Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Eu sou muito autocrítico. Eu aprendi a fazer esse processo sozinho, graças a pessoas por quem eu sempre me rodeei, que não têm vergonha de me dizer: "Olha, não sei se isto..." Eu não gosto da síndrome do impostor, porque já cheguei à altura em que sei que faço bem aquilo que ando aqui a fazer. Eu sei que sou bom nisto.

Aí está uma frase que não se ouve muitas vezes, e que há algum pudor em dizer.

Eu sei que sou bom a fazer isto. Agora, sei quando alguma coisa que eu faço é uma porcaria. O facto de eu ser bom não quer dizer que tudo que eu faça seja bom. Quer dizer que 90% do que eu faço é mau, mas 10% é certo, e sei ver o que é. Por isso, se calhar, sou bom nesta escolha, nesta seleção. Se calhar não sou assim tão espetacular a fazer a coisa, mas na seleção até sou porreiro.

Podia ter sido arquiteto, foi para isso que estudou, e talvez tenha sido lá que foi buscar a ideia de que uma obra tem que ter estrutura, alma e silêncio. A música apareceu sem pedir licença e nunca mais alargou, nem mesmo quando tentou. Há um paradoxo bonito na sua vida: quanto mais pessoal escreve, mais universal fica, e quanto mais famoso ficou, mais desconfortável se sentiu. Para produzir o último álbum, fechou-se durante ano e meio numa sala de ensaios, foi sozinho para os Alpes Suíços com sintetizadores e paisagens que não conhecia e voltou com um disco, aliás, o mais eletrónico que alguma vez fez. Acredita que uma boa canção não precisa de roupa para se manter de pé. É um dos poucos artistas que ainda trata os discos como se fossem livros e as canções como se fossem cartas que nunca devem ser demasiado explícitas. Tiago Tenório, em "40 Minutos". Muito bem-vindo aqui à Rádio Observador.

Obrigado pela essa introdução, sim, senhor.

Há alguma coisa de errado aqui?

Não, não há. Gostei. O que é que disseste? Que uma canção tem que ter silêncio, alma-

Estrutura.

E estrutura. Fui eu que disse isso? Pois, muito bem dito, Tiago. Sim, senhor. Muito bem.

Portanto, revês-te nesta ideia?

Revejo-me, sim, senhor.

É o que procuras sempre quando compões músicas, Tiago?

Inconscientemente.

Músicas ou canções?

Inconscientemente. Essa dúvida muito persistente.

Ou cantigas.

Ou cantigas. Outro dia fui a um concerto de um cantor português assim mais antigo. Ouvi tanta vez a palavra cantiga, que já não consigo. "A próxima cantiga", não sei o quê. Tem um ar antigo, a coisa cantiga.

Pátio das Cantigas. Há quem diga que canção é o termo mais completo.

Eu uso canção. Às vezes uso música, mas é sem querer. Mas uso canção. Cantiga, não. Cantiga parece que estamos a usar uma expressão de avô, não é? Que é uma pena, porque é uma palavra como as outras coisas. Como outra qualquer.

Uma palavra portuguesa. Dá-nos algum calor humano também, o facto de liarmos aqui aos avós. Por que as canções nunca devem contar tudo?

Eu acho que estamos a passar numa era em que as canções são bastante mais literais do que alguma vez foram. Principalmente porque sabemos a vida íntima de todos os artistas, de determinado tipo de artistas, principalmente os mais pop, mais comerciais. Então sabe-se exatamente que aquela artista está a falar daquele coisa, que a Taylor Swift está a falar daquele namorado e daquele episódio que aconteceu com aquele namorado.

A Shakira e o Piqué.

A Shakira e o Piqué. Tiraste-me as palavras da boca. Mas não é daí que eu venho. Eu venho de um sítio onde nós não sabemos absolutamente nada do artista e também nem queríamos propriamente saber. E as músicas que ouvíamos eram o nosso refúgio, eram acrescentes à nossa própria história ou eram almofadas em quedas que nós dávamos. E por isso eu gosto que uma canção não diga grande coisa ou que possa ter vários layers. O que não quer dizer que uma canção não possa ser altamente literal, mas como não sabemos do que se está a falar, para nós deixa de ser.

Sim, em alguns casos até podem ser pensamentos que estão lá metidos numa caverna que só nós conhecemos, não é? Que só muitos anos depois é que se revelam.

Sim, interessante.

Tiago Tenório, tu és uma pessoa misteriosa no sentido que gostas de guardar mistério sobre algumas coisas tuas?

Acho que tem mais a ver com eu não gostar de me expor.

Ok.

Sempre me fez muita confusão, desde sempre, e acho que faz exatamente a mesma confusão hoje em dia como fazia quando apareceram as redes sociais e as pessoas começaram a expor-se como se todas elas fossem-

Seres perfeitos, não é?

Não, estrelas de cinema.

Uma vida muito rica, não é?

Sim, o seu canal de autopromoção. E isso faz-me um bocado de confusão, porque nem toda a gente está a vender coisas. Eu percebo quando-

Como é que se foge a isso, sendo um artista que precisa de público, precisa ter concertos.

Claro, claramente não está a resultar a minha tática, porque eu não tenho muitos seguidores nas minhas redes, por isso eu não sou o melhor conselheiro.

Mas tens um público fiel.

Tenho.

Nos teus concertos.

Vai aparecendo, sim, vai aparecendo. Mas eu acho que grande parte das pessoas que me seguem, não me seguem nas redes sociais, a não ser para ver as datas, se calhar, porque sabem que não vão ter nada de especial ali. Mas sei lá, ponho coisas quando viajo, ponho fotografias. Eu lembro-me quando o Instagram apareceu, as pessoas do Facebook ainda não tinham migrado para o Instagram, e o Instagram era uma coisa assim meia artística, de fotógrafos, e eu acho que continuo a usar o Instagram dessa maneira. Quer dizer, ou ponho alguma coisa que tenha a ver com promoção ou alguma imagem de algum concerto que eu goste, coisas assim, mas eu realmente não Não ponho nada de pessoal porque não percebo o objetivo. Não gosto de me expor. Acho que as pessoas não têm nada a ver com a minha vida pessoal. E isto não é de uma maneira moralista. Sim, eu estou a poupar as pessoas e não a impedir ninguém de entrar. Estou a poupá-las. Ninguém tem nada a ver. É mais não quero chatear do que propriamente eu ser uma pessoa misteriosa. Acho que as pessoas não têm nada a ver com isso.

Isso é o utilizador de redes, Tiago Bettencourt, e o compositor e escritor de canções, ou cantigas, ou músicas. Aí é diferente ou não? Ou igual?

Quando eu escrevo?

Sim.

Sim, hoje em dia isto sai de maneira mais natural. Mas eu gosto de me esconder atrás de letras. Eu me lembro de uma música que eu escrevi uma vez nos Toranja, e o Ricardo, que é o guitarrista dos Toranja, virou-se para mim e disse: "Tiago, de certeza que queres dizer tanto? Queres te expor desta maneira?" E eu: "Realmente, esta letra está um bocado demasiado". E gosto de perceber que caminhos existem para dizer o que eu quero dizer, posso estar a expor uma fragilidade minha gigantesca, e eu acho que é isso que é bonito, porque depois as pessoas também se reveem nessas canções. Falta mais uma vez a palavra, estou a ficar sem vocabulário, meu Deus do céu. Tenho de ler um dicionário.

Podes cantar.

Exato. Vou cantar.

Canta os teus pensamentos. Talvez as palavras saiam mais fácil. Pode ser um gago verbal. Os gagos não cantam.

Pode ser.

Nem sei se isso existe, acabei de inventar.

Eu acho que, mais uma vez, isto liga com o Tiago das redes. Sem chatear as pessoas com os meus sentimentozinhos.

Ok.

Por isso, acho que é bonito esconder estas coisas, mas sem chatear as pessoas, sem lhes dar acesso a coisas que se calhar elas não têm que saber.

Muito bem. Tu partilhaste essa história com o guitarrista dos Toranja, da questão de expor demasiado. Tu hoje em dia, e fizeste agora um álbum há muito pouco tempo, no final deste ano 2025, consegues perceber quando te expões demasiado? Tens alguém que te ajuda nesse sentido? Como é que é feito esse processo?

Eu sou muito autocrítico. Eu aprendi a fazer esse processo sozinho, graças a pessoas por quem eu sempre me rodeei, que não têm vergonha de me dizer: "Olha, não sei se isto..."

Tão autocrítico ao ponto de quase padeceres de síndrome de impostor?

Sim, nem mais. Não é de impostor. Eu não gosto da síndrome do impostor, porque já cheguei à altura em que sei que faço bem aquilo que ando aqui a fazer. Eu sei que sou bom nisto.

Aí está uma frase que não se ouve muitas vezes, e que há algum pudor em dizer.

Eu sei que sou bom a fazer isto. Agora, sei quando alguma coisa que eu faço é uma porcaria. O facto de eu ser bom não quer dizer que tudo que eu faça seja bom. Quer dizer que 90% do que eu faço é mau, mas 10% é certo e sei ver. Por isso, se calhar, sou bom nesta escolha, nesta seleção. Se calhar não sou assim tão espetacular a fazer a coisa, mas na seleção até sou porreiro.

És porreiro. O João falava do teu último álbum, chama-se "Foz". Achei graça, porque a música que fecha o disco chama-se precisamente "Não Sei".

Sim.

Eu ia dizer, mas vou transformar numa pergunta: é uma espécie de declaração de humildade, Tiago? És uma pessoa humilde?

Sim, essa letra não é minha. Aliás, é a única letra que eu tenho nos meus álbuns que não é minha.

É quase um loop. Não sei.

Isso é uma frase da Milhares que eu vi.

Lá está.

Pensei: "Esta frase é muita bonita".

Grande compositora.

Exato. E depois resolvi musicar aquela frase, que acabou: "Não sei". Repeti outra vez, "não sei", pensei: "Quer dizer não sei". Deixa-me lá experimentar mais vezes. "Não sei". Acabou. Depois pensei: "E se eu fizesse o resto da música toda em não seis?" E veio daí. Realmente é muito terapêutico. Portanto, libertaste um bocado. É libertador esta coisa de achar que se sabe e dizer: "Não sei. Eu realmente não sei, não faço ideia, não sei".

Hoje em dia, quer dizer, sempre, assumir que não se sabe é quase um sinal de fraqueza, não é?

Sim.

Como é que tu entendes essa frase?

Acho que tem dois lados.

Tão pequenina, só com duas palavras.

Ainda bem que falas desta coisa. Eu tenho aqui uma teoria que é relativa aos apresentadores de televisão de antes. Um apresentador de televisão, e podemos falar sobre isto, era uma pessoa que nós admirávamos pelo conhecimento em várias áreas, como o Júlio Isidro, como o Manuel Luís Goucha, ainda hoje em dia sabe de variadíssimos assuntos. De repente, começou a aparecer um novo apresentador que se orgulha de não saber. "Eu não sei". Chega também ao público que também não sabe. Então o público fica contente.

Há uma espécie de vazio.

Sim, há uma espécie de vazio. E por isso, esse não saber, quando a obrigação devia ser saber, acho um bocado vazio, realmente. Depois há outra coisa que tem a ver com não se achar que sabe demasiado, que eu acho que é uma coisa que acontece à medida que o tempo vai passando, vamos percebendo que sabemos cada vez menos. Eu lembro-me de conversas que eu tinha com amigos meus sobre relações, sobre o mundo, quando eu tinha 20 e tais anos, esquece, eu sabia de tudo, tinha a resposta pra tudo.

De onde é que vinha essa curiosidade pra querer saber de tudo, ou saber tudo?

Não era querer saber, era achar que havia uma sensibilidade qualquer. Mas depois tu vês as coisas acontecerem e vês o mundo a evoluir e o comportamento humano, e começas a perceber que cada vez sabes menos.

Que o mundo está cheio de cinzentos.

Que a tua sabedoria é exatamente não tirar as grandes conclusões e estares um bocado preparado pra hipótese de realmente estares errado várias vezes e não saberes muitas coisas.

Há quem lhe chame maturidade.

Sim, é um bocado isso.

Olhando à tua volta, Tiago Tengarrro, o que te inquieta neste momento, a nível de questões? Sabemos que há muitas a acontecer. Falaste em evolução, mas com tanto pessimismo que há à volta daquilo que aí vem ou que pode vir, o que te inquieta? Ou te deixa inquieto?

O que me inquieta? Eu não sei dizer. Acho que todos os dias tento perceber o que me inquieta. Eu confesso que estou meio apático com todos os acontecimentos mundiais. Não só por estarem a acontecer longe de nós, como por já terem chegado a um absurdo tal, que ficamos apáticos. E cada vez tenho menos fé. Isto é uma coisa um bocadinho triste de se dizer. Tenho cada vez menos fé na influência que nós podemos ter nesses acontecimentos. Porque o mundo tem seguido um caminho bastante negro, independentemente da força que as pessoas com o mínimo de decência possam tentar fazer na rua ou nas redes sociais.

Isso quer dizer que és uma pessoa pessimista em relação ao futuro, Tiago?

Quer dizer, não sou nem uma coisa nem outra.

És um realista?

Sou, sim. Vivendo um dia de cada vez e reagindo um dia de cada vez, nesta altura, uma hora de cada vez, um minuto de cada vez. Porque agora pode sair uma notícia onde de repente o que já me disse uma coisa, tu ficas: "Como é impossível!"

Tu achas que estamos mais apáticos ou vamo nos conformando com uma realidade que tende a ser cada vez mais, e pegando aqui na expressão do João, pessimista?

Eu acho que essa apatia vem de estarmos realmente mais conformados. Eu acho que esta globalização das redes, não sei se vocês também acham o mesmo, veio nos alienar um bocadinho do nosso dia a dia e das coisas em que realmente temos influência.

Preocupamo-nos muito com o Médio Oriente, mas não nos preocupamos com o buraco da nossa rua, não é?

Sim, exatamente.

É um bocadinho por aí, Tiago?

Sim, é um bocado isso. E por isso o meu exercício nesta altura é tentar um bocadinho olhar mais pra aquilo que eu consigo fazer com as pessoas que encontro na rua, com o meu trabalho, de que maneira é que consigo ter uma boa influência naquilo que eu faço e tratar as pessoas à minha volta bem, ser um bom filho pros meus pais, um bom amigo, um amigo fiel. É um bocado isso que eu tento. Porque realmente dá um bocado essa sensação, nas redes tu fazes um scroll e acontece tanta coisa na qual tu não tens controle. Pessoas indignadíssimas nas redes, como se tivesse influência eu meter um like na Greta. De repente vou salvar. Não vou. Ou se for numa flotilha, será que sim? Não sei. Aqui já estou a tocar num assunto.

Infantilizou o mundo de alguma maneira, sentes isso? O estar permanentemente ligado.

Sinto que as soluções já estão nas redes sociais, acho eu. Porque acho que as pessoas nas redes estão realmente muito apáticas e sem noção do mundo cá fora.

Incorporam uma persona, não é?

Sim. Agora, acho incrível, se fazes qualquer coisa nas redes sociais, resolves que a tua luta é realmente lutar por aquilo e fores e estudares e acabares no Parlamento Europeu a tentar fazer diferença, acho isso nobríssimo, incrível. Agora, se não passar dos likes e dos vídeos de inquietação.

Sim, indignação instantânea.

Indignação.

É um tipo de ativismo que tentas-

E podcasts. Que de podcast atrás de podcast. Já não sei muito bem lidar com isso.

É um tipo de ativismo que tentas fugir, por exemplo, até de consumir?

Sim, e de fazer também.

Porque fazer se calhar é o mais fácil, não é? Hoje em dia com as ferramentas que temos à nossa disposição, temos uma opinião sobre tudo.

E acho que há muitos artistas que também se sentem um bocadinho na obrigação de defender causas.

Tu não.

De politizar. Eu tento não impingir a minha opinião a ninguém, tento que a minha opinião ou o meu caráter ou a minha moral passe através das minhas músicas e se calhar das casas onde vou tocar, mas tento não exibir isso de maneira nenhuma, principalmente não fazer com que isso seja Seja razão para vender concertos. Mas é a minha postura. Não quero que as pessoas gostem da minha música e não quero que eu e que a minha persona seja o que é vendível. Comercialmente não é muito eficaz, mas continuo a acreditar nessas coisas.

Muito bem. Tiago Bettencourt é o convidado desta semana do "Em 40 Minutos". Vamos só fazer aqui uma curta pausa e já voltamos para a segunda parte. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos". Estamos à conversa com o Tiago Bettencourt. João Miguel Santos, é preciso entender aqui, eu falei disto na introdução, a questão da arquitetura, para entender o homem que temos aqui à nossa frente, porque a arquitetura é um conceito muito complexo, não é?

É verdade. Querias ser arquiteto, não era, Tiago?

Sim, queria.

Ou empurraram-te para a arquitetura?

Fui um bocado empurrado para a arquitetura, mas fiquei muito contente depois. No segundo ano que comecei a ficar contente. Eu queria ir para Belas Artes, para Pintura. Mas naquela altura era bastante absurdo as pessoas meterem-se nas artes, era visto como demasiado arriscado e então fui para a mais decente das artes, que era Arquitetura.

Arquitetura. Chegaste a acabar o curso?

Cheguei a acabar o curso. E adoro, sou apaixonado por arquitetura e foi um curso que me ensinou muitas coisas e por isso, que bom que fui para Arquitetura. Ensinou-me, sobretudo, o tipo de artes, porque ensinou-me a ser curioso, ensinou-me o método criativo que eu ainda hoje uso, ensinou-me a ter, espero eu, um certo bom gosto na arquitetura de interiores, o que faz com que as casas por onde eu vá, valorizem.

O sentido de estética ficou mais apurado.

Ficou, acho que sim. Sim, eu tinha zero sentido de estética, nem sabia quem era o Siza quando eu entrei para o primeiro ano.

A sério?

Zero. Totalmente mal preparado para o curso de Arquitetura.

Ok. Dizias que o curso de Arquitetura te ajudou no pensamento criativo. Como é que tu compões as tuas músicas, Tiago? Há uma fórmula, há um método?

Eu posso pensar, é possível que pode começar por uma introspecção. Acho que não há nenhum método fixo, mas começa sempre por ficar atento a um acaso qualquer que me traga uma ideia em forma de frase ou em forma de acorde, ou em forma de inquietação, que tu estavas a falar há bocado. E por isso, tenho que estar num período em que esteja relativamente atento. Eu tenho períodos muito grandes onde não escrevo nada. Não escrevo nada porque não tenho de gravar disco. E eu acho que a partir do momento em que eu penso: "Cara, já devia começar a pensar em gravar um disco ou a fazer umas canções", o meu organismo fica um bocadinho mais atento a esses acasos, a essas pequenas modificações energéticas.

Quando dizes não escrever, é não escrever de todo a pensar que não se está a fazer uma canção ou não escrever mesmo?

Não escrevo. Por acaso agora estou a passar uma fase em que escrevo de manhã, mas mais porque sim. Aliás, para dormir melhor, porque eu tenho muitos problemas em dormir e a minha médica do sono disse que fazia bem escrever para o cérebro aprender a resolver os problemas durante o dia e não à noite. E então, por causa disto, comecei a escrever um bocadinho mais.

À mão ou em ecrã?

À mão. Porque gosto e não quero perder. Realmente, quando voltei, o pulso está parece assim meio pouco.

Dói a escrever, não é?

Não dói, mas é difícil.

Nós estamos tão habituados agora a um teclado que às vezes o simples ato de escrever é bom, não é? Sentir aquela sensação de voltar.

Parece contra natura.

Sim, e a minha letra melhorou bastante.

Eu ia-te perguntar isso. Tu tens aquilo que se chama letra de arquiteto ou nem por isso?

Tenho um bocado.

Como é que é a letra de arquiteto? É muito diferente da de médico?

Não sei. Não sei qual é a diferença.

Isto explicar em rádio também é um bocadinho difícil.

Acho que a de médico é mais rabiscos. A de arquiteto, se calhar, é mais uma linha.

É geométrica.

Exatamente, é possível que seja mais geométrica.

Portanto, melhoraste bastante a tua datilografia.

Quando eu comecei a escrever, eu pensei: "O que se passa aqui?"

Isso é um hábito que durar quanto tempo?

"Estou com um problema cerebral, que letra é esta?"

"O que é que eu tenho que resolver mais na minha cabeça?"

E depois passado uma semana já estava mais ou menos a voltar a conseguir fazer a letra.

Estava-te a dizer, há quem diga que a nossa escrita e a forma como nós escrevemos é, no fundo, não é como funciona o nosso cérebro, mas é um bocadinho da confusão que vai lá dentro.

A nossa letra?

Sim.

Eu não sabia disso.

Já ouvi dizer.

Se calhar está a fazer bem escrever.

Está-te a ajudar a alinhar.

Exatamente, nunca se sabe.

Falando aqui da tua infância também, tu tiveste uma infância livre ou foi mais conservadora?

Foi bastante conservadora, mas não quer dizer que não tenha sido livre. Eu acho que também por causa dos tempos em que vivíamos, andávamos muito mais livres do que os miúdos de hoje em dia. Eu lembro-me de ir pra escola a pé, pai, com sete anos, que dá uma ideia que hoje é impensável. Pelo que eu tenho visto, acho que os pais estão um pouquinho mais protetores das crianças ou com mais medo do que se possa passar nesse caminho. Por isso acho que o mundo também era um pouquinho mais seguro. Sim, foi uma educação bastante conservadora.

Quão conservadora, Tiago?

Não sei qual é a pontuação.

Dá-me exemplos que sejam testemunho desse conservadorismo.

Acho que só o facto de os meus pais estarem em pânico. Aliás, nem sequer havia essa hipótese de eu ir pra pintura, mostra um pouquinho este pensamento conservador dos meus pais. Depois foi uma educação também bastante católica.

Tu andaste nos Salesianos, não foi?

Não, minha mãe era professora dos Salesianos.

Mas tu fizeste a escola pública?

Sim, estive no colégio que havia ali na Avenida dos Bombeiros do Estoril, que era o Lucy Jay, que entretanto acho que é uma escola australiana, foi comprada. E depois fui pro Liceu de São João. Mas o conservadorismo tem a ver com alguns valores que nos passam e com visões do mundo, que só mais tarde é que pensei um pouquinho melhor neles e concordei ou não concordei, coisas concordo, coisas não concordo.

Mas na altura revoltaste-te muito com os teus pais? Eras uma criança revoltada ou não?

Não.

Um rebelde sem causa?

Não, acho que nunca fui muito.

Eras um betinho da linha, não me digas.

Não era um betinho da linha. Eu me lembro que tentei muito ser um betinho da linha, porque eu queria muito ser aceito, eu queria que as miúdas gostassem de mim.

Crescendo no Estoril, podias querer ser um surfista da linha de Cascais.

Pois, mas os surfistas-

Ou um indie frequentador do Dramático de Cascais.

Do Dramático. Mas nós íamos ao Dramático também, mas não éramos indies, mas simplesmente o nosso grupo de amigos não era esse. E os surfistas também era uma coisa diferente.

Tu querias fazer uma crítica aos surfistas, ou não?

Não, não queria.

Está entalado alguma coisa.

Não está, não.

Alguém te roubou a namorada?

Não, por acaso acho que não. Deixa-me lá pensar. Eu jogava ténis e no ténis não havia surfista, havia muito mais betinhos. E por isso eu dava muito mais nesse meio, ou seja, nesse meio não haviam surfistas, se os meus pais me tivessem posto no surf, eu de repente era, mas como estava numa família conservadora, eu fui jogar ténis.

Exato.

Por isso, tudo é consequência de qualquer coisa. E por isso, acho que tive a parte em que queria muito ser aceito, mas houve sempre uma parte de mim que não encaixava, e também socialmente, eu sempre tive muitos problemas sociais. Acho que quando comecei a tocar guitarra, comecei a ter outro tipo de amigos também.

Começaste a tocar onde? No teu quarto?

No meu quarto, sim, muito no meu quarto e com amigos.

Há rebeldia?

Não, quer dizer, primeiro tivemos aulas de piano, como é óbvio.

Claro. Piano ou órgão?

Piano. Órgão tinha sido ainda mais conservador.

Não, órgão era frequente nos anos 80. O órgão eletrônico, através daqueles livrinhos, como é que se chamava? O órgão mágico.

Sim, eu tinha a flauta mágica, mas porque no colégio as aulas de música era a flauta, e então tínhamos a flauta mágica com o cebolo.

Exato.

Era o que tinha, era o senhor que estava na capa. Tivemos aulas de piano.

E tocas hoje em dia, piano?

Toco mal, toco muito mal. Mas disfarço bem. Mas não tem nada a ver com o ensino clássico que tive, isso esqueci tudo. Mas quando eu comecei a tocar guitarra, comecei a me dar com outras pessoas. Quando principalmente tirei carta, comecei a viver em Lisboa e comecei a me dar com pessoas completamente diferentes. Mas realmente o grupo de pessoas com quem eu me dei até aos 17 anos era muito específico. Acho que principalmente quando eu entrei pro coro. Nessa altura entrei pro coro da igreja e acho que foi a primeira vez que eu tive um grupo de amigos com o qual eu me identificava e íamos todos juntos. Comecei a ir aos fados muito cedo. Um destes nossos amigos era filho do Carlos Zel, e então nós íamos muito ouvir o Carlos Zel ao número um ali na Artilharia Um, que era uma casa de fados do Jamario Veiga. E acho que os meus problemas sociais passaram um pouquinho a dissipar-se, eu deixei de sentir tanta obrigação De ser Betinho e comecei também a vestir-me de outra maneira.

A afirmaste como pessoa.

Comecei a afirmar-me.

O teu indivíduo.

Exatamente.

Foi por volta de que idade?

Talvez 15, a partir dos 15, acho eu.

Ali a fase da adolescência, não é? Em que possivelmente também começaste a questionar mais coisas.

Imagina, não sei se vocês se lembram, mas não dava para entrar em determinadas discotecas de tênis.

Isso.

Não se podia entrar, tinhas que andar de sapatos, se calhar não podias ir com a camisa ou de t-shirt, não podias também. Por isso também, se tu querias estar em determinados sítios, tinhas que-

Vestir o hábito

...play the role.

Exato. Depois dependia dos sítios, não é?

Tinha festas de amigos onde tínhamos todos de ir de blazer. Que hoje em dia é um caos para a death.

Impensável. Teremos dress code. Isso é muito típico linha.

Mas cá em Lisboa também acontecia, havia também Betinhos cá em Lisboa.

Alguns.

Sim, e haviam coisas típicas de determinado meio.

Verdade.

E por isso sair daí, eu lembro que a primeira vez que eu usei calças largas, porque estávamos na fase do grunge e era difícil eu me encontrar calças largas. Eu encontrei umas calças largas no Cascai Shopping, vi lá uma loja e eram umas calças que eu fui lá: "Olha, isto é para o homem, é unissexo". Eu pensei: "Não vou dizer isto a ninguém". E então usei, fui altamente gozado. Fui totalmente gozado. E por ser aleixado, as pessoas gozavam umas com as outras na altura, não havia esta afirmação através da diferença. Tu ou eras da carneirada ou então gozavam contigo.

Achas que é mais fácil ser hoje jovem do que nos anos 90?

Eu não faço ideia.

Que foi o teu tempo.

Hoje em dia as redes acho que são muito aleixadas. Acho que os miúdos nas redes são muito aleixados.

E há o conceito do bullying, que também se calhar já havia na altura, mas não havia este nome.

Já ouvi histórias bastante macabras feitas com AI, miúdos a fazerem vídeos de outros com AI, coisas assim mesmo mázinhas. E por isso não te sei dizer como é que era.

Pegaste aí num ponto, a inteligência artificial. Nós estamos a atravessar uma era de plena descoberta. Eu acho que falar de inteligência artificial agora e se calhar ir ouvir esta conversa daqui a três, seis meses, temos mais mudanças ainda e novas descobertas. Para a música, para o teu trabalho, é uma ameaça, é uma oportunidade? Como é que tu encaras isso no teu trabalho?

Para o meu trabalho específico, eu acho que não. Simplesmente porque a minha voz entrou para o imaginário das pessoas há muito tempo e por isso dá-me ideia que não tenho que me sentir ameaçado e vou continuar a fazer aquilo que faço, dá-me ideia que sem usar grandes processos da AI, a não ser que apareça uma ferramenta que me poupe muito trabalho. Mas imagina, agora noutro dia, foi o David Fonseca que mandou-me uma mensagem a dizer: "Tiago, manda-me aí um rascunho de uma música que tu tens no telemóvel". E eu mandei um rascunho, eu à guitarra e a fazer só , nem sequer tinha letra. Mando aquilo, passado dois minutos, ele manda a música toda arranjada com letra e com arranjo de cordas. Uma coisa incrível, em dois minutos. Passado mais um minuto, manda-me o mesmo em afro, passado um bocado manda-me a mesma coisa mais alternativo.

E tu pensaste: "Pronto, burri".

Acústico. Não.

Fiquei sem trabalho.

E o que o David estava a dizer: "Isto é bom que é para teres ideias, para perceberes mais ou menos a visão". Embora ele não tenha dito que determinado grupo português de sucesso está a fazer isto, fazer as músicas através desta, mas não vou dizer quem é.

Certo.

Mas por isso há este perigo. Porque realmente para determinadas rádios, as músicas feitas em AI entram facilmente. Mas para mim, eu não quero saber essas ideias. E agora eu estou a pensar também, acho que há muita gente também, nos estudos e quando vão fazer pós-graduações, quando têm que entregar coisas, também usam muito a AI. Normalmente é a AI, o que mostra é a coisa mais óbvia. E é bom para começar a escrever, para tirar as coisas, para ter o ponto de partida. E eu acho que isto poderia ser usado dessa maneira. No entanto, eu gosto muito do ponto de partida. Eu acho que as melhores ideias, as mais inocentes vêm no ponto de partida e eu não quero deixar de ter essa coisa e nem quero que a AI me roube isso. Por isso não me estou a ver usar a AI dessa maneira.

Nem como território de experimentação, por exemplo?

Não sei, depende da ferramenta que for. Acredito que em termos de mistura ou de masterização, que são dois processos a seguir, é possível que nos poupe muito trabalho e muito dinheiro, mas depois vai tirar dinheiro também a outras pessoas. Mas aí, se calhar, quando já não é um processo tão criativo. É uma coisa muito mais técnica, se calhar, é possível que use. Na parte criativa faz um bocado de confusão dar isso. É como se desse isso a alguém, a outra pessoa, e não apetece muito. Imagina, eu quero fazer parcerias com artistas que eu admire pela profundidade, pelo percurso, pela visão que ele tem e postura em relação à arte. Não sei se quero isso de um ser que tem todas as músicas do mundo dentro do seu cérebro.

Quem são esses artistas emergentes, jovens, vamos falar assim, que tu admiras e vês esse potencial de crescimento neste momento? Há bocado falaste da Milheiras, não sei se é um dos nomes.

Sim, eu gosto muito da Milheiras. Acho que a Milheiras está ali numa busca engraçada. Acho que vai acertar, vai errar, mas faz parte e tem uma voz que não é deste mundo. Acho ótimo a voz da Milheiras estar dentro da Milheiras. Acho que foi boa pontaria da parte do criador. Gosto muito do Filipe Sambado. Acho que é muito criativo, também é meio esquisitóide, às vezes acerta, outras vezes não.

Pouco compreendido, às vezes, também.

É, mas eu gosto muito dele e estou sempre curioso para saber o que ele vai trazer a seguir.

E a nível internacional? Dos nomes que vão aparecendo agora, há muitos, também muito por força se calhar das redes sociais, de êxitos que se tornam muito populares no TikTok, por exemplo, há muito esta tendência, agora o TikTok explode músicas.

Eu não consigo ir para o TikTok. Já tentei algumas vezes, ainda não consigo. Já me disseram que se educares o algoritmo, que aquilo fica uma coisa boa.

Dá um bocadinho de trabalho, mas serve.

Cada vez que eu apareço lá, fico um bocado traumatizado e não volto.

Uma ótima definição.

O que te apareceu, Tiago Tenreiro, no feed do TikTok?

Deixou-me assim um bocado preocupado. Pessoas a fazer acrobacias? Então, artistas emergentes. Posso falar da Billie Eilish. Billie Eilish acha-se uma gotinha no meio do oceano, muito especial.

Nós aqui há uns tempos ficamos muito impressionados, porque recebemos aqui o João Isidro no "Em 40 Minutos", e ele falou-nos da Olivia Dean, e que conhecia a Olivia Dean, é um nome que também agora está a aparecer muito. Ganhou uma série de prêmios agora no início deste ano, nos Brit Awards.

Ela não veio cá ao Calorama?

Ela veio a um festival cá em Portugal. Não tenho a certeza, nem te consigo precisar se é o Calorama, mas o João deve estar a fazer essa pesquisa neste momento.

Sim.

Foi o Calorama?

Calorama, sim, em agosto de 2024.

Exato.

Acho que não vi, não conheço.

Mas pronto, então vou deixar para ti a tua resposta.

Pronto. Vamos aí, vou ver. Eu tenho zero memória. Deixa lá ir aqui ao Tidal, não Spotify. Olha, fui no outro dia ver o concerto da Maro. Acho que está a fazer um percurso bem bonito, também numa busca bem interessante. Como é que isto se mexe? Depois vocês cortam esta parte em que eu estou a pensar.

Estou a ver aqui, Maro tem vários concertos marcados para estes dias.

Fez Coliseus há muito pouco tempo, tanto no Porto como em Lisboa.

E vai a Salt Lake City e a Boston em setembro.

Isto é muito sempre interessante de rádio, o Tiago Tenco está em direto a fazer a sua playlist.

Não é em direto? Isto é em direto?

É tudo em direto na rádio.

Olha, há aqui este maluco chamado MK.Gee, que é um artista muito bom, também bastante estranhóide. Uma coisa que está a acontecer bastante, também aconteceu com outro, que é o Tobias Jesso, que lançou um álbum já há uns anos atrás, depois nunca mais lançou nada. Eu pensei: "O que ele anda a fazer? Lançou um álbum tão bom". E entretanto percebi que isto é um fenômeno que acho que não acontecia antes e que está agora a acontecer, que são estes artistas como o Justin Bieber, que começou por ser uma coisa que ninguém gostava, ou que era ultracomercial, ganharam tanto dinheiro que podem comprar estes compositores que dantes diziam: "Não vou escrever pro Justin Bieber". Mas hoje em dia já não existe esse pudor. E então temos estes compositores muito bons a escreverem para estes artistas. E por isso percebi que tanto o MK.Gee como o Tobias Jesso fazem participações no último disco do Justin Bieber.

Era uma coisa que tu aceitarias?

Chet Hanna é muito bom.

Tiago, era uma coisa que tu aceitarias, compor canções para outro intérprete?

Já compus. Mas sim, não sei, não aceito.

Mas não assinando, ou seja, anulando-te a ti como criador.

Ghostwriter.

Sim. Mas depois aparece lá que o Tiago fez uma canção pra o artista. Acho que não iria fazer como ghostwriter. Acho que iria fazer como estou a trabalhar com este artista, como o Justin Bieber faz, tu vais aos créditos e estão lá estes compositores. Chet Hanna eu gosto muito.

Também gosto muito.

Também gosto muito de um que se chama Alizzz, com "z", que é o produtor do último disco do Chet Hanana, também tem projetos engraçados. Também tem coisas muito engraçadas, Fontaines D.C.

Sim, Fontaines D.C.

Também, com muita pinta. Esta não é propriamente nova, mas estou a adorar o ressurgimento da Lena d'Água. Está a fazer canções muito bonitas.

O último álbum é brutal.

O último álbum é muito bom. Vi-a no Festival F, foi dos melhores concertos que eu vi o ano passado. Foi tocante, foi mesmo bonito.

A idade não passa por ela. Ela está, de facto, a viver uma grande fase.

A voz dela está linda de morrer. The Idles, amo The Idles. Enfim, depois nunca mais saía daqui.

Uma grande oferta, no fundo.

Exatamente. Estou a ver o que é que tenho ouvido e o que é que é novo.

Tiago Tencat, por onde é que tu vais andar agora, nos próximos tempos?

Guiss. Eu só sei que vou ao Entroncamento agora no sábado. Não sei quando é que este programa vai dar.

No domingo.

Ontem estive no Entroncamento, foi incrível, estava esgotado. Obrigado a todos os que lá estiveram. E depois não sei, sabes? Porque eu nunca sei muito bem.

A tua agenda oficial diz que a 16 de maio vais estar no Marquês de Borba Fest, em Estremoz.

Deve ser engraçado. Acho que os HMB também vão tocar nesse dia, acho que é uma festa muito engraçada. Estou curioso com esse concerto, imagino que seja no meio do campo.

É um ótimo cenário.

Parece sim.

Idílico, pensar assim nesse cenário. É bom. Tiago Tengur, muito obrigado por teres vindo aqui à Rádio Observador.

Obrigado eu, boa conversa.

Para saber mais sobre ti é ir às tuas redes sociais, porque quando é concertos e música, tu partilhas tudo.

O resto não dá.

Muito obrigado, um grande abraço.

Obrigado.