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Começa agora uma nova edição do "Youven Sorê". Esta manhã estão conosco e com o José Manuel Fernandes, a Helena Mattos e o Miguel Santos Carrapatoso.

Carla.

E hoje falamos de bancos de sentar e de calçado pra andar, mas vamos começar com o estudo sobre a raspadinha, que é apresentado esta manhã e ao qual também já temos estado a dar destaque. Miguel, vamos começar por ti, o que queres destacar destas conclusões?

Antes de mais, nós só estamos aqui numa situação um pouco menos dramática porque o governo recuou naquela ideia brilhante de criar uma raspadinha para financiar o patrimônio. O que nos mostra este estudo? Aquilo que talvez de forma empírica todos soubéssemos, que quem gasta mais neste tipo de jogos são os mais pobres e os mais velhos, são os mais vulneráveis. Quando a ministra da Cultura, Graça Fonseca, teve a brilhante ideia de criar uma raspadinha para financiar o patrimônio cultural, estava, no fundo, a piscar o olho e a explorar esta fatia da população mais vulnerável. Felizmente, o governo recuou nessa matéria, mas não podemos esquecer que continua a ser uma realidade e temos hoje em dia este tipo de jogos de sorte e azar, que afetam e destroem milhares de famílias, muitas vezes. E portanto, o estudo é muito interessante porque não aponta um caminho proibicionista, acho que não seria solução para o problema. Sabemos todos que proibir não resolve ou não ia resolver a questão, porque iria sempre surgir alguma coisa no lugar deste tipo de jogos, mas sugere que se tenha um outro olhar sobre publicidade, sobre a forma como este tipo de jogos é regulamentada. Enfim, acho que é um estudo muito útil, porque nos dá com factos, números e estatísticas, um conhecimento de uma realidade que todos nós, ou pelo menos quem sai de casa e quem presta alguma atenção àquilo que lhe rodeia, que acho que não era o caso da então ministra Graça Fonseca. E este estudo tem esse mérito de nos dizer ou de nos mostrar com provas e com factos, que este é um problema grave e que quando eu digo destrói milhares de famílias, destrói mesmo. Em muitos casos, há pessoas que se endividam ou perdem as poupanças de uma vida por acreditarem que numa raspadinha lhes vai sair a sorte grande.

Estamos a falar, Miguel, 100 mil pessoas com problemas de jogo que foram identificados neste estudo.

Sim, depois há outros dados também interessantes, pra não ser muito exaustivo, mas este tipo de jogos também está associado a outros comportamentos mais aditivos, como consumo de álcool e consumo de tabaco. Estamos mesmo a falar dos mais vulneráveis, dos vulneráveis. E portanto, o estudo do CES tem o mérito de nos identificar a realidade e de propor um caminho. E acho que só por isso Francisco Assis deveria ser saudado e a sua equipa também, naturalmente, mas poderia e deveria servir também de um aviso para o governo, que por uma vez na vida, antes de tomar medidas, antes de criar soluções, seja em relação ao jogo, seja, por exemplo, em relação à habitação, que se façam estudos, que não se tomem medidas com base naquilo que achamos que é bom. E este governo, não raras vezes, cai no erro de tomar medidas sem qualquer sustentação. Basta ver o que aconteceu na habitação, que, surpresa das surpresas, assim que o governo anunciou aquilo que ia ser o seu plano da habitação, o que aconteceu? As rendas dispararam. Toda gente sabia que isso ia acontecer, menos quem deveria e quem tem a obrigação de saber. Portanto, quando se tomam medidas, no caso, entretanto extinta, da raspadinha do patrimônio, já toda gente tinha percebido que isto era um mau princípio, que ia alimentar um flagelo e em boa hora o governo recuou e anulou essa questão, mas é importante que se olhe para o todo e que se tomem medidas para evitar ou pelo menos mitigar este tipo de fenômeno social, que é impossível proibir, porque existirá sempre. Mas era importante que o governo olhasse pra este estudo e tivesse, como sugeriu Carlos César, alguma humildade pra olhar para ideias que não são suas, do governo, e tomasse algum tipo de medidas.

Enquanto fazias esse apelo a que se tomassem medidas olhando para os estudos, para os trabalhos que a academia faz, o Paulo ria. Paulo, por quê?

Eu ria porque o Miguel tocou ali no ponto, a qualidade das decisões de políticas públicas, que é péssima, como se prova. Nós já tínhamos esse conhecimento empírico e só trouxe alguma ciência àquilo que nós já sabíamos. E é curioso que, mas é uma prática de vários governos. Tomam-se decisões muitas vezes mal informadas, como é o caso, e depois quando não se quer tomar decisões é que se pedem os estudos, basicamente. Criam-se os grupos de trabalho e pedem-se estudos para prolongar, para adiar, no fundo, para fazer esquecer os observatórios, que é basicamente para não tomar decisão nenhuma, porque depois as decisões que são tomadas, são mal informadas, são mal desenhadas, muitas vezes vão ter resultados completamente contrários àqueles que se querem atingir, porque são descuidadas.

E a parte curiosa aqui, José Manuel, é que este estudo não é pedido, não é um observatório, não é um grupo de trabalho pedido pelo governo, mas uma iniciativa do CES

Exatamente. Eu queria destacar isto, porque isto é uma iniciativa do CESe, já tem praticamente três anos, é uma ideia de Francisco Assis. Quando foi lançada, ela tem mais de três anos, foi encomendada em março de 2021. Quando foi pedida por Francisco Assis, falava-se muito da raspadinha do patrimônio, ele até apelou para que fosse suspensa. Ela chegou a ser lançada, depois foi suspensa, mas na altura já se tinha noção do flagelo que isto era, já se tinha noção de que poderia haver pessoas com este problema de adição, poderia haver muita gente mais pobre a gastar. Na altura falava-se em €160 por ano, agora chega-se à conclusão que é mais, são €226 por ano, em média. É dinheiro para quem tem muito pouco dinheiro. Eu acho que uma das ideias mais acertadas, que eu ouvi hoje de manhã umas declarações de um dos autores do estudo, que é o Luís Aguiar Conraria, é que isto é uma espécie de contribuição regressiva, porque nós não nos devemos esquecer que a Santa Casa da Misericórdia, tendo muitos problemas e uma estrutura gigantesca, cresceu em boa parte à conta da raspadinha, porque é o seu jogo que dá mais lucro, que dá mais receita, muito mais que o Euromilhões, que penso que vem em segundo lugar. Isto permitiu à Santa Casa ter receitas muito superiores àquilo que contava e foi precisamente quando houve Covid, que as pessoas não podiam sair de casa e não podiam ir jogar, e a raspadinha entrou um bocadinho em crise, mas não a crise suficiente para evitar todos estes problemas de adição. Francisco Assis percebeu a asneira que vinha com a raspadinha do patrimônio, pediu este estudo. Felizmente, não foi preciso esperar pelo estudo para a raspadinha do patrimônio parar. Mas eu quero destacar, sobretudo, que Francisco Assis é alguém que até é do Partido Socialista, e teve um cuidado que o governo não teve num organismo que vai fazendo prova de vida com regularidade, como é o Conselho Econômico e Social. Nisto acho que há muitos perdedores, que são os que jogam na raspadinha, mas há hoje um vencedor, que é o Francisco Assis.

A quem dás que nota?

A quem dou um 15, claramente. Acho que é uma boa iniciativa e uma iniciativa importante e que nos vai chamar a atenção para este problema. Quer dizer, isto é, de facto, um imposto regressivo, é os pobres a financiarem os mais pobres, porque aqueles que têm mais dinheiro, por incisivamente, não jogam na raspadinha. E atenção, esses pobres, por regra, por norma, são inclusivamente pessoas idosas, que além de pobres, são frágeis.

Exato. E Miguel, a tua nota vai também para o CES?

Acompanho o José Manuel Fernandes e atribuo nota 15 também a Francisco Assis, cada vez mais transformado numa espécie de grilo falante do Partido Socialista. Parece-me que está demasiadas vezes demasiado isolado.

Um 15 aqui atribuído à mesma pessoa, Francisco Assis. Paulo, a tua nota vai para o calçado português, que está a andar bem?

Está a andar bem, apesar de às vezes parecer que anda mal. E eu explico por quê. Saíram agora dados do primeiro semestre das exportações do calçado português. A indústria portuguesa exportou menos pares de sapatos em quantidade, e a queda foi assinalável, 7,3% menos pares de sapatos exportados. Mas, e isto é importante, houve um aumento de 8,9% no preço médio de cada par de sapato exportado, e isso fez com que, quando medido em milhões de euros, se quisermos, ou em milhares de milhões, as receitas das exportações tenham aumentado. O que eu queria destacar aqui? Esta tendência não é de agora, isto é, o calçado português é vendido cada vez mais caro nos mercados internacionais. E eu queria destacar aqui que isto é passar à prática, num setor que é um setor importante, sobretudo na região Norte do país, é passar à prática aquilo que nós ouvimos e dizemos muitas vezes, que é: Portugal tem que, nos mercados internacionais, nos mercados de exportação, tem que subir na escala de valor, isto é, tem que exportar produtos, sejam eles quais forem, desde calçado a têxtil, equipamento eletrónico, seja o que for, turismo também, tem que exportar coisas com mais valor acrescentado, que no fundo sejam percebidas com mais valor externamente e que sejam vendidas mais caras. O calçado de uma indústria quase falida há 30, 35 anos, aliás, um flagelo na altura, no início dos anos 80, com o têxtil de trabalho infantil, por exemplo, e era um setor à beira da falência, conseguiu dar a volta e nos últimos anos, isso manteve-se agora, os sapatos portugueses são os segundos de preço médio mais caro em todo o mundo. Primeiro a Itália, que vende os sapatos mais caros, depois Portugal, e nós estamos à frente de França, por exemplo. Nos mercados internacionais, o preço médio do ano passado de exportação do calçado português foi de US$27,99, acima de França, que está uns cêntimos abaixo, o que significa que a percepção de qualidade é muito boa. E portanto, só para dar uma ideia, a China, que é claramente o maior exportador mundial, vende em média US$4 por par de sapato, o que significa que a qualidade e as matérias-primas e o design e a marca e por aí fora.

E o pagamento aos trabalhadores.

E o pagamento aos trabalhadores, obviamente, não pode ser tão grande. E eu acho que isto é uma boa notícia. É pena que não se venda mais, mas vendendo menos número de pares de sapatos, eu acho que é importante é que sejam vendidos mais caros, porque é isto, de facto, que deve acontecer.

Vem aí uma nota boa, Paulo.

Vem aí, olha, vem um 16.

Para a indústria.

Exato, para a indústria do calçado, que toda a gente se devia pôr nos sapatos deles.

Exatamente. E às vezes sentar. Helena Matos, trouxeste aqui a questão dos bancos de sentar em Lisboa.

Só falta o microfone.

Só falta o microfone. Claro que sim. A primeira vez que eu tive a percepção de que havia um problema com os bancos em Lisboa, foi durante a Covid, quando uma pessoa da minha família, já com alguma idade, quando tinham dito que a pandemia tinha acabado, resolveu ir à Baixa, porque já não ia há muito tempo. Mas continuavam aquelas fitas todas. A pandemia já tinha acabado, já estava a acabar tudo, mas não havia onde uma pessoa se sentar, porque ainda não havia esplanadas, não havia bancos, e só houve uma solução, que foi chamar um táxi e sentar-se.

Sentar-se num táxi?

Num táxi, sim. E depois decidir para onde é que queria ir. Isto aconteceu com a minha mãe. Mas claro, depois a pessoa pensa que a pandemia já acabou e que a normalidade terá regressado na cidade. Não é isso que acontece. Em Lisboa, isso percebeu-se na Ponha de França, onde houve um grupo de jovens, dois jovens, que resolveram levar para a rua umas cadeiras que tinham apanhado por todo lado, porque os bancos e as cadeiras tinham desaparecido. Nós também já tínhamos percebido que houve coisas que não voltaram. Por exemplo, os chuveiros à saída de algumas praias, que é uma coisa que dá um jeito extraordinário, também têm regressado com muita dificuldade, porque desapareceram quando foi da Covid. Era como se fossem infraestruturas que foram lá postas, mas depois, embora muito utilizadas, a verdade é que em algumas praias eles ainda não voltaram. E, como o vírus está aí novamente, não sei se, entretanto, alguma vez irão voltar. Aqueles chuveiros onde nós tomamos banho, passamos as feias por água, os nossos pézinhos por água, têm tido a sua dificuldade. Aqui, em relação aos bancos na cidade, sim, há dificuldade com os bancos. Muitos não voltaram. Muitas vezes só existem as esplanadas, o que também obriga a consumos, as esplanadas que fez para as pessoas se sentarem. Muitos vezes aquilo a que se chama mobiliário urbano tem modas e algumas modas são terríveis, porque agora aceita-se o banco, mas o banco tem que ser uma peça de design que se caracteriza por ser uma espécie de um paralelepípedo, sem costas, sem nada. Aquela ideia da pessoa se sentar, descansar um pouco, encostar as costas, nada. É só aquela coisa esguia.

Minimalista.

Muito minimalista. Mas um banco dá muito jeito também ter as suas costinhas. Ou então quando tem costinhas, tem sempre umas costinhas para uma pessoa estar deitada, reclinada. E tudo aquilo fica lindíssimo nas maquetes, mas depois na vida real, não é bem assim. Eu acho que estas peças de mobiliário urbano, tem de se olhar para elas com muito mais atenção, perceber quem é que se vai de facto sentar, o que as pessoas esperam quando se sentam, porque não é uma peça para se pôr ali na continuidade da leitura do espaço que se intercruza com a linearidade da volumetria. Não, não é nada disso, é só um sítio para nós. Escusam de se rir. Se quiserem eu faço isto: a linguagem fascista dos anos 30, a linguagem comunista do PREC, sei fazer isto. Esta é a do nosso tempo.

E não tenho a mínima dúvida que consegue.

Consigo fazer emissões de rádio inteira com essas maneiras de falar. E logo, eu acho que numa cidade em que, para já, nós até estamos todos a envelhecer e temos falta de pessoas novas, e em que se tenta encorajar as pessoas a andar a pé, eu acho que o regresso do velho banco.

Aquele com as ripas de madeira, pode ser?

Com ripas de madeira para nós nos podermos encostar.

Anatómico.

Que era anatómico, que era ótimo, podia pendurar-se ali umas coisas, dava também para nos deitarmos, dava para tudo.

Dava para gravar o nome da namorada com o canivete.

Tudo, mas tem a história. Vocês deviam ver umas coisas extraordinárias que eles agora colocaram aqui em Lisboa, em Benfica. Devem ter demorado anos a conceber aquela peça de mobiliário. Ao pé da minha casa há um onde nunca se sentou uma alma, nem ninguém sem alma, porque nem os gatos, nem os cães.

Nem os pombos.

Nem os pombos gostam dele.

Helena, deixa-me só dizer-te. O Miguel José Manuel Fernandes deu um 15, o Paulo deu um 16. Como é que tu vais conseguir manter esta média? A quem é que vais dar nota?

Ao velho banco de jardim, que eu também não vou ficar atrás deles. Olha agora a história. E portanto, eu quero dar um 17 ao velho banco de jardim, o tal que tinha ripas, que tinha encosto.

E que dava para desenhar corações com o canivete.

Tudo, e palavrões, e depois eles pintavam novamente, porque era recuperável aquilo, era um material muito recuperável.

Ganha Helena Matos com 17 para o velho banco de jardim. Amanhã há mais um e o vencedor. Até lá.