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Eu tenho o coração à pé da boca. Se fosse mais cabeça e menos coração, teria tido outras escolhas na minha vida. Eu vim-me embora dos Estados Unidos por um sonho, por acreditar que aqui posso tentar fazer diferença em coisas que precisam de ser diferentes.

E está a cumprir esse objetivo.

Estar nos Estados Unidos seria mais um a fazer mais do mesmo. E eu acho que a percepção que as pessoas têm do que é a felicidade não nos deve afetar. Eu, depois de ter uma experiência extraordinária naquilo que é a Meca, que para muitos é uma Meca, não é para todos, mas para muitos, uma Meca do cinema. Eu tirei de lá o essencial para perceber que não era aquilo que me fazia feliz e que mesmo que eu não saiba o que me faz feliz, estou a tentar encontrar. Eu sei que contar histórias me faz estupidamente feliz. Sei que trabalhar com pessoas que eu gosto e que admiro me faz estupidamente feliz. E tudo que eu desejava era reunir condições para continuar a fazer isso.

É filho de Lisboa, mas com parte do coração e memórias também no Alentejo. Em criança, vivia rodeado de super-heróis, de mundos imaginários. Cresceu em frente às câmeras, descobriu cedo a disciplina da representação e, com a mesma curiosidade de menino, explorou cada novo desafio. Anos depois, com maturidade de quem já viveu várias vidas artísticas, tornou-se também contador de histórias. O mais recente filme, "O Lugar dos Sonhos", fala de memórias, afetos e da ligação entre gerações, um tema que no fundo sempre o acompanhou desde criança. Hoje falamos com um criador inquieto, ator e realizador, um homem que continua a procurar novos caminhos no cinema e na televisão. Diogo Morgado, em "40 Minutos". Muito bem-vindo.

Muito obrigado.

É um gosto enorme contar contigo aqui.

Não, um gosto enorme é poder estar a falar convosco sem a restrição normal de tempo que normalmente exige noutras plataformas, sem ser um podcast.

É bom termos tempo para conversar.

Obrigado por esta introdução tão bonita. Muito obrigado, João.

Muito bem. Falamos aqui e disse na introdução, criador inquieto, ator e realizador, e tens ainda muitas facetas que se calhar ainda não conhecemos e que não são tão públicas. Queria-te começar aqui com uma pequena provocação para alguém tão ligado à indústria também do cinema. Já vamos falar também sobre isso. Se a tua vida fosse um filme até agora, qual é que seria a cena de abertura desse filme?

A cena de abertura deste filme. Talvez, há um filme que eu me identifico imenso, que é o "Carteiro de Pablo Neruda".

É um ótimo filme.

É um filme, eu adoro cinema italiano, e há qualquer coisa mágica ali daquele carteiro meio analfabeto, que devido às circunstâncias, tropeça com um poeta, um dos maiores poetas da atualidade, naquela época. E de repente, tropeça não só em todo um contexto político, como sobretudo na poesia e na magia da poesia e das palavras. E de repente, aquilo que está lá dentro deste carteiro meio analfabeto transforma-se e de repente a semente germina. E eu acho que eu fui isso. Eu sou um puto da margem sul, o pai alentejano, a minha mãe do centro de país. O meu pai era funcionário público, minha mãe cabeleireira. Nunca tive família artística, nunca tive vertente nenhuma artística na família. E de repente, tropeço a decorar falas de filmes, a vibrar com tudo o que se passava, sobretudo pela televisão, a pedir aos meus pais para me levarem ao teatro.

Lembras-te do primeiro título, se calhar, em televisão, que te chamou mais a atenção quando eras mais novo?

Título de filmes?

Sim.

Havia muitos filmes daqueles meio série B, aquelas coisas muito "Profissão Duro", Van Damme, o Rambo, aquelas coisas que para um miúdo de sete a 10 anos, aquilo é tiros. E também eu fiz um mudança de pau com uma faca Rambo e o cinto do Rob na cabeça.

Também fazias os contrapés de Van Damme.

Do Van Damme e do karatê Kid.

Mas ficavas penteado, ao contrário dele.

Exato. Ele fica todo certinho, o cabelo todo certinho. Eu acho que sempre foi isso, fui sempre um miúdo muito sonhador, com uma imaginação muito fértil, mas de uma forma muito inata. Sempre adorei escrever, sempre adorei ler, mas de facto era no ecrã, nos filmes, sobretudo nos filmes, que eu vibrava e que a minha imaginação prolifera de uma forma doida.

E sentes, Diogo, que era já o bichinho do cinema a nascer ou era só um miúdo da margem sul, como tu dizias, a divertir-se?

Eu acho que todos nós somos antes de mais espectadores e todos nós temos o fascínio. Aliás, este filme, "O Lugar dos Sonhos", mostra isso mesmo, que independentemente das gerações, independentemente do sítio onde vivemos, independentemente de tudo, nós partimos do mesmo tipo de anseios, do mesmo tipo de medos, de aspirações, desejos, tudo isso. E o que eu acho que pode haver de diferença, e o Nicolau Branner dizia isso, é alguns de nós têm, de uma forma mais inata ou menos inata, uma capacidade de traduzir isso para fora, ou seja, de poder não só absorver, mas também Fazer acontecer, fazer com que as histórias ganhem vida em nós, sem nós nos apercebermos. O Marlon Brando, por exemplo, era um tipo execrável e era um gênio, e ele próprio se calhar não conseguia explicar ou analisar a sua arte. E depois há muitos outros que estudam e sabem tudo e mais alguma coisa de todos os métodos e mais alguns, e se calhar são grandes canastrões e não sabem fazer. Portanto, isto é muito subjetivo.

E agora eu faço a pergunta: e o Diogo Morgado, que tem um currículo de fazer inveja a muitos, mas mesmo assim pouco vaidoso, ligas pouco ao mediatismo?

Ligo muito pouco. É uma coisa que cedo percebi que não era a minha praia. Cedo percebi que talvez seja a coisa mais difícil para mim de lidar, é com o facto de haver um mediatismo à volta desta profissão.

Ficas desconfortável com o elogio?

Não sei se fico muito desconfortável com o elogio. Aceito muito melhor as críticas. Aliás, eu cresci por conta das críticas. Tudo o que me diziam de mal, nem que fosse por raiva, de tentar combater isso, fazia de mim um profissional melhor e acredito que uma pessoa melhor. Mas sim, acho que essencialmente é difícil para mim aceitar um elogio. E não levo muito a sério. Procuro não levar muito a sério. Eu acredito que todos nós temos a capacidade de sonhar e de contar histórias. Há, se calhar, técnicas e essencialmente uma disciplina que te leva a concluir os projetos. A quantidade de pessoas que chega ao pé de mim e diz assim: "Tenho uma história para um filme que tu vais adorar". Eu digo: "Olha, histórias para filmes eu tenho a toda hora. Basta tomar um duche mais prolongado, eu tenho duas histórias geniais". Genial para mim, pelo menos.

E são mesmo geniais?

Pelo menos para mim, naquela ótica, naquele banhinho que me está a saber tão bem. A questão é essa, é pegar nessa ideia e concretizá-la, fazer um argumento, chegar ao fim, ter esse argumento e fazer com que reúna as condições para executar esse argumento, passar essa ideia. E isso é muito difícil, sobretudo em Portugal. De uma forma independente, o cinema independente é muito mais amor à camisola do que qualquer outra coisa. E as pessoas não têm noção disso, e quando veem dois filmes portugueses, acham que eles vêm do mesmo sítio e foram feitos da mesma forma e não são, ou podem não ser. E falava isso em off convosco. Nós vimos de uma sociedade em que durante mais de 30 anos, o cinema português foi predominantemente subsídio dependente, ou seja, depende diretamente do dinheiro do Estado para poder existir. E portanto, quando assim é, muitas das vezes, os produtores, argumentistas e realizadores fazem o filme que lhes apetece fazer, se calhar, não muito importados com se vai agradar ou não à grande maioria do público. Que por um lado eu acho que é interessante, deve haver forma de os criativos e dos artistas se manifestarem sem qualquer constrangimento, porque eu acho que é aí que saem as coisas verdadeiramente originais e bonitas. Por outro lado, se assim é, também tem de haver condições para um outro tipo de projetos em que haja uma necessidade de comunicar com o grande público.

Qual é que pesa mais na balança para ti?

Qual é o que pesa mais? É uma excelente pergunta que nunca me fizeram. Eu acho que um depende do outro. Eu acho que se nós formos só atrás do público, não acho que seja caminho. Eu acho que tem de haver formas de pensar e repensar, que não sejam só aquilo que o público mais vê.

Até porque tu podes levar o público para aquele caminho.

Exatamente por aí. Durante muitos anos eu fiz teatro de revista, que é uma coisa que as pessoas não sabem, ou pelo menos não têm noção disso. Durante dois anos da minha vida, não fiz outra coisa a não ser ir para o Parque Mayer, fazer teatro de revista. Fiz duas revistas à portuguesa. E uma das coisas que eu compreendi naquele contexto, foi que, quer se goste, quer se não, quer não se goste do teatro de revista, ele foi uma serventia durante muitos anos para muita gente. Era muitas vezes ali no teatro de revista que o público respirava fundo e dizia assim: "Ok, eles estão a falar comigo", embora que de uma forma codificada, porque era codificada, porque a censura travava muita coisa. A figura do Zé Povinho, no fundo, veio daí, veio de uma necessidade de dizer: "Este tipo somos nós, são vocês, somos nós". E depois punha o tal Zé Povinho em situações que estranhamente coincidiam com muito daquilo que o público e que as pessoas viviam no dia a dia. E portanto, esse teatro serviu um propósito, e muito daquele público, que hoje é se calhar mais erudito e que já vai a outro tipo de teatro, se calhar, em miúdo, ia ao teatro de revista. E portanto, foi a exposição a um teatro mais comercial, por assim dizer, que eu não gosto desta palavra, mas infelizmente acho que o público percebe melhor se eu me explicar assim, um teatro dito mais comercial, que foi necessário para abrir as portas, nem que seja da mente, de um ponto de vista cultural, para depois começares a aguçar o teu gosto. Isso é a mesma coisa que a música. Nós primeiro começamos com um xilofone e com um tambor e depois vamos evoluindo e vamos gostando e criando os nossos gostos musicais cada vez mais específicos. Dependendo da nossa pessoa e do nosso gosto. Nada contra, mas respondendo à tua pergunta, sem sombra de dúvida, eu acho que não pode haver só o comercial ou só o autoral. Eu acho que tem de existir espaço para os dois.

Um equilíbrio.

Um equilíbrio. Eu acho que sim.

E é possível?

Eu acredito que é. Aliás, eu acredito que mais do que é, se há uma exclusividade obrigatória, e se há dinheiro para determinadas coisas, tem de haver determinado dinheiro para outro tipo de coisas. Por exemplo, no nosso sistema de ensino Eu não sei se vou usar a matemática aplicada, não sei se vou usar determinadas técnicas laboratoriais de física que possa estar a estudar no momento. O que eu sei é que, mais cedo ou mais tarde, eu sou um cidadão que vai pagar impostos, que vai ter que preencher o IRS. E nas escolas, agora, começa finalmente a despertar-se para uma literacia financeira, para a necessidade prática de determinadas coisas.

De nos formar para coisas-

De nos formarmos para o mundo

...que vão eventualmente acontecer na nossa vida.

Essas nós vamos ter mesmo a certeza que vamos precisar. Compreender desde uma questão simples do sistema bancário, de como é que funciona, os spreads, os juros, o porquê. Nós muitas das vezes somos doutores, formamo-nos, somos doutores ou mestrados e não fazemos a mínima ideia de como se preenche o IRS. Isto é ridículo para mim. E portanto, isto para responder à pergunta da questão cultural. Eu acho que é muito importante que hajam vários degraus e várias etapas. E é tão importante a etapa cinco, clássica, premium, como a dona Palmira, que não tem a quarta classe ou não sabe ler e escrever, e que deve ser respeitada da mesma forma, porque paga os mesmos impostos e tem os mesmos direitos como cidadã. Este filme, por exemplo, eu tive várias pessoas, talvez porque o protagonista tem 81 anos.

Ainda que não pareça.

Embora que não pareça, e não parece mesmo. Várias pessoas mais velhas que já não iam ao cinema há mais de 20 anos. A dona Glória, por exemplo, que é uma avó de uma amiga minha, não sabe ler e escrever. E ela não ia ao cinema há mais de 35 anos. E ela olhar para mim, quase lágrimas nos olhos, a agradecer profundamente, para mim, tem um valor absurdo. Agora, infelizmente, isso não me permite continuar a servir o público desta forma. Não é isso que me permite continuar a servir o público. Se calhar, conversas como estas, em que eu posso explicar o que de facto acontece no terreno e o porquê, talvez ajudem ou incentivem. Mas efetivamente, nada muda o facto de isto ser um negócio e das pessoas terem que ir às salas, assim como a televisão, assim como a rádio, que nós estamos aqui, assim como as notícias, que vocês muitas das vezes, as notícias, vocês, aliás, podem falar disso, como jornalistas. Nós estamos a viver uma zona muito perigosa. Porque os organismos, os jornais, as rádios precisam de ser ouvidas, escutadas e lidas, e por isso precisam de público. E a notícia que for mais escandalosa e mais flasha é aquela que chega primeiro às pessoas. E muitas das vezes, necessariamente, não é a verdade das coisas, não é o rigor. Portanto, a necessidade e aquele juramento de rigor, de verdade, que o jornalista tem quando se forma, hoje em dia, é muito complicado. E portanto, isto é aplicado a tudo, infelizmente. Mas felizmente vão havendo conversas como estas, que ajudam as pessoas, pelo menos aqueles que procuram ser um bocadinho mais interessados a fundo, para além do superficial, a saberem a verdade das coisas.

E a aprender, no fundo. Olha, a nossa conversa tem-se encaminhado muito para aqui, para o "Lugar dos Sonhos", o teu mais recente projeto, mais uma longa-metragem de cinema independente, num filme que tu defines, sobretudo, como algo que é para todos. E há bocadinho falavas da dona Glória, que não sei que idade é que tem.

Já tem os 80 e tal.

Que a dona Glória de 80 anos possivelmente tinha ao lado crianças.

Tinha a neta.

Exato.

Tinha a neta e ao lado também tinha crianças que estavam na sala.

Exatamente.

Eu se calhar repito-me um bocadinho, peço desculpa por isso, mas a verdade é essa. Quando perguntam sobre a ideia para este filme. Eu tenho um filho de 9 e um de 15, e procurando um filme português que eu pudesse ver com os dois, torna-se muito difícil. De repente, passando pelo historial de todos os filmes portugueses, ou vamos para uma comédia barrasca, ou vamos para filmes super polêmicos. E portanto, é um filme para toda a gente ver, sem que tu tenhas que ter um manual de instruções e que tu possas divertir e surpreender e levar o teu filho e o teu pai. É difícil, e portanto, o objetivo começou por ser esse. Depois, de facto, foi com muita emoção, que nós temos tido um feedback absolutamente extraordinário de pessoas que de facto não iam ao cinema há muito tempo e que foram a este filme em família, levaram três, quatro gerações diferentes a ver. É maravilhoso Ver isso acontecer, estar nas salas com essas pessoas, ver que não é da boca para fora.

E emociona-te ver o olhar das pessoas?

Emociona. Eu sou um lamechas, emociono-me com qualquer coisa. Eu tenho o coração à pé da boca. Aliás, se calhar, se fosse mais cabeça e menos coração, teria tido outras escolhas na minha vida. Eu vim-me embora dos Estados Unidos por um sonho, por acreditar que aqui posso tentar fazer diferença em coisas que precisam de ser diferentes.

E está a cumprir esse sonho.

Estar nos Estados Unidos, seria mais um a fazer mais do mesmo. E portanto, eu acho que a percepção que as pessoas têm do que é a felicidade, não nos deve afetar. O facto de alguém na sociedade ter instituído que um tipo rico e famoso é um tipo feliz. Nós temos pessoas que são ricas e famosas, que são profundamente infelizes e muitas delas até se suicidam. Portanto, alguma coisa não bate certo, é porque essa fórmula, se calhar, não está certa. Há qualquer coisa aqui que não está a bater certo. E eu, depois de ter uma experiência extraordinária, que me formou como pessoa e essencialmente como profissional, a compreender como é que as coisas funcionam a fundo lá naquilo que é a Meca, que para muitos, não é para todos, mas para muitos, uma Meca do cinema. Eu tirei de lá o essencial para perceber que não era aquilo que me fazia feliz e que mesmo que eu não saiba o que me faz feliz, estou a tentar encontrar. Eu sei que contar histórias me faz estupidamente feliz. Sei que trabalhar com pessoas que eu gosto e que admiro me faz estupidamente feliz. Sei que ver o sorriso e a lágrima das pessoas quando veem uma coisa que nós trabalhamos em conjunto, me faz estupidamente feliz. Não tenho palavras para agradecer e tudo o que eu desejava era reunir condições para continuar a fazer isso. E lá está, mais uma vez aí, é a palavra do público.

Nós já vamos voltar aqui ao "Lugar dos Sonhos".

Estamos a chegar ao final da primeira parte, mas eu não quero deixar este tema ficar, porque desde que tu disseste há pouco, está aqui atrás da minha orelha, que é a dona Glória.

Ah, sim.

Disseste lágrimas nos olhos, mas não disseste se foi de felicidade, se gostou do filme ou não, se deu algum feedback positivo.

Não, foi sem dúvida. Ela pegou-me assim na carinha e diz: "Ó filho, há mais de 30 anos que não vinha ao cinema, muito obrigado".

Mais de 30?

Mais de 30. É uma história de redenção, é uma história de gerações e portanto, a dona Glória, acredito, e foi muito a pensar em pessoas como a dona Glória, dona Palmira, dona Maria, o que quer que seja, que esta história foi escrita. E todos nós temos avós, uns dão-nos melhor que outros. Inclusive, só para rematar esta questão, porque há muita gente que me pergunta: "Esta história tem a ver com a relação que tu tiveste com os teus avós?" Eu respondo: esta história foi escrita com muito daquilo que eu gostaria de ter tido dos meus avós e muito daquilo que eu tive dos meus avós. E os filmes e as histórias não são só daquilo que nós vivemos, também são daquilo que gostaríamos ter tido ou daquilo que está mal resolvido dentro de nós. E eu acho que isso, nem que seja por aí, é um exercício bonito o cinema.

Eu não podia deixar a primeira parte terminar sem referir a dona Glória.

Estávamos a falar da dona Glória e eu fiquei arrepiado quando se falou aqui em emoção. É de facto sempre bom termos gente de todas as idades numa sala de cinema, ainda para mais para ver cinema que é tão bom. Diogo, nós já voltamos. Vamos só fazer aqui uma curta pausa para as notícias. Já voltamos. Esta semana estamos com Diogo Morgado, em 40 Minutos. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte do Em 40 Minutos, esta semana com Diogo Morgado. Diogo, já falámos aqui muito do "Lugar dos Sonhos", mas vamos ter de falar mais, até porque é um filme que vem pôr aqui em evidência as ligações humanas. E tu já falaste um bocadinho disso na nossa primeira parte. Falaste da dona Glória, que ficou aqui na nossa cabeça, tanto na minha como na do Zé. A nossa sociedade, e se calhar este filme vem pôr em evidência isso mesmo, esquece muitas vezes da questão das ligações, de estarmos lá para os outros, até mesmo família e amigos. Este filme quer também pôr isso em perspetiva e também uma espécie de alerta de que é mesmo preciso cuidar.

Eu acho que sim. Como é que eu hei de dizer? Eu não sou muito de criar uma voz de crítica aos novos tempos. Eu sou muito mais de adaptar-me e ver o lado positivo. Como o tio do Peter Parker dizia: "Com grande poder, vem grande responsabilidade". O que eu quero dizer com isto é, eu acho que toda a gente sabe a importância que as ligações têm. Eu acho é que a forma como as pessoas estão a ligar hoje em dia está a mudar e nós não estamos a ter noção de como essa ligeira mudança é, de facto, outra coisa. O que eu quero dizer com isto é: para quem viaja muito, por exemplo, quando veio as primeiras videochamadas, o primeiro Skype, foi incrível, porque de facto uma chamada é diferente de tu veres a cara dos teus filhos quando estás longe, ou dos teus pais, ou do teu avô, quem quer que seja. Isso aproximou pessoas e eu acho que é uma ferramenta extraordinária. A partir do momento em que isso começa a substituir a necessidade de estar presente com as pessoas, de as ver, de as tocar, de falar com elas, de estar na mesma sala, aí passa para outro campo. Ou seja, não é uma ferramenta que está a resolver um problema, não. É algo que está a substituir outra. E é aí que eu acho que as pessoas têm noção e têm as mesmas necessidades. Têm as mesmas necessidades de ter amigos, de ter ligações. Só que isso foi substituído por: eu ponho uma fotografia e tenho X de likes. Como tenho muitos likes é porque as pessoas gostam de mim. Ou porque foi repostado muitas vezes, isso significa que as pessoas gostam de mim. Isso é uma espécie de um ópio Que foi sendo substituído por: "Não, as pessoas gostam de ti se olharem-te nos olhos e estiverem lá pra ti quando tu precisares". E, portanto, eu acho que o que eu procurei fazer com este filme não é estar contra as novas tecnologias, é mostrar o sítio em que elas podem ser úteis e quando é que elas começam a ser nefastas. Ou nefastas, ou pelo menos na minha perspectiva, substituir uma coisa que não pode ser substituída.

Essa é a tua visão também enquanto utilizador de redes sociais, enquanto pessoa, sem ser aqui enquanto ator ou realizador, é também a tua visão?

Sem sombra de dúvida. Eu não sou contra as redes sociais. Agora, a forma como eu uso as redes sociais, por exemplo, eu acho um privilégio enorme, eu como ator, quando comecei aos 15 anos, estou com 44, eu não tinha outra forma de comunicar com as pessoas que eventualmente gostassem do meu trabalho, a não ser dar uma entrevista, ficar sujeito à interpretação que o jornalista tinha da resposta que eu dei, depois escrever e depois então, por sua vez, as pessoas liam. Hoje em dia, eu posso falar diretamente com quem me segue, e quem não gostar do meu trabalho simplesmente não segue, e eu dizer assim: "Olha, no dia tal vou estar neste sítio a fazer este trabalho". Ou então: "Eu pensei nisto quando estava a fazer este tipo de trabalho". Agora, estar a mostrar a minha vida pessoal, postar uma fotografia em biquíni só porque sei que vai ter mais likes. Esse tipo de jogo, e muito mais quando eu percebo que eventualmente há produtoras e mercado que já está a começar a contratar as pessoas devido à expressão que elas têm nas redes sociais, aí vai completamente contra aquilo que eu acredito que possa ser a utilidade destas ferramentas.

Aham. Ainda assim, temos de falar disto contigo, porque é algo que é inegável e as pessoas quando falam Diogo Morgado associam muito a um homem bonito e isso está ligado também ao teu percurso.

Já falta pouco. Mais dois ou três anos, isso acaba.

Mas está muito ligado ao teu percurso e se calhar também muito pelo papel que fizeste nas séries e no filme também, ser o Hot Jesus, como muitos apelidam.

Mas isso foi há muito pouco tempo, João. Eu trabalho há mais de 27 anos. Estás a falar de uma coisa que foi agora. E portanto, essa questão do Hot Jesus foi mais um selo de uma coisa que existe.

Mas eu ia te perguntar precisamente isso. Eu sei que tu não gostas nada de rótulos, muito menos pôr pessoas em prateleiras, fechar em caixinhas, sei que é uma coisa que não gostas. Como é pra ti, pra uma pessoa que acaba de nos dar conta desta visão, ter este rótulo ou este selo colado, que no fundo não mostra o teu talento, é só um rótulo?

É complicado. Eu acho que é daquele tipo de coisas que tu só tens que continuar a trabalhar, a fazer o teu melhor e acreditar que isso vá prevalecer. Eu acho mesmo que não há nada mais efêmero do que a beleza, não há nada mais efêmero do que a aparente juventude. Eu esforço-me todos os dias pra ser jovem de mente. Não é "demente", é de mente. De estar a par de coisas. Eu não quero ser como os meus pais que diziam: "Não percebo nada disto, ajuda-me aqui". Estás a ver? Portanto, mesmo do ponto de vista tecnológico, eu tento estar com uma ginástica mental pelo menos aplicada. E o que eu quero dizer com isto é: eu procuro que o meu valor seja traduzido àquilo que eu posso dar às pessoas. Ora, se aquilo que eu der às pessoas for uma estampa, eu não estou muito interessado nisso. Eu compreendo e aceito que um prato de comida mais bem empratado é mais apelativo do que um prato que está meio abandalhado. Eu compreendo isso e portanto eu não nego essa questão, mas provando os dois, vou ter que dizer qual é o que me sabe melhor. E portanto, essa questão é muito importante. Eu não acredito na manada. Eu não acredito que o público seja estúpido. Eu acredito que a grande maioria que faz barulho, faz muito barulho e que vai tudo atrás mais ou menos do que faz barulho e do que brilha. Mas eu acredito mesmo que a grande maioria do público sabe discernir o bom, o mau, sabe discernir o que está correto, o que é que tem valor, o que é que não tem. Eu pelo menos tenho este lado naïf que acredita que isto é verdade, se calhar vou tê-lo até morrer, porque no dia em que eu deixar de acreditar nisto, eu se calhar vou deixar de trabalhar, porque a minha grande motivação não é o dinheiro, não é a fama. A minha grande motivação é servir as pessoas. É acreditar que ao fazer alguma coisa, fiz algo ligeiramente melhor do que estava antes de o fazer. E portanto, se deixar ter isso, eu deixo de ter serventia e vou fazer outra coisa, se calhar vou cultivar batata.

E esse caminho tem algum fim? É que parece um caminho que nunca acaba.

Não tem fim, não. Eu tenho noção disso. E ao mesmo tempo, isso alenta-me muito, porque, por exemplo, mesmo do lado da realização, eu sei que posso chegar a uma altura em que se calhar já não tenho o mesmo vigor físico como ator, mas ainda poderei ter muita coisa a dizer como argumentista ou como realizador e, portanto, vou manter até à última aquilo que eu acredito que possa dar de valor. Porque pra mim é importante ter o coração no sítio certo. E o que é ter o coração no sítio certo? É estar nas coisas pelas razões certas. E pra mim, aquilo que eu faço, eu amo profundamente aquilo que faço e acredito mesmo no poder transformativo das histórias. Eu acredito que uma história muda a vida de uma pessoa. Eu acredito que uma boa história, de repente tu estás na fossa e ouves a coisa certa ou a história certa que te inspira pra saíres e a partir daquele dia, tu és alguém completamente diferente. Eu acredito mesmo nisso.

E qual é que é essa história pra ti? Qual é que foi a história que mudou a ti?

Eu tive várias, Zé. Ou porque me foram contadas por familiares ou por um amigo que passou por algo que eu não passei, mas que vivi por ele, filmes que vi, coisas que li. O que eu sinto é que nós ainda não sabíamos falar, não tínhamos o código da linguagem e já pintávamos nas paredes das grutas aquilo que nos aconteceu na caçada. E portanto, nós tentávamos, através da história do que nos aconteceu, passar conhecimento. E eu acredito verdadeiramente que é isso que nos faz evoluir como seres humanos. O Churchill dizia isso: "Cortem tudo, menos na cultura. Se cortarmos na cultura, de que é que servirá a guerra?" E portanto, isto não são só coisas da boca pra fora. Nós, se não tivermos a capacidade de nos encantarmos com alguma coisa ou: "Olha, vamos àquele sítio". Sei lá, Zé, diz uma viagem que tu gostavas de fazer De um sítio qualquer.

Neste momento?

Neste momento.

Japão.

Japão. Porque é que tu gostas dessa ideia? Porque tu te imaginas lá. Tu imaginas-te a ir pelas ruas.

Confere.

Imaginas-te a provar aquela comida. Isso, Zé, é uma história. Isso é uma história. E isso é uma história que te motiva.

Essa não está contada ainda.

Essa não está contada, mas é uma história. Isso é aquilo que te motiva. Tu se não tivesses essa história pra te motivar, tu eras um tipo ligeiramente mais infeliz e ligeiramente menos motivado. E quem diz esta, diz outras. Seja conseguir isto, conseguir aquilo, ir a sítios, chegar a um cargo, o que quer que seja. Isto no fundo, são histórias. E quando tu vês alguém que conta uma história de alguém que se esforçou, que conseguiu e que superou, ou foi a doença, ou o que quer que seja, ou então que não superou. Por isso é que há bocado quando falavas, é necessário haver os dois tipos de histórias. As histórias autorais, contam-te as histórias de alguém que não conseguiu, mas as histórias do grande público são inspiradoras e procuram contar-te as histórias de alguém que conseguiu. E portanto, elas são as duas importantes. É por isso que há documentários, é por isso que há notícias, é por isso que há histórias. Mas tudo isto são histórias. E eu desde muito puto, que estava mil e uma coisas, mas alguém parava e me dizia assim: "Olha, sabes que uma vez..." e eu ficava colado. Esquece, eu ficava colado. Eu fico a ouvir histórias. Sou mesmo louco por isso. E portanto, não me faz sentido. Eu acho que já tenho idade suficiente pra perceber que isto está no meu ADN, mesmo. E portanto, seja lá como ator ou não, o mais bem parecido ou menos parecido, ou menos bem parecido, hei de andar a contar coisas.

Sentes que neste momento és mais contador de histórias ou preferes, ainda assim, ouvir histórias?

Eu acho que prefiro ouvir histórias. Eu estou sempre à espera da história que me vai arrebatar. Sempre à espera da história que me vai arrebatar. Eu conheço pessoas e pergunto: "Estás aqui há quanto tempo?" Ainda há bocadinho a Mariana estava aqui convosco e eu disse: "Ok, estás aqui há quanto tempo?"

A nossa sonoplasta, Mariana Duarte.

Exato. Eu perguntei: "Estás aqui há quanto tempo a trabalhar?" Ela disse: "Ah, vim da TSF". Eu já estou a imaginar a vida dela. Não é por curiosidade ou por gossip, é porque pra mim as pessoas são de onde vêm, a história pra onde vão.

A tua cabeça já começa a criar imagens mentais do percurso.

Sim.

Quase o enredo, já.

Sim, um bocadinho. E portanto, respondendo à tua pergunta, eu serei sempre muito mais um escutador de histórias do que um contador. Contador é quando eu acho que pode haver algum assunto pouco falado, pouco mexido, que vai ser pertinente ser contado. Eu acho que o "Lugar dos Sonhos", por exemplo, fala aqui de um Portugal envelhecido no seu interior, fala de avós que não estão com os netos por conta de relações que têm com os filhos. E portanto, por que é que este avô é um grande avô? Porque se calhar não foi necessariamente o melhor dos pais. E portanto, esta superação de nós vermos uma embalagem e depois percebermos o que está por trás, são assuntos que a mim não só me são próximos, como eu acho que podem ser próximos a muita gente. E portanto, atrás de um pacote que parece uma história encantada e de imaginação, está a necessidade que temos, sobretudo de zonas mais do interior que estão inevitavelmente mais envelhecidas, da necessidade do sonho, de continuar a brincar, de continuar a imaginar, de viajar nas histórias, que neste caso é feito à conta do avô Júlio, que tem um videoclube e que utiliza as suas histórias e as cassetes de vídeo como um meio de continuar a fazer com que as pessoas daquela vila continuem a sonhar e a vibrar. Portanto, é aí que a cultura de repente se torna incrivelmente importante. E depois tens todo um lado de uns pais que estão separados, mas que isso não tem que definir o miúdo. Pode haver uma forma destes pais, que apesar de terem vidas separadas, trabalham em prol do filho e não utilizando o filho como juízo. Sei lá, uma série de coisas que fez-me necessidade de contar esta história, porque eu à minha volta não encontrava muitas histórias que abordassem este tema e sobretudo num contexto português, de Portugal, com as nossas pessoas, com personagens que nós nos pudéssemos identificar.

E falando deste "Lugar dos Sonhos", estamos muito a falar do teu filme, mas de fato merece a nossa atenção porque tem recolhido muitos elogios e crítica boa, podemos dizer, porque a crítica tanto pode ser má como boa.

Claro que sim.

E tu estás mais do que habituado a isso. Já falámos dele, do Carlos Areia, que eu estou me a lembrar agora de uma publicação que foi feita pelo Cláudio Ramos, que elogiou muito o trabalho do Carlos. É um ator extraordinário. Temos que trazê-lo aqui um dia em "40 Minutos", mas também o Ricardo Sá, o Gonçalo Nino e a Áurea.

E a Áurea.

A Áurea já se tinha estreado numa novela, na altura na SIC, a Nazaré, mas vê-la neste papel suscita muito a curiosidade de perceber como é que a Áurea é transportada pra esta história, como é que ela foi escolhida pra este papel.

Olha, da mesma forma que eu perguntei à vossa sonoplasta onde é que tinha estado antes. A Áurea, a primeira vez que a vi, foi numa entrevista no Isto Só Vídeo, ou Isto Só Visto na RTP, em que ela dizia que estava a estudar pra ser atriz. Ela estava no terceiro ano em Évora pra ser atriz, quando foi resgatada pro mundo da música, e eu nunca mais me esqueci disso.

A história dela tem esses dois mundos.

Tem, quer dizer, ao fim ao cabo, não tem. O que tem é uma intenção, ou seja, ela queria seguir uma determinada coisa, pra todos os efeitos, se calhar podemos dizer que era um sonho pra ela. E, portanto, o filme chama-se "O Lugar dos Sonhos", e que foi interrompido por uma outra coisa. E até aí, o filme fala disso. O filme fala de que por vezes nós temos um sonho e somos obcecados por uma determinada coisa. E muitas das vezes não damos valor ao percurso. E se calhar, o que era suposto não era chegar àquilo que nós imaginávamos, era passar por outro lado e ir ter a outro sítio. E isso, eu acho que nós, no mundo em que vivemos, vivemos tão angustiados em querer tudo, chegar a todo lado.

É tudo em tão pouco tempo.

É tudo em tão pouco tempo. E então eu tenho que conseguir, eu tenho que conseguir Que muitas das vezes não respiramos fundo e damos graças a onde viemos parar ou como a perseguição daquele sonho nos fez ir parar a outro sítio. Eu, por exemplo, se calhar só passei pelos Estados Unidos para poder estar aqui onde estou hoje. Ou então não, ou então se calhar daqui a um ano ou dois percebo que foi tudo um grande erro, mas até este caminho me fez aprender. E ainda respondendo, não me desviando à pergunta da questão da Áurea. A Áurea queria ser atriz e foi resgatada e é uma excelente cantora. No entanto, não quer dizer que não tenha palavra a dizer em relação a determinadas coisas. E eu queria alguém que tivesse esta vontade de sonhar connosco. E a Áurea teve, ela vestiu a camisola de uma maneira absurda. Muitos são os elogios que são rasgados à sua prestação. Ela, de facto, está mesmo muito bem. Ela entregou-se a esta personagem, percebeu esta personagem, trabalhou com os outros actores tal e qual como qualquer outra actriz e esteve muito bem.

E o resultado pode ser visto, como alguns referem, não sei se foste tu que referiste, um bufê de emoções.

Um bufê de emoções. Se calhar fui.

Acho que sim.

Seria algo que eu poderia dizer, sim.

E parece uma expressão feliz. Por norma, o bufê está muitas vezes associado a um pouco de tudo, nada de bom.

Exatamente. Não sei, por isso é que eu não sei se fui eu.

Por acaso não tenho a certeza.

Mas um bufê tem mais a ver com que tem um bocadinho para todos. É difícil tu ires a um bufê e não ficares agradado. Alguma coisa hás de gostar.

Eu acho que um bufê de emoções é uma boa definição daquilo que podemos ver no cinema. "O Lugar dos Sonhos", com realização do Diogo Morgado e com um conjunto brilhante de actores que dá aqui pele e voz a um grande filme. Nós estamos aqui a encaminhar-nos para o final. Gostávamos de ficar muito mais tempo contigo à conversa, mas não íamos cumprir o nome do programa. Se retirássemos todos os títulos, os papéis, os prémios, as alcunhas, tudo o que chamam e definem o Diogo Morgado, para lá do mundo da ficção e das histórias que temos aqui falado, o que tu ainda tens para contar?

O que eu ainda tenho para contar? Isso é uma pergunta tramada. Eu acho que a coisa mais importante é não deixarmos de questionar tudo aquilo que está à nossa volta, tudo aquilo que nos apresentam. Eu acho que é importante questionar a verdade das coisas, questionar o porquê das coisas. Nós nascemos e morremos, se calhar, quando uma pessoa espirra, a outra diz: "Santinho", e nós não fazemos a mínima ideia porque é que dizemos santinho. Não fazemos ideia, porque nunca parámos para questionar. Há tanta coisa à nossa volta que nos é dado como adquirido, porque sim, que no dia em que nós paramos de questionar, acho que perdemos o vigor do que é esta coisa de sermos humanos e a experiência de sermos humanos. Eu gostava de continuar a questionar-me, sempre.

E de que forma?

Através das histórias. Eu acho que as histórias são uma excelente forma de purga, uma excelente forma de conversa, uma excelente forma altruísta de chegar às pessoas, de conversar, de dizer que as pessoas não estão sozinhas naquele pensamento, sentimento, o que quer que seja. Nós só estamos nesta vida para podermos estar com os outros. Eu, se calhar, não sou o tipo mais social do mundo. Muitas das vezes para as minhas histórias, eu fecho-me um bocadinho. O meu circuito de amigos e de pessoas próximas é muito pequeno. Não é de quantidade, procuro que seja de qualidade. E o que eu quero dizer com isto é, se calhar, não vão contras, muita gente diz: "Não, ele é amigo deste e daquele". Não, se calhar não sou eu.

O cinema em primeiro lugar?

As histórias em primeiro lugar. Não diria em primeiro lugar, mas é um propósito de vida. Eu vejo uma coisa qualquer acontecer à minha volta e começo logo a pensar: como é que isto poderia ser interessante de ser transformado numa história que as pessoas achassem curioso. Tu vês que eu no meu percurso nunca fiz nada que fosse polémico. Polémico no sentido de histórias polémicas, de filmes.

Foste Jesus Cristo.

Isso não é polémico, isso é como o futebol e política, é daquele tipo de coisas que é tabu, é complicado de falares. O polémico é discutível. É tanto polémico quanto tu quiseres que seja.

E depende sempre para o público que trabalhamos também.

Sem dúvida.

Para o nicho.

Sem dúvida. Mas é isso. Não sei se respondi à pergunta.

Respondeste, e muito bem. Estamos mesmo a chegar ao fim e para terminar, Diogo Morgado, o que te inquieta neste mundo? Falámos aqui de tanta coisa, de tantos desafios, de tanto ruído que às vezes surge. O que te inquieta neste mundo?

Inquieta-me isso. Olha, curiosamente, parece que estou a me repetir, mas inquieta-me as pessoas que não se questionam, que não questionam o que está à volta delas, que veem uma coisa e vão: "Isto é a verdade. Pronto, isto é a verdade. Se está na net, é verdade." E já estamos aqui, já passaram uns aninhos valentes desde esta coisa chamada www internet.

Nós agora temos a inteligência artificial.

A inteligência artificial. Então agora entramos aqui num campo ainda mais complexo. Eu acho que é mesmo importante nós pensarmos com a nossa cabeça e pensarmos: será que isto é bom para mim? Será que isto é verdade? Darmos o benefício da dúvida. E dar o benefício da dúvida não é ficar sempre com o pé atrás em relação às coisas, é de facto pensarmos com a nossa cabeça. Inquieta-me muito que as pessoas muitas das vezes pensem e ajam em manada, sem questionar. Isso inquieta-me muito, porque a história da humanidade diz-nos que sempre que isso aconteceu, não correu bem. Sempre que isso aconteceu, não correu bem. E eu acho que nós devíamos aprender com os erros do passado. E vamos acalmar um bocadinho, vamos respirar fundo, sobretudo com esta questão da inteligência artificial. É só mais um fator, em que nós estamos com tanta sede ao pote que pode ser mesmo complicado. E as pessoas que estão no topo dessa estrutura alertam para os perigos. Mais uma vez, vamos pensar pelas nossas cabeças e ter calma. Respirar o bom senso um bocadinho, é o que eu peço.

E nós conseguimos respirar muito.

Respiração funda ao longo destas histórias, Diogo Morgado.

Muito obrigado por teres vindo aqui à Rádio Observador.

Foi um prazer, muito obrigado.

Vão às salas de cinema ver "O Lugar dos Sonhos". Compensa e vale muito a pena. Um grande abraço e até breve.

Um grande abraço, igualmente. Obrigado, até breve.