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E só percebi isso porque houve um dia que eu coloquei um limite, porque eu já não aguentava estar triste como eu estava. Claro que eu não estava o dia todo triste, mas era aquela tristeza profunda. No dia a dia não estava triste, porque estava distraída. As pessoas andam distraídas, mas depois quando eu acordava de manhã, sabes aquela coisa que tu sentes no coração que é: " Mais um dia. Levanta-te e vai." E eu ia lá e a coisa depois passava, mas estava ali a ferida. E há um dia que eu digo: "Não, eu preciso de tempo para estar comigo, para entender de onde é que vem esta ferida." E esta ferida vinha do quê? Eu estava só exausta, por isso é que eu estava triste. Eu estava triste por estar exausta e não ter tempo para mim.
Há pessoas que entram pela televisão com a energia de um vendaval. Foi figura habitual da televisão portuguesa durante uma década, mas decidiu parar, respirar, recomeçar. Deixou os ecrãs para ouvir a intuição, reinventar-se como comunicadora e voltar de uma outra forma. Hoje, em "40 Minutos", sentamo-nos com uma mulher que já disse sim a muita coisa, mas que aprendeu com o tempo a dizer não. No caminho, tem aproveitado para correr muitos quilómetros na estrada e dentro de si mesma. É um nome que associamos a movimento, vitalidade, autenticidade. Estamos com Isabel Silva em "40 Minutos". Olá, bem-vinda.
João. Realmente, olha, tens uma voz incrível.
Obrigado.
Nós há bocadinho estávamos a falar.
Já falámos muito em off. Às tantas dissemos assim: "Se calhar começamos, não é?"
Pois, se calhar até começamos, porque estávamos a dizer coisas que eu acho que as pessoas que nos estão a ouvir agora também iam gostar de ouvir. Na verdade, estávamos a falar de sensações, sentimentos, emoções, coisas que todos nós sentimos.
Daquilo que andamos aqui à procura na vida, não é?
Isso. E é muito interessante porque eu gosto sempre quando alguém faz uma introdução em relação a mim, que é: como é que aquela pessoa olha para mim? Como é que ela me sente? E então eu estava aqui numa escuta muito ativa e a pensar: olha que bom que tens esta imagem, esta ideia de mim. Uma mulher que segue o seu coração e a sua intuição, que na verdade é muito isso que me define e não sei viver de outra maneira.
E começamos por aí, pela intuição. Tu sempre foste uma mulher de intuições fortes ou isto foi se apurando ao longo da vida?
Claro que ao longo da vida vamos apurando tanta coisa, não é? Mas eu sempre segui muito a minha intuição, porque ela sempre me levou a bom porto e às vezes a intuição não significa que tu tenhas já as respostas. A intuição, às vezes, o que te diz é: é por aquele caminho. Eu sinto que é por ali, porque intuição pede muito o sentir.
Sentes isso de que forma? Que é por ali. Através de pessoas?
Não, através do tempo que eu passo a sentir-me a falar comigo. Eu preciso de tempo para estar comigo. Estavas a falar dessa energia, que ela chega, ela vai.
É muito a imagem que temos tua, de uma mulher viva, cheia de energia, de vitalidade.
E eu tenho isso, eu adoro. Aliás, todos nós temos power e energia dentro de nós. Eu adoro pulsar pela vida. Sabes que eu sou muito curiosa e eu sou tão grata por estar nesta vida e por ter a oportunidade de viver as coisas. E portanto, eu para entender como é que eu gosto de viver, eu aprendo através das experiências e das conexões que eu estabeleço com as pessoas e das coisas que eu faço, mas também encontro o meu caminho com o tempo que eu dedico a estar comigo. Esta questão de praticar autorreflexão todos os dias é uma coisa que sempre nasceu comigo. Eu lembro-me que era miúda e eu sou de Santa Maria de Lamas, que faz parte do concelho da Feira, e tu és de São João da Madeira.
São João da Madeira, somos quase vizinhos.
Que era uma das coisas que estávamos a conversar. E eu passo muito tempo, e ainda hoje passo, mas toda a minha infância e a minha adolescência também, sempre passei muito tempo na cidade de Espinho.
Por causa da praia, também.
Por causa da praia e porque eu adoro.
E da boa comida.
Não, e porque eu adoro, aquilo tem um passadiço de Espinho, que vai para lá fora, até ao Porto. Mas eu sempre gostei de fazer caminhadas com os meus pais até ao Senhor da Pedra, que é ali. Íamos fazer caminhadas, são 15 km. E eu desde miúda que estou muito habituada a colocar o corpo em movimento. E então, nessas alturas, eu lembro-me, quando fazia essas caminhadas eu encontrava respostas nesse tempo a estar comigo. Eu fazia essas caminhadas com os meus pais de manhã, às vezes à tarde ou final do dia, mas quando eu ia sozinha, eu estar em contacto com aquela natureza do norte, com aquele mar, com aquele cheiro a iodo.
É um cheiro muito característico.
A andar em movimento, a colocar o corpo em movimento, a sentir o vento a bater-me na cara e a fazer caminhadas, as respostas vinham-me sempre. E respostas que estavam totalmente alinhadas com o pulsar do meu coração. Por isso é que eu apuro a minha intuição com o tempo que eu dedico a estar comigo e a forma como eu dedico tempo a estar comigo, porque isso é outra cena. E para mim, eu sempre encontrei respostas na natureza, colocando o corpo em movimento e a sentir toda a envolvência, porque nós nascemos para estar na natureza e eu acho que estamos muito desconectados daquilo que é o básico bem feito. E eu às vezes digo: "Como é que tu sabes que o caminho é por ali?" Eu às vezes não sei, mas há uma coisa que eu sei: nós somos quatro corpos, físico, mental, emocional e espiritual. E a intuição vem muito quando a tua alma está a vibrar. Quando a tua alma está mesmo ali em cima, está ali mesmo ao mesmo nível do corpo físico e do corpo mental. E para tu não teres camadas, para a tua alma estar super pura, há hábitos inegociáveis que tu tens que ter para ela não ficar escondida. Vou te dar um exemplo: tu tens uma noite mal dormida. Bebes uns copos, também faz parte da vida.
Quem nunca?
Quem nunca? Bebes um copo. Tens uma alimentação, andas num dia que andas a comer, já andas há dias e dias a comer mais açúcares, mais processados, mais isto ou aquilo. Eu digo sempre, o que interessa não é os pratos festivos, o que conta é a comida do dia a dia. Portanto, enquanto tens a comida do dia a dia, que é honesta e autêntica, não é quando resvalas uma vez ou outra que o teu corpo não tenha a incrível capacidade de se energizar e de voltar ao equilíbrio. Mas isto para te dizer que se tu tiveres determinados hábitos que te fazem mal a ti, tu não tens a capacidade de entender o que é melhor para ti. Se tu dormes mal, se tu comes mal, se tu andas sempre nos copos, diz-me quem tu és. Tu sabes quem tu és, não sabes? Já passaste por isso. Olha, a gente não consegue pensar, não temos vontade de abraçar o mundo, não temos vontade de ser criativos, até ficamos com mais letargia.
A motivação é a primeira a ir.
A motivação. Agora diz-me uma coisa, quando tu tens determinados hábitos que estão alinhados com aquilo que te faz bem, como é que tu ficas? A motivação muitas vezes também se vai embora, mas tu tens muito mais disciplina para continuar a estar no centro, porque quando tu tens estes hábitos, tu deixas de ter camadas. A alma não tem camadas. Então como a alma está ao mesmo nível da mente e do físico, mesmo na adversidade, como tu estás com a alma bué pura e sabes qual é a tua essência, tu consegues sempre tomar decisões. E mesmo que não saibas as respostas, como está ali a tua intuição, às vezes dizem-me assim: "Mas sabes o que é que vai acontecer a seguir?" "Não, mas eu sinto que é por aqui."
Isso é ótimo.
E eu às vezes, para tomar decisões na minha vida, eu digo sempre: eu não consigo tomar uma decisão quando eu estou muito cansada e sob muito estresse. Eu preciso de tempo para estar comigo e a fazer hábitos inegociáveis que me vão colocar no centro, porque esse é que é o propósito. Quando tu dizes: estamos todos à procura de um propósito. Nós temos todos o mesmo propósito. Nós queremos sentir-nos como? Leves, serenos e tranquilos. Não é felizes.
A felicidade é um estado maior.
A felicidade é incrível, mas o que é a felicidade? Para mim, sentir-me bem, sentir-me feliz é o quê? Independentemente dos dias bons ou maus, eu estou tranquila, serena, em paz de espírito e alinhada com os meus valores. Eu às vezes deito-me cansada, muito cansada, e às vezes não sei as respostas, mas eu sei que sou feliz porque eu digo assim: "Fogo, mas eu estou na minha luta, estou na luta que eu escolhi, eu escolhi este caminho." Pior é quando estás cansada e sabes que não estás na tua luta.
E o caminho torna-se ainda mais difícil.
Por isso é que eu às vezes digo muito isto, João, que é: como é que tens essa intuição? Não sou só eu, todos nós temos uma incrível intuição dentro de nós. Nós nascemos para a cura, não nascemos para a doença. Agora, o que eu sinto hoje em dia é que se calhar, com o imediatismo de tanta coisa, com o excesso de estímulos, nós temos é que ter mais autocontrole e nunca nos esquecermos de, no dia a dia, temos que fazer uma coisa de cada vez. Não podemos fazer tudo ao mesmo tempo. Não podes ter muitos estímulos ao mesmo tempo. Tens que ter um estímulo de cada vez. E eu acho que às vezes pode ser tudo tão simples como uma boa noite de sono, com uma alimentação alinhada com aquilo que te faz bem. Estares conectado com pessoas que vibram com o que tu vibras. Há bocado estávamos aqui os dois a falar.
E é ótimo partilhar, nem digo gostos, às vezes é paixões também.
E valores.
Coisas que nos apaixonam e nos aproximam.
Sim, e partilhar valores.
Valores também.
E outra coisa.
Porque nos queremos rodear dessas pessoas que também nos fazem bem e nos querem bem.
E precisamos de estar rodeados de pessoas com uma loucura saudável. Eu adoro pessoas.
E tu tens.
Adoro. Eu adoro deitar cá para fora toda a vibração que há dentro de mim. E essa vibração e essa energia, todos nós temos. Agora, como é que tu trabalhas isso? É no silêncio, no tempo que tu dedicas a estar contigo.
Chegaste a ficar numa fase, uma mulher com uma carreira consolidada, que tem muita certeza do caminho que fez até chegar aqui, mas chegaste em algum momento, certeza que aconteceu, a ficar desconfortável também no teu próprio silêncio, quando estavas também a tentar, se calhar, procurar a tua intuição e aquilo que te queria fazer mover?
A vida está desenhada para ser desconfortável. Tu quando queres aprender alguma coisa, no início é tudo desconfortável. Eu normalizo o desconforto.
Como é que tu fazes?
Porque todos nós normalizamos muito a alegria, a euforia, as sensações e os sentimentos bons. E eu acho que nós não normalizamos a raiva, a angústia, o medo, a insegurança, a vulnerabilidade. Isso faz parte do ser humano. Nós às vezes estamos assim e não queremos estar assim. Não, fica assim. Por que eu estou triste? O que aconteceu hoje para eu estar triste? É por causa do quê? É porque eu não ando a dormir bem e estou mais irritada e falei mal para uma pessoa que eu gosto? É porque eu tomei uma decisão Precipitada? É porquê? O que está a acontecer? É porque eu estou num trabalho e até correu tudo bem, mas eu não estou bem porquê? Porque eu já não quero fazer aquele tipo de trabalho e estou triste comigo porque continuo a preferir a segurança do que a liberdade? É o quê? Nós temos que colocar estas questões. Já não me lembro qual era o contexto que eu estava a dizer isso.
Estávamos a falar do desconforto do silêncio.
E isso às vezes, tu quereres ir a fundo, é altamente desconfortável, porque tens que te deparar com coisas que tu sentes.
Com traumas, às vezes, também. Que já vêm da infância, de coisas mal resolvidas.
Mas isso é altamente, é libertador. Sabes uma coisa que me ajuda muito? Eu estou numa fase, a entrar nos 40, e gosto muito disto, que é: eu começo a descobrir coisas sobre mim e eu acho fantástico. Temos que mudar o mindset, que é um bocado: "Ok, eu já percebi porque é que eu tenho medo disto. Porque eu naquela conversa que tive com meu pai, quando estávamos os dois, e porque eu dediquei tempo a ouvir meu pai, eu percebi que ele durante a infância dele era tratado desta maneira e, portanto, ele cresceu assim e passou essa educação para mim. Ah, por isso é que eu sou assim." Eu estou a dar um exemplo.
Sim.
Incrível! Agora que eu já entendo porque é que eu às vezes tenho estas sensações desconfortáveis, agora vai ser muito mais fácil seguir o caminho da liberdade. Então, às vezes as pessoas fogem do desconforto, mas o desconforto é superimportante para tu entenderes quem tu és. Estás a ver? E eu adoro ter estas conversas d'alma. E por isso é que o ambiente também é importante, é quando tu te rodeias de pessoas que têm essa vontade também de evoluírem, de serem melhores pessoas. E quem quer ser melhor pessoa, tem que se escarafunchar. Qual é o propósito? Nós estamos aqui neste plano terreno. Nós somos seres espirituais, nós somos imortais e estamos aqui a ter uma experiência terrena. Então enquanto estamos aqui, bora lá desenvolver aquilo que não conseguimos desenvolver numa outra altura das nossas vidas. E vamos então melhorarmo-nos como pessoas, através do trabalho, através das relações com os outros. O trabalho é uma peça daquilo que é o meu propósito de vida.
E que não é de todo o mais importante. Claro que ajuda a encaminhar.
Não, ajuda muito, mas o meu propósito de vida é ser cada vez mais uma melhor pessoa para mim.
E para os outros.
Para mim, do género, sem ser meiguinha comigo. Nós vivemos numa sociedade em que é a sociedade da performance. Nós exigimos muito.
E muitas vezes não acreditas que, às vezes, por egoísmo até connosco próprios, tentamos cuidar mais dos outros do que de nós? Isso contigo se calhar não acontece.
Não, eu gosto muito de cuidar dos outros. Aliás, nós nascemos para estar conosco e com os outros. Só que tu só consegues cuidar bem do outro, quando tu te colocas em primeiro lugar também. E colocar em primeiro lugar não tem nada de egocêntrico. Porque olha, vou te dar um exemplo. Quando nós andamos de avião e vês lá os hospedeiros com as regras de segurança, e uma das coisas que eles dizem é: se acontecer alguma coisa e caírem as máscaras, a primeira coisa que a mãe ou o pai tem que fazer é colocar a máscara em si e depois é que colocam no filho. Tu só vais conseguir ser um bom pai, um bom amigo, quando estiveres bem contigo. Então, é muito importante tu na tua vida saberes fazer escolhas que te promovam bem-estar, a gente anda aqui na vida a aprender. Portanto, a gente está desenhado para ir aos limites. Estamos desenhados para ficar exaustos, para ficar cansados, para nos perdermos no caminho. Nós estamos desenhados para isso tudo, mas também temos ferramentas para voltarmos ao centro. Estás a ver? Então eu mesmo nos dias que estou mais triste, porque tenho muitos momentos, mas eu normalizo a tristeza e eu digo: "Eu estou triste, mas eu estou na minha luta. Por que eu estou triste?" Vou te dizer a minha tristeza mais recente. Agora já não estou assim, mas a minha tristeza mais recente, eu andava profundamente triste e deprimida, às vezes sem vontade de sair da cama, porque eu senti que eu estava numa fase de empreendedora, a viver muito para o meu projeto do bem, que é o meu projeto Via. E estava a viver muito para a minha equipa, e bem, mas estava a fazer uma má gestão de tempo e estava a ter muito pouco tempo para estar comigo.
Esqueceste de ti?
Eu não me esqueci de mim, mas é muito pouco tempo para fazer as minhas coisas à minha maneira. As coisas da Isabel, não é da Isabel comunicadora.
Ter o teu tempo fora daquele ecrã, digamos assim, de trabalho.
Sim, de trabalho e ter tempo para me perder no tempo, para não olhar para o relógio, para ter aqueles dias que eu gosto sempre de ter. Eu gosto de dormir bem e acordar às 6:00 da manhã, ver o dia a nascer, ir para o Guincho dar uma corrida. Gosto de fazer sozinha, gosto de mergulhar no Mar do Guincho e sentar-me ali a beber o meu pós-treino e apreciar. Imagina, eu adoro apreciar as pessoas. Não é apreciar no sentido de que é que elas estão a fazer. Eu sou fascinada pelo ser humano. Sabes que eu quando estava na escola e no 12º ano, eu ainda ponderei. Eu segui humanidades, mas eu não sabia se queria psicologia ou comunicação. E então, depois de chegar a casa e colocar um óleo devagar, comer em estado de presença. E eu fui perdendo essas coisas. E só percebi isso porque houve um dia que eu coloquei um limite, porque eu já não aguentava estar triste como eu estava. Claro que eu não estava o dia todo triste, mas era aquela tristeza profunda. No dia a dia não estava triste, porque estava distraída. Sabes, as pessoas andam distraídas, mas depois quando eu acordava de manhã, sabes aquela coisa que tu sentes no coração que é: " Mais um dia. Levanta-te e vai." E eu ia lá e a coisa depois passava, mas estava ali a ferida. E há um dia que eu digo: "Não, eu preciso de tempo para estar comigo, para entender de onde é que vem esta ferida." E esta ferida vinha do quê? Eu estava só exausta, por isso é que eu estava triste. Eu estava triste por estar exausta e não ter tempo para mim.
Que é uma coisa normalíssima.
Que é uma coisa normal.
Mas que nós às vezes damos sempre mais prioridade aos projetos, àquilo que nos move às vezes, esquecendo-nos de nós.
E como é que eu descobri isto? Foi tão simples descobrir isto. Eu parei. João, eu parei. Eu tive dois dias que só disse à mãe: "Olha, estás fixe, está tudo bem. Eu vou me desligar mesmo. Eu quero estar comigo." E ela: "Está bem, filha." E foi tão simples e eu encontrei as respostas. Portanto, a saúde tem que estar no topo das prioridades, porque a saúde não é tudo, mas tudo sem saúde é nada.
Agora disseste tudo.
Estás a ver? E tu não vais a lado nenhum sem saúde. Tu se não te priorizas, não vale a pena. Agora, quando tu te priorizas, chegas aqui à Rádio Observador e tu estás bué criativo e trabalhas muito bem e és sempre a solução e não o problema. Tens esta energia de querer ser, estás com as pessoas em escuta ativa. Isso é um sinónimo de saúde, escuta ativa. Estás a ouvir a pessoa, estás embrenhado no momento presente. O ser saudável, ok, comer bem, dormir, atividade física, mas mais importante do que isso é: por que nós temos esses hábitos? O que esses hábitos nos provocam diariamente que nos faz querer ser disciplinados com eles? Por que é importante também o ambiente onde tu estás? Quem são as pessoas que estão à minha volta? São pessoas que eu mato e elas falam, do gênero, eu tenho uma ideia, ela: "bora fazer", acreditar que sonhar é incrível. Pessoas que querem sonhar contigo é um ótimo sinal de saúde. Quem deixou de sonhar, tem que rever a sua vida. Eu adoro sonhar. O meu avô, Ramiro, que neste momento já não está neste plano e faleceu com 91 anos. E a gente falava da morte e eu falava muito: "Olha, avô, quando for a tua vez, à partida vais primeiro do que eu." E nós normalizávamos muito estas conversas desconfortáveis. Porque se isto é uma coisa normal, a morte é normal.
Claro que é.
Por que eu não posso falar sobre ela de uma forma leve? E eu lembro-me que o meu avô, com 90, 91 anos, ele sonhava alto. Ele dizia: "Eu quero fazer as bodas de ouro, eu quero chegar aos 100 anos, eu para o ano quero fazer isto, quero fazer aquilo." Isso é um incrível sinónimo de saúde. Sonhar. Quem não sonha, tem que rever. E eu às vezes, eu estou a dizer isto. Eu digo isto por quê? Porque eu tenho vezes que me esqueço de sonhar. Já tive esses momentos.
Todos temos.
Tu tens que ter tempo para ouvir os sinais do corpo. Ando com muito medo? Ando a adiar o inadiável há muito tempo? Ando muito rezingona? Então espera, eu vou parar para pensar, porque eu não quero mais continuar a viver assim. Então vamos a fundo, com gentileza, e às vezes pode começar por nos começarmos a rodear de pessoas que têm a mesma vontade de nós, porque quando nós estamos juntos, quando estás com pessoas que querem o mesmo que tu queres, é mais fácil andar nesta jornada. Agora, quando estás num ambiente de pessoas, não te metas a fazer.
Às vezes até demora a perceber-se, não é?
Estás a entender?
Uhum.
Então, olha isto para te dizer, de onde é que vem a minha intuição? Não sei se respondi.
Não, eu acho que já respondeste, e bem a tudo isto, e já fomos aqui a outras camadas da Isabel Silva, que também é importante conhecermos. Já falamos aqui de alguém que para ti também foi uma referência, o avô Ramiro, que te moldou muito, acredito que sim, ao longo da tua vida e que te deu também, se calhar, base para alcançares muitos sonhos. Nós vamos falar deles, mas na segunda parte, porque entretanto a primeira já ficou por aqui.
Pois é, então até já.
Mas já voltamos. É logo depois das notícias. Até já. Estamos com Isabel Silva, hoje em "40 Minutos". Bem-vinda mais uma vez. Já fomos aqui a camadas bem profundas, que é uma coisa que tu também gostas sempre de falar e que faz sentido falarmos para alguém que se calhar sendo tão positivo e as pessoas olham e pensam: "Esta mulher é uma inspiração. Por que ela pensa desta forma? Por que ela vive desta forma?" É importante também desconstruirmos estas questões, não é?
Eu gosto de ir à profundidade. Adoro ser profunda, mas todos nós somos profundos.
Sim, às vezes não exploramos é essas camadas.
Ora bem, eu adoro. Às vezes o meu desafio é, mesmo às vezes no trabalho, a minha equipa que trabalha comigo, a Daniela, a Fátima, a Ana Rita, o Miguel: "Isabel, há coisas é que não precisas ser tão profunda", porque tudo para mim é uma cena. Quando eu não estou profunda e estou muito na rama, é porque alguma coisa não está bem. Tu há pouco falavas na introdução da Isabel enquanto comunicadora e desta minha ligação à televisão também. Queria ter dito isto no início, depois a conversa fluiu, porque na verdade o meu propósito não é tanto a televisão. O que eu gosto é de comunicar, gosto de desenvolver e criar conteúdos que possam informar, inspirar e capacitar também, que levem as pessoas à ação. E então esta é a minha grande paixão. E gosto muito do mundo audiovisual, é verdade, mas a televisão é um meio para o fazer. A rádio é um meio para o fazer.
Agora há tantas possibilidades.
Portanto, eu acho que nós temos é que pensar: "O que eu gosto mesmo de fazer?" Eu adoro comunicar e faço isso no programa de televisão que tenho na RTP, é verdade.
Com ótimos resultados, diga-se de passagem.
Graças a Deus e graças a nós, à equipe também. E eu acho mesmo que o segredo daquele programa é isto que estamos a falar, é energia. Não tem a ver com técnicas daqui ou dali. Eu acho que nem tem tanto a ver com o próprio alinhamento do programa, eu acho que é a energia das pessoas que está ali. Eu acho que quem ali vai, sente-se à vontade.
E tu foste feita para aquele programa. Eu tenho que dizer, é verdade. Acho que aquele programa é feito à tua medida. Tu estás ali de corpo e alma, quem te vê, percebe isso, e é muito a tua imagem.
Sim, eu acho que aquele programa tem aquilo também que tem o meu projeto A Do Bem, que é também o meu filho. A Do Bem é meu filho. Porque há ali duas coisas, que é aquilo que eu mais valorizo. Ou seja, o que aquele programa tem? Tem pessoas, e eu gosto de pessoas. Para mim, isso é o mais importante. E é um programa que me permite relacionar-me com as pessoas com movimento. E é um tempo, quando tu dizes que aquele programa está desenhado para mim. Eu acho que qualquer comunicador, quando um comunicador consegue estar presente no momento e numa escuta muito ativa e estar a viver o que está a acontecer, estás desenhado para aquilo.
A entrega.
Percebes? E portanto, é um trabalho que me dá muito prazer também pela equipe que tenho, porque é uma equipe que está muito alinhada com a energia que eu valorizo, porque ali há tempo para receber as pessoas, não há pressa. Eu não tenho pressa, não tínhamos pressa, mas não percamos tempo. Portanto, o programa tem um ritmo, mas nós temos tempo para estar com as pessoas e nós ouvimos as pessoas. Isso é muito importante. E o ambiente também, a equipe, porque se eu não tivesse a equipe que tenho, com aquela boa energia.
A energia transforma o que quer que seja.
Exatamente.
O espaço onde estamos, com as pessoas que estamos.
Exatamente. E depois, da mesma forma que tenho um prazer enorme quando tenho os meus entrevistados no podcast da Bela Do Bem, quando faço as minhas entrevistas com os mentores do meu projeto. Quer dizer, tudo que seja trabalho em televisão é bom porque permite-me estar com as pessoas e passar o meu carinho e a minha atenção. Mas depois, o que eu adoro no meu projeto A Do Bem, imagina, só para tu perceberes, eu faço exatamente o mesmo, mas eu também estou a trabalhar conteúdos que a mim me tocam muito, conteúdos relacionados com a área da liderança pessoal, de tu te responsabilizares pela tua saúde e de perceberes que tens tudo dentro de ti. Eu gosto muito de passar essa mensagem e é uma área que me fascina. Estudar e ler sobre desenvolvimento pessoal é uma das coisas que maior prazer me dá, porque enquanto eu pesquiso, estudo e entrevisto pessoas, eu aprendo tanto. E depois aplicar, experienciar e vivenciar. Então é o melhor dos dois mundos, ok. Eu às vezes digo: "Um dia era incrível levar a Do Bem para a televisão." Em que tu podes estar com pessoas.
E ainda pode ser possível.
Claro, eu adoro sonhar.
Exato, eu ia falar precisamente sobre isso, sobre sonhos, que eu acredito que tenhas esse sonho e esse desejo. E pode ser possível. Eu queria falar aqui de uma questão. Nós falamos muito de intuição na primeira parte. Foi um tema que marcou aqui a nossa conversa. Tu em 2021, esse ano fica marcado pela tua saída da TVI, um canal generalista, e onde se olhava muito para ti, para a Isabel Silva, como o futuro do canal. Na altura, até quando a Cristina Ferreira acabou por sair do programa que fazia com o Manuel Luís Goucha, se falava muito em ti, que eras a substituta natural, até porque tinhas estado no "Você na TV" enquanto repórter e já eras muito conhecida de todo o público que assistia a esse programa, que era líder de audiências. Fechar essa porta, que foi um fechar de porta naquele momento à TVI e à televisão, foi um processo que também te levou a descobrir ainda mais a Isabel comunicadora além do mundo que há na televisão?
Olha, eu não senti que se fechou uma porta.
Naquele momento.
Sim, mas não se fechou uma porta. E eu vou te explicar o porquê. Sabes que eu sempre fui, tudo o que eu sou hoje, eu devo muito à TVI, porque foi ali que eu aprendi. Foi na Pana Vídeo, numa produtora onde eu estive, e eu ali aprendi e percebi que adoro jornalismo audiovisual, adoro estudar, adoro pesquisar, adoro ir ter com pessoas, poder entrevistar e juntamente com o repórter de imagem: "Ok, vamos pôr estas imagens, vamos colocar esta entrevista, vamos colocar esta sonoplastia". Ou seja, eu olho para uma reportagem e é quase montar um puzzle. E eu ali na Pana Vídeo descobri que gostava disso E quando eu vou para a TVI, eu pude muscular isso. E o que eu aprendi no "Você na TV", sobretudo no "Você na TV", foi fantástico, porque um programa daytime onde há muitos conteúdos e tu tens que fazer conteúdos rápidos, mas bem feitos e com alma.
E que naqueles dois minutos prendam ali a pessoa.
Sim, e foi muito interessante porque a TVI foi muito importante naquela fase da minha vida, porque a TVI enalteceu aquilo que eu gostava mesmo de fazer, a minha loucura, o meu rasgo de espontaneidade, a minha autenticidade. Eu tinha a liberdade na TVI, no "Você na TV", de fazer reportagens de 20 minutos. Eu fazia reportagens de 20 minutos que às vezes preenchiam a primeira parte do programa, porque a forma como eu as fazia davam-me tempo para fazer uma coisa bem feita. E isso permitiu-me aprofundar muitas ferramentas que eu tenho hoje e que aplico no meu dia a dia. Então eu cresci tanto ali. E depois dali, eu fui para os reality shows. E ali desenvolvi com a Teresa Guilherme, com o Manel e com a Cristina, eu cresci muito no daytime. Com a Teresa Guilherme eu aprendi a ler teleponto, porque eu estava muito habituada. Eu não tenho teleponto. Eu estou habituada a fazer programas e fazia o "Somos Portugal", tudo na minha cabeça, coloco intenção. E depois desenvolvi esta capacidade de estar em estúdio, ir aqui e acolá. E a Teresa aqui foi muito importante na minha vida também.
É também uma mentora para ti, uma referência?
É, adoro a Teresa. A Teresa é muito fixe, eu gosto muito dela. Tenho saudades dela até e tenho que estar com ela em breve. O "Somos Portugal" foi outra escola, porque de repente tudo pode acontecer e tu tens que ter a capacidade de manter calma no desconforto, no imprevisível. Isso é um incrível trabalho mental. E na vida é isto, o segredo da vida. E a vida começa a ganhar graça quando tu, no meio do caos, manténs a tua equanimidade, manténs a tua calma. E é uma coisa que eu tenho desenvolvido e trabalhado agora também em mim. E portanto, foi sempre muito crescente. E depois houve ali uma fase na TVI em que eu consolidei tudo isto, em que eu apresentei o "Você na TV" aos sábados e tudo mais. E portanto, eu estava ali num processo de consolidação. O que me leva a sair da TVI, como aquilo que me leva a tantas outras mudanças que já aconteceram na minha vida para lá da televisão, é quando tu sentes que o conforto já começa a estar desconfortável. Eu sentia que já não estava a aprender numa altura em que eu tenho ganas de aprender. E eu queria continuar a sentir que estou a aprender e que estava a evoluir. E está tudo bem, isto é como um trabalho.
Mas no meio desse processo, e sendo a televisão uma máquina em funcionamento e em que há muitas pessoas que aparecem, que desaparecem, nunca tiveste esse medo de, ao sair, nunca mais ter uma oportunidade ou as portas se fecharem totalmente?
Mas isso vai ao encontro daquilo que eu disse, não sei se foi no início ou se foi agora. Foi agora, há pouco tempo. Porque eu sempre olhei para a televisão como um meio para eu fazer o que eu amo. O que eu amo?
Comunicar.
Onde é que eu posso comunicar? Onde eu me sinto a crescer e a evoluir? Está tudo bem, a vida é feita de ciclos. A maior certeza que tu tens da vida é a mudança. E eu levo isso. E muito daquilo que eu sou hoje, dedico também aos meus pais e à minha infância. Eu tive uma infância altamente e eu cresci a ver os valores dos meus pais. Então esta questão de normalizar a mudança, de privilegiar o nosso crescimento, para mim, o que eu quero é aprender. E às vezes o aprender pode até nem ser num programa de prime time. Pode até nem ser num programa de grande mediatismo. Eu vou te dizer uma coisa, o "Love On Top", que era um reality show, que muitas das pessoas até tinham vergonha, porque era um reality show de relacionamentos. Eu posso te dizer que nesse programa eu evoluí muito como apresentadora, porque eu estava dentro de uma casa a gerir adolescentes. Um programa em direto, em que eu estou dentro da casa com eles, e eles podem me dar vários tipos de resposta, e eu tenho que saber gerir muito bem para ser assertiva, mas não machucar ninguém e ser do bem.
A empatia.
A empatia. E tinha uma equipa fantástica. Na altura era uma equipa da Endemol, a Betinha, a Vânia. Tinha uma equipa maravilhosa. E eu adorei fazer aquele programa. Às sextas-feiras nós íamos para uma casa em Cascais.
Uma loucura.
E eles eram tão educados comigo. Eles adoravam quando eu lá ia, porque eles diziam: "Tu dizias-nos coisas que nos faziam refletir e melhorar os nossos comportamentos." Estás a ver? E eu amei fazer aquele programa. Claro, não é para fazer a vida toda, mas foi importante. Tudo é importante. E o que eu acho é: quando tu sentes que estás num sítio, seja no trabalho, nas relações, em qualquer área da tua vida, que tu sentes que já não estás a aprender e se estás desconfortável, porque tu podes sentir que não estás a aprender e estás na boa, mas se estás desconfortável, então quem está mal põe-se. E está tudo bem. E eu saí de coração aberto. Eu tenho a certeza que foi a melhor coisa que fiz, com a certeza de que eu não sabia se ia voltar à televisão ou não. Quando eu saio da TVI, eu tinha vários projetos que eu queria muito implementar e continuei a dar-lhes seguimento. Foi o ano em que a DO BEM cresceu mais enquanto órgão de comunicação social. Foi o ano em que eu dei mais palestras na área de saúde e bem-estar. Foi o ano onde eu aprendi a trabalhar a área da comunicação e de marketing com marcas e comecei a fazer consultoria com marcas. Foi o ano em que eu montei a minha equipa. Foi o ano em que eu tive mais tempo para estar com os meus pais. Foram anos de muita dor, de crescimento, mas de uma profunda aprendizagem. E de repente, passado dois ou três anos, eu recebi uma chamada para abraçar um projeto na RTP. E eu: "Que engraçado". E fiquei com vontade. E disse assim: "Vai ser giro voltar." E foi isto.
E começaste logo a construir tudo na tua cabeça? Tu não idealizas muito as coisas.
Não, não idealizo, porque eu vou na minha intuição.
Mais uma vez. A intuição está a marcar esta conversa, estou a adorar.
Sim. Imagina, se tu me perguntas assim, e eu agora estou a entrar numa fase muito gira dos 40, que é: eu nunca fui de planear nada. Agora ia dizer planejar, tenho convivido com os brasileiros. Eu não sou de planear a longo prazo e agora estou com vontade de planear a longo prazo e tenho objetivos muito concretos na minha vida pessoal, de coisas que eu quero fazer para mim e na minha vida profissional. E quando eu penso na minha vida profissional, por exemplo, neste momento, eu tenho ideias muito concretas daquilo que quero fazer na "Do Bem", no que toca aos encontros, eventos, conteúdos que estamos a promover. Tenho coisas muito concretas que quero fazer e estou muito focada em otimizar o meu trabalho e gerir o meu tempo de tal maneira para eu ter mais tempo para me dedicar também mais à minha vida pessoal e social. Porque nós, enquanto comunicadores, nós damos tanto, que às vezes o tempo que temos livre queremos estar conosco. Eu sou muito assim, quero estar comigo.
Sozinha?
Sim, quero estar comigo, porque é uma vida de tanta entrega com o outro. Não sei se isso já te aconteceu. Estás um dia em que entrevistas este, entrevistas aquele, falas com aquele, sobes ao palco.
E damos muito de nós aos outros.
Dás muito. Então eu dedico muito tempo a estar comigo. Só que eu agora estou a entrar numa fase em que eu tenho que ter tempo dentro da minha vida, do tempo para mim, eu tenho que ter tempo para estar comigo, mas também tenho que ter tempo para estar com os outros, que em nada têm a ver com os meus projetos.
Claro.
E então isso obriga-me a ser mais inteligente na gestão do meu trabalho. Estás a ver? Eu agora estou nesse processo, que também é fascinante. Às vezes tu pões-me assim: eu posso te dizer, João, que eu estou na fase mais transformadora da minha vida, mas se calhar, a olho nu, está tudo normal, mas é uma coisa muito interna. E eu acho fascinante tu abrires coração para entenderes o que se passa cá dentro. O que eu estou a sentir? Eu estou com medo. Por que eu estou com medo? Eu estou com raiva. Por que eu estou com raiva?
Sentir medo também não é mau, nem raiva.
É isso que eu te estou a dizer.
Mas para algumas pessoas, só o facto de às vezes sentirem esses sentimentos já é um fator para recuar, às vezes. Deixa-me voltar aqui ao meu lugar seguro.
Mas isso é bom, a gente tem que sentir, a gente tem que perceber e a gente tem que normalizar. Isto para te dizer, para te responder à tua pergunta, que é: eu quando saí, eu continuei, na verdade, a vida que eu tinha. Eu dediquei foi mais tempo a outros projetos, que eu não tinha tanto tempo para dedicar. Estás a ver? E então nós temos que seguir sempre a nossa intuição e tu sabes sempre quando é a altura. Imagina, tu sabes sempre quando é a altura para mudar alguma coisa na tua vida. E o que eu faço é: eu sinto que está na altura, eu não tenho medo, eu vou. E como é que tu consegues não ter medo? Como é que tu fazes para não ter medo e para não ficar a magicar? Porque a malta também me perguntava isto. É muito simples. Como é que tu preparas uma tomada de decisão? Como é que tu preparas uma grande mudança na tua vida? A tua mente, as tuas emoções, a tua alma e o teu corpo físico têm que estar alinhados. É a altura em que tu tens que cuidar mais de ti, dormir bem, comer comida honesta, estar junto de pessoas que valorizam o que tu valorizas. Fazer o básico bem feito, estar em contato com a natureza, a natureza dá-nos tudo. Eu quando estou em contato com a natureza, eu não preciso de mais nada. Eu vejo o mar, mergulho no mar, dou uma corrida, a areia a bater na planta do meu pé, fazer um trilho na madeira, de um lado para o outro ou aqui um trilho em Sintra. Quando tu estás nesta conexão com a natureza e consegues ter controle sobre a quantidade de estímulos que te aparecem à frente e colocas a saúde no topo das prioridades, tu não tens medo, tu vais. E mesmo que o tenhas, vais, olhas para o medo, abraças com gentileza e segues. Por isso é que eu digo sempre: mantenham hábitos. Há hábitos que são inegociáveis para te manter sempre sereno, com discernimento e focado para combater as adversidades. Se eu sei que vou passar por uma fase em que se calhar vou sentir muita coisa desconfortável, então eu quero estar no meu melhor a nível de saúde emocional, mental e espiritual, que é para olhar para isso com leveza. O problema é se tu te perdes no caminho. E eu não me posso perder no caminho.
Mas já aconteceu?
Todos nós. Às vezes distraímo-nos no caminho. Olha o que eu te disse há bocado, que eu andava mais cansada. O que é perder no caminho? É quando tu estás a fazer muita coisa em esforço e tu sentes que estás em esforço. E qualquer coisa, seja num treino, estás sempre a treinar daquela maneira e estás sempre em esforço. Estás sempre a tentar fazer as pazes com aquela pessoa e estás sempre em esforço. Estás numa relação e estás sempre em esforço. Estás num trabalho e sentes que tudo é um esforço. Isso é um sinal, porque a vida não está desenhada para ser um esforço. A vida é leve. E eu acho que nós somos a geração, eu digo-te isto mesmo, acho que a geração de 80, que é minha, nós viemos quebrar os ciclos. Nós viemos quebrar o ciclo do parar é morrer. Não, parar é viver. E isso não significa que eu não seja focada e que goste de trabalhar e que goste de performance. Mas parar é viver, porque é quando tu paras e dedicas tempo a ti, que tu tens os insights da vida para seguir na direção. E a malta não para. E depois é: "Mas vou parar como?" Não é parar para estar com os outros e na má vida. Quando eu quero encontrar respostas, eu tenho que parar para me conectar comigo. É isto. Ainda agora fui de férias com um amigo meu. Fomos a Porto Covo, fomos jantar, bebemos um copo de vinho, demos uma volta, dançamos, curtimos, atémo um bocadinho mais tarde. Eu adoro viver, eu gosto bué de viver a vida. Viver é incrível. Agora, o que eu acho é que nós temos que viver com liberdade e responsabilidade. Isto está tudo interligado. A liberdade não é fixe se tu não tiveres disciplina, porque a disciplina nas coisas que tu adoras fazer, quando tu tens disciplina naquilo que tu adoras fazer, tu começas a ganhar uma confiança em ti. Imagina, queres correr uma maratona. Tu queres mesmo correr uma maratona e montas um plano e és disciplinado e estás ali a fazer as coisas. Começas-te a sentir tão bem e começas a sentir insights tão bons dentro de ti. Isso dá-te um poder e ao mesmo tempo dá-te uma liberdade para tomar as decisões que tu quiseres. Portanto, liberdade só é fixe com disciplina, com responsabilidade. Ser livre é o quê? É ter disciplina e responsabilidade. Eu falo assim muito pelos exemplos que tenho lá em casa dos meus pais. Sou muito grata porque sempre vivi de uma forma simples e com estes valores e porque do alto dos meus 39 anos, que ainda tenho muita coisa para viver, vou experimentando e tenho vivido a vida, e como vivo com base nesses valores, ando a perceber que isto resulta. Agora, não sei, quando entrar ainda tenho os 40 daqui para a frente, não sei o que vai acontecer, mas estás a perceber?
Sim.
Então eu não sei se te respondi à pergunta.
Respondeste e muito bem.
Isso é uma pergunta. É uma pergunta que tem que se fazer sempre um contexto.
Claro.
Que é para nós entendermos porque é que tomamos as decisões que tomamos. As pessoas têm que perceber: porque é que eu estou a tomar esta decisão?
E acima de tudo, se calhar também porque naquela altura muitas pessoas, como gostavam muito de ti e gostavam também de te ver em televisão, não digo que ficaram tristes, mas se calhar na altura não perceberam muito bem essa decisão, ao passo que tu querias só-
Mas imagina, não perceberam por quê? Eu sempre pus este tema em pratos limpos. Eu sempre disse isto. Quem é que não percebeu? Eu acho que a malta percebeu. Agora, quem não percebeu-
Esta maneira descomplicada de ser.
Imagina, quem não percebeu. Eu acho que quem me conhece bem e quem me acompanha nas redes até, eu vou partilhando a minha jornada, entende muito bem. Olha que entendo muito bem, porque isto nunca é sobre uma entrada ou uma saída de um trabalho. Isto é sobre a tua jornada da vida, que está muito acima de qualquer trabalho que tu possas ter.
Isto assume claramente aqui uma outra dimensão, porque estamos a falar de uma vida pública, porque tu podias ter saído de uma empresa corporativa para outra.
Isto é o dia a dia. Isto acontece diariamente a toda a gente.
Exatamente. Basta ir ao LinkedIn. Todos os dias recebemos atualizações de pessoas que se mudam de um lado para o outro. É verdade.
Isto é verdade, isto é o dia a dia. Portanto, está tudo bem. E eu sou muito grata de sentir esse amor pelas pessoas. Eu lembro-me quando eu voltei e regressei à televisão, eu tinha muitas pessoas que já me acompanhavam nas redes, mas depois há aquele público mesmo da televisão. E então eu comecei a perceber muito isso na rua. E é incrível também receber. Eu fico enternecida e de coração cheio quando as pessoas conversam comigo na rua e dizem: "Oi, Isabelinha".
E tu és uma pessoa que não dá conversa nenhuma, pois não? Estou a brincar.
Eu converso com as pessoas e as pessoas comigo são maravilhosas. Se tu conhecesses a minha família, o meu pai, a minha mãe, os meus tios, os meus primos, nós mesmo antes de eu me tornar uma figura pública, nós mesmo lá em Santa Maria de Lamas, eu sempre fui muito dada. Nós conversamos com as pessoas. E uma das coisas que eu faço, se há tanta gente que me vê através do programa que eu apresento na RTP ao sábado à tarde. São centenas e centenas de pessoas, milhares de pessoas que nos acompanham. É normal, com a minha proximidade, que as pessoas quando me veem na rua, mostram essa proximidade. E eu digo sempre, eu olho para as pessoas também como se já as conhecesse. "Oi, Isabelinha, isto e aquilo." Eu: "Então, como é que está? Está tudo bem?" E converso. E é esta normalização da conversa que também faz com que as pessoas olhem para ti e respeitem também muito o teu espaço. A vida nunca é sobre fugir, é sobre estar e encarar.
Tivemos aqui uma verdadeira lição hoje contigo.
Foi?
Entretanto, olha, estamos a chegar ao fim. Tenho só mais uma última pergunta para te fazer. O que é que ainda te entusiasma todos os dias ao acordar e sentir essa energia e essa vivacidade que sentes todos os dias? Voltamos ao ponto de partida desta conversa.
Porque eu acho que eu faço verdadeiramente o que gosto, mesmo nos dias que estou exausta, mesmo nos dias que não tenho a resposta, mesmo nos dias que me sinto triste, mesmo nos dias que me sinto muito deprimida. Eu acordo sempre, mesmo às vezes cansada, eu vivo na minha verdade e é top viver na tua verdade, porque tudo dói. A vida dói, mas ao menos que doa nas coisas que estão alinhadas contigo. Estás a ver? Isso é que é fixe. Eu não deixo de ter os meus problemas, os meus confrontos, os meus traumas, mas estou na luta que eu escolhi. Pior é quando tu não vives na tua verdade. Portanto, se eu tivesse que deixar aqui uma mensagem A malta que viva na sua verdade. Como é que eu vivo na minha verdade? É escutar o coração. Como é que eu escuto o coração? Arranjando tempo para estar comigo. E quando eu arranjo tempo para estar comigo e a fazer hábitos e a ter hábitos inegociáveis, a alma vem ao de cima, vem a coragem e nós sabemos o nosso caminho. Às vezes pode ser tudo tão simples.
Foi tão bom. Este suspiro foi de bom. Foi de boa conversa em 40 minutos.
Olha, também gostei muito de conhecer, João.
Isabel Silva, muito obrigado por teres vindo aqui à Rádio Observador. Vamos revelar aos nossos ouvintes que até tivemos direito a um estúdio improvisado, porque nós somos mesmo assim.
Isto é muito engraçado, esta mensagem, porque quando cheguei aqui, houve um problema no estúdio que não dava para gravar ali, e depois o outro estava ocupado e nós tivemos que vir aqui para uma sala.
O nosso estúdio de vídeo.
O vosso estúdio de vídeo. E foi muito engraçado, porque tu ao início, como era a primeira vez que nos estávamos a conhecer, e é normal, estavas um bocadinho nervoso, do género: "Epá, tinha logo que ser aqui". E eu disse-te assim: "Não interessa onde estamos, o que interessa é que vamos ter um momento de profundo estado de presença, porque eu desenhei o dia para estar aqui só contigo, para ti. Então eu vou estar aqui para ti. E como tu também estiveste aqui para mim, estás a ver? É o mais importante."
E eu senti isso ao longo destes minutos todos.
Então, eu até acho que devíamos tirar aqui uma fotografia.
Vamos.
Para as pessoas perceberem onde é que nós estamos e a bonita conversa que nós tivemos aqui, porque às vezes não interessa.
Não são os sítios, são as pessoas.
Isso. São as pessoas e a forma como as pessoas querem estar conectadas umas com as outras. E eu podia vir para aqui do género: "Olha, temos 40 minutos e tal." Não. Eu estou aqui contigo. Eu estou aqui a ouvir-te e nada mais interessa. Então, isto é outra mensagem super importante que é: quando tu estás presente, não te projetas no futuro e não pensas no passado, tudo se faz. Vês? E aqui, vai na volta, a malta começa a fazer aqui mais podcasts.
É verdade. Estamos aqui a dar ideias.
Muito bem.
Isabel Silva, um grande beijinho. Muito obrigado por teres vindo e muito sucesso para a tua vida. Obrigado.
Obrigada!