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Sr. Presidente da Assembleia da República, Sr. Primeiro-Ministro, altos funcionários do Estado, D. Ramalho Alves, Eminência Cardinal Patriarca de Lisboa. Assinalamos o fim de uma ditadura numa manhã importante de abril e hoje, 46 anos depois, continuamos confinados. Hoje já não por força de nos retirarem as liberdades, mas por uma pandemia que nos retirou a maior parte da nossa liberdade. Não devíamos estar aqui hoje. E não devíamos estar aqui hoje porque os portugueses não puderam estar ao lado daqueles que perderam, daqueles que celebraram e daqueles que queriam abraçar no dia de hoje. E por isso, hoje é o dia de dizer que por muito importante que seja, não deveríamos estar aqui e arrisco-me a dizer, uma grande maioria dos portugueses não queria que estivéssemos aqui. Se Abril é alguma coisa, tem que ser a unidade de lutarmos como nunca contra um inimigo que desconhecemos e que certamente vamos vencer. Mas de que valem os cravos de Abril, o Grândola Vila Morena cantado à janela ou o E Depois do Adeus a passar na rádio, se continuamos a ser um dos países com mais altos índices de corrupção da OCDE, se continuamos infelizmente a libertar bandidos e a maltratar as nossas forças de segurança e os nossos magistrados, se continuamos a tratar mal a saúde, a educação, os profissionais que estão na linha da frente e que hoje acabamos por aplaudir. De que nos vale ter cravos ao peito, se os tratamos a eles todos mal? Diria mesmo, um dos piores da Europa. De que vale termos Abril, se não temos separação de poderes e se temos uma confusão cada vez maior entre o Estado e o partido e se isso nos compromete a prazo na nossa liberdade? Vêm aí tempos dos mais difíceis de sempre e é tempo de perguntarmos o que é que significa Abril hoje. Como podemos falar de Abril, a pagar subvenções vitalícias a políticos que roubaram o Estado? Como podemos falar de Abril, a pagar àqueles que nos roubaram nos últimos anos, com julgamentos intermináveis que não acabam e que os portugueses de casa perguntam quando chegaremos a bom porto? Populismo, dizem eles, mas é a mesma conversa desde que pusemos o cravo ao peito. É a mesma conversa há 46 anos e os portugueses estão a começar a ficar fartos. De que vale pormos cravos se temos cada vez mais impostos, muitos deles para pagar, talvez hoje não fique bem dizê-lo, a muitas minorias que não o merecem e que nós pagamos. Os coitadinhos de Abril têm que ser hoje também mencionados, sem desrespeito, por serem, na verdade, uma das razões principais de pagarmos tantos impostos. Hoje celebramos o fim de uma ditadura e o início de um regime democrático. Mas, porque não dizê-lo, precisamos de outro. E com o respeito enorme que temos àqueles que lutaram naquela manhã para fazer um regime diferente, também hoje precisamos que uma nova madrugada venha para nos trazer um novo regime, por uma razão simples: é que este já não serve. Francisco Sá Carneiro dizia que naquele dia os militares realizaram um ato heróico de libertação de si mesmos, mas consigo quiseram libertar Portugal inteiro. Porque não assumi-lo hoje? Que talvez os militares daquela manhã tenham conseguido libertar-se a si próprios, mas não conseguiram libertar Portugal inteiro, porque essa ainda vai ser a nossa missão de o concretizar. Pode não ser correto, pode não ser politicamente aceitável, pode nem ser moralmente viável, mas hoje é o momento em que há uma força política nesta Assembleia que diz: "O 25 de Abril não esqueceremos, mas queremos outro, queremos outra democracia e queremos outra República, queremos a Quarta República Portuguesa." Muito obrigado.
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