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Temos também conosco João Castro, adepto do Sporting, e João Pinto, adepto do Benfica, comentadores residentes da Rádio Observador. Boa tarde a ambos. João Pinto, começo por ti por causa desta comparação com o Eusébio. Boa tarde. Pelé era maior que todos os outros, por muito que Eusébio fosse enorme em Portugal, vinha sempre à memória essas ligações que também tinha a Pelé.

Eram momentos diferentes, futebol diferente. O Pelé nunca jogou na Europa e teve essa falha na carreira de nunca ter jogado. Se fosse hoje em dia, seria certamente um daqueles miúdos que com 16 anos já estava num Real Madrid, num Barcelona ou algo do gênero. A comparação com o Eusébio acabou por ser uma comparação recorrente, mas que os benfiquistas viam sempre de uma maneira especial. Para nós, o Eusébio será sempre o maior jogador de sempre, porque era do Benfica. Agora, o Pelé é o futebol, falar num e falar noutro é a mesma coisa, são sinônimos. E a magia que Pelé trouxe ao futebol chegou ao meu tempo. Eu nunca vi o Pelé jogar, obviamente, mas foi de tal forma grande para o futebol mundial que chegou ao meu tempo. Tudo aquilo que ele trouxe e que deixou ficar no futebol, que passou a ser também uma bitola. À mesa com Pelé senta-se muito pouca gente e ele já jogou há muitos anos.

João Castro, tu tens essa opinião também? À mesa de Pelé sentam-se mesmo muito poucos?

Boa tarde. Claramente, muito poucos mesmo. É uma elite. Dizer que Pelé, e falaram há pouco dos recordes, é o único jogador do mundo que tem três mundiais. Vai ser difícil bater isso. Ganhou como jogador os três mundiais, tem um recorde infindável de gols também. Também venceu muitos títulos pelo Santos, porque só saiu dos Santos pro Cosmos. E deixa-me dizer que eu acho que há três pormenores importantes sobre o Pelé que queria falar. O aspecto no campo marcou, apesar de não ter visto jogar, obviamente já vi vídeos e marcou muito. Os vídeos que eu vi, porque era um jogador ambidestro, rematava de qualquer maneira, com os dois pés. Vejo os vídeos e acho incrível isso. E ele é conhecido por ter criado ou ter colocado como famosa a frase "jogo bonito" e o Brasil utilizou muito isso durante muitos anos, o jogo bonito, saindo da boca de Pelé, a marcar o futebol brasileiro. E depois o Bruno Vieira Amaral comentou uma coisa importantíssima, que era a globalização do futebol passou muito por Pelé. Basta ver que depois dele sair dos Santos, foi pro Cosmos nos Estados Unidos, e é verdade que o futebol ali, naquela altura, teve um aumento de popularidade nos Estados Unidos e no mundo, muito também à custa do Pelé. E eu, o João Pinto se calhar também se recorda, eu recordo muito bem do filme que ele fez, "A Fuga para a Vitória" com o Stallone, em que ele marca um gol para fora da baliza.

Sim. É o filme do Pelé em que o Stallone também entra. Exatamente.

O Stallone era o guarda-redes.

Era o guarda-redes.

Era mais fácil marcar.

Exatamente.

E o Michael Caine também.

E o Oswald Dillard também.

Exatamente, o Oswald Dillard entrou, e o Kazimierz também, o polaco. Esse filme marcou bastante minha infância, porque eu gostava muito de futebol e vi aquele filme.

E por falares nesse aspecto da participação dele num filme, o Pelé, ao contrário de outros gênios que nós adoramos e amamos, porque depois misturam ali uma certa turbulência na vida pessoal, um conjunto de feitos, estou a pensar, por exemplo, no Maradona, no próprio Garrincha, o Pelé sempre foi um grande gestor da sua carreira durante e depois do futebol.

Sim.

Ele foi ministro do Esporte no governo FHC.

Exatamente. Ele foi o verdadeiro profissional antes dos jogadores, como agora, profissionalizarem quase essa parte de gestão desportiva da carreira. Ele estava muito à frente do tempo dele e às vezes foi desvalorizado por isso, porque não tinha esse lado lunar, o lado negro do gênio. Foi desvalorizado por isso, o que não faz muito sentido. Os heróis populares, nós sabemos que são aqueles que têm defeitos, como o Mané Garrincha, que morreu aos 50 anos, alcoólico, ou o Maradona com todos os problemas que teve, mas o Pelé nunca teve esse tipo de problemas e não é por isso que o seu legado futebolístico deve ser diminuído.

Claro. E deixa-me dizer que mesmo a nível comercial, foi dos primeiros jogadores a fazer grandes contratos publicitários com as grandes marcas.

Exatamente, com a Mastercard, por exemplo.

Abriu a porta para muitos jogadores e atletas nesse aspecto mais comercial.