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E normalmente não é sobre mim. É se eu ponho, imagine que eu ponho um manequim que é muito magro, ou acham que é esquelética ou acham que é gorda. Comigo nem uma coisa nem outra. Toda a gente tem o direito à vida. Eu cada vez mais, nos meus desfiles, por exemplo, eu ponho a desfilar inclusão total. Mais novos, mais velhos, mais gordos, mais magros, todas as etnias, lugar a todos. E se me vêm dizer que aquele é feio, ou que aquele é magro, ou que aquele é gordo, comigo é bloqueado porque não vale a pena. E eu tenho que dizer que há muitos anos as coisas eram um bocadinho diferentes, e sobretudo os 21 anos de Paris Fashion Week, porque eu tive 43 desfiles em passarela na Paris Fashion Week, estava mais limitada a quase que a estereótipos internacionais.

Porque eles existem, não é?

Existem. E Paris é a capital da moda. E a verdade é que eu, mesmo assim, mesmo em Paris, levei muitas vezes manequins a desfilar que estavam muito fora dos estereótipos, sobretudo naquela altura em que se queriam manequins muito magras. Eu sempre gostei de formas e sempre gostei, sobretudo, de pôr pessoas diferentes. E mesmo assim, em Paris, eu não tive medo e muitas vezes eu furei esses estereótipos. Agora, há muitos anos que eu não permito que ninguém me venha dizer. Na altura, tinha o assessor de imprensa que me dizia: "Cuidado, porque a imprensa internacional não vai entender." Há muitos anos que eu não me preocupo se vão entender ou não. Curiosamente, hoje em dia, a palavra de ordem é inclusão.

Nasceu numa ilha, mas o mundo rapidamente se tornou pequeno para a dimensão da sua ambição. Aos 13 anos já não aceitava o vestuário que lhe era dado, desenhava e confeccionava as suas próprias peças, recusando vestir os moldes e também as expectativas dos outros. Antes de ditar tendências, começou por guiar quem vinha de fora a acompanhar turistas, mas já lá vamos também aprofundar essa parte. Em 1990, trocou a madeira pela energia do Bairro Alto. Nove anos mais tarde, tornou-se a primeira criadora portuguesa a integrar o calendário oficial da prestigiada Semana da Moda de Paris. Empresária rigorosa, estilista e caçadora de talentos, construiu uma carreira com mais de três décadas, mantendo sempre a independência num mercado muitas vezes dominado por grandes gigantes, sem pedir licença e com a convicção de que o espaço da mulher não se solicita, exige-se. Manteve-se fiel ao seu traço e também à sua voz. Hoje, e no "Em 40 Minutos" da Rádio Observador, conversamos com esta mulher. Fátima Lopes, muito bem-vinda aqui à Rádio Observador.

Muito obrigada, é um prazer imenso.

Vamos ter espaço para conversar. Aqui em off estava a me perguntar: é respostas curtas? Vou ter tempo para falar? Não, temos mesmo tempo.

O problema é que eu falo muito.

Não, mas temos tempo de sobra.

Temos tempo.

E em rádio, temos sempre a possibilidade, depois também em podcast, ficarmos com uma versão mais longa desta conversa. A preparar esta nossa entrevista, não digo impressionado, porque todos nós conhecemos um bocadinho da sua história. Aliás, nesta introdução fica patente essas raízes, que já lá vamos também no Funchal. Mas há uma frase que disse numa entrevista que me ficou aqui na memória: "O espaço da mulher não se pede, exige-se". Ao longo da sua carreira, foi percebendo isso ou foi desde cedo que percebeu que tinha de se falar, de se posicionar, às vezes, de meter a mão na mesa ou bater a mão na mesa mesmo, para marcar a sua posição? Como é que foi feito este processo?

Olha, eu acho que eu nasci assim, porque sempre achei que eu seria aquilo que eu quisesse ser e nunca iria permitir que alguém me dissesse o que eu podia ou não podia fazer. Portanto, desde pequenina, a minha mãe dizia que eu era terrível, porque se ela me desse uma ordem sem explicar por quê, eu ficava.

Isso vem de quando?

A primeira pergunta era por quê? E não corria bem para mim, normalmente, mas eu não tinha medo nenhum. Eu acho que também o fato de eu ter nascido numa ilha pequenina. Desde que eu me lembro de mim, eu sonhava com o mundo. Quando se nasce numa ilha em que a única hipótese de sair dali é por avião, acho que nós temos uma maior sede de ir à procura das coisas e de descobrir o mundo. De liberdade. E eu acho que eu sou assim, eu fui assim a vida toda. Muitas das coisas que eu fiz e que foram consideradas muito à frente do tempo. Há quem me diga que eu empoderei as mulheres, e eu já ouvi isso muitas vezes. Empoderei os negros, porque eu comecei por dar destaque a modelos negros, porque sempre achei que o mundo tem que conhecer a palavra inclusão, e isso fez sempre parte da minha vida. Portanto, eu desde sempre soube que eu não tinha medo e que eu teria que lutar muito. Por um lado, porque vivia numa ilha e, portanto, onde quer que eu fosse, eu seria a estrangeira. Depois, era mulher Coisa que também nunca permiti que me reduzisse ao que quer que fosse, porque exactamente essa frase de que "eu não peço, eu exijo". Eu exijo direitos, direitos iguais, nem mais nem menos. E acho que é isso que todas nós, e sobretudo muitas vezes as mulheres também são um bocadinho culpadas.

Ia-lhe perguntar isso. O facto de estarmos a dar esse destaque é sinal de que ainda há pessoas que colocam isso em evidência e de certa forma em causa, digamos assim.

Eu acho que sim, até porque não há o Dia do Homem, há o Dia da Mulher. Eu gostava muito que houvesse também o Dia do Homem ou então não havia dia de nenhum. Significaria que havia total igualdade. E portanto eu acho que a igualdade é uma necessidade e as mulheres têm que perceber isso, porque muitas vezes são as próprias mulheres que se deixam ficar para trás. Às vezes não sou bem interpretada, mas o que eu acho verdadeiramente importante é igualdade. Eu não quero ser mais do que ninguém, mas menos também não permito. E portanto, é isso que deveria estar intrínseco em todos os homens e em todas as mulheres.

Essa energia e essa demanda vem de alguém da sua família? Há alguém que a Fátima Lopes consiga perceber: "Eu sou parecida com esta pessoa".

A minha mãe era uma mulher pequenina, mas com uma garra e uma força. Só que ela foi mãe de cinco filhos e portanto ela nunca teve voz. Mas eu acho que ela era uma mulher de força, de muita força. Mas eu acho que não sou parecida com ninguém, para ser sincera. Eu tenho uma coisa parecida com a minha família toda, que é: somos de bem. Quando estamos juntos é uma festa, não sei o que é uma guerra, uma discussão entre família. Portanto, os momentos de família são momentos de felicidade, de boa disposição. Falamos todos muito, mas estamos sempre em paz. E eu acho que isso eu fui buscar às minhas raízes. Acho que à família fui buscar este estar, estas boas energias. E à terra talvez eu tenha ido buscar a necessidade de busca de liberdade, porque eu acho que quase todas as pessoas das ilhas, ou muitas, quando gostam de estar em paz e tranquilidade, estão muito felizes no seu canto.

Eu sei que a Fátima volta muitas vezes ao Funchal. A infância acredito que tenha sido um período muito feliz, mas esta mudança, há bocadinho usou aí uma expressão, sentir-se estrangeira. Porque é uma expressão que muitas pessoas que vêm de uma ilha dizem quando vêm, quer seja para Lisboa, para o Porto, para alguma cidade de Portugal. Que sensação é essa? O que é que se sente na realidade?

Sente-se uma vontade de fazer mais e melhor sempre, porque eu quando cheguei a Lisboa era estrangeira, porque era a estilista madeirense. Depois fui para Paris e era a estilista portuguesa. Portanto, eu sempre fui a estrangeira, mas isso não tem que ser mau, porque quase que sentimos uma responsabilidade às costas de que eu levo a Madeira, eu levo Portugal às costas. E isso quando nós fazemos aquilo que gostamos e vem de dentro, não é uma obrigação, não é uma chatice. Eu nunca tive um emprego, não sei o que é isso, um emprego para ganhar dinheiro no final do mês. É bom, muita gente infelizmente tem que ser, mas eu sempre tive como profissão a minha paixão. Portanto, o ser estrangeira, o ter que lutar muito mais do que os outros, porque essa é uma realidade. Quando se sai do nosso porto seguro, como eu saí da Madeira e tinha tudo fácil, e cheguei aqui, tive que começar do zero. Ninguém me conhecia, no início tinha sotaque madeirense, já lá vão tantos anos. Mas isso só nos dá aquela noção de que eu vou ter que lutar muito mais do que os outros. Se eu quiser chegar ao mesmo sítio e se quiser andar um bocadinho mais além, então vou ter que lutar muito mais. Portanto, a história da minha vida é essa, é sonhar e é trabalhar para concretizar os sonhos. Tem sido assim desde pequenina.

Nessa altura, quando se calar os mais novos estavam à procura de um grupo para se enturmar, para no fundo consolidar amizades, a Fátima Lopes também o fazia ou a moda já a chamava por si de alguma forma? Porque é muito curioso, porque todos nós temos paixões, quer seja música, canto, sei lá, filmes, há várias paixões. A moda é algo que nós vestimos todos os dias, não é? Uns com mais cuidado, outros não ligam tanto. Mas para uma criança, eu tenho sempre a noção de que até mesmo no Natal, e vamos dar esse exemplo, uma criança que se calar quando recebe roupa fica do gênero: "Ah, mais um pijama, ah, mais uma camisola". Para si, como é que era esta questão e como é que tudo floresceu?

Eu, na altura dos presentes de Natal, às vezes até tinha medo, porque eu não gostava de quase nada. Gostava muito de roupa, mas não gostava muito das coisas, se me dessem pijamas, eu odiaria. Portanto, eu sempre tive muita noção daquilo que eu gostava Eu não me lembro de perguntar: "O que acham? Fica-me bem ou não fica bem?" Não me lembro disso, porque eu tinha muita noção daquilo que eu gostava, daquilo que eu queria. Brincar com as bonecas, cortar as roupas das bonecas, lhes cortar os cabelos, ou seja, brincar com a imagem, desenhar e pintar.

À sua imagem.

À minha imagem, sempre. Portanto, sempre fez parte de mim. Eu não me lembro de um dia que eu tenha dito: "Olhe, eu quero trabalhar em moda". Nunca foi assim, foi uma coisa que foi natural, que fez parte de mim. A Madeira tem o lado de isolamento, mas também tem aquele lado paraíso, de grupinhos, de amigos, de bolha de conforto. E eu cresci no Clube Naval, que era um sítio que até hoje guardo como das minhas melhores memórias da vida. Talvez passei mais tempo no Clube Naval do que em casa e com um grupo de amigos e amigas. E isso fez de mim sempre aquela pessoa muito bem-disposta. Eu não tinha noção do que era maldade, do que era inveja, do que era querer fazer mal a alguém, até chegar a Lisboa sozinha e perceber que o mundo não era aquele que eu conhecia.

Há alguma situação nesse primeiro período em Lisboa que a tenha marcado de uma forma mais negativa?

Não, eu rapidamente percebi: "Ok, não estás na Madeira, não estás entre amigos".

Até mesmo a relação com as pessoas é diferente, não é? Essa bolha que falava não existia tanto em Lisboa.

Em Lisboa não existia. Portanto, eu cheguei a Lisboa sozinha, conhecia meia dúzia de pessoas, mas também a verdade é que eu não me posso queixar, porque eu tenho alguma facilidade em fazer amigos. E rapidamente eu conheci as pessoas certas e conheci um mundo que era aquele com o qual eu me identificava, de artistas ou jovens que queriam ser artistas. Eu era muito nova e ainda hoje em dia eu mantenho muitas das amizades daquela altura. Porque já havia essa vontade, mesmo em Portugal, havia uma movida que começava a nascer e havia, sobretudo, uma fome e uma sede de coisas diferentes. Portugal saía de uma ditadura e queria expandir-se, queria conhecimento, queria arte, e criaram-se vários movimentos artísticos. E eu tive a sorte de fazer parte desse início. Foi difícil de início, mas rapidamente eu também sempre tive alguma facilidade em me adaptar e nunca permiti que me dissessem: "Sai daqui, que isto não é o teu mundo". Isso nunca permiti.

Eles disseram?

Não disseram, mas quando se faz sombra a alguém, nem sempre somos bem-vindos. E eu comecei logo por rapidamente criar uma marca e as coisas correram bem. Eu tinha um estilo que era muito-

Isso nos anos 90, não é?

Exato, em 92. Em 90, eu abri uma das primeiras concept stores do país, que era a Versus, e ia a Paris, a Londres, a Milão, buscar coisas que ninguém tinha, que eram completamente fora da caixa, completamente originais. Eu tinha mulheres e homens, que na altura a roupa masculina era toda muito igual, e eu trazia as coisas que não lembravam a ninguém. E tenho clientes dessa altura que continuam a ser meus clientes. Portanto, foi um início que, não sendo fácil, eu fui conquistando. E fui percebendo que não era a única, porque havia muita gente como eu. E a minha geração fez muita coisa. Acho que muitas revoluções, entre aspas, acontecidas em Portugal, foram feitas pela minha geração, porque foi aquela geração que saiu da ditadura.

Saiu da mesmice, não é?

E que queria criar a diferença, queria fazer acontecer.

E o resultado está aí, à vista de todos. Uma marca com mais de 30 anos.

Vai fazer 34. Portanto, 33 e mais já.

Exato. Fátima Lopes, ainda temos muito pra conversar. Voltamos já a seguir nesta segunda parte do "Em 40 Minutos", porque é muito importante perceber este caminho que a fez chegar até aqui, mas também o que se faz com as pedras que vão aparecendo no caminho. Voltamos já a seguir para falar também sobre isso. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana com Fátima Lopes, estilista, porque também lhe queria perguntar isto: quantas pessoas já lhe ligaram a achar, e vice-versa, de certeza, a Fátima Lopes, a apresentadora, já falou consigo. As vezes que confundem e acham que estão a falar com uma e afinal estão a falar com a outra, já aconteceu muitas vezes ou não?

Muitas, inclusive a Fátima uma vez fez um programa que lhe chamou "Eu chamo-me Fátima Lopes" e convidou-me para desmistificarmos isto.

Exato.

Uma vez eu recebi uma carta no meu ateliê, que vinha de Fátima. E eu: "Uma carta de Fátima pra mim? Que estranho, não há de ser pra mim". E abri e era um agradecimento pelo livro. A Fátima tinha lançado um livro, portanto aquilo não era mesmo pra mim, então reencaminhei pra ela, mandei-lhe por correio. Isto já aconteceu muitas vezes. E ligarem, porque normalmente se ligarem Se forem à procura do número da Fátima Lopes, é o meu. A marca é a minha, o site Fátima Lopes. E portanto, as pessoas muitas vezes pensam, e houve uma altura que me pediam muita ajuda para o programa, porque queriam ir ao programa da Fátima Lopes. Isto já aconteceu muitas vezes.

É uma velha história. Há bocadinho, e no final da nossa primeira parte, estávamos a falar desse caminho que a trouxe até Lisboa, mas com certeza há muitas pedras no caminho, no sentido de dificuldades, de pessoas em que se calar achamos que podemos confiar e que se calhar não são assim tão de confiança. Sabemos que tem energia para lidar com isso, mas nos dias maus, e possivelmente teve muitos, como é que se lida com isso, tendo os pais, aquela fonte de maior apoio, se calhar, e os irmãos tão longe?

Eu acho que eu descobri, a vida ensinou-me que eu sou muito mais forte do que alguma vez imaginei. E acho que, se calhar, a maior parte das pessoas que já passou por dificuldades tem essa noção. Nós somos muito mais fortes do que pensamos e às vezes vamos buscar forças onde não imaginamos. É claro que também é importante termos amigos por perto. Mas eu acho que se toda a vida tenha conseguido transformar as dificuldades em oportunidades. Algumas pessoas que eu lamento ter conhecido e, sobretudo, lamento ter confiado, mas isto também faz parte da vida. É sempre possível nós sermos enganados e quando achamos que nunca mais vamos ser enganados, é mentira, porque vamos ser enganados por outras pessoas, de outra maneira, porque há sempre alguém que não nos quer bem e, sobretudo, quando se fala de um mundo de negócios, há sempre alguém que quer o nosso lugar. E isso faz parte, seja em que área for, faz parte. Mas a verdade é que se me pergunta hoje em dia se eu guardo mágoas, acho que elas ficaram no passado. Houve momentos difíceis, momentos complicados, mas eu não sou de guardar nem rancores. Agora tem uma coisa, eu não sei perdoar. O dizer: "Tudo bem, não faz mal, eu perdoo", não. Eu esqueço completamente essa pessoa, para mim passa a ser transparente, nunca mais irei falar com ela. Estamos a falar de coisas muito graves, obviamente. Coisas do dia a dia, passa-me ao lado e daqui a bocado já nem me lembro. E se me pedirem desculpa, já passou. Coisas graves, eu simplesmente ignoro que aconteceram, deixo no passado. Não há nada neste momento que eu diga que tenha como mágoa. Algumas pessoas tornaram-se invisíveis e na minha cabeça não existem.

E para si, quando falha, é fácil pedir desculpa?

Sou a primeira a pedir desculpa, sempre. Às vezes até peço desculpa e fico a pensar: "Estás a pedir desculpa por quê?" Porque a palavra desculpa não é um problema para mim.

Nós temos uma carga muito dramática ao pedir desculpa.

Não, de todo.

À falha.

Até porque eu prefiro que me digam: "Olha, errei, desculpa", do que me enganem. Isso não. Por amor de Deus, não me enganem, porque não há nada que me enerve mais do que me virem com desculpas esfarrapadas, aquelas mentirinhas que as pessoas no dia a dia gostam de dizer e esquecem-se que eu já tenho 61 anos, já passei por tudo e já ouvi as histórias todas. Portanto, não me mintam, digam-me a verdade, e digam: "Olha, lamento que tenha feito." Eu vou desculpar facilmente. Não gosto de ser enganada, não gosto que me façam de tolinha, isso também me enerva profundamente. Eu prefiro que me digam na cara: "Não gosto de ti", do que me façam de tontinha. Isso, não.

É sempre mais fácil, que assim não temos rodeios.

Exatamente. E aquelas pessoas que dizem diretamente: "Olha, por alguma razão, não gosto disto que fizeste". Agora, há coisas que me fazem rir também, que é as pessoas criticarem. Hoje em dia, há uma crítica nas redes sociais, diária, em que as pessoas acham que têm o direito de se meter na vida dos outros. Têm o direito de criticar a forma como se vestem, as suas atitudes, os seus relacionamentos. Eu acho tão triste, pobrezinho, porque eu acho que quem tem vida, não se preocupa com a vida dos outros. Portanto, eu sou aquela pessoa que pede desculpa, mas não me meto na vida de ninguém. Nunca disse mal de ninguém. Não me perguntem se eu gosto da roupa desta ou daquela, se ela está bem vestida ou mal vestida, porque a minha resposta é sempre a mesma. Ela com certeza acha que está bem. E está tudo certo, porque eu acho que é assim que deve ser.

Cada um tem a sua identidade, não é?

Cada um tem a sua identidade. Acho que ninguém tem o direito daquela crítica só porque sim. Se for uma crítica construtiva, eu aceito. Façam-me críticas construtivas que eu vou pensar se a pessoa tem razão ou não. Agora, a maledicência.

Nós sabemos que este mundo da moda tem muitos holofotes, não é? E por aquilo que a Fátima está a dizer, passava bem sem isso. Ou seja, se o seu trabalho continuasse a ser reconhecido, mas não tivesse tantos holofotes, viveria bem com isso. Esta questão de agora termos redes sociais em que o julgamento é imediato. Em segundos, faz-se uma publicação e recebemos comentários bons, maus, alguns que nem pedimos. Muitas vezes são esses que acabam também por incomodar mais ou criar aqui alguns celeumas. Viveria bem sem esse lado do glamour da moda?

Eu não me queixo do lado do glamour, porque eu tenho que dizer que eu sou um bocadinho sortuda, porque as minhas redes sociais não tenho haters. Se aparece um É bloqueado imediatamente e nunca mais vai entrar.

Nos dias de hoje, dizer isso é raro.

Eu digo porque eu só quero que me siga quem gosta de mim. Eu só sigo quem eu gosto. Portanto, eu não entendo que se sigam pessoas para depois ir criticar e dizer mal. Como eu dizia há pouco, a maledicência comigo não funciona. Eu vi uma vez o Herman José dizer isto, que se divertia a bloquear pessoas na sua rede social. Eu achei: "Olha, que bela ideia!". Mas a verdade é que eu não faço isso muitas vezes. Se calhar uma vez de dois em dois meses aparece alguém. E normalmente não é sobre mim. Imagine que eu ponho um manequim que é muito magro, ou acham que é esquelética, ou acham que engorda. Comigo nem uma coisa nem outra. Toda a gente tem o direito à vida. Cada vez mais, nos meus desfiles, por exemplo, eu ponho a desfilar inclusão total, mais novos, mais velhos, mais gordos, mais magros, todas as etnias, lugar a todos. E se me vêm dizer que aquele é feio, ou que aquele é magro, ou que aquele é gordo, comigo é bloqueado porque não vale a pena.

Porque nós agora, e falando aqui da questão das redes sociais, fala-se muito dessa inclusão, ainda mais na moda, porque é de certa forma uma referência para todos nós e muitas vezes pessoas olham para a moda como uma forma de ser um exemplo a seguir. E esta questão que nos traz é muito importante, porque nós até há muitos anos estávamos habituados a um certo tipo de corpo, a um certo tipo de pessoa a desfilar num desfile, até mesmo na Moda Lisboa, mas a Fátima tem essa experiência de passarelas internacionais. E hoje em dia, e a Fátima fez isso desde quase o início, tentar desconstruir essa ideia. Mas isso é aquilo que nós vemos de fora, ou seja, o público. Para quem está dentro da moda em si, é fácil de o fazer, ou seja, os pares conseguem perceber essa desconstrução ou ainda é difícil quando se fala de matéria de inclusão?

Quem não entender, é para o lado que eu durmo melhor. Desculpem a expressão. Felizmente, a minha profissão me deu esta liberdade de expressão. E quando eu preparo uma coleção, e eu tenho que dizer que há muitos anos as coisas eram um bocadinho diferentes, e sobretudo os 21 anos de Paris Fashion Week, porque eu tive 43 desfiles em passarela na Paris Fashion Week, estava mais limitada a quase que a estereótipos internacionais.

Porque eles existem, não é?

Existem. E Paris é a capital da moda e a verdade é que eu, mesmo assim, mesmo em Paris, levei muitas vezes manequins a desfilar que estavam muito fora dos estereótipos, sobretudo naquela altura em que se queriam manequins muito magras. Eu sempre gostei de formas e sempre gostei, sobretudo, de pôr pessoas diferentes. E mesmo assim em Paris, eu não tive medo e muitas vezes furei esses estereótipos. Agora, há muitos anos que eu não permito que ninguém me venha dizer. Na altura, tinha o assessor de imprensa que me dizia: "Cuidado, porque a imprensa internacional não vai entender." Há muitos anos que eu não me preocupo se vão entender ou não. Curiosamente, hoje em dia, a palavra de ordem é inclusão. E hoje em dia, praticamente no mundo inteiro, os criadores entenderam isso e entenderam que a moda que nós fazemos é para toda a gente. Ora, se eu puser a desfilar alguém com o qual o público que está sentado a assistir se identifique, é muito mais fácil dessa pessoa dizer: "Olha, fica bem a ela, então também fica bem a mim." Esta é uma lógica que eu entendo há muitos anos e que agora o mercado internacional reconhece. E, portanto, o que eu já fazia antes e continuo a fazer, e cada vez mais, é uma realidade que agora eu penso que neste momento quem disser que está mal é tolinho.

Ser pioneiro nesse sentido. Há bocadinho falávamos aqui desta questão de Paris, que a Fátima Lopes deixou de ser a criadora madeirense para ser a criadora portuguesa. Não digo que seja o ponto alto, que eu acredito que agora, possivelmente, e já lá vamos também, esteja a viver uma fase muito feliz na sua plenitude, até mesmo na sua vida pessoal. Mas esse momento é algo que nunca vai querer apagar da sua vida. Ou seja, o reconhecimento que teve naquela altura, em 1999, se não estou enganado.

Sim.

É algo mágico e que, para alguém que estava ainda no início da sua caminhada, é algo que é impossível de esquecer.

É. E é engraçado que isto tudo começou porque eu estava a desfilar na Moda Lisboa e de repente aparece-me um francês todo vestido de preto, com uma saia por cima das calças, com um ar completamente diferente de tudo o que era habitual em Portugal naquela altura, e disse-me: "Eu sou o Marc Ronsier, eu sou francês e vim cá para te conhecer. Eu quero te levar para a Fashion Week de Paris". E naquela altura, aquilo quase que não fazia sentido, era estranhíssimo. Mas ele e a equipa dele acreditaram que eu tinha um estilo que ninguém tinha e eu imediatamente comecei a acreditar também, apesar de em Portugal ninguém acreditar. Quando eu fui fazer o primeiro desfile em Paris.

Naquela altura, o que se escrevia?

A imprensa sempre esteve do meu lado. Eu tenho que dizer que a imprensa, quando eu fui fazer o primeiro desfile a Paris, eu levei comigo as televisões todas, as revistas todas, os jornais todos. Foi impressionante. A imprensa foi muito carinhosa, até porque era quase que orgulho nacional. Algum tempo depois, eu fui acariciada com a Ordem do Infante D. Henrique, com a comenda, pelos serviços prestados ao país, exatamente por levar a imagem de Portugal lá fora. Mas a imprensa sempre esteve do meu lado. Agora, naquela altura, o estar em Paris e de repente ter a imprensa internacional a promover e a respeitar o meu trabalho, fez com que aqueles velhos do Restelo que existiam em Portugal, de repente não tivessem sequer argumentos para criticar, porque quando não se é igual aos outros, é fácil ser criticado. Eu nunca fui igual a ninguém e curiosamente, foi isso que me abriu as portas em Paris. Eu era a Fátima Lopes, com estilo próprio, e fui para lá sozinha, uma empresa pequenina, portuguesa, sem fazer parte de grupo nenhum, e de repente eu tinha o meu lugar. Quarenta e três desfiles com salas cheias em 21 anos consecutivos. É possível. E aconteceu.

Qual foi o maior elogio que já lhe deram até hoje?

Eu acho que é sempre ser criadora, porque ser criador é exatamente a minha essência, eu gostar de criar tudo, sempre. Mas lembro-me uma vez, a revista, penso que foi a L'Officiel, e agora já não tenho a certeza do que estou a dizer. Uma revista muito importante francesa, escolheu três dos meus vestidos entre os melhores de toda a Fashion Week. E lembro-me que isto aconteceu em Paris e de repente em Portugal, as revistas de moda já todas queriam fotografar aqueles vestidos. Se a imprensa internacional não tivesse dito nada, se calhar não era bem assim. Portanto, nós ainda temos aquela cultura em Portugal, que o que está lá fora e que é bom, e quem não está lá fora não existe. Ora, isto não me faz sentido nenhum, mas a verdade é que foi essa exposição, foi esse reconhecimento internacional e eu tive muita coisa que fui a primeira pessoa a fazer. O primeiro desfile biquíni diamantes, o primeiro desfile no cimo da Torre Eiffel. Houve muita coisa que eu fui pioneira, exatamente porque eu tinha que conquistar o meu espaço sem ter as mesmas armas que os meus colegas internacionais. Não tinha o poder financeiro, então tinha que ser a criatividade, a imaginação. Eu tinha que estar sempre na linha da frente para conseguir estar taco a taco, graças a Deus. Não me envergonho, acho que tudo o que eu fiz até hoje, eu tenho orgulho disso. Não é uma questão de vaidade, é uma questão de ter aquele sentimento de missão cumprida. Eu acho que também tenho que agradecer a tudo e a todos, e muita gente que ao longo da minha vida me acompanhou e acompanha. Ainda tenho comigo pessoas desde o início da minha carreira. E portanto, isto é aquele sentimento de missão cumprida, que é partilhado por muita gente e sensação de agradecimento. Eu sou realmente aquela pessoa que todos os dias diz obrigada.

Nós sabemos que hoje em dia há muito esta questão à volta da inteligência artificial e que hoje em dia é um grande desafio, até mesmo para criadores. Como é que a Fátima olha para este novo desafio que nos aparece aqui à frente, sabendo que aquilo que sabíamos há seis meses da inteligência artificial, hoje já tem outras funções, sabemos que daqui a três vai ter outras.

Exatamente.

É mesmo o maior dos desafios neste momento para um grande criador que, como a Fátima disse ainda há pouco, quer estar sempre à frente do seu tempo.

E é incógnita, porque não sabemos o que é que vai acontecer amanhã, depois. A verdade é que criar, para mim, sempre foi a minha forma de estar, mas de dias e noites e semanas e meses a inventar coisas. E agora, se calhar, alguém atrás de um computador passa-me a perna em dois segundos.

Às vezes até mesmo só para ganhar ou procurar inspiração.

Sim, e já há marcas feitas 100% com IA. Isso já existe. Em termos de indústria, também é uma grande incógnita. Eu tenho costureiras comigo que de vez em quando dizem: "O que é que nos vai acontecer? Vamos ser substituídos por máquinas?" Acho que no meu tempo ainda isso não vai acontecer, mas não sabemos. É claro que já há muita fábrica feita quase 100% com robôs e não sabemos o que vai acontecer. Agora, acho que as marcas de autor têm que continuar a usar o seu cérebro e a sua imaginação.

A desumanização pode tirar aqui grandes valores e criadores à moda, não é?

Eu acho que tira. Digam o que disserem, eu acho que a moda de autor vai sempre ter este lado artístico, humano, acho que é fundamental. E eu espero que nenhuma marca de autor permita inteligências artificiais a deformar a criação humana, a criatividade humana. Eu acho que isso tem que se manter. Agora, as marcas de grande distribuição, acredito que é o presente e que será o futuro, totalmente.

Quem veste uma peça sua, com a sua assinatura, Fátima Lopes Cada um tem uma sensação diferente, com certeza, dependendo da ocasião. Mas o que espera que essa peça transmita para a pessoa que a está a vestir?

Eu quando crio, o meu objetivo é sempre criar um ideal de beleza, seja para mulher, seja para homem. Acho que o que a minha profissão tem de bom é eu poder criar beleza. E acho que se as pessoas se olharem ao espelho e gostarem de si próprias, é meio caminho andado para não precisarem de remédios, pelo menos de doenças de foros psiquiátricos. Acho que nós temos que gostar de nós. É claro que vão dizer que é fútil dizer isto, mas a verdade é que quando nós olhamos para o espelho e gostamos de nós, a sensação de bem-estar é real, não é fútil, é real, faz-nos bem. Portanto, eu gosto de criar beleza e fico tão feliz que as pessoas usem a minha roupa, se sintam muito bem. Dizem-me às vezes: "Eu senti-me uma rainha, eu senti-me uma diva". E isso faz-me muito feliz. Eu adoro, por exemplo, fazer vestidos de noiva e noivos, porque a felicidade normalmente é muito grande e é contagiante. Portanto, eu acho que o meu trabalho, basta só as pessoas se sentirem bem com isso, para me deixar feliz. E portanto, é isso que eu gosto de fazer. Criar beleza para tudo e para todos.

Para todos aqueles que querem ter uma peça sua. Falamos aqui também de um tempo e possivelmente, ultimamente sentiu mais isso com a pandemia de Covid-19, alguma incerteza nos mercados. Sabemos que a Fátima não cria só para Portugal, há o mercado também internacional. Mas como é que está a moda, digamos assim, a nível económico? Nós sabemos que há gigantes no mercado e esses ameaçam, claro, os criadores, mesmo que sejam grandes. Como é que se lida com esta questão de a moda, é claro, um estado de felicidade para si e criar é um estado de felicidade, mas ao mesmo tempo é um negócio, não é? Sujeito a todas estas flutuações.

Claro, e obviamente eu sou aquela pessoa muito atenta ao dia a dia e todos os dias me preocupo, sobretudo com o que vem de fora, porque o mundo espirra e nós ficamos logo constipados. Portanto, é preciso ter esta noção de que às vezes pequenas coisas nos afetam. É claro que o mundo, em termos de moda, não está a viver tempos áureos. Mesmo as grandes marcas de alta costura estão a ter algumas dificuldades. Agora, temos que ter os pés muito assentes na terra. A nossa realidade portuguesa é pequena, não é comparável com marcas internacionais, que também têm investimentos multimilionários.

As proporções não podem ser comparáveis.

As proporções são outras. É claro que um investimento multimilionário, se alguma coisa corre mal, os riscos são muito grandes. A nossa realidade em Portugal é um bocadinho diferente e felizmente eu não me posso queixar e portanto, vivo das lojas, do e-commerce, de várias coisas, também de uma agência de modelos. A Face Models também tem 28 anos.

20 e muitos anos. É que nem diz 30 já.

Exatamente. E portanto, também é o outro lado. E portanto, eu acho que é uma questão de ter noção, de ter os pés assentes na terra, não dar passos maiores do que as pernas. Mas ao mesmo tempo, eu sou aquela pessoa que também não tem medo de correr alguns riscos, mas cada vez mais, muito medidos. Portanto, eu hoje em dia, e acho que a vida, a idade, os anos têm algumas coisas de mau, mas também trazem muita sensatez, muita experiência de vida. E portanto, eu hoje em dia tenho muito cuidado de gerir o mercado de acordo com o dia a dia, ou seja, não dar um passo maior do que a perna. E por isso a marca Fátima Lopes vai fazer 34 anos no final deste ano, ou seja, em setembro, está quase. E eu posso dizer que está tudo a correr bem. Eu estou feliz a preparar o próximo desfile já, que vai ser muito em breve. Mas é uma Fátima Lopes hoje em dia com uma experiência de vida diferente e com muitos anos de trabalho, com provas dadas e já sem aquela necessidade de provar alguma coisa a alguém.

Já não há aquela pressão, como se calhar havia em Paris, de provocar aquela primeira impressão "uau". É mesmo isto.

Paris foram 21 anos, como eu disse há pouco, 43 desfiles em que tinha que ser perfeito. A imprensa especializada de moda do mundo inteiro, muito crítica. E havia uma pressão que eu não tenho saudades, confesso, porque desfilar em Portugal e a partir da pandemia, eu fiz o último desfile em março de 2020, começou a pandemia e era impossível fazer o desfile na estação seguinte, e era impossível na seguinte. E de repente eu percebi que desfilar em Portugal é tão confortável para o meu público, para os meus amigos, para a imprensa, que é amiga e simpática e, sobretudo, atrás de um computador, nós chegamos ao mundo, coisa que antigamente não acontecia. Portugal era muito pequenino, era impossível fazer uma marca internacional se não estivesse em Paris. Hoje em dia as coisas são diferentes e felizmente a globalização, também com as redes sociais, é real e nós temos na nossa mão hoje em dia a divulgação, o poder da divulgação. Portanto, eu estou muito feliz no meu país.

É muito interessante dizer isso, porque geralmente temos essa noção de que lá fora é que tudo é grande e é onde nós queremos estar. Mas é bom também ter essa perspectiva de que em Portugal há esse conforto e é possível encontrar esse conforto.

É verdade.

Conforto, aliás, confronto, não, conforto.

Conforto. Convivo em Portugal, mas percebo que o nosso país é muito bom, porque é claro que se eu não tivesse estado em Paris 21 anos, nunca tinha tido uma marca internacional, sobretudo naquela altura. Mas eu lembro-me, por exemplo, que três épocas seguidas eu desfilei às 9h30 da manhã antes da Chanel. E foi me apresentado inicialmente como uma honra. E era um estresse, meu Deus, eu quando me lembro, nem gosto de me lembrar.

Consegue transportar quase para lá nesse momento.

Portanto, é uma honra, mas é um presente envenenado. Ou seja, o desfilar cá no nosso país é verdadeiramente um conforto. E quando eu digo isto, digo com conhecimento de causa. O nosso país é muito bom. Nem tudo é bom em Portugal, mas nós temos que ver o lado positivo de Portugal e o conforto, sobretudo das pessoas. Portugal tem muita coisa boa. Às vezes só é preciso ir lá fora um bocadinho para voltar e dizer: "Tinhas razão, Portugal é muito bom."

Há bocadinho estava a falar aqui da questão da agência Face Models, quase com 30 anos também. O que é que os jovens hoje, quais são os sonhos, o que é que eles procuram? A Fátima ainda há bocadinho falou aqui desta questão da inclusão. Há cada vez mais também a procurar na moda um sonho de torná-la cada vez mais inclusiva. Procuram também a agência ou esse tipo de oportunidades para se darem a conhecer e, quem sabe, ter um futuro promissor.

Bom, eu tenho que dizer que a Face Models, sem dúvida nenhuma, é a agência mais inclusiva do país. Nós temos desde o Face Kids, desde crianças, a todas as idades. Portanto, nós temos vários departamentos dentro da agência. Óbvio que não é para toda a gente, mas quase toda a gente se pode identificar com um departamento. Portanto, nós temos as crianças, temos os beauty, que são aqueles modelos muito bonitos, mas que não têm altura para manequim de passarela, por exemplo. Nós temos os plus size, tamanhos grandes. Nós temos mais de 40 anos, portanto, temos o comercial, que engloba praticamente toda a gente. Não há nenhuma restrição em relação à inclusão. Nós temos todas as etnias e fazemos questão disso. E posso lhe dizer que alguns dos nossos modelos mais importantes, nunca lhes passou pela cabeça serem modelos. Por exemplo, um deles era segurança de uma loja e foi encontrado assim na rua e hoje em dia está no estrangeiro, entre aviões, de um sítio para o outro. Os nossos modelos vêm de todos os lados, estrangeiros de todas as nacionalidades, portugueses também, obviamente. Recebemos os estrangeiros e mandamos os nossos lá para fora. E é possível verdadeiramente construir carreiras de sucesso, e temos muitas provas disso. E posso dizer que no dia 19 de setembro vamos fazer o Face Model of the Year 2026. Todos os anos lançamos o concurso, descobrir as novas caras. Todos os anos nós descobrimos novas caras. Este ano vamos fazer uma coisa muito engraçada, que é assim um momento de fofura no concurso, que vamos pôr os nossos kids, as nossas criancinhas pequeninas também no momento de desfile. Portanto, isto para dizer que verdadeiramente é possível lugar a todos e a Face Models é uma das plataformas para o conseguir. É claro que não é aberto a toda a gente, obviamente, há alguns critérios, mas é uma realidade neste momento.

Fátima Lopes, longe dos desfiles, das luzes, deste mundo glamour da moda, o que gosta de fazer?

Gosto de tanta coisa. Em primeiro lugar, viajar.

Está no top dos tops.

Acho que sim. Adoro viajar, adoro dançar, adoro jardinagem. Tenho uma varanda com flores tropicais que eu própria gosto de lá ir e de cuidar delas. Gosto muito de conviver, apesar de gostar muito de estar em casa. O meu dia a dia é com muita gente. O meu espaço engloba o meu ateliê, mas também a Face Models e a loja, portanto, tudo num espaço. Portanto, todos os dias, todo o dia eu estou a conviver de pessoas. E às vezes sabe muito bem chegar a casa, estar em paz e sossego. Mas não tenho muito tempo para televisão, essa é uma realidade, mas adoro música, adoro dançar, acho imensa graça a cantar, apesar de não ter voz nenhuma. Mas eu gosto verdadeiramente de ocupar o tempo e de me divertir. Há uma frase que há dias eu ouvi muito engraçada de alguém dizer: "Não deixo o velho entrar em mim". Eu não deixo o velho entrar em mim, porque eu acho que nós temos a capacidade e a obrigação até, de tentarmos ser felizes todos os dias e fazer felizes as pessoas à nossa volta. Por isso eu cada vez mais tenho um lado profissional que é muito importante, mas já tenho uma balança em que ponho paralelamente o lado profissional e o lado pessoal.

Consegue desligar facilmente esse lado mais profissional Por exemplo, ao fim de semana, consegue desligar?

É difícil, porque tenho loja aberta e muitas vezes tenho que responder. Acho que também não tenho essa necessidade de desligar totalmente, até porque as pessoas têm o bom senso de só me falarem em último caso, se tiver que ser. Até porque eu gosto de trabalhar em equipe e as minhas equipes têm autonomia para muita coisa e só em último caso é que me vão ligar ou, não vou dizer incomodar, mas questionar. Mas, no passado, eu diria que o lado profissional era muito mais importante. Hoje em dia eu digo que é paralelo, paralelamente o pessoal com o profissional. E acho que daqui para frente vai ser sempre assim.

Até porque temos que ter tempo para o amor, não é? Porque a Fátima conseguiu encontrar também esse lado e há mais de um ano.

Há dois anos. Casada há um ano e tal, mas um relacionamento de dois anos.

Falava aqui do casamento, mas essa história já é prolongada.

São dois anos.

E é uma história que também é bonita e orgulha-se de ter escrito e que vai continuar, não é?

Eu acho que nunca é tarde. Muitas vezes eu ouço pessoas com 40 anos me dizerem que já é tarde.

Sim, a serem demasiado fatalistas.

Eu acho ridículo e não faz sentido nenhum. Nunca é tarde. As pessoas têm que estar predispostas a viver e a gostar de viver, porque não faz sentido desistir do amor, como não faz sentido desistir de respirar. Portanto, nós temos que estar abertos à vida. E não há idade.

E é um sentimento que está sempre implícito na nossa vida. Pode não ser o amor entre um homem e uma mulher, mas pode ser a amizade, o sentimento, o que for.

O que quer que seja, entre amigos, entre familiares, o trabalho, eu acho que tudo tem que ser feito com amor. E quando é feito com amor, é sempre muito mais bonito.

Fátima Lopes, para terminar, e em relação ao futuro, o que a deixa mais inquieta?

Eu gosto de ver o copo meio cheio, sempre. E, portanto, não quero pensar em inquietações. Eu quero pensar que eu daqui a dias tenho o Face Model of the Year para fazer e no mês seguinte tenho o desfile para fazer, que já estou a preparar. E eu gosto muito de me dedicar às coisas e todos os dias tenho um objetivo diferente. Portanto, não vou pensar em problemas, porque eles existem, toda gente os tem. Vou agradecer pela saúde, pela vida, por tudo que eu tenho e esperar que tudo corra bem, trabalhando muito para que isso aconteça.

É essa sempre a máxima, trabalhar muito para que as coisas realmente aconteçam.

Exatamente.

Fátima Lopes, muito obrigado por esta entrevista e por ter vindo ao "Em 40 Minutos" e muito sucesso. Obrigado.

Muito obrigada, foi um prazer imenso.

Obrigado.