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Lá por eu ter este ar não quer dizer que eu não tenha já tido as minhas experiências e que não tenha a minha validade.

Claro.

E isso é a maior questão com a qual eu me debato quando estou a fazer algum projeto. Às vezes sinto que não me levam a sério porque sou uma miúda. E isso não tem só a ver com o facto de eu ser jovem, tem a ver com o facto de eu ser jovem e ser mulher. E infelizmente, estou a descobrir que há uma necessidade de me afastar. Imagina, quando vou a um teatro qualquer e tenho que me apresentar como parte da equipa. Se tu vais logo com essa proximidade, é muito fácil aproveitarem-se disso. E eu não sei porque é, eu acho que é por ser jovem e mulher.

Ela cresceu entre silêncios alentejanos e hoje dá voz a histórias que não têm medo de incomodar. Tem um olhar que diz muito antes de falar e uma presença que tanto cabe num palco, como perto de um microfone. Já a vimos em séries, novelas, mais recentemente ouvimo-la em podcasts, já lá vamos, e agora chegou a vez de a ouvirmos sem personagens pelo meio. Hoje conversamos com quem faz da liberdade e da arte uma forma de estar. Helena Caldeira, sê muito bem-vinda aqui ao "Em 40 Minutos".

Muito obrigada.

É um gosto receber-te aqui.

Que bela introdução. Gostei.

Boa, estamos cá para isso. É o nosso miminho para cada convidado. Falávamos aqui de liberdade nesta introdução. A liberdade e a tua forma de estar, que sei que é uma forma de estar muito leve e serena, por aquilo que vejo nas redes sociais, daquilo que conheço do teu trabalho. Isso também é aquilo que tu classificas como a tua melhor arma enquanto artista, a tua forma de levar a vida, a tua forma de compreender a arte e de levar a arte?

Não sei. Mas acho que o oposto, na verdade.

Aquilo que transparece para nós é uma forma leve, mas tu podes ter outra perceção.

Eu também sou essa pessoa, como é óbvio. Aliás, não quero aqui dizer que sou várias pessoas, nem sei se acredito bem nesse conceito, mas eu sinto que no meu dia a dia sou uma pessoa relativamente leve. Tenho os meus stresses como toda a gente.

Toda a gente.

Sou mais estressada em relação a algumas coisas e menos a outras, mas de um modo geral sou leve.

O que é que te tira a paciência?

Lentidão. Não é lentidão.

O deixar andar?

Não. Quando alguém está assim muito atrapalhado com alguma coisa.

Ok.

Quando a pessoa não é desenrascada. Isso é das coisas que me tira mais rapidamente a paciência, mas isto é fruto da minha educação e de ter uma família muito desenrascada. De modo geral, os meus amigos tratam-se de rir comigo, porque eu sou uma palhaça, na verdade. Mas só o grupo mesmo próximo é que sabe.

O mais restrito.

É que sabe mesmo este lugar. E eu acho que sou leve, eu acho que abordo a minha vida pessoal e aquilo que me rodeia de uma forma relativamente leve, descontraída e descomprometida, com alguma empatia, até. Mas quando estou a trabalhar, a criar as minhas coisas, vem de um sítio que não é nada leve. Que é do sítio onde está tudo mais obscuro, mais sinuoso, mais nublado.

Mas pela insegurança?

Não, porque são esses lugares mais escuros em mim que me dão o input para criar.

Sim.

Isto se calhar pode ser mais facilmente entendido no que diz respeito à criação de um objeto artístico, como um texto ou um espetáculo de teatro.

Estou a pensar agora num que tiveste muito recentemente, as "Cantadeiras".

Exato.

Que é algo que vem das entranhas, não é?

Exato. Esse espetáculo é precisamente o sinônimo disto que eu estou a falar. Eu criei, escrevi, fiz aquilo tudo do meu lugar mais, não lhe queria chamar negro, mas há ali muita negritude, mas ao mesmo tempo também há nostalgia. Eu acho que consigo misturar bem as duas coisas. Mas aquela energia que dá o primeiro input para criar é sempre assim um lugar...

Uma espécie de empurrão.

Sim, é assim um lugar difícil.

De descrever até para o próprio artista. A conversa não estava orientada para aí, mas já que falamos de "Cantadeiras", está disponível na RTP Play, as pessoas podem ver. Tu foste partilhando muitas coisas também no teu Instagram. Um monólogo que por si só já é algo muito exigente para um artista, acho que é um grande desafio, mas que alia também aqui a parte do canto tradicional, que é uma parte que também gostas de explorar, a parte musical. Foi um presente que tu recebeste na altura certa? Como é que isto se processou? É um projeto que daquilo que eu vi, era isto que estávamos a falar, vem mesmo das entranhas.

Exato. Não foi bem um presente. Quer dizer, se calhar foi, mas foi um presente que eu me dei a mim mesma.

Sim. Muito trabalho, acredito.

Este projeto só surgiu porque a RTP lançou uma bolsa que se chama Carta em Branco e foi o primeiro ano, o ano passado, eles já estão a fazer agora outra vez, que é superfixe. E a premissa era só artistas emergentes até aos 30 anos, um monólogo. Portanto, eu não podia fazer outra coisa senão um monólogo. Eu fiz o objeto para aquela candidatura. Embora eu já tivesse esta ideia na cabeça há muito tempo e inicialmente eu queria ter feito este espetáculo num formato muito maior, mais complexo, com a companhia da qual eu sou cofundadora, a Pretiário Mas como estava a gravar Rádio Peixe e coisas assim, e concorrer a concursos DGARTES, não estava a conseguir os timings certos e depois surgiu esta oportunidade e eu pensei: "Olha, vou adaptar esta ideia para um monólogo". E não foi um presente.

Foi fruto de muito trabalho, acredito.

Sim, foi difícil, porque foi a primeira vez que eu fiz uma coisa sozinha, embora não estivesse sozinha no processo.

O visual, aquilo que se vê, o produto final és tu. É a questão do monólogo, não é? E explorar aqui diferentes vertentes.

Sim. E o texto é meu, as músicas fui eu que escrevi, sou eu que estou a encenar e eu pensei: "Será que eu vou conseguir fazer isto?"

Passou-te várias vezes pela cabeça.

Todos os dias. "Eu não consigo fazer isto." Mas também acho que já fui para o processo criativo com muita coisa na cabeça. A maior parte das músicas já estavam escritas, portanto eu já tinha o imaginário na minha cabeça, foi só pôr tudo no espaço. E aí eu tive ajuda do Afonso Viriato, que é também um dos cofundadores da Pestiário, para fazer assistência de direção, porque estar a encenar, escrever, encenar, interpretar sozinha.

Eu vi nas tuas publicações do Instagram, a descrição era enorme, porque a quantidade de pessoas que estavam envolvidas é surreal. Não pensamos muitas vezes nisso.

E era um projeto pequeno, era um monólogo.

Foi o que eu pensei, exatamente. Ou seja, a quantidade de pessoas que estão envolvidas aqui para isto, para um monólogo, que supostamente se calhar uma pessoa vê e pensa que é uma composição mais simples no sentido da produção, não é? E não é.

Não é. Também depende do projeto a que tu te propões fazer. Eu tinha cenografia, tinha música, tinha dois músicos comigo. Depois há figurinos, a cenografia, coproduções, espaços, enfim, é toda uma construção que quem vai ver não sabe e ainda bem, porque não tem nada que saber.

A magia também reside um bocadinho aí para quem assiste. Está disponível na RTP Play, portanto, fica aqui o convite aos nossos ouvintes.

Sim, e vai acontecer ao vivo.

Boa.

Se calhar já posso dizer, ainda não saiu oficialmente, mas posso dizer aqui. No dia 1 de novembro, o espetáculo vai acontecer ao vivo no Cineteatro Risco Semedo, em Montemor o Novo, que foi onde eu criei este projeto e é de onde eu sou natural.

Sim, estava a pensar nisso.

E vai ser diferente, porque eu criei este projeto para ser visto na televisão. O espetáculo ao vivo vai ter mais surpresas.

E fica aqui já este aguçar da curiosidade. Estavas aqui a falar de Montemor o Novo, é para lá que vamos agora. Não vamos de carro, não vamos de nada, vamos só viajar.

Mas poderíamos ir.

Através das tuas memórias, daquilo que sei da tua infância, tu já eras muito expressiva, talento inato para a representação, para o desenho, para a música, e sempre foste muito incentivada pela tua mãe a cultivar esta questão das artes e daquilo que tu és hoje enquanto artista. Foi uma infância feliz a fazer desde cedo aquilo que, se calhar, não sabias que era aquilo que querias ser, mas que já te apaixonava na altura?

Não sei bem responder a essa pergunta. Eu só comecei a fazer teatro no secundário. Eu nunca tinha feito nada.

Primeiro veio o ballet, não foi?

Sim, eu andava em tudo que era coisas de dança ali em Montemor, até em Lisboa. Houve uma altura em que o meu pai traziam-me de propósito para eu vir a umas aulas específicas aqui em Lisboa.

Isso é que é dedicação.

Sim. É porque era uma coisa fixe e fizemos o espetáculo final grande.

Não, mas falo mesmo até dedicação dos teus pais em dar-te essa oportunidade.

Muito impulsionada pela minha mãe, mas eles perceberam que não havia volta a dar, que eu queria era fazer estas coisas e eles ou tinham que apoiar ou então ia ser uma criança triste. Mas o contacto, não sei como é que isso aconteceu, porque não tenho ninguém da minha família que esteja ligado às artes. Se calhar eu percebi que gostava de dançar primeiro, por exemplo, e a coisa foi surgindo por aí.

Foi descobrindo outras coisas.

Sim. Não faço ideia como é que teria sido a minha infância e juventude sem essas coisas, porque as minhas memórias estão todas ligadas aos grupos de dança que eu tive, à escola de ballet em Montemor, a cantar, tentar arranjar grupos para fazer bandas de garagem, essas coisas todas.

Sempre uma infância muito ocupada a tentar fazer coisas diferentes e tudo ligado às artes.

Sim. Ou então na pastelaria.

Na pastelaria, pois.

Ou no salão da minha mãe.

Exato.

A ajudá-la. Mas foi fixe, foi uma infância ocupada.

E que memórias guardas deste Alentejo? Tu gostas de revisitar? Tens memórias, por exemplo, à medida que o tempo vai passando, não vamos perdendo memórias, mas às vezes vamos nos esquecendo de alguns momentos. Tu tens momentos em que tu te lembres, por exemplo, de um dia em específico, que tu te lembres de uma coisa que fizeste na tua infância e que ainda seja marcante para ti? Algum momento assim que te venha à cabeça?

Agora tinha que ficar aqui a pensar um bocadinho, mas da minha infância, acho que os momentos que eu tenho mais frescos na minha memória é de estar na pastelaria do meu pai.

A cantar?

Não, isso nunca aconteceu. Eu era um bocado envergonhada.

Eras aquele tipo de pessoa que não cantava à frente de ninguém.

Ya.

Imagina que estamos num almoço de família e alguém dizia: "A Helena canta muito bem", e tu não cantavas.

Só se alguém trouxesse uma guitarra e tocasse a acompanhar.

Era esse o gatilho.

Sim, porque eu sentia-me envergonhada de estar a cantar à capela sozinha. Eu não sabia bem cantar, na verdade, eu desenrascava-me.

Sim, eras afinada.

Sim, às vezes. Portanto, eu sabia que não era assim tão segura. Só depois quando a minha mãe arranjou-me aulas de canto, porque percebeu que: "Esta miúda tem aqui qualquer coisa, se calhar devia investir nisso". E ela é que me arranjou aulas de canto com o Vítor Facas, que é um senhor de Montemor-o-Novo. No fundo, aquilo é tudo meio família. É o primo da minha melhor amiga, que é quase como se fosse da família, portanto estava tudo em família. E eu ia lá pra casa dele à noite, sexta-feira à noite. E a família dele ficava a assistir ao ensaio.

Não tinhas vergonha na altura?

Ao início tinha, mas depois passou-me e depois o filho dele também cantava, então ficávamos todos os três a cantar à noite, depois a minha amiga ia lá ter, depois o meu pai também, e era uma espécie de mini concerto que fazíamos ali pra família. E foi assim que eu descobri melhor como é que funcionava este instrumento.

Olha, mas é uma ótima memória, lembrares-te do nome do senhor que te deu aulas de canto, o Vítor Facas.

Exatamente.

Muito bom. Sabes que eu também sinto isso, até mesmo aqui na questão da rádio. Eu no início, quando comecei em rádio, também pensava assim: "No dia em que entrarem pessoas para me ouvir em estúdio, eu não vou conseguir fazer a emissão". E também pensava nisso. "Como é que eu vou conseguir perder a vergonha de fazer com pessoas a assistir?" Porque a rádio é este ambiente assim muito mais intimista, em que muitas vezes estamos a falar e não há ninguém a ver-nos, só pessoas a ouvir-nos, e eu também pensava nisso. Portanto, é um ótimo ponto falares nisso, mas é uma vergonha que se perde depois, naturalmente.

Com a prática, acho que com o tempo. Sim.

Olha, tu depois quando chegaste a Lisboa, vinda do Alentejo, realidades aqui se calhar um bocadinho diferentes, quanto mais não seja pela questão da velocidade em que a vida é vivida no Alentejo e em Lisboa.

Sim.

Tudo correspondeu à expectativas, àquilo que tu idealizaste, se tiveste desilusões pelo meio, como é que foi essa fase?

Tive muitas desilusões e nada correspondeu com a minha expectativa. E acho que essa foi a desilusão maior. A primeira foi a universidade. O meu contacto com o teatro era com aquele teatro que se fazia ao vivo na televisão. Eu não ia ao teatro até ao secundário. Eu nunca fui ao teatro a não ser aquelas coisas com a escola, que tu vens aqui a Lisboa e vais ver aquelas peças infantis, o Auto da Barca.

Sim, os clássicos.

Exato. Que não é mau, mas não é um contacto real.

Sim, exatamente. E tu querias mais, não é? Ganhar mais mundo nesse sentido.

Não, então eu não sabia muito bem o que era a realidade desta área. Era só uma imaginação da minha cabeça. Eu achava que era tudo muito profissional, muito high standard. E quando fui para o secundário tirar o curso de Artes do Espetáculo, eu ia com o mindset: "Eu vou ser uma profissionalona. Não é que vou ser a melhor, é eu vou fazer bem as coisas". E depois vim pra Lisboa e percebi que afinal não era bem assim. Eu não quero dizer que não há profissionalismo, porque não é isso. Mas eu estava à espera que as coisas estivessem noutro nível. Não sei de onde é que eu fui tirar essa ideia, na verdade.

Se calhar pela exigência que tu também já crias para ti. Pode ter sido por aí.

Talvez. É isso, acho que essa é a palavra certa, exigência. Eu não senti que a escola fosse assim tão exigente, não senti que me tivesse a dar aquilo que eu queria aprender, mas isso também a culpa é minha, porque eu é que pus essa expectativa, porque eu queria aprender técnicas diferentes. Eu não pensei que fosse pra escola aprender a ser uma artista criadora, o que é fixe, porque isso também mudou muito a forma como eu vejo o teatro, a performance e as artes de um modo geral. Se calhar se tivesse tido coisas mais clássicas, se calhar teria sido uma atriz mais dedicada a fazer qualquer papel ou personagem, em vez de estar sempre constantemente a pensar: "Agora quero criar este projeto, quero criar aquilo". Não sei, não faço ideia como é que seria a minha vida, mas assim foi. Fui pra STC e desiludi-me um bocadinho com a STC. Desisti, mas depois pensei: "Epá, não, vou ter que acabar isto".

E queria mesmo desistir?

Não, eu queria mesmo desistir, e isso foi um dilema brutal, porque eu tive que convencer meu pai a vir para Lisboa tirar teatro, porque quer dizer, imagina o que é.

Estou a pensar exatamente nos teus pais, que fizeram tanto esforço.

Exato. Mas eu nunca lhes desisti.

Ah, ok.

Aliás, eu acho que partilhei de alguma forma com a minha mãe, tipo: "Isto não está nada a ser aquilo que eu queria", mas a minha mãe é do género: "Olha, tu fazes aquilo que tu quiseres, é a tua vida". O meu pai estava a me bancar os estudos, e eu estava a trabalhar ao fim de semana aqui em cafés. Imagina, o meu pai pagava uma renda e as propinas, e não havia mais dinheiro. Portanto, eu tinha que arranjar forma de ter dinheiro pra conseguir pagar o passe, coisas da escola, comer, ir ao teatro. Portanto, havia toda uma dinâmica que já se tinha instalado aqui na família, tipo: "Olha, este é o plano pra conseguires estudar, mas vais". O meu pai sempre disse: "Não, tu vais ter que estudar". Só que estudar pra teatro, qual é que é o retorno? Qual é que é a garantia?

Havia essa reticência ainda.

Havia, claro. É um investimento que ele está a fazer que ele também pensa: "Ok, não quero estar só a fazer este investimento para tu depois não ficares com nada". Felizmente correu tudo bem, mas houve esse ajuste. Imagina o que é, depois de ter mostrado ao meu pai: "Olha, estás a ver, pai, é mesmo isto que eu quero fazer, vai ter que ser isto". E ele: "Ok, vamos lá". Afinal, quer desistir.

O drama.

O drama na minha cabeça. Eu nunca lhe disse isto, mas eu estava tão desiludida com a escola. Estava a pensar assim: "Como é que eu vou fazer? Eu não quero continuar aqui, não me sinto nada bem, estou mesmo desconfortável. Se calhar nem quero ser atriz. Como é que eu vou dizer ao meu pai, que já gastou um ano de propinas, que vou mudar de curso e que, se calhar, ele vai ter que pagar mais um ano ou, se calhar, vou ter que ser eu?" Esse primeiro ano foi horrível, mas depois tive uma proposta de trabalho em teatro, que era fazer um musical para escolas, e eu pensei: "Isto é a desculpa perfeita, porque estou a trabalhar na área, estou a ganhar o meu dinheiro, ou seja, ele não precisa estar aqui a ajudar-me. E se calhar já nem tenho que voltar para a escola e está feito". Só que depois fiz esse espetáculo e, no meio da carreira, nós estivemos um ano a fazer espetáculos para escolas. E eu pensei: "Também não é isto. Eu acho que tenho que voltar para a escola e tenho que perceber bem o que eu quero fazer como atriz. E a matrícula está congelada, portanto, vou, acabo. É o que o meu pai quer, é que eu acabe, portanto, o dinheiro é dele, tenho que fazer o que ele quer".

E conseguiste.

E consegui, foi a melhor coisa que me aconteceu na vida, foi ter desistido e ter voltado, porque eu voltei para outra turma.

E não foi um passo atrás, até foi um passo em frente para depois perceberes: "Bem, se calhar eu preciso mesmo disto para perceber aquilo que eu quero", não é?

Exatamente. Eu acho que foi exatamente aquilo que eu estava a precisar, era sair, ganhar um chá de realidade e voltar. E quando voltei, fui para outra turma diferente e conheci três pessoas incríveis. Conheci várias, mas quero enaltecer estas três, porque a Teresa Vaz, o Miguel Pontinho, o Afonso Viriato, criamos uma estrutura artística que se chama Bestiário e isso mudou completamente a forma como eu vejo. Este trabalho em conjunto com estas três pessoas e o cruzamento entre estes universos todos diferentes, o meu e o deles, trouxe-me tanto enquanto atriz, não tanto até como criador, mas eu acho que aprendi imenso com eles, a estarmos a trabalhar juntos e ter um espaço seguro onde eu posso experimentar, fazer o que eu quiser e bem me apetecer, sem medo de errar, sem medo de me sentir ridícula, porque sei que tenho ali três pessoas que não me vão julgar. Pelo contrário, até vão apoiar.

Impulsionar.

E impulsionar. Isso fez toda a diferença na forma como eu vejo esta profissão e como eu estou na profissão e como eu trabalho.

E temos aqui a Helena Caldeira como a conhecemos hoje, com muitas experiências. Nós já vamos a essas experiências, nomeadamente, a Rabo de Peixe. Temos que falar sobre isso, como é óbvio. Aliás, eu acho que as pessoas iam me culpar imenso se eu te trouxesse aqui e não falássemos sobre esse sucesso. É já a seguir, na segunda parte. Até já. Segunda parte do Em 40 Minutos. Continuamos a conversa com Helena Caldeira. Ficou aqui prometido que vamos falar de Rabo de Peixe. Já lá vamos. Até porque já tive aqui o André Leitão e quis saber algumas coisas. Ele não me contou tudo. Também não sei se me tens muito mais para contar, que eu sei que ainda está tudo no segredo dos deuses.

Está tudo muito guardadinho.

Mas já lá vamos. A Rabo de Peixe, estávamos aqui a falar muito da tua formação, daquilo que sentiste quando vieste para Lisboa. Queria te perguntar também, enquanto atriz, mulher atriz, como é que é ser mulher neste meio? O que é que ainda falta mudar, se há ainda muito para desbravar, o que tu sentes enquanto mulher artista?

A única coisa que eu posso falar mesmo é sobre a minha experiência pessoal. Claro que eu podia falar sobre aquilo que as minhas colegas me contam e há imensas histórias, mas eu prefiro sempre falar na primeira pessoa. E eu sou uma jovem atriz. O ser uma jovem atriz, acho que é a maior questão na minha área, mais criadora, não tanto atriz, porque até é fixe ter malta jovem e eu vou fazer personagens que vão mais ou menos corresponder com o meu visual. O que é o que é. Também não é fixe, porque há a hipótese de mudar e essas coisas todas.

E até é mais desafiante.

E é mais desafiante, como é óbvio. Mas também requer mais tempo, o que requer mais dinheiro, portanto, é toda uma lógica. Mas eu sinto às vezes que o facto de eu ser jovem ou parecer jovem, porque eu já não sou assim tão jovem. Eu tenho 29 anos.

É jovem.

Sou jovem, mas já tenho alguma experiência, não tenho 18.

E a tua formação, e foi aquilo que fomos falando aqui, confere-te já um tipo de maturidade, se calhar, mais acima do que algumas pessoas que até podem Estar um bocadinho mais acima a nível de idade.

Depende sempre.

E o facto de seres criadora também.

Exato, era aí que eu queria chegar. Eu acho que depende sempre, mas lá por eu ter este ar, não quer dizer que eu não tenha já tido as minhas experiências e que eu não tenha a minha validade.

Claro.

E isso é a maior questão com a qual eu me debato quando eu estou a fazer algum projeto em que sou parte da equipa criativa ou que sou mesmo só eu a fazer alguma coisa. Às vezes sinto que não me levam a sério porque sou uma miúda. E isso não tem só a ver com o facto de eu ser jovem, tem a ver com o facto de eu ser jovem e ser mulher. E infelizmente, também tenho vindo a aprender isso agora, porque ao início não percebi muito bem este lugar, mas estou a descobrir que há, infelizmente, uma necessidade de me afastar ou de criar uma distância. Imagina, quando vou a um teatro qualquer e tenho que me apresentar como parte da equipa. Eu já descobri isto com uma amiga minha, que é produtora. Ela se ouvir este podcast vai ficar superorgulhosa. Descobri que tem que haver algum afastamento na tua apresentação, porque se tu vais logo com essa proximidade, é muito fácil aproveitarem-se disso. E eu não sei porque é, eu acho que é por ser jovem e mulher, porque posso ser mais naïf, porque posso ser mais fácil de manipular. E normalmente as equipas são mais masculinas. Não sei, eu sinto que existe uma certa pressão da parte dessas equipas. Quando tu estás numa equipa muito masculina, o ambiente é diferente. Eu acho que é por isso que também é necessário que as equipas sejam mais equilibradas, para toda a gente se sentir confortável. Não é que eu não me sinta confortável com homens, não tem nada a ver com isso. Tem a ver com a postura que as pessoas também adotam quando estão a conversar.

E a energia do grupo muda também, não é?

Certo.

Com as pessoas que fazem parte do grupo, tanto faz que sejam homens ou mulheres.

Sim, tanto faz. Aqui a questão é sabermos reconhecer no outro a validade do outro e aceitar o outro exatamente como ele é e que apesar de ser jovem ou velho, vai trazer o seu objeto, o seu projeto, a sua ideia, o seu conceito e tem que se acolher isso sem fazer juízos de valor e sem aproveitamento algum. E eu já senti, algumas vezes, que o meu espaço estava a ser demasiado invadido, porque eu não radicalmente pus essa barreira. Não sei se os homens sentem isto, mas eu sei que as mulheres sentem isto, porque não sou a única a senti-lo em conversas com as minhas colegas. Aliás, isto é um tema cada vez mais premente, até em cafés com amigas.

E se mais do que uma sentem, é porque há aqui uma razão de ser.

Exato. E mesmo que fosse só uma, mesmo que seja eu só a sentir.

Não, mas dá força ao testemunho, não é? Acaba por tornar com mais voz, vamos dizer assim. Eu queria te perguntar, quando nós olhamos para o mundo hoje e para aquilo que está a acontecer, ficas inquieta com aquilo que está a acontecer, até, por exemplo, a nível político, e de que forma é que a arte também pode ter aqui uma espécie de missão naquilo que acontece e que nos rodeia, como é óbvio?

É sim, eu acho que a arte é, obviamente, um veículo fundamental para a construção de pensamento, de espírito crítico, nem que seja só apresentação de realidades novas e diferentes, de um espaço de questionamento. Mas também acho que não sei se há um objetivo para a arte e não quero ser eu a pôr-lhe esse objetivo. Eu acho que a arte também tem que ser livre naquilo que pretende, naquilo que é por si só. Imagina, se estamos a falar de um espetáculo de teatro ou de uma performance ou de um livro, não tem que ter nenhum objetivo e pode ser pura e simplesmente um ato de libertação, só por entretenimento, eu acho que há espaço para tudo. Isto é uma discussão que às vezes também tenho com alguns amigos, porque eu acho que a arte é uma forma silenciosa de apresentar opções. Às vezes não tão silenciosa, na verdade. E eu gosto disso. E gosto das possibilidades todas que a arte traz. Portanto, eu não consigo deixar de achar que há uma certa responsabilidade social. Por outro lado, não acho que ninguém seja obrigado a carregar esse peso. Portanto, eu própria tenho este dilema quando estou a fazer alguma coisa. E se formos falar, por exemplo, das "Cantadeiras", é claramente um manifesto que está a apelar para uma maior igualdade e para uma maior visibilidade da voz da mulher, mas nunca foi essa a minha intenção.

Sim, não era o objetivo principal, nem o cerne da questão.

Exato, mas veio daqui. Portanto, isso estava conectado. É uma coisa que eu não sei bem Não sei bem.

Às vezes é quase como alguém consciente, ou seja, a pessoa pode nem ter essa pretensão, mas é levada para aquele ambiente.

Não sei. Eu acho que cada um tem a sua cena. Mas eu tendo a acreditar que o artista é uma pessoa mais consciente daquilo que se passa à volta dela, ou pelo menos mais permeável, ou pelo menos mais empática. Porque se tu tens necessidade de contar uma história qualquer, é porque alguma coisa te tocou. E para isso te tocar, tu tens que estar aberto e disponível. Eu acho que isto é que é a cena especial dos artistas. E eu acho que inevitavelmente isso cria este tipo de objetos que podem oferecer opções, pensamento, reflexão. Não sei.

Estamos aqui a falar da arte, do papel da arte, e tu foste fazendo muitos projetos ao longo da tua vida e da tua carreira. Aquele que eu acho que te deu mais a conhecer ao público, sem que muitas pessoas já te conheciam, tu participaste numa novela também da TVI, que te deu grande projeção na altura com a Kelly Bailey. E tinham ali uma relação muito próxima na novela, mas a "Rabo de Peixe" deu-te aqui, se calhar, também outras possibilidades e outro mundo. Tu sentiste que tudo aquilo que também foste fazendo, te foi preparando para este sucesso e para este boom, que foi a série, que ainda tem duas temporadas para mostrar ao mundo?

Nada me preparou para o boom de "Rabo de Peixe". Quer dizer, cada qual tem o seu percurso. Há percursos de carreira que têm essa progressão e tu acabas por já saber como é que funciona o mecanismo. Eu não sabia de todo como é que funciona o mecanismo mediático. Eu até nem sequer sabia que tinha como tratar um publicist. Eu descobri isso muito em cima da hora. Agora já faço, mas na altura não fazia ideia de como é que funcionava, qual é a bagagem e o surrounding necessário para o ator no momento de lançamento de uma coisa destas.

Nas proporções, não é?

Certo. É toda uma cena que eu não fazia ideia. E ninguém me preparou para isso. Se calhar devia, mas isso é conversa para outra hora. Desculpa, qual é que era a pergunta? Ninguém me preparou para isso. E sim, isso mudou muita coisa.

Na tua forma de ser e também na tua conduta enquanto artista, assustou-te de alguma forma esse impacto que a série teve? Porque toda a gente, na altura em que saiu, na semana, nos dias a seguir, cá em Portugal, lá fora também, foi um fenómeno e continua a ser. Nós olhamos sempre, e claro que olhamos, se calhar, para a parte bonita do: estão a ter sucesso, estão a ser reconhecidos pelo seu trabalho, mas isso também acarreta uma responsabilidade e isso pode assustar, entre aspas, o artista, quem está ali a dar o corpo às balas.

Sim, a mim assustou-me um bocadinho.

Que é uma grande responsabilidade, claro.

É, mas o peso da responsabilidade eu não senti, porque eu fui lá fazer o meu trabalho, tentei fazer o melhor que pude, se não fiz melhor, não foi só por causa de mim, porque há toda uma contingência à volta, há um contexto. E eu acho que consigo libertar bem essa coisa, tipo: "Olha, eu fiz, bem, há coisas que eu não consigo controlar". Mas depois a tua vida pessoal é envolvida no meio desta coisa toda, porque a série teve muito mediatismo e de repente tu começas a receber muitas mensagens no Instagram e em todo lado.

As pessoas conhecem-te.

As pessoas conhecem-me e eu antes era só a Helena, agora sou a Helena Caldeira, que é um bocado estranho. Até mesmo a minha família. Não sei, foi tudo uma coisa diferente. Passou uma ventania pela minha vida naquela altura e eu não gostei.

Não?

Não gostei dessa ventania, porque eu sou bicho do mato. Gosto de estar muito no meu canto e tenho alguma dificuldade, acho que é por falta de conhecimento, na verdade. Estas coisas do tens que ir ao evento, tens que fazer isso, tens que fazer aquilo. Eu não me sinto muito confortável nesses ambientes e é normal, porque é muita gente, é muita coisa. Há fotografias, há vídeos, há entrevistas, há posts.

E há pessoas que lidam sempre muito melhor com a questão de ter de falar com outras pessoas, de estar à vontade num espaço com outras pessoas que às tantas nem conhecemos. Acho que isso também parte da personalidade de cada um.

Certo, claro.

Só que nós tendemos, se calhar, mais a normalizar as pessoas que têm à vontade e a admirar mais esse à vontade do que as pessoas que se calhar se escondem mais um bocadinho.

Pois, certo.

E que não é mau.

São duas coisas diferentes.

Duas formas de levar a vida, no fundo.

Certo. E eu acho que estou a perceber esse equilíbrio agora, porque eu gosto mesmo é de falar, como já deve estar a perceber.

Não é isso que está em casa.

Mas prefiro isto, estar aqui a conversar contigo do que de repente estar numa sala cheia de pessoas que eu não conheço ou que de repente acham que me conhecem também porque já me viram fazer aquilo.

Ou é que estás num sítio e que parece que qualquer movimento que tu vais fazer vai ser motivo de olhares, porque às vezes acontece, nós estamos tão nervosos num certo ambiente que parece que vamos fazer qualquer tipo de movimento e as pessoas vão olhar para nós. E às vezes nem é tanto isso, é mais coisas da nossa cabeça.

Isso não tenho tanto.

Não? Boa. Isso é ótimo.

O que eu tenho mais é mesmo o desconforto de estar no meio de muita gente.

Ok.

Ou de pessoas que eu não conheço. E não é por estar a sentir que estou a ser avaliada, mas a expectativa A minha expectativa sobre aquilo que pode ser a expectativa do outro sobre mim, deixava-me muito desconfortável e isso é que me abanou mais, porque de repente havia imensas pessoas à minha volta a dizer: "Tens que fazer isto, tens que fazer aquilo". E eu: "Mas eu nunca quero fazer nada disso". E isso assustou-me muito e eu tive uma necessidade de me retrair, não é retrair.

Encontrar um equilíbrio.

Guardar a minha privacidade, guardar aquilo que eu sei que é meu e que ninguém me vai tirar, que é o meu centro. E eu precisava desse espaço para não estar constantemente a questionar se estava a fazer a coisa certa. Porque é muito fácil as pessoas virem ter contigo e opinarem sobre a tua vida, sobre a tua carreira. E eu não me sabia muito bem proteger disso. Acho que foi por isso que eu tive esta necessidade de criar este espaço. E eu gosto muito de não dar nas vistas. Estar no meu canto, a fazer a minha vida e depois vou trabalhar.

E isso fica percetível aqui ao longo desta conversa. Acho que para os ouvintes que estão conosco, vão perceber isso mesmo. Eu já tentei fazer isto com o André Leitão.

O quê?

Tentar espremer ao máximo, porque os ouvintes querem saber isto. Da segunda e terceira temporada de "Rabo de Peixe". Estão já confirmadas estas duas temporadas. Vocês não podem revelar nada, pois não?

Não, não podemos ainda.

É confidencial.

É mesmo confidencial. Não podemos ainda. Foi um mau timing, se calhar daqui a um bocadinho já podíamos, mas agora estamos à espera de ordens. Enquanto não nos derem a ordem de podermos abrir um bocadinho a boca, não vamos abrir a boca.

Exatamente. Mas vêm muitas surpresas, por aquilo que sabemos. E vamos ficar colados mais uma vez e vamos novamente para o top 10 e vai voltar a acontecer, tenho a certeza.

Espero que sim, é esse o espírito.

Exatamente, vai acontecer de certeza. Portanto, "Rabo de Peixe" está no segredo dos deuses. Vamos ter de esperar pela estreia oficial da segunda e terceira temporada. Entretanto, aqui no Observador, vamos falar de um projeto também novo para ti, um podcast de ficção, o "Zé faz 25", com produção de Coyote Fadi e Observador, autoria de Manuel Pureza e David Neto. Conta com várias vozes de atores conhecidos, Paulo Calatré, Sara Matos, tu, Helena Caldeira, José Raposo, Tiago Titônio Pereira, que é o Zé.

Exato.

E de quem tu tens uma relação, não é?

Uma espécie disso.

Exatamente. Que história é esta e que desafio foi este de, do nada, falámos aqui das cantadeiras, de um monólogo, e agora estamos a falar de uma coisa completamente diferente e em que só temos a voz.

É por isso que eu gosto tanto desta profissão. Quando funciona mesmo como profissão e que tu podes mesmo experimentar várias coisas, é superfixe, porque não há nada igual. Estás sempre a fazer coisas diferentes e isso é a ferramenta que mais facilmente te obriga a potenciares-te a ti próprio. E foi superfixe fazer este podcast, porque também deu para explorar um bocadinho o que é que é o poder da voz e o poder da imaginação.

Criar imagens na cabeça das pessoas.

Certo. Eu, por acaso, estive a ouvir os episódios, os dois que saíram, e estava a tentar lembrar-me da sensação que foi gravar, porque as pessoas não veem, mas nós estamos a fazer o acting todo da cena, não estamos só no microfone a dizer as coisas.

Ainda para mais porque são atores, ou seja, isto podia ser feito por pessoas que não eram atores e podia acontecer, podia não ter o mesmo brio, que se calhar não ia ter.

Sim, mas olha que eu acho que isto ainda é mais difícil do que estar à frente. Para qualquer pessoa, porque imagina o que é tu pores tudo na voz.

Exato.

E há coisas que eu fiquei a ouvir e eu pensei: "Ok, mas isto não passou". Não passou porque às vezes tu precisas da imagem para combinar a informação toda. A voz soa-te assim e a cara diz-te outra coisa.

Exato.

Ou o mood da cena diz-te outra coisa.

Há pessoas que são mestres nisso mesmo. Têm que dizer uma coisa e a cara transparece outra coisa diferente.

Aqui não, tu só tens um canal de informação que é a voz. Portanto, tens que pôr tudo ali, mas também não demasiado. É um equilíbrio. E esse exercício foi superfixe. E foi mesmo fixe ouvir os episódios para perceber: "Ok, aqui já percebi que aqui isto podia ter sido mais assim, isto podia ter sido mais assado". Comigo, porque eu lembro-me de como é que estava a gravar. E foi superfixe, acho que acabou num produto mesmo fixe. Não estava à espera, confesso, de ser assim transportada numa viagem. Eu tenho alguma dificuldade em permanecer a tentar aquilo que estou a ouvir só. Se for música, fico horas, mas o tipo podcast eu tenho dificuldade, porque eu distraio-me. Eu preciso de ver alguma coisa. Mas este está superbem conseguido, porque tem imensa sonoplastia.

Sim, a sonoplastia ajuda imenso, é do Artur Costa.

Superfixe.

Ajuda mesmo a transportar-nos para aquilo que está a acontecer, para a ação da história.

E foi quase como ler um livro, na verdade.

Sim.

Só que um bocadinho diferente, mas a sensação é parecida, porque quando tu estás a ler, pelo menos a mim acontece-me, começas a imaginar, a fazer o filme na tua cabeça. E aqui, pronto, já tens um bocadinho mais de informação, tens as palavras e já tens o som. De repente, só te falta a imagem e foi fixe estar a fazer esse exercício.

E temos aqui uma série de oito episódios para ouvir no site do Observador e também nas plataformas de podcast. A Helena Caldeira é a Luísa, namorada do Zé, e há tanto mais para...

Não, não sou a namorada do Zé.

Então diz-me

Não sou namorada do Zé. A namorada do Zé é a Sara Matos.

Então eu confundi aqui nas minhas notas.

Não faz mal, porque não é namorada, mas há ali uma cena.

Então está aí, porque eu ainda não tive a oportunidade de ouvir o podcast, é por isso.

E no segundo episódio é que começas a perceber.

Ok, então pronto. Obrigado pelo reparo. O nosso tempo está a chegar ao fim e isto voa, passa muito rápido. Estamos aqui à conversa. Vamos fechar esta conversa a falar sobre arte, que esteve aqui muito presente ao longo destes 40 minutos. Em tempos de ruído e de alguma pressa, daquela azáfama do dia a dia, o que é que achas que a tua arte ainda tem para oferecer?

Não sei o que a minha arte tem para oferecer, mas eu, enquanto ser individual e cidadã deste país e do mundo, estou a tentar ativamente abrandar. E não é trabalhar menos. Isso também era bom, mas abrandar na resposta aos pedidos. Pedem-te tudo para ontem e querem que tu respondas às mensagens logo a seguir. E eu não quero, nem consigo mais compactuar com isso, porque tira-me a minha saúde mental e tira-me do meu lugar mais natural, que é um lugar mais contemplativo. E eu acho que isto vem muito da minha educação e do sítio onde eu fui criada.

Diz muito, sim.

Eu cada vez mais sinto necessidade de voltar àqueles prados e só esticar-me na relva. E tenho a certeza absoluta que se houver mais, e vai haver, mais projetos a serem criados a partir de mim, que vêm desse lugar, de certeza absoluta, de um lugar que pede mais tempo, que pede mais calma, que pede mais dilatação.

E venham eles.

E venham eles.

Nós estaremos cá à espera deles. Para já, ouvimos-te no podcast de ficção, o "Zé faz 25", e depois "Rabo de Peixe" e sabe-se lá o que é que ainda há para vir.

Muita coisa.

Muita coisa, não é?

Muita coisa.

Helena Caldeira, muito obrigado por teres estado aqui conosco na Rádio Observador e no "Meio Quarenta Minutos". Muito sucesso e até breve.

Obrigada.

Um grande beijinho.