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Eventos d'Hore na Rádio Observador e também em vídeo no YouTube, hoje com a Judite França, a Raquel Bocasis e o António Costa. Eu sou o Ricardo Conceição. Hoje temos de ir à entrevista de Pedro Passos Coelho deste domingo na SIC Notícias, mas também vamos ter outros temas, como por exemplo, o facto de Rita Matias e Madalena Cordeiro, deputadas do Chega, acompanhadas por militantes do partido, terem invadido hoje a RUC, a Rádio Universidade de Coimbra, porque estavam proibidas de entrar pela Associação Académica, que considera que o Chega é um partido antidemocrático, portanto, não quer representantes do Chega dentro de instalações da Associação Académica, e a RUC pertence à Associação Académica. Mas já lá vamos a esta história, porque também temos uma manifestação no Porto, que só terminou esta manhã com a intervenção da polícia, um acampamento, e ainda vamos falar sobre o Prêmio Nobel da Economia, que é repartido entre dois investigadores norte-americanos, Robert E. Hall e Michael Woodford. Vamos tentar perceber o porquê do Nobel da Economia para estes dois investigadores. Mas começamos pela entrevista de Pedro Passos Coelho. Raquel Bocasis, queres começar por que ponta da entrevista?
Eu quero começar por louvar o facto de esta entrevista ter clarificado sem rodriginhos a que é que vai Pedro Passos Coelho. Acho que ele explicou-se bem e não fugiu à pergunta de quais são as intenções que tem e o que é que faria ou fará no dia em que vier a ter a oportunidade de ir outra vez a eleições, e na expectativa dele, imagino eu, acho que essa foi a única pergunta que ficou por responder, é o que é que faria se à frente do PSD, perdendo as eleições, com o Chega à frente, se mantinha essa disponibilidade para um grande entendimento à direita governativo para fazer as mudanças que o país precisa. Mas eu acho que, goste-se ou não, Passos Coelho é coerente. Foi mais uma vez coerente, disse sem nenhuma cerimônia qual é a avaliação que faz desde os tempos em que deixou de ser primeiro-ministro nos últimos anos, e incluiu nisso o governo do seu partido. Disse claramente que o primeiro ano da governação Montenegro foi um ano perdido, que depois tenuemente tentou fazer coisas que do ponto de vista dele deveriam ter sido feitas logo no primeiro ano de governação. Defendeu também claramente que a sua opção seria por um governo de coligação ou de entendimento com o Chega e com a Iniciativa Liberal, e deixou claro que se as circunstâncias proporcionarem, ele estará cá. E eu acho que isso é importante, porque nós vivemos há mais de um ano, ou mais talvez, há dois anos, há três anos, nem sei, semanalmente, quinzenalmente, mensalmente, a ouvir intervenções de Pedro Passos Coelho e a ser chamados, nós em particular, que andamos aqui no comentário, a ler nas entrelinhas e a tentar adivinhar o que é que Passos Coelho quer fazer. Agora já não há mais dúvidas. E, portanto, nesse sentido, eu acho que a Maria João Ávila está de parabéns, porque conseguiu clarificar essa grande dúvida que pairava sobre o país há muitos meses, há muitos anos. Conseguiu deixar as coisas em pratos limpos. E Passos Coelho, eu acho que também, porque ele sabe os riscos que corria e assumiu esses riscos e deixou o aviso que não está a andar por aí, está mesmo cá e está mesmo a ver o que é que vai acontecer. Na perspectiva dele, o que vai acontecer não vai ser bom para este governo.
E achas que Luís Montenegro e Hugo Soares estavam juntos a ver a entrevista?
Com um balde de pipocas.
Não sei se estavam com um balde de pipocas. Se calhar estavam com aquelas pastilhas para a azia muito conhecidas.
Acho que há uma grande probabilidade de terem estado juntos a ver a entrevista e a decidir como reagir ou não reagir. No dia seguinte, aparentemente, a opção foi por não reagir e por deixar, mais uma vez, Passos Coelho com a última palavra e deixando no ar esta ideia de que não gostaram do que ouviram. Mas eu também acho que se estamos num tempo de franqueza, mais valia dizerem que não gostaram do que ouviram.
O Pinto Luz veio hoje, esta tarde.
Veio dizer mais do mesmo, que gosta muito dos dois, trabalhou com os dois. Acho que já não estamos em tempos, e acho que sobretudo a clareza de Passos Coelho exige do outro lado clareza também e que se jogue limpo. Eu acho que Passos Coelho tem o mérito, a partir de ontem, de ter começado a jogar limpo. E eu acho que a partir deste momento, ele tem margem para continuar a fazer as suas intervenções e a dizer o que pensa, sem que isso cause discussões sobre quais é que são as suas intenções. Já sabemos quais são as suas intenções. Deixa-me só dizer mais uma coisa, não sei se depois temos outra ronda.
Sim, temos de ter, sim. Depende do António e da Judite.
Não quero monopolizar a conversa, mas gostava ainda de dizer mais alguma coisa.
Ainda vamos à segunda ronda.
Se pensarmos que ainda há 15 dias Pedro Passos Coelho tinha dito que o hipotético regresso à política ativa não estava em cima da mesa, de facto esta entrevista foi uma grande novidade, no sentido de dizer que está disponível para regressar. É verdade que na entrevista ao "Eco" já tinha dito que não rejeitava nenhuma hipótese. Acho que a frase era essa. Não rejeitava nada do que pudesse fazer ou do que estivesse ao seu alcance fazer.
E que diria se quisesse regressar e que só regressaria se isto corresse muito mal.
Sim, e de facto foi isso.
Que é o que ele diz agora.
Pois, é o que ele diz agora. Eu sei que o não é não ao Chega, a questão de se podia o PSD fazer um acordo, uma aliança, uma estratégia com o Chega e com a Iniciativa Liberal. E muito se diz que o não é não ao Chega, foi isso que levou Luís Montenegro à primeira vitória.
Eu tenho poucas dúvidas sobre isso.
Eu tenho dúvidas sobre isso, por acaso, porque eu não sei se sem esse não é não, talvez alguns dos votos do Chega tivessem fixado no PSD.
Não foi isso que aconteceu com o antecessor de Luís Montenegro, se bem nos lembramos.
Mas eu acho que o problema era Rui Rio, não era Rui Rio com o Chega.
Não, mas era Rui Rio que abriu a porta. Há até inquéritos feitos de sondagens eleitorais, de estudos eleitorais sobre o comportamento do eleitorado, que mostram que a maioria absoluta de António Costa se faz no dia em que Rui Rio deixa no ar a dúvida sobre se vai ou não fazer um entendimento com o Chega.
Eu acho que no caso de Luís Montenegro, não sei se não lhe teria sido mais favorável do que aquela margem mínima que teve em relação a Pedro Nuno Santos. Não sei. Acho que não podemos dar por certo. Agora, de facto, Pedro Passos Coelho foi bastante mauzinho com Luís Montenegro. Comparou com António Costa, disse que basicamente ele não fez nada, geriu o dia a dia como geriu António Costa, empurrou os problemas com a barriga. Aí convém não esquecer que essa gestão do dia a dia de António Costa é que lhe deu a maioria absoluta. Não sei se foi Rui Rio que deu a maioria absoluta a António Costa, se foi António Costa com a sua gestão diária.
Passos Coelho também diz isso na entrevista.
Portanto, não sei se de facto as pessoas querem tantas reformas como Pedro Passos Coelho acredita que queiram. Não sei. Eu acho que, de facto, é difícil pensar nos cenários com que Pedro Passos Coelho possa voltar, porque em todos os cenários, uma das coisas é certa: Pedro Passos Coelho só liderará se for o primeiro a vencer. É a sua regra de ouro. Aliás, critica tanto o facto de ter sido exatamente o contrário do que António Costa fez.
Seria um pouco estranho se fosse ele o vice-primeiro-ministro de André Ventura.
Seria muito estranho. Eu acho que Passos não quer ir a eleições internas contra Luís Montenegro, isso parece-me mais ou menos evidente. E também só será primeiro-ministro se vencer eleições. Portanto, eu acho que acredita que o governo não chega até o fim, e ainda assim, os cenários têm de cumprir essa exigência que sempre fez aos outros, que é: governa quem fica em primeiro lugar.
António. Olha, eu vou discordar aqui da Raquel numa coisa. Eu acho que os pratos já estão bastante limpos. Eu bem sei que as televisões têm um efeito mais impactante. Vamos ver. Mas eu vou recordar o título, que de resto eu próprio fiz, às vezes obrigam-me a este product placement. No jornal "Eco".
A persistência tem um significado.
Para utilizar a expressão do Ricardo, a clareza reflete um bocadinho mais, desenvolveu um bocadinho mais as condições em que poderia regressar. E eu confesso, não consigo retirar uma conclusão daquilo que vou dizer, se foi uma coincidência, se foi um acaso. Pedro Passos Coelho não disse que se corresse mal e se Luís Montenegro saísse. Não pôs esse cenário. Normalmente, Pedro Passos Coelho pensa Obviamente pensa no que diz e admito, mas posso estar a ter uma leitura se calhar muito fina, tão fina que às tantas estou a ler o que não está lá, que o próprio já admite concorrer contra Luís Montenegro. Seria isso, sim, uma novidade, porque sempre deixou perceber que seria na sequência da saída do atual primeiro-ministro e que não iria entrar numa luta interna pelo poder.
Mas pareceu-te que está disposto a isso?
Por omissão. E estou a tentar ler aqui alguma coisa de diferente face ao que o próprio diz.
Que é tão taxativo na forma como diz: "Se as coisas correrem mal, isso será necessário."
Mas já disse isso também. E onde é que eu noto também, apesar de tudo, uma diferença face ao que tem dito nos últimos meses? O elogio a André Ventura.
Foi muito doce ou macio.
Foi muito elogioso. Sobretudo para quem também fez uma avaliação tão crítica, até classificando de disparatada aquela proposta das pensões. Enfim, poderíamos, se calhar, eu próprio e Pedro Passos Coelho, poderíamos encontrar outras propostas disparatadas de André Ventura. Mesmo assim, decidiu fazer-lhe aquele elogio. O que eu retiro disto? Vamos lá ver. Por um lado, retiro a ideia de que Pedro Passos Coelho está a avaliar se em algum momento vai ter que pensar mesmo nisto. Eu acho que o comentário publicado quer mais a regressar de Pedro Passos Coelho do que ele próprio, porque eu acho que isto seria uma animação. E, portanto, acho que isto também é muito revelador da leitura que se fez da entrevista, a notícia que saiu, a mais importante, em todos os jornais, é: Pedro Passos Coelho está disponível para regressar. Quando eu, por exemplo, olho para a crítica que faz a António José Seguro, e é obviamente muito dura, já temos meses de presidência. E quando é tão taxativo no desastre na saúde. Ouvimo-lo pouco falar de políticas públicas. Ouvimo-lo falar, e a entrevista é muito bem conduzida do ponto de vista político, mas não de políticas, e nós não sabemos o que, por exemplo, quando Pedro Passos Coelho diz: "Na saúde não se fez nada e o Estado perdeu as condições para recuperar o Serviço Nacional de Saúde." O que faria? Foi pena não ter sido desenvolvido.
Essa é outra parte da entrevista, e acho que vamos ter mais entrevistas daqui para a frente. Mas, Raquel Cassis, que nota tens e para quem? É para o próprio?
É para o próprio. Se calhar para o próprio e para a entrevistadora, eu acho que dou um 15 aos dois. Mas queria só ainda dizer mais uma coisa sobre a entrevista, porque para mim ontem isso soou muito claro, que é o facto contraditório de Pedro Passos Coelho ter governado o país numa altura muito difícil, mas provavelmente nas circunstâncias ideais para um homem como ele e que encara a política e aquilo que é preciso fazer no país como Pedro Passos Coelho encara. E fiquei com essa ideia, exatamente porque não há aquele travão de não se poderem fazer as coisas porque se estava numa situação de emergência. E lembra-nos todos que ele fazia questão de ser ele a vir dar as más notícias aos portugueses. Portanto, ele criou muito essa imagem. E eu ontem estava a ouvir aquilo e estava a pensar e a perguntar-me como é que este Pedro Passos Coelho, que ganhou esta experiência como primeiro-ministro, conseguiria fazer aquilo que ele acha que deve ser feito num contexto em que não estamos de baixo.
De normalidade.
Exato, num contexto de normalidade. Porque ele é quase um antipolítico na forma como acha que se deve governar. Enfim, fiquei com essa interrogação.
Na forma como comunica e como defende.
Exatamente, e como acha que devem-se colocar as coisas em cima da mesa. Quer dizer, todos nós sabemos que apesar dos portugueses passarem o dia a dizer que é preciso reformas e é preciso mudar, qualquer ínfima mudança que se queira fazer cai o Carmo e a Trindade, ninguém quer, e este é um povo que, já lá vamos depois nos outros temas falar disso, não quer mudanças nenhumas. E o primeiro a não querer mudanças nenhumas, porque não são populares, chama-se André Ventura e o seu partido. E portanto, tudo aquilo parece uma boa ideia, mas eu vejo grandes dificuldades de execução, a não ser que tivéssemos aqui uma nova troica, que apesar de tudo, acho que ele não estava a prever isso.
Eu catoco Pedro Passos Coelho pela coerência, pela consistência, sobretudo também tenho uma leitura diferente do que tenho ouvido sobre a ideia que Pedro Passos Coelho quer dar protagonismo ao Chega. Na verdade, é uma ironia também, outra, porque acusa este governo de ter aprendido com António Costa a gerir ciclos políticos. Na verdade, também me parece que Pedro Passos Coelho aprendeu com António Costa a devorar partidos ao seu lado. Neste caso, o PS com o Bloco de Esquerda e com o PC. E o que me parece, de facto, é que Pedro Passos Coelho se convence.
Se aparecer, esvazia o Chega.
Mais do que esvazia, é o abraço de urso. Abraça, traz e controla, porque só isso é que torna compatível dizer isso e perceber ao mesmo tempo que o Chega é André Ventura e que tem ali medidas que obviamente o próprio já classificou de disparatadas.
E tem que mostrar o que vale numa situação de governo.
Que esse quadro mental em que Pedro Passos Coelho está a trabalhar, que no fundo é ser o líder da direita, chamem-lhe centro-direita, direita radical, está inerente ao que é um próximo ciclo político. Vamos ver num quadro que também é interessante, mesmo pra terminar. O PSD e a AD estão consecutivamente e consistentemente em terceiro lugar nas sondagens. Vamos ver o momento de não retorno a esse momento, isto é, o momento em que os portugueses veem tantas vezes, durante tantos meses, tantas semanas, se isso vier a acontecer e se o governo não for capaz de inverter, que é normal, que é o que está e, portanto, a decisão se calhar é entre o PS e o Chega. E nesse caso, eu acho que Pedro Passos Coelho, que diz e percebe-se até no ar, bem consigo mesmo, de certeza que não vai voltar pra ser vice-primeiro-ministro de André Ventura.
Isso não, de certeza. Eu vou dar um 14 à entrevista.
E queres falar também sobre um caso que aconteceu hoje de duas deputadas do Chega que entraram pela RUC, a Rádio Universitária de Coimbra, onde estava a decorrer um debate sobre o orçamento do Estado. Ora, a RUC permitia a participação do Chega por via digital, mas não autoriza a entrada de militantes do Chega nas suas próprias instalações.
Quem não autoriza é a Associação Académica de Coimbra.
Que é a dona da RUC.
Que é onde a RUC está sediada, é dona da RUC. Dona, não sei se diz dona.
Sim.
E a Associação Académica de Coimbra tinha decidido em fevereiro, em Assembleia Magna, proibir o Chega de participar em eventos e de entrar nas instalações. Uma votação esmagadora, 273 contra três contra, portanto uma votação esmagadora.
Uma reveladora do estado do ensino e da academia neste nosso país.
A RUC tem estúdios na Associação Académica, decidiu fazer um debate com as juventudes partidárias e convidou uma série de juventudes partidárias, Livro, JS, JSD, IL, aparentemente não convidou a JCP, pelo menos não está na lista. O Chega foi convidado por via digital.
O que também é uma contradição com a decisão que tinham tomado, que se era impedido de participar em eventos, mesmo que à distância, era pra participar.
Pensarão que têm alguma doença transmissível pela presença?
Não sei se era participar em eventos da Associação Académica e não da RUC.
E vai daí...
E vai daí, Rita Matias e Manuela Cordeiro, que são deputadas, Madalena Cordeiro, perdão. Entrar mais 17 jovens.
E o filho da Rita Matias também ia ou não?
Não, jovens, mas não tão jovens. Rita Matias chegou a pegar no microfone, e há imagens disso, o Chega filmou e publicou essas imagens, e a emissão foi cortada. Quando é que o partido que reclama ordem, propriedade privada, etcetera, saiu das instalações? Quando chegou a PSP. Portanto, foram precisos três agentes da PSP para, ao fim de uma hora, as deputadas saírem. Eu só queria dizer o seguinte: a Associação Académica de Coimbra decidiu pela não participação do Chega nos seus eventos e nas suas instalações. A Associação Académica de Coimbra é uma instituição privada. E como instituição privada, pode decidir aquilo que lhe vai apetecer. É estranho, no entanto, que não permita, mesmo que seja à distância, enfim, não sei. Deveria haver aqui uma cláusula de exceção, porque a RUC é um órgão de informação e, como órgão de informação, pode querer convidar o Chega para ter todo o ponto de vista sobre um determinado tema e está proibido de o fazer. Portanto, eu acho que eles aqui têm um problema pra resolver. Resolveram assim.
Porque acusam o Chega de ser antidemocrático.
Porque acusam o Chega de ser antidemocrático. Tem alguma graça, não é?
Tem muita graça.
Tem muita graça.
Qualquer uma das nossas rádios não poderia fazer isso. A ERC não deixava.
Teríamos a ERC à perna.
Não sei porque o Chega participou ou podia participar, não é? Mesmo que à distância.
Não podia era estar lá.
Não podia era estar lá, porque a seção acadêmica não deixa.
Tens aí uma nota?
Eu vou dar à seção acadêmica, que acha que o Chega é antidemocrático e faz isto, dou um seis.
Raquel, também queres falar de uma ação policial?
É, também quero, porque nós em Portugal temos o triste hábito de não sermos originais em quase nada e copiarmos tarde e a más horas aquilo que vamos vendo na televisão e nas redes sociais que acontece nos outros países. E portanto, há uns jovens que decidiram ir agora manifestar-se e montar as tendas no Porto. Hoje foram levantadas as tendas, mas há bocado estava a olhar pro ecrã da televisão e parece-me que já estão a montar tendas outra vez. E portanto, eu acho que se está a preparar aqui o caldo pra termos em versão nacional aquilo que vimos nos últimos dias em França e em Espanha. E aquilo que me preocupa é que independentemente da justeza das causas da educação e da habitação, aquilo que nós vimos em Espanha e em França não foi nada disso. E temo que aqui também não vamos ver nada disso, até porque acho que aqueles partidos à esquerda que sofreram o abraço do urso do doutor António Costa, como o António há bocado dizia, veem aqui um nicho da oportunidade de recuperarem visibilidade e portanto estarem também a instrumentalizar este tipo de manifestações para as quais nós olhamos, e aqui em Portugal também já estamos a ver isso, estes dias no Porto já se viu isso, e vês muitas bandeiras, mas nenhuma do país. Vês bandeiras da Palestina, vês lenços que é Fies do Arafat, vês essas coisas todas. E eu acho que nada contra copiarmos as coisas que vemos lá fora, até uma certa inquietação da sociedade civil, que eu acho que há pouco em Portugal. Mas é pena que copiemos só aquilo que não tem, de facto, nenhum resultado, nem traz nada de bom para o país. E, portanto, eu a estes manifestantes e àquilo que eles mostram que vão fazer nos próximos dias, dou um dois.
António, vamos terminar com o Prêmio Nobel de Economia.
Rapidamente, a mim sobram-me sempre aquelas coisas que tens um minuto.
Ainda tens, nós falámos rapidíssimo.
Tens três minutos e meio.
Três minutos e meio. O Prêmio Nobel de Economia foi entregue a dois professores universitários americanos, um de Stanford, outro de Columbia. Enfim, leva-me a crer que a escolha não é por acaso, isto é, não que é por acaso, mas tem um enquadramento com o que se está a discutir hoje no mundo e na política americana também. A escolha para, como tu dizias, Robert Hall e Michael Woodford, é pelos estudos que fizeram sobre o impacto de políticas orçamentais e de medidas de apoio, por um lado.
Taxas de juro, por exemplo.
Taxas de juro. Robert Hall com política orçamental e medidas diretas de apoio, Michael Woodford pela política monetária e a decisão dos bancos centrais. Por um lado, Hall sublinha a necessidade de avaliação sobre o efeito de dar subsídios e a conclusão ou a avaliação se esses subsídios são ou não logo utilizados em consumo, que é muitas vezes o que fazem os governos é: damos aqui um apoio, um cheque, as pessoas usam logo o dinheiro, anima a economia para ajudar as próprias famílias. Por outro lado, da política monetária, tem a ver com o que se chama forward guidance, que é no fundo a gestão das expectativas, quando um banco central deixa perceber que a prazo se prepara para subir juros ou para descer juros, ou para mexer na política monetária. E o estudo destes dois professores, estudos dos últimos 30 a 40 anos, e por isso não é provavelmente um trabalho do último ano ou dos últimos dois anos, ou dos últimos três, daí eu concluir que tenha, obviamente, um significado político, no sentido, digamos, mais nobre do termo, cita dois temas: credibilidade das políticas e a avaliação dessa credibilidade e duração das políticas. Conclui, nomeadamente, sobre as políticas orçamentais, é interessante que políticas orçamentais de duração curta, regra geral, fazem com que os beneficiados, a não ser em caso de necessidade, como é óbvio, com famílias que não têm outra solução, poupem uma parte e consumam e gastem outra. A não ser, obviamente, estamos a falar de famílias que têm mesmo que gastar porque não têm outra alternativa. No caso de política monetária, e portanto, conclui que apoios momentâneos não terão os efeitos econômicos que por vezes os governos esperam. Por outro lado, na política monetária, sublinham muito Michael Woodford, o efeito precisamente da gestão de expectativas quando um governo, um banco central antecipa, não antecipa a descida de juros. Isto coincide com política orçamental muito expansionista no mundo, diria no mundo ocidental e nos Estados Unidos, e quando o BCE e a Fed estão neste momento a discutir precisamente subidas de juros por causa da inflação. Ora, o que se retira daqui nesta escolha, basicamente, é que os governos e os bancos centrais devem mesmo avaliar de forma muito cuidadosa, quer apoios, quer decisões de política monetária e os resultados esperados, porque nem sempre são os óbvios.
E dentro do tempo. Muito bem, António. Incrível. Parabéns.
Que nota dá ao António?
18 pro António. Agora foi, terminou ali no segundo certo. E amanhã mais "E o Vencedor É?", nas manhãs 360, amanhã com o Miguel Santos Raposo e a Helena Matos, que se juntam ao Paulo Ferreira e ao Bruno Vieira Amaral.