FM, até para a semana. Os outros podem continuar connosco Então, que equívoco é esse?
Na União Soviética, o equívoco era que aquilo foi entendido como uma denúncia do stalinismo, quando era, de fato, um retrato do que era o comunismo. E no Ocidente há um equívoco mais ou menos parecido, que se vai, aliás, desvendar quando Soljenitsin, finalmente, em 1974, chega ao Ocidente e é livre de falar, pode expor suas ideias. E as suas ideias não vão ao encontro daquilo que nós podemos chamar o liberalismo ocidental, que tinha recebido Soljenitsin como um dos deles. Aqui está um escritor que está a resistir à ditadura, é um liberal. E Soljenitsin não era exatamente um liberal como os ocidentais gostavam que ele fosse. Ele via o comunismo como uma mentira e achava que para resistir, ele vai depois explicar isso a partir de 1974 no Ocidente, ele acha que para resistir à mentira era fundamental não partilhar nenhum dos pressupostos dessa mentira. E esses, para Soljenitsin, eram o materialismo, o ateísmo e a ilusão da omnipotência humana. Esses pressupostos, diz Soljenitsin, eram a base do totalitarismo, do projeto de criar uma nova natureza humana.
Ou seja, é uma resistência pelo lado conservador e não pelo lado liberal.
Não, é a resistência que ele acha que é a resistência possível. Só esta é que é a resistência possível. Ele acha que o liberalismo não é uma resistência, não consegue resistir ao comunismo. O liberalismo não tem meios para resistir ao comunismo. É nesta tradição espiritual do Ocidente, que ele identifica com o cristianismo, que há uma barreira efetiva ao comunismo. Reparem nisto: Soljenitsin valoriza imenso, como qualquer liberal, o Estado de direito, os direitos individuais, a liberdade. Ele faz muitas referências a isso. Aliás, quem ler "O Arquipélago de Gulag", sobretudo o primeiro volume, fica sem dúvidas sobre isso. Aquilo é uma grande defesa da ideia de Estado de direito e da ideia da limitação do poder pela lei como garantia da liberdade e dos direitos individuais. O que ele acha é que para sustentar aquilo que o liberalismo propõe e defende, é necessário uma cultura espiritual que o próprio liberalismo não tem e que Soljenitsin identifica com a tradição do cristianismo, e especialmente do cristianismo ortodoxo. E quando lemos "Um Dia na Vida de Ivan Denisovich", percebemos que é isso que está subjacente na narrativa. A narrativa não é apenas uma denúncia da vida horrível, do horror dos campos soviéticos. É também uma reflexão sobre como resistir a esse horror. E a resistência a esse horror está identificada entre os prisioneiros, não com aqueles que são políticos, têm uma mentalidade política e criticam o regime, como há um capitão, que aparece no livro e faz críticas. Essa não é a resistência. A resistência está identificada com isto, com um homem simples, uma pobre alma como é Ivan Denisovich, que não tem educação, é apenas um trabalhador manual, não sabe o que está a acontecer, mas é alguém que não partilha da mentira, está fora da mentira. O sofrimento dele é um sofrimento que se podia dizer quase um sofrimento como cristão. Ele não participa nem da mentira, nem da corrupção do sistema. Uma das maneiras como ele não participa na corrupção do sistema é que, por exemplo, ele tenta trabalhar a sério num sistema em que o trabalho é totalmente ineficiente, é totalmente inútil e absurdo, mas ele tenta pôr os tijolos lá, fazer os muros como deve ser, quando ninguém está absolutamente nada interessado nisso. O trabalho ali é apenas mais uma punição dos prisioneiros do que propriamente outra coisa. E há um momento na narrativa, logo ao princípio, há um preso, que é um preso cristão, que diz, e vou citar, Ivan ouve-o, ele aliás, está a citar os evangelhos, o Novo Testamento. Ele diz isto que é: "Se sofres, que não seja por assassínio, roubo ou bruxaria, nem por infringires os direitos dos outros. Mas se alguém sofre como cristão, não deve considerar isso uma desgraça, mas dê graças a Deus por tal." É esta ideia de sofrer como um cristão, fora daquele sistema. É algo que transfigura completamente a vida de Ivan Denisovich, porque depois o livro acaba com Ivan Denisovich a pensar: "Tive um dia bom. Julgava que estava doente, mas afinal não estava doente." Conseguiu arranjar um pouquinho de comida e está vivo, e portanto vai viver outra vez. É esta vida sem ressentimento, uma vida de um justo. E isto compara-se com um outro conto, que é publicado em 1963, que é "A Casa de Matryona", que, aliás, é um conto que, curiosamente, Tvardovsky, em 1962, diz a Soljenitsin: "Eu posso publicar 'Um Dia na Vida de Ivan Denisovich', mas não vou poder publicar 'A Casa de Matryona'." E "A Casa de Matryona" não tem nada a ver com os campos, é apenas a história de uma velhinha numa aldeia soviética que é uma espécie de idiota da aldeia, que é a pessoa boa da aldeia, que faz tudo, ajuda os outros, numa sociedade extremamente egoísta, dividida pelo comunismo suspeito, ela não tem. E o conto acaba com ela a dizer: "Bem, esta era a única pessoa justa que havia nesta aldeia." E isto é curioso, Tvardovsky identifica imediatamente este conto como muito mais subversivo do que a vida de Ivan Denisovich. Porque é a vida fora do comunismo, uma vida de verdade, uma vida de pureza. E é isso que interessa a Soljenitsin também em "Um Dia na Vida de Ivan Denisovich" e que, obviamente, quando os liberais ocidentais percebem isso, percebem que estão a lidar com alguém que, defendendo muito daquilo que eles querem, não o defende a partir do ponto de partida que eles tomam. Mas defende de um outro ponto de partida, que é este desta tradição espiritual antiga, russa, cristã, ortodoxa, em que Soljenitsin vê a única possibilidade de resistir ao comunismo.
Muito bem. Bom, e assim termina com dois livros esta edição de "O Resto é História". Nós voltamos para a semana. Até lá.