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E o resto é história. É apenas fumaça do incêndio em Coimbra, ainda na zona do Chiado. Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Não. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo ao episódio 257 de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Hoje vamos falar das armas e dos barões assinalados que da ocidental praia lusitana passaram ainda além da Taprobana. Ninguém sabe ao certo quando nasceu Luís de Camões, mas a tradição aponta para o ano de 1524, e é por isso que estamos a comemorar os 500 anos do seu nascimento. E como estamos próximos do 10 de junho, o dia em que o poeta morreu, por volta de 1580, aí sim, parece haver certezas, e que posteriormente, por causa disso, ganhou honras de Dia de Portugal, esta parece-nos a ocasião ideal para falar de Camões. É difícil dizer de Camões alguma coisa que não tenha sido já repetida muitas vezes, mas Rui, se é homem para isso, és tu. Já viste? Grande elogio. Até porque tu tens uma tese sobre a qual eu acho que vale mesmo a pena conversar. E a tua tese é que Camões é um extraordinário poeta e que é reconhecido por toda a gente em Portugal, fora dele, mas tu também achas que o Camões foi um extraordinário historiador. Isso não há dúvida, que "Os Lusíadas" estão cheios de história e celebram os feitos históricos portugueses, nomeadamente os dos descobrimentos, todos sabemos isso. Não é habitual olhar para um livro cheio de musas, de deuses e toda a vasta galeria da mitologia greco-latina e dizer: "Ora, aqui está um excelente trabalho de história." Tens de nos explicar isso muito bem, Rui. Em que medida é que Camões foi um grande historiador? Para ti, não te chega que ele tenha sido um grande poeta?

Obviamente, ser um grande poeta é importante e alguns dos historiadores provavelmente também seriam poetas e portanto, acho que por esse lado, bastaria como elogio a Camões. Mas não. É claro que Luís de Camões não foi um historiador como os outros grandes historiadores portugueses, como Frei António Brandão no século XVII, ou como Alexandre Herculano no século XIX, ou como José Mattoso no século XX. Esses historiadores andaram por arquivos, examinaram com cuidado as fontes para estabelecer um conhecimento rigoroso do passado. Mas se nós pensarmos na história como a nossa relação com o passado, isto é, aquilo que sabemos ou julgamos saber do passado, percebemos que desse ponto de vista, a história não é feita só por este tipo de historiadores, de investigadores de arquivo.

Os ratos de biblioteca.

Sim, ou investigadores de arquivo, digamos, como Frei António Brandão, como Alexandre Herculano ou como José Mattoso. Aquilo que eu quero dizer é que Luís de Camões, através d'Os Lusíadas, publicados em 1572, muito provavelmente contribuiu mais do que ninguém para moldar, nos séculos seguintes, aquilo que os portugueses cultos sabiam da história. E depois, aquilo que sabiam da história todos aqueles que passaram pelas escolas do século XIX e do século XX, em que "Os Lusíadas" foram matéria de leitura obrigatória, não apenas para aprender gramática, mas também para ler e ficar na memória com alguns episódios que são episódios da história de Portugal.

Ou seja, achas que ele estabeleceu o cânone, um certo cânone.

Vou explicar a seguir. O que ele fez foi: criou um fundo de conhecimentos sobre o passado, que são a base da nossa relação com a memória histórica e com a identidade. Mas vamos voltar então ao princípio. "Os Lusíadas" têm 8816 versos. Esses 8816 versos estão organizados em 1102 estâncias de oito versos cada uma, e essas estâncias estão distribuídas por 10 cantos. No canto um, nós vemos a armada do Vasco da Gama a navegar em direção à Índia e depois os deuses reúnem-se para saber o que fazer a esse respeito, isto é, se vão ajudar, se não vão ajudar. Vénus está a favor dos portugueses, Baco está contra os portugueses. No canto segundo, o Vasco da Gama chega a Melide, no Oceano Índico, uma povoação onde ele é recebido cordialmente e o rei local, o rei de Melide, pergunta-lhe de onde é que ele vem. Isto é, de onde é que ele vem, quem é que ele é, de onde é que vem. E Vasco da Gama dá ideia, começa por lhe explicar de onde é que vem e quem é.

Um flashback, como no cinema.

Sim, é mais uma história, quer dizer, mostrar o guet identidade. E dá a ideia da geografia da Europa e depois começa a contar a história do reino de Portugal desde o tempo de Viriato até ao tempo do próprio Vasco da Gama. Esses são os cantos terceiro e quarto d'Os Lusíadas. E de fato, esses cantos terceiro e quarto são São uma espécie de história de Portugal inverso, uma condensação da história de Portugal. Não é a única parte d'Os Lusíadas em que há história de Portugal, há história de Portugal noutros cantos, por exemplo, no Canto VIII, também nas profecias da ninfa no Canto X, em que ela conta ao Vasco da Gama o que vai acontecer no Oriente, o que os portugueses vão fazer no Oriente. Agora, estes cantos terceiro e quarto, se os lermos separadamente, temos uma história de Portugal que vai desde Viriato, desde os tempos mais remotos, até ao Dom Manuel e à partida do Vasco da Gama para a Índia em 1497.

E é uma história rigorosa?

Bem, o que é que-

É uma pergunta difícil.

Não, é uma pergunta inapropriada.

É assim, atacas o mudador dessa maneira.

É uma história em que sabemos, porque muita gente se tem dedicado a essa investigação, a que fontes recorreu Camões. Camões não terá inventado nada ali. Desse ponto de vista, é rigoroso no sentido em que não há ali fantasias próprias. Ele recolhe tradições, recolhe aquilo que é dito noutras fontes. Ele trabalhou muito provavelmente sobre fontes que estavam acessíveis no tempo dele. Algumas dessas fontes podem ter sido crônicas escritas, umas mais antigas, outras mais modernas, como aquelas que os reis mandavam escrever para registar os atos próprios ou dos seus antepassados, por exemplo, a crônica de Dom João I, de Fernão Lopes, que já falámos aqui a propósito de 1383 e do Mestre Daviz. Algumas dessas crônicas já estavam impressas em meados do século XVI, outras deviam correr em cópias manuscritas, que deviam estar disponíveis em bibliotecas de famílias nobres ou de conventos. Camões pode ter tido acesso a essas fontes a partir daí. Aliás, os conventos também eram fontes de crônicas, já que todas as ordens religiosas tinham geralmente um monge que estava a pesquisar e a escrever a história da sua ordem. O que eu estou a dizer? Estou a dizer que é uma sociedade, esta sociedade de meados do século XVI, já com muita história, a fazer muita história. A gente a escrever, a investigar, a contar histórias. Já era algo que eles se dedicavam bastante.

Deixa-me só responder uma curiosidade minha, se calhar não sabes responder. Mas há algum desses episódios em que se suponha que "Os Lusíadas" sejam a fonte sobrevivente mais antiga ou tudo o que lá está escrito, na verdade, já tem fontes anteriores?

Geralmente arranja-se outras fontes, arranja-se fontes anteriores para quase tudo. Isso vê-se naquelas edições anotadas dos Lusíadas. O anotador, um erudito, geralmente remete a dizer: "Isto está em fulano tal, isto veio dali, isto veio de acolá, isto estava ali". Portanto, geralmente quase tudo remete para alguma coisa. Creio eu, agora assim de memória, não penso que haja um episódio que diga: "Bem, foi Camões o primeiro a ter escrito isto."

Certo. Daí o argumento que ele não inventou nada.

Ele não inventou. Neste sentido, ele utilizou as fontes. Mas eu estava a falar de crônicas escritas, como Fernão Lopes, Gomes Eanes de Zurara e outros. Mas além desse conhecimento escrito do passado, havia também tradições orais. Isto é, episódios do passado que famílias nobres e talvez também o povo deviam contar aos serões, coisas que tinham passado de pais para filhos. E sabemos que isso acontecia por quê? Sabemos que isso acontecia porque os livros de linhagens da Idade Média, os livros de linhagens são aqueles em que na Idade Média, e depois em épocas posteriores, estão registadas as filiações destas famílias fidalgas, isto é, fulano tal, o pai, o avô, etc., porque era importante para cada família se identificar e identificar os seus parentes e a sua posição dentro das redes familiares da nobreza, que era importante. Fidalgo quer dizer filho d'alguém, portanto era isso. Ora, sabemos que nesses livros de linhagens da Idade Média estão, além das descrições desses parentescos, que estão por vezes associadas a alguns personagens, histórias. Histórias dessas, existem episódios, fulano tal que fez isto, fulano tal que fez aquilo. Há muitas histórias dos livros de linhagens. Aliás, o José Mattoso até os compilou e há uma publicação dessas histórias dos livros de linhagens. Isto é, literalmente, episódios que nas famílias nobres eles contavam em relação aos seus antepassados. O antepassado que matou um urso, o antepassado que lutou ali, o antepassado que matou este ou aquel. Geralmente eram coisas de violência ou às vezes coisas engraçadas também, ditos engraçados.

E que às vezes cruzavam com episódios relevantes da história de Portugal?

Sim, às vezes sim. Às vezes diziam: "Ele tinha estado ali, isto tinha estado acolá, em coisas importantes". Ou tinha estado com o rei, tinha dito isto ao rei, ou tinha feito isto com o rei. Isso estava registrado lá e isso deviam ser histórias que eram contadas dentro destes meios nobres. E depois também sabemos que muito provavelmente a população, o resto da população, também devia contar histórias. Por que sabemos? Porque essa população continuou a contar histórias, lendas associadas a certas localidades ou a certos episódios.

Chegavam até aos dias de hoje, claro.

Sim, e por vezes tudo isso circulava em cantilenas, em coisas rimadas, o que facilitava a sua memorização e a sua transmissão. E sabemos que isso chegou até ao século XIX, ao século XX, quando eruditos, como por exemplo, José Luís de Vasconcelos, se dedicou a andar pelos campos do Portugal continental e também acho que terá ido às ilhas, ou também há recolhas deste folclore nas ilhas. E por vezes essas histórias são histórias que remontam à Idade Média, mas que foram mantidas durante séculos pela população. Antes da televisão, antes da internet, as pessoas tinham de se distrair e distraíam-se contando histórias e confiando na sua memória e em determinadas técnicas de memorização, por exemplo, a maneira como as coisas eram rimadas permitia essa memorização. E portanto, Camões também deve ter tido acesso a estas histórias e alguns dos episódios Também podem ter tido como fonte estas lendas, estas tradições que circulavam. Camões era um nobre, nós sabemos que ele era um nobre. Ele às vezes apresenta-se pobre, mas como diz Jorge Sena: "Um nobre dizer que era pobre, era uma maneira", acho que é esta a expressão do Jorge Sena, "de ordenhar a vaca régia". Eles obviamente queriam subsídios do rei, não iam ao rei.

Estás a dizer que é um subsídio dependente. Camões era um subsídio dependente.

Coitado. Podia dizer, claro, apresentava-se como um pobre, mas era um nobre, aparentado com outras famílias importantes, provavelmente como estes nobres faziam, às vezes eram aparentados verdadeiramente, outras vezes eram imaginariamente. Aproveitavam os apelidos que tinham para se relacionar com famílias importantes que tinham também os mesmos apelidos.

A história de que ele morreu na mais pobreza, não compra.

O Jorge Sena desconfiava disso, até porque a tensa, isto é o subsídio que o rei lhe dá a partir da publicação d'Os Lusíadas, portanto, foi imediatamente, 1572, a publicação de Os Lusíadas é reconhecida, é estimada.

Tensa essa que depois passa para a mãe, razão pela qual se sabe o dia suposto da sua morte.

Sabemos a notícia da morte, porque ele diz que a mãe, falamos aqui disso uma vez, a mãe deve continuar a receber a tensa desde o dia 10 de junho de 1580, quando o filho morreu, mas essa tensa não seria assim tão pequena como às vezes se diz. Agora, o interessante é que Camões, através dos seus parentescos, tem relações familiares com muitos dos personagens d'Os Lusíadas e devia conhecer essas histórias, porque eram histórias de engrandecimento também da família e dele. Deve ter ouvido histórias da nobreza, histórias do povo, porque havia povo nas casas da nobreza, amas, criados, etc, que contavam as suas histórias. Ele devia ter tudo isso presente. Isto é, crônicas escritas como um homem letrado, erudito. Nós não sabemos exatamente onde é que ele foi educado. Há quem especule que teria sido em Coimbra. Não há documentos que comprovem isso, não sabemos. Mas a verdade é que ele tinha uma enorme erudição. É uma das coisas que mais espanta os seus leitores no fim do século XVI na Europa. A extraordinária erudição. O livro Os Lusíadas está cheio de alusões à cultura grega, à cultura latina, à cultura europeia e à história europeia, à história romana. Aquilo impressionou imenso os seus leitores, aliás as alusões são às vezes muito codificadas, só os conhecedores é que perceberiam a alusão. Aquilo deve ter sido lido com delícia por muita gente, como uma espécie de exercício para descodificar alusões. "Ah, espera aí, este é o Apolo" quando ele diz que é o coiso. Aquilo era uma obra impressionante de erudição. Ele era educado, instruído, certamente. Não sabemos como. Mas tinha essa erudição de um latinista, de um erudito, de um estudioso, e tinha também os outros conhecimentos. Agora, o que interessa é o que ele fez com tudo isto. Isto já existia, estas coisas todas, as histórias, os episódios, as lendas, essas coisas já existiam. E agora trata-se de saber como aquilo em que ele é decisivo, não é apenas no fato de os ter recolhido, mas também na maneira como os organizou. Agora vamos então falar disso. O que Camões fez com este fundo de memórias, de histórias, de lendas, o que ele fez à memória do passado de Portugal? Eu diria que ele fez três coisas, e três coisas que foram absolutamente fundamentais. A primeira coisa é a coisa mais simples de perceber, que é: ele fixou em formas memoráveis, isto é, nos seus versos, aqueles que viriam a ser os episódios, as histórias mais célebres da história de Portugal. Aquilo que as pessoas conheciam ou que vão conhecer, vão conhecer também em função d'Os Lusíadas. A história de um país não é apenas uma narrativa, é também episódios, é acontecimentos, é personagens, acontecimentos e personagens que interessam, por várias razões, ou porque são acontecimentos curiosos, ou porque são personagens insólitas, ou porque suscitam fortes sentimentos e reações, isto é, admiração, indignação, comiseração ou até um riso, e por isso são dignos de memória, isto é, as pessoas lembram-se daquilo, porque são boas histórias, portanto, as pessoas lembram-se daquilo. É aquilo que todos ouvimos falar e contamos mesmo quando não sabemos mais nada, mas sabemos mais ou menos estes episódios. São episódios curiosos ou estes personagens curiosos.

E isso está n'Os Lusíadas.

Ora Os Lusíadas têm praticamente todos esses episódios e personagens memoráveis relativos à nossa história até ao século XVI. Não vou fazer aqui uma lista, mas a história de Egas Moniz, a maior parte das pessoas sabe, está contada n'Os Lusíadas. A Batalha e o Milagre de Ourique, que era uma coisa que também toda a gente conhecia, está contada n'Os Lusíadas. O Geraldo Sem Pavor e as suas conquistas lá dos castelos no Alentejo, está n'Os Lusíadas. A Batalha do Salado, que até ao século XVI, era uma grande batalha contra a última grande invasão moura da Península Ibérica no princípio do século XIV. A Batalha do Salado está contada n'Os Lusíadas. A história da Inês de Castro. "Estavas tu, linda Inês, posta em sossego" está contada n'Os Lusíadas. Está contada também em muitos outros lados, mas onde é que ela está contada de maneira que nós nos lembramos até pelos versos? É n'Os Lusíadas. É ali n'Os Lusíadas que aquilo nos impressiona mais. Obviamente, há outras fontes para isso. Há uma tragédia do António Ferreira, também do século XVI, mas provavelmente muito menos lida do que alguma vez foram Os Lusíadas. Os Doze de Inglaterra e o Magriço É dos Lusíadas também, está nos Lusíadas. O Nuno Álvares Pereira, o personagem do Nuno Álvares Pereira está nos Lusíadas, a Batalha de Aljubarrota. E depois, claro, outros episódios que Camões, talvez são episódios literários, mas que ficaram também como parte da memória histórica, quer o Adamastor, quer o Velho do Restelo, são coisas também que nós associamos à história. Portanto, nós sabendo que Os Lusíadas são um dos livros mais publicados e mais continuamente lidos desde o século XVI, praticamente não há nenhum assim. Isto é um livro que tenha sido publicado no século XVI e que tenha sido sempre lido. O Teófilo Braga, no fim do século XIX, contou as edições e contou cerca de 100 edições dos Lusíadas desde o século XVI.

Portanto, interrompemente, sempre a ser editado.

Sempre a ser editado e sempre a ser lido. Não há nenhum outro livro assim.

Nós temos que interromper, o nosso tempo desta primeira parte chegou ao fim, mas voltamos já a seguir. Olá, seja bem-vindo. Volta a esta segunda parte de "O Resto é História". Estamos a falar de Luís de Camões, porque ele, além de um grande poeta, foi também um grande historiador. E o Rui acabou de nos fazer a longa lista de episódios da história de Portugal que estão não só contados nos Lusíadas, mas que estão contados nos Lusíadas da forma como nós muitas vezes nos lembramos ainda hoje.

Os Lusíadas, e repito, constantemente lidos desde o século XVI. Camões não é daqueles autores que tiveram um determinado momento de fama e depois desapareceram durante dois séculos e são descobertos três ou quatro séculos depois. Não, Camões é sempre lido.

E agora tu admites que há uma explosão novamente a partir do século XIX.

Sim, mas é lido no século XVII, lido, no século XVIII, lido, documentado, discutido no século XVIII, é lido, documentado, discutido no século XIX, é lido, documentado, discutido no século XX.

E biografado, já agora.

E biografado, e fantasiosamente biografado. Portanto, é um autor que interessa e constantemente reeditado, anda-se sempre à procura de poemas dele. Ora bem, Os Lusíadas devem ter servido para fixar estes episódios da história de Portugal que eu estava a falar, estes episódios e personagens, e deve ter servido para os fixar nesta memória coletiva, nesta memória primeiro dos seus leitores, dos eruditos, mas depois, através das escolas, depois do século XIX e no século XX, a escolarização da população baseada nos Lusíadas, e portanto passa estes episódios todos.

Mais do que um historiador, tu estás quase a dizer que ele foi o professor de história, o principal professor de história durante muitas gerações.

É ali. E reparem, e agora ia dar exemplo, quando nós pensamos o que nós sabemos de história, e obviamente história até ao século XVI. O que nós sabemos de história quando nós escavamos bem isso, a imagem que nós temos, vamos dar aos Lusíadas. Por exemplo, o que nós sabemos do rei Dom Fernando? O rei Dom Fernando, século XIV. E aposto que a maior parte das pessoas aquilo que sabe é aquilo que está nos Lusíadas. Isto é, um rei que por ser fraco, fez fraca a forte gente. É isso que está associado aos Lusíadas. Ou Dom Dinis também é isso que está associado aos Lusíadas, o rei que povoou e que fez aquelas coisas todas. São as duas estâncias que o Camões nos Lusíadas dedicou ao Dom Dinis. Isto é, os Lusíadas são assim um compêndio do que uma pessoa instruída e culta costumava saber da história de Portugal. Isto é, as pessoas estudavam história de Portugal também e depois a partir do século XIX na escola, mas geralmente era muito provável que aquilo estivesse numa forma muito menos memorável do que os Lusíadas. E mais, que às vezes já fosse um reflexo dos Lusíadas. Isto é, a história que era ensinada já era aquela que estava nos Lusíadas, porque aquilo que tinha interessado na história de Portugal era aquilo que estava nos Lusíadas.

Sendo que ao mesmo tempo, Camões não achava tudo espetacular, ou seja, é uma história crítica já de Portugal.

Não, esse é o segundo ponto que eu iria salientar. Camões fixou esses elementos mais memoráveis do passado da história de Portugal, mas ele fez mais. E aqui vou socorrer-me da análise que Jorge Sena fez da história de Portugal contada nos cantos terceiro e quarto. Nos cantos terceiro e quarto, Camões menciona todos os reis de Portugal, desde Dom Afonso Henriques, o fundador do reino, no século XII, até Dom Manuel I, que era rei no tempo em que Vasco da Gama partiu para a Índia, no fim do século XV, em 1497. Todos os reis são mencionados. Mas Camões não deu a todos os reinados a mesma atenção. Isto é, há reis que têm muitos versos e outros que têm muito poucos. Ora, é importante perceber essa distribuição, e acho que foi o Jorge Sena que chamou a atenção para isso. Camões dedicou a maior parte dos versos a dois reis: Dom Afonso Henriques e Dom João I. Ou seja, Camões não contou a história como uma sucessão de reis e de acontecimentos em que todos tivessem mais ou menos a mesma importância, como um fluxo sempre igual. Vem este, e depois vem aquele, e depois vem aquele.

Este tem duas estâncias, aquele tem duas estâncias.

Camões impôs, ao tratar de maneira desigual os reis de Portugal, Camões impôs uma espécie de estrutura à narrativa da história de Portugal.

De uma hierarquia, precisamente.

Sim, uma estrutura, focando-se em dois momentos a que deu um sentido determinante. Quais são esses momentos? É o tempo de Dom Afonso Henriques, o primeiro rei, o vencedor da Batalha de Ourique, o conquistador de Lisboa. E depois, o outro tempo é o tempo de Dom João I, o rei que impediu o reino de Portugal de passar a ser parte da monarquia castelhana, disputando o trono de Portugal ao rei de Castela, que venceu numa grande batalha em 1385, em Aljubarrota. E além disso, o rei que iniciou a expansão ultramarina dos portugueses com a conquista de Ceuta em 1415. Ou seja, na história contada por Camões, há o momento da fundação do reino, por Dom Afonso Henriques, e depois o momento da refundação, uma espécie de segunda fundação do reino por Dom João I, que definitivamente vinca a autonomia do reino de Portugal em relação aos outros reinos da península Ibérica e lhe dá um novo sentido, que é o sentido da expansão ultramarina. Este é um novo momento. Se nós formos ver a maneira como a história de Portugal é desenvolvida depois de Camões, vemos que esses dois momentos, o momento da fundação do século XII, do Afonso Henriques, e o momento da refundação de Dom João I, no século XIV, XV, são aqueles também que vão mais intensamente interessar os historiadores, que vão suscitar mais investigação, que vão suscitar mais debate, fundação no século XII, refundação no século XIV, XV, chamemos assim.

Mas não por causa de Camões necessariamente, ou seja, é porque são mesmo os momentos mais interessantes. Não sabes?

Não por causa de Camões tê-los selecionado. Há este olhar camoniano sobre a história de Portugal. Isto não quer dizer que tenha sido Camões a inventar isso, há outras fontes que também chamam a atenção, mas o facto de, repito, ter sido "Os Lusíadas" o livro que toda a gente culta leu no século XVI, século XVII, século XVIII, século XIX, é muito provável que tenha sido o livro que mais contribuiu, a fonte, portanto, que mais contribuiu para dar esta estrutura à narrativa da história de Portugal. Ele deve ter contribuído fortemente para fixar a atenção do público culto e dos historiadores nesses dois momentos, século XII e século XIV, como épocas fundamentais, épocas que dão forma e sentido ao que de outra maneira seria apenas uma espécie de sucessão enorme de acontecimentos, como se fosse uma cronologia. Isto, isto e depois mais aquilo e mais aquilo outro. E de personagens, veio este e depois mais aquele e mais aquele outro. Camões, ao fazer esta seleção, ao criar estes dois momentos, obviamente que este segundo momento, o momento da refundação, tinha também a ver com a dinastia. Camões está a escrever, na segunda metade do século XVI, sobre uma dinastia que começou com Dom João I, aquilo que nós chamamos a dinastia de Avis. Ele está a dar também importância ao momento em que a família que está a reinar em Portugal chegou ao trono e que lhe vai pagar a tensa.

Não sejamos injustos.

E que lhe vai pagar a tensa.

Peço desculpa aí se ficamos-

Ele também tem essa atenção, são os reis que estão no trono, que são descendentes do primeiro rei, mas que geralmente é um ramo da família que ascendeu quando Dom João primeiro-

Mas passado estes séculos todos, nós continuamos a olhar pra lá e a chamar-lhe a ínclita geração.

Quem é que lhe chamou a ínclita geração? Camões. Nós usamos expressões constantemente. Nos livros de história, sobretudo nos livros de história do século XIX e do século XX, o que nós podemos chamar os clássicos da historiografia contemporânea portuguesa, nós vemos constantemente referências aos Lusíadas, às vezes sem indicar Camões. Não é preciso dizer: "A ínclita geração, como diz Camões." Não é preciso dizer "como diz Camões", toda gente sabe que foi Camões que disse. Repito, se havia um livro que todos os portugueses cultos, os portugueses que passavam pelas escolas, os portugueses que depois queriam mostrar cultura literária, liam, ou pelo menos folheavam, ou pelo menos tinham acesso, era "Os Lusíadas", era a Bíblia da literatura portuguesa. Nada disto é espantoso, que tenha sido Camões, se não foi o inventor, foi ele que impôs aqueles padrões, determinados padrões. Esta maneira de olhar pra história de Portugal, em que há uma fundação, um momento de fundação, uma origem, e depois há um momento em que o reino é fundado outra vez, é confirmada a independência do país e é lhe dado um novo horizonte, que aliás decorre também do trabalho de reconquista do reino que tinha sido iniciado pelo primeiro rei de Portugal. Numa certa medida, a passagem para aqueles que são os Algarves de além-mar, há uma certa continuidade na reconquista cristã da península Ibérica. Essa ideia de que, de repente, o reino tem este outro horizonte, o horizonte da expansão ultramarina, não chega só até o Algarve, vai passar depois para Ceuta, Tânger, as praças do norte da África e depois com as navegações, vai chegar ao Oriente. E que isso começa no fim do século XIV, princípio do século XV, com esta nova dinastia, com Dom João I, com os seus filhos, com os infantes da ínclita geração, Dom Henrique, Dom Pedro, o Infante Santo Dom Fernando, o Rei Dom Duarte. Essa ideia é uma ideia que nós podíamos ir buscar a outras fontes Se se tivesse estado apenas noutras fontes, provavelmente era uma ideia que não se teria imposto à consciência literária do país como foi através d'"Os Lusíadas". Se fosse preciso ler Gomes Eanes de Zurara, se fosse preciso ler Damião de Góis, se fosse preciso ler João de Barros, se fosse preciso ler esses outros cronistas e outros autores para vir a saber isto, provavelmente nós não sabíamos, ou sabiam poucas pessoas. Não, está naquele que é o livro síntese e aquele livro que se pretende como o grande livro sobre "Os Lusíadas" e sobre os portugueses. E, portanto, é daí que parte, que vai para a cultura erudita, para a cultura média letrada, a partir do fim do século XVI, princípio do século XVII, estas ideias. Mas falámos de duas ideias, falta falar de uma terceira coisa tão importante como estas duas.

Faz lá como um bom professor, um resumo. Portanto, a primeira ideia é que ele fixa os acontecimentos memoráveis.

A primeira ideia é que ele fixa estes episódios e personagens, Egas Moniz, os Doze de Inglaterra, essas coisas que as pessoas sabiam.

A segunda ideia é que ele estruturou e hierarquiza.

Isto é, deu uma estrutura à narrativa, não se limitou a contar uma coisa atrás da outra. Deu uma estrutura que criou esses dois pontos, esses dois momentos fundamentais para perceber a história. Fica-se a perceber a história. Fundação, no sentido de autonomia em relação aos outros reinos da península Ibérica, e depois expansão, um reino que se expande.

Contou as coisas e mostrou a importância que cada uma delas tinha.

Cada uma tinha e criou uma estrutura, as pessoas sabem contar a história de Portugal dando-lhe inteligibilidade, não é apenas uma sequência de factos em que todos valem a mesma coisa.

E qual é a terceira coisa, então?

A terceira coisa, tão importante como estas duas, tem a ver com algo que os eruditos também notaram sempre. Isto é, que "Os Lusíadas" são uma obra de arquitetura literária extraordinariamente complexa. Têm várias linhas narrativas que vão sendo entrelaçadas pelo autor. Uma delas é a viagem de Vasco da Gama até à Índia, outra é a das intrigas dos deuses, deuses da mitologia grega e romana. Claro, para além daquilo que nós já dissemos, a história de Portugal até ao século XV e depois a história dos portugueses no Oriente, durante o século XVI, isto é, contada em profecia a Vasco da Gama, porque ainda não aconteceu. O tempo de "Os Lusíadas" é o tempo da viagem de Vasco da Gama, mas contam a história do que vai acontecer na Índia, Dom Francisco de Almeida, o Afonso de Albuquerque, e companhia. E isso é contado através de profecias, através de personagens que têm sonhos ou a quem são revelados aquilo que vai acontecer.

Também há flash forwards, além de flashbacks.

Sim, e há outra coisa também, que o próprio Camões também faz uma profecia do que é que pode acontecer. Camões nos "Lusíadas" dirige-se a um rei, esse rei é Dom Sebastião, e ele também pensa que esse rei pode vir a iniciar conquistas no norte de África e também as profetiza. E até diz que estará pronto para as cantar, para fazer também outra epopeia, se as coisas correrem bem, como ele espera que vão correr e não correram. Como se sabe, em 1578, seis anos depois da publicação de "Os Lusíadas", as coisas não correram tão bem. Mas a viagem de Vasco da Gama é o tema de "Os Lusíadas" e é fundamental, por quê? É fundamental porque dá à história de Portugal um sentido universal, que é o sentido da unificação do mundo conseguida pela nova relação que Vasco da Gama vai estabelecer, e que os portugueses vão estabelecer, entre o Ocidente e o Oriente. Eles vão estabelecer este caminho marítimo para a Índia, como se costuma dizer. É uma nova relação, uma unificação do mundo. E as intrigas dos deuses à volta da viagem, aquela fantasia pagã consentida como recurso literário numa obra cristã e de providencialismo até cristão. Essas intrigas dos deuses servem nos "Lusíadas" para Camões acentuar este caráter transformador, cósmico da viagem de Vasco da Gama. Faz com que os deuses se reúnam para discutir essa viagem, o que vai acontecer por essa viagem. É uma transformação do mundo e os deuses percebem que o mundo não vai ficar o mesmo depois da viagem de Vasco da Gama e o mundo vai mudar, os portugueses vão ser os agentes dessa mudança e por isso os deuses reúnem-se em concílio, o concílio dos deuses, logo no canto primeiro, e depois há outras reuniões a seguir, em que os deuses discutem e há quem ache que esse projeto dos portugueses não deve ser favorecido, como Baco, que julga que vai perder a ascendência que tem no Oriente, e há outros deuses que querem que os portugueses pelo menos não sofram obstáculos, como é o caso de Vénus, que é protetora. Obviamente, isto é um recurso literário que Camões foi buscar às fontes clássicas, à "Eneida", em que também há esta intriga de deuses, mas aquilo serve-lhe para acentuar esta enorme dimensão não apenas histórica. Mas cósmica, transformadora da viagem de Vasco da Gama. Aliás, no fim, no canto décimo, a ninfa, a Tétis, revela a Vasco da Gama a visão daquilo que é chamada a grande máquina do mundo, a harmonia do mundo, dá-lhe uma visão do mundo. Portanto, os portugueses estão a relacionar o Ocidente e o Oriente e, ao mesmo tempo, isso é um meio para adquirir essa consciência do mundo, da maneira como o mundo funciona, que é um mundo harmonioso, regulado pelo amor. Portanto, Camões dá um sentido providencialista, que depois pode ser interpretado em termos de filosofia da história, de uma filosofia materialista da história, dá este sentido providencialista à história de Portugal. Isto é, os portugueses, os habitantes deste pequeno reino na extremidade ocidental da Europa, têm esta grande missão no mundo, a de substituir o mundo antigo por um mundo novo, o que faz com que a sua história, a história dos portugueses, tenha uma relevância universal e também moral. Não interessa apenas aos portugueses, interessa a toda a gente, interessa a toda a humanidade. Isto é outra coisa que "Os Lusíadas" fazem à história de Portugal, dar-lhe esta imensa dimensão universal. A história de Portugal é a história universal. Não é só a história dos portugueses. A história dos portugueses é a história de toda a gente. Mais uma vez repito, isto não é só uma ideia que Camões tenha tido. Esta perspectiva da universalidade daquilo que os portugueses conseguiram está em outros escritores do século XVI, portugueses, como João de Barros, nas décadas da Ásia, começadas a publicar em 1552, portanto 20 anos antes da publicação de "Os Lusíadas", mas é uma ideia muito moderna, que teve um enorme impacto na maneira como os portugueses, a partir do século XVI e XVII, se vão relacionar com a história de Portugal. A história de Portugal não é apenas para eles um fundo de memórias relativas aos seus antepassados, mas é também algo que dá sentido à existência de Portugal, que justifica a existência de Portugal como comunidade independente, legitima essa existência. Não lhes dá apenas um sentimento de orgulho: "Os nossos antepassados fizeram isto ou aquilo." Não, diz: "A existência deste reino, Portugal, faz sentido, tem um sentido na história universal." Há aqui um sentido. É verdade que é um sentido com dúvidas. Não esquece o velho do Restelo que aparece a dizer que se calhar isto não é uma grande ideia ir lá para o Oriente, ir para tão longe. Mas é algo que permite aos portugueses relacionarem-se com o tempo e dizerem: "Nós pelo menos uma vez fizemos sentido." E isso é algo que Camões transmite e é nesse sentido que se tem de dizer que é um grande historiador ou foi um grande professor de história de Portugal.

Muito bem. Bom, e assim termina esta edição de "O Resto é História". Nós voltamos para a semana. Até lá.